Tag: graphic novel

  • Asterios Polyp | HQ da Semana

    Asterios Polyp | HQ da Semana

    AsteriosIgnazio era irmão gêmeo idên­ti­co de Aste­r­ios Polyp, mas mor­reu durante o par­to. Sua ausên­cia foi sen­ti­da pelo sobre­vivente durante toda sua vida e é jus­ta­mente esse gêmeo fan­tas­ma que nar­ra essa história fab­u­losa sobre arte, caos e ordem.

    O autor Dave Maz­zuc­chel­li tra­bal­hou nesse livro durante 10 anos. Durante os anos 80 desen­hou alguns clás­si­cos dos quadrin­hos de super-heróis, como Bat­man – Ano Um e Demoli­dor – A Que­da de Mur­dock. Ao lon­go dos anos 90 dedi­cou-se à pro­dução de diver­sas histórias em quadrin­hos alter­na­ti­vas. Aste­r­ios Polyp foi sendo desen­volvi­do lenta­mente, enquan­to Maz­zuc­chel­li leciona­va na School of Visu­al Arts de Nova York. E, de fato, é a obra-pri­ma do autor.

    Aste­r­ios Polyp é uma iro­nia viva. Um bril­hante arquite­to que foi con­sagra­do no meio acadêmi­co graças à ino­vação e ousa­dia de seus pro­je­tos, que, ape­sar de geni­ais, jamais foram construídos.

    Asterios-1

    Maz­zuc­chel­li explo­ra ao máx­i­mo a lin­guagem dos quadrin­hos, brin­can­do com recur­sos grá­fi­cos como cor e esti­los de desen­ho para ampli­ar a gama de sig­nifi­ca­dos que per­me­iam a história. O design da edição é belís­si­mo e todo detal­he tem função narrativa.

    Asterios-2Polyp inter­age com diver­sos per­son­agens inter­es­santes, cada um inter­pre­tan­do uma per­spec­ti­va sobre a vida, a arte, o caos e a ordem. Para cada per­son­agem foi desen­volvi­da uma caligrafia espe­cial para car­ac­teri­zar suas falas.

    Ao mes­mo tem­po em que abor­da diver­sas ideias e abre por­tas para mui­ta dis­cussão e reflexão, o livro não é em nen­hum momen­to pedante ou modor­ren­to. A nar­ra­ti­va flui e os per­son­agens cati­vam o leitor. Além de Aste­r­ios, a adoráv­el Hana, a excên­tri­ca Ursu­la e o vai­doso Willy Ili­um se destacam.

    Tra­ta-se de uma obra espetac­u­lar, ple­na de sig­nifi­ca­dos e leituras, que con­quis­tou a críti­ca ao redor do mun­do e esta­b­ele­ceu um novo pata­mar de qual­i­dade para as chamadas graph­ic nov­els.

    Asterios-3

    Quem quis­er se apro­fun­dar um pouco mais na obra, veja tam­bém este post no meu blog que escrevi sobre ele.

    Aste­r­ios Polyp
    Autor: David Mazzucchelli
    Edi­to­ra: Quadrin­hos na Cia.
    Preço esti­ma­do: R$ 63,00

  • Dossiê Darren Aronofsky: The Fountain — Graphic Novel

    Dossiê Darren Aronofsky: The Fountain — Graphic Novel

    Dossiê Darren Aronofsky: The Fountain - Graphic NovelO dire­tor inglês Peter Green­away já vem divul­gan­do des­de a déca­da de 80 a sua ideia de que o cin­e­ma mor­reu e em seus últi­mos pro­je­tos, como na trilo­gia As male­tas de Tulse Luper, expande a exper­iên­cia do cin­e­ma ini­cial­mente lim­i­ta­do ape­nas às suas salas escuras. Dev­i­do a explo­ração mer­cadológ­i­ca cada vez maior nes­ta indús­tria, é fácil que sub­pro­du­tos de um lon­ga sejam pro­duzi­dos para ten­tar sim­u­lar esta expan­são, mas na ver­dade são somente pequenos extras ou um mak­ing of do que já foi feito, não mudan­do real­mente a exper­iên­cia cin­e­matográ­fi­ca em si. Ou seja, são ape­nas out­ros meios para con­seguir mais din­heiro do consumidor.

    É aí que está a grande difer­ença da graph­ic nov­el The Foun­tain, escri­ta por Dar­ren Aronof­sky e ilustra­da por Kent Williams, que foi lança­da pelo selo Ver­ti­go da DC Comics em 2005 e ain­da é inédi­ta no Brasil. Ape­sar de ter sido prati­ca­mente desen­volvi­da em para­le­lo ao filme A Fonte da Vida, lança­do em 2006 e dirigi­do pelo próprio Aronof­sky, ela foi cri­a­da de maneira com­ple­ta­mente inde­pen­dente. A base dos dois é a sua história, mas as semel­hanças prati­ca­mente acabam por aí. Temos em cada um dess­es pro­je­tos uma ver­são difer­ente do enre­do ini­cial, que uti­lizam ao máx­i­mo todas as pos­si­bil­i­dades da mídia na qual foi adap­ta­da, respei­tan­do a sua própria lin­guagem e esti­lo. Algo sim­i­lar acon­tece quan­do uma adap­tação de um livro para as telas não ten­ta repro­duzir a exper­iên­cia da leitu­ra, mas sim cri­ar algo novo uti­lizan­do a lin­guagem do cinema.

    Tomás em busca da Árvore da Vida
    Tomás em bus­ca da Árvore da Vida

    Se você ain­da não con­hece a história prin­ci­pal, ela nar­ra em três difer­entes tem­pos a jor­na­da de um mes­mo per­son­agem (Tomás, Tom­my e Tom) em bus­ca da imor­tal­i­dade para poder ficar jun­to a sua ama­da. As três nar­ra­ti­vas vão se alter­nan­do e uma é inter­de­pen­dente da out­ra, ou seja, é necessário que o per­son­agem resol­va a mes­ma questão ness­es espaços difer­entes de tem­po para que ele pos­sa final­mente con­cluir a sua própria história.

    Darren Aronofsky
    Dar­ren Aronofsky

    Este provavel­mente ain­da é o pro­je­to mais ambi­cioso de Aronof­sky — posição que talvez vai ser toma­da pelo seu novo lon­ga Noé, pre­vis­to para 2014 — e tam­bém foi o que mais divid­iu o públi­co, como ele mes­mo comen­tou em uma entre­vista. Isso não só pelo esti­lo nar­ra­ti­vo e pela com­plex­i­dade dos cenários e situ­ações, algo pare­ci­do com que o recente A Viagem dirigi­do por Tom Tyk­w­er e pelos irmãos Wachows­ki fez, mas tam­bém pelo seu tema prin­ci­pal: aceitar a morte, ou o fim, assim como as nos­sas próprias lim­i­tações como seres humanos.

    Tom em direção a Xibalba
    Tom em direção a Xibalba

    Por con­ta do seu alto cus­to, o pro­je­to foi ofi­cial­mente encer­ra­do em 2002, mas o dire­tor resolveu ree­scr­ev­er todo o roteiro para que ele deix­as­se de ser uma super pro­dução e seguisse a mes­ma lin­ha de filmes indie de baixo orça­men­to, que o mes­mo havia feito até aque­le momento.

    Kent Williams
    Kent Williams

    Logo no iní­cio das nego­ci­ações do filme, Aronof­sky sabia que este seria um pro­je­to muito difí­cil, então ele e o pro­du­tor lutaram de antemão para que os dire­itos da graph­ic nov­el fos­sem garan­ti­dos de qual­quer for­ma. Quan­do entrou em con­ta­to com a Ver­ti­go, lhe indicaram o artista Kent Williams e, ape­sar de não o con­hecer, cada vez que ia receben­do mais exem­p­los de seus tra­bal­hos, fica­va ain­da mais empol­ga­do com essa parce­ria. Depois de ini­ci­a­do as pro­duções, eles brin­cavam bas­tante a respeito de qual dos dois iri­am ter­mi­nar primeiro, o lon­ga ou a HQ. Quase hou­ve um empate, mas a graph­ic nov­el ficou pronta um ano antes do filme.

    Capas da séria lançada pela Editora Abril
    Capas da série lança­da pela Edi­to­ra Abril

    Williams é um ilustrador amer­i­cano que já tra­bal­hou para várias edi­toras de quadrin­hos, sendo respon­sáv­el pelas artes do Wolver­ine na acla­ma­da série Wolver­ine & Destru­tor: Fusão, lança­do aqui no Brasil em qua­tro edições pela Edi­to­ra Abril no ano de 1989. Hoje em dia ele deixou um pouco as HQs de lado para se focar mais em suas pin­turas, ape­sar de ter admi­ti­do em uma entre­vista que está tra­bal­han­do em um quadrin­ho autoral, mas que não tem pra­zo para ter­mi­nar. Se você tiv­er inter­esse, pode acom­pan­har seus tra­bal­hos mais recentes neste blog ou em seu site ofi­cial.

    Em The Foun­tain foi pos­sív­el realizar grafi­ca­mente todos os detal­h­es do enre­do, que em out­ra mídia como o cin­e­ma, provavel­mente seria finan­ceira­mente impos­sív­el. Este é na real é um dos grandes trun­fos de uma história em quadrin­ho, em um desen­ho pode-se cri­ar tudo que se imag­i­na e até coisas que são impos­síveis de exi­s­tir. M.C. Esch­er era, por exem­p­lo, um espe­cial­ista nes­ta área, sem ficar se pre­ocu­pan­do muito com orça­men­tos. Isso vale tam­bém no que­si­to de sair do pudor hol­ly­wood­i­ano, nos desen­hos não é pre­ciso lidar com a lim­i­tação dos estú­dios e dos próprios atores. Por exem­p­lo, os per­son­agens da HQ estão com­ple­ta­mente nus den­tro da bol­ha, enquan­to no filme estão vesti­dos dos pés á cabeça.

    Tommy em busca da cura do câncer
    Tom­my em bus­ca da cura do câncer

    No começo, os desen­hos de Williams podem ger­ar um cer­to estran­hamen­to, pois ele varia bas­tante o esti­lo ao lon­go da história. Os traços vão des­de somente alguns con­tornos, pare­cen­do um pouco com ras­cun­hos, à pági­nas com­ple­ta­mente col­ori­das até nos mín­i­mos detal­h­es. Além dessa grande vari­ação de detal­hamen­to e cor, que cria uma per­son­al­i­dade muito inter­es­sante nos desen­hos, se nota uma clara sep­a­ração entre os três difer­entes tem­pos que a história se pas­sa, tan­to pela divisão grá­fi­ca dos quadros e suas cores deter­mi­nantes, quan­to pela cor uti­liza­da no fun­do para preencher o espaço vazio.

    O uso de somente duas fontes nos tex­tos, uma para os diál­o­gos e out­ra para nar­ração, aca­ba que­bran­do um pouco toda essa diver­si­dade dos desen­hos, mas con­segue assim man­ter uma exper­iên­cia de leitu­ra bem agradáv­el. É inter­es­sante tam­bém notar que algu­mas leg­en­das no iní­cio são descrições de sons ou esta­dos dos per­son­agens naque­le quadro, como se fos­se um roteiro para o filme, mas que durante o desen­volver da história assume uma lin­guagem mais car­ac­terís­ti­ca dos quadrinhos.

    Tom começando a aceitar o seu destino
    Tom começan­do a aceitar o seu destino

    Pode-se até pen­sar que The Foun­tain pode­ria ser algo como uma “ver­são do dire­tor” do lon­ga, mas isto seria equiv­o­ca­do. Tam­bém está longe de ser um sto­ry­board do mes­mo. Como men­cionei ante­ri­or­mente, ela é uma exper­iên­cia com­ple­ta­mente difer­ente do filme, sendo uma nova inter­pre­tação ao invés de ape­nas mais uma repetição do que você já viu nas telas. Alguns talvez até podem afir­mar que esta HQ é algo mais para um fã do lon­ga ou do dire­tor. Não pos­so dis­cor­dar des­ta afir­mação, mas acred­i­to que a mes­ma sobre­vive tran­quil­a­mente como uma obra inde­pen­dente e úni­ca no mun­do das graph­ic nov­els.

    Como a HQ ain­da é inédi­ta aqui no Brasil, é pos­sív­el com­prá-la em inglês no site de livrarias como a Sarai­va e a Cul­tura. Se você já com­prou ou pre­tende com­prar, uma exper­iên­cia que pode ser bem inter­es­sante é a leitu­ra dela jun­to com a tril­ha sono­ra do filme cri­a­da por Clint Mansell, que é sim­ples­mente sensacional.

  • Adeus Tristeza — A História dos meus ancestrais, de Belle Yang

    Adeus Tristeza — A História dos meus ancestrais, de Belle Yang

    Saber a história de seus ances­trais não é ape­nas uma jor­na­da históri­ca, mas tam­bém uma jor­na­da pes­soal de auto-con­hec­i­men­to e, cer­tas vezes, de cura tam­bém. Belle Yang nasceu em Tai­wan, pas­sou parte da infân­cia no Japão e depois foi para os Esta­dos Unidos com seus pais e lá cur­sou biolo­gia. Mas para fugir de um vio­len­to ex-namora­do, chama­do por eles de “ovo podre”, voltou a Chi­na (1986), estu­dou artes plás­ti­cas e se deparou tam­bém com a luta dos chi­ne­ses pela democraria e fim da cor­rupção (1989). Sen­tiu então pela primeira vez em sua vida o que é estar pri­va­da da sua liber­dade de expressão e ao voltar no final de 1989 para Cal­ifór­nia, decide que pre­cisa faz­er algu­ma coisa com essa liber­dade, mas ain­da não sabia ao cer­to o que.

    Você tem sua mente e duas mãos. Uma para escr­ev­er e out­ra para pin­tar. Se sua alma alcançar a paz, você pode atin­gir suas metas.

    De vol­ta na casa dos pais, fica con­fi­na­da naque­las qua­tro pare­des com medo de que “ovo podre” apareça nova­mente, enquan­to seus ami­gos, já for­ma­dos, estão des­fru­tan­do de uma car­reira promis­so­ra no mer­ca­do de tra­bal­ho. Seu ex-namora­do ain­da con­tin­u­a­va a perseguin­do, chegan­do inclu­sive dis­parar tiros­no escritório do advo­ga­do de Yang, afa­s­tan­do assim tam­bém muitas pes­soas que a família con­hecia. Pas­sa­va então o tem­po prat­i­can­do caligrafia e em uma noite escu­ra e tem­pes­tu­osa, quan­do fal­tou luz, seu pai nar­ra um pouco a história de sua família na Manchúria e, não con­seguin­do depois dormir, resolve começar a escr­ev­er o que ouviu. Assim nasceu a obra “Adeus Tris­teza — A História dos meus ances­trais” (For­get Sor­row), de Belle Yang, com tradução de Éri­co Assis, lança­do pela Quadrin­hos na Cia.

    Todo o proces­so da cri­ação da própria HQ é con­ta­da para­le­la­mente a história de sua família — por parte de do pai — jun­to com os pen­sa­men­tos da auto­ra e de seus pais sobre as várias situ­ações, que enriquece bas­tante a nar­ra­ti­va e a deixa em cer­tos momen­tos bem diver­ti­da. É pos­sív­el diz­er que esta obra é um ver­dadeiro mer­gul­ho em frag­men­tos da história da anti­ga Chi­na, abrangen­do um perío­do de cer­ca de cem anos. Mas não é esse aspec­to, de cer­ta for­ma até doc­u­men­tal, que chama mais atenção na obra. São as relações entre os famil­iares, cada pes­soa com sua par­tic­u­lar­i­dade, que a tor­na tão interessante.

    Para o Pai, a vida era como cuidar de um jardim… Toda vez que as flo­res estavam prestes a abrir… a urtiga toma­va con­ta. O bud­is­mo ensi­na os home­ns a amar as ervas dan­in­has, mas o Pai não conseguia.

    O esti­lo de nar­ra­ti­va auto­bi­ográ­fi­ca de Yang, lem­bra bas­tante a de Mar­jane Satrapi (Per­sépo­lis), prin­ci­pal­mente pelo seu sen­so de humor, se difer­en­cian­do nesse sen­ti­do de out­ros autores como Art Spiegel­man (Maus) e Joe Sac­co. Já seus desen­hos são de uma sim­pli­ci­dade muito poéti­ca, com forte influên­cia da caligrafia e do desen­ho ori­en­tal, mas que muitas vezes lem­bra a téc­ni­ca de xilogravura.

    Você viu o touro que eles espõem no tem­p­lo aos feri­ados? Aque­le touro rece­bera do mel­hor pas­to, mas suas entra­nhas foram reti­radas, então o vestem com um bro­ca­do e o sac­ri­fi­cam aos deuses. Se eu aceitasse a ofer­ta do rei, acabaria como o touro. Se quisesse voltar a meu modo de vida mais sim­ples, não conseguiria.

    Ape­sar de ini­cial­mente pare­cer que, por se tratar de uma out­ra cul­tura e out­ra época, ape­nas pou­cas situ­ações irão soar famil­iares, você provavel­mente irá se espan­tar com a quan­ti­dade de situ­ações e tipos de pes­soas que se assim­il­am com as do seu cotid­i­ano. Cer­tas vezes parece até nov­ela mex­i­cana, taman­ha as intri­gas e jogos vivi­dos por essas pes­soas. Isso, soma­do a um boca­do de filosofia e reflexões taoís­tas e bud­is­tas e cul­tura pop­u­lar chi­ne­sa. inter­es­sante, não?

    Sobrin­ho, num livro de cem pági­nas, você terá sorte se encon­trar dez que tragam algu­ma ver­dade. Pense nis­so: dez, se o livro for exce­lente. Geral­mente você só vai tirar algu­mas pou­cas fras­es úteis. O resto são ape­nas palavras des­perdiçadas. Se você vai ler um livro, lem­bre-se ape­nas das partes úteis. Não se dê ao tra­bal­ho de guardar as tolices. Quan­do acabar de ler, queime tudo. A ver­dade é que mes­mo as partes que fazem sen­ti­do não são de todo úteis. Não leve os livros tão a sério. se não se lem­brar de nada, tam­bém não há prob­le­ma. É tudo um monte de bobagem.

    Essa jor­na­da pela história de seus ances­trais, lem­bra bas­tante o livro “Quan­do Tere­sa brigou com Deus”, de Ale­jan­dro Jodor­owsky, que tam­bém é reple­to de reflexões a respeito das pes­soas e da vida, assim como per­son­agens bem curiosos, com “Yuan, o Idio­ta”, um ped­inte taoís­ta que era o ami­go do Bisavô de Yang, que deixa todos intri­ga­dos pelos seus cos­tumes e modo de viver.

    Quem tem inter­esse em ver um pouco dos “basti­dores” da pro­dução des­ta obra, segue abaixo um vídeo da pro­dução de umas das páginas.

  • Frango com Ameixas (Poulet aux Prunes) (2011), de Vincent Paronnaud & Marjane Satrapi

    Depois do suces­so da graph­ic nov­el Per­sépo­lis (2007), adap­ta­da para o cin­e­ma em uma fab­u­losa ani­mação, a quadrin­ista ira­ni­ana Mar­jane Satrapi, nova­mente em parce­ria com Vin­cent Paron­naud, deixa um pouco de lado a sua auto­bi­ografia, para res­gatar uma anti­ga história de família, ago­ra em Fran­go com Ameixas (Poulet aux Prunes,2011,França, Ale­man­ha, Bél­gi­ca).

    Fran­go com Ameixas, que tam­bém se tra­ta de uma adap­tação dos quadrin­hos para o cin­e­ma, con­ta a vida de Nass­er Ali (Math­ieu Amal­ric de O Escafan­dro e a Bor­bo­le­ta), um tal­en­toso músi­co, tocador do tar (uma espé­cie de vio­li­no, típi­co do Irã). Seu instru­men­to, além de ser a úni­ca coisa que ain­da lhe traz praz­er, traduz em cada nota o amor que man­tém por Irâne, uma anti­ga paixão da qual teve que abrir mão.

    Desilu­di­do, para sat­is­faz­er os dese­jos de sua mãe, Ali se casa com Nahid, com quem tem dois fil­hos. Um dia, cansa­da do iso­la­men­to e fal­ta de obri­gações do mari­do para com ela e as cri­anças, em um exces­so de rai­va que­bra o ado­ra­do instru­men­to de Ali. O músi­co decide então deitar em sua cama e esper­ar pela morte. A par­tir daí a espera de Ali é nar­ra­da em oito capí­tu­los, nos quais con­ta des­de o rela­ciona­men­to com seus fil­hos Farzaneh e Mozaf­far, até o dia em que se encon­tra com Azrael, o anjo da morte islâmico.

    Difer­ente das primeiras obras de Mar­jane Satrapi, como Per­sépo­lis e Bor­da­dos, Fran­go com Ameixas traz uma história pecu­liar de um homem, cuja melan­co­l­ia e desilusão com a vida que gostaria de ter tido e não teve, o faz optar por desi­s­tir. Mas ao mes­mo tem­po Satrapi não perde o humor para tratar de temas del­i­ca­dos como a vida e a morte. Fran­go com Ameixas em vários momen­tos apre­sen­ta cenas cômi­cas, como quan­do Ali em um de seus devaneios imag­i­na o futuro de seu fil­ho Mozaf­far: após sair do Irã e ir morar nos EUA, com­prar uma casa e um car­ro, vive um típi­co ‘son­ho amer­i­cano’ com sua mul­her e seus fil­hos obesos.

    Ape­sar de não ser mais uma auto­bi­ografia, Nass­er Ali foi um tio-avô queri­do de Satrapi, por isso Fran­go com Ameixas traz ain­da, alguns temas já abor­da­dos em suas anti­gas obras, como a arte, a mitolo­gia, a decadên­cia famil­iar e a feli­ci­dade. Para quem gos­ta da auto­ra, Fran­go com Ameixas é mais um belo tra­bal­ho que merece ser saboreado.

    Trail­er
    :

    httpv://www.youtube.com/watch?v=RwRyHTjzh2c

  • Porta na Cara: Férias do Barulho, três recomendações de leitura

    Porta na Cara: Férias do Barulho, três recomendações de leitura

    Olá. Você pode me chama de Bruno, mas o que eu mais quero é que você me chame de ami­go. Esta­mos cer­tos? Eu acred­i­to que sim. Então pegue na min­ha mão e vamos embar­car nes­sa empre­ita­da juntos.

    Pen­san­do em você, caro leitor (a) jovem e baladeiro (a), eu vou aqui relatar três livros com selo de qual­i­dade “Que Trem Bão, Sô” para tem­po­ra­da de férias que está por vir. Mas olha só, livros são legais, mas tudo tem lim­ite. Eles não vão deixar você mais inteligente ou algo do tipo. Como diria o sábio Arnal­do Bran­co: se quis­er posar de inteligente, use um cachim­bo. Enfim, segue o baile.


    Ruí­do Bran­co, Don DeLil­lo – Um per­son­agem que usa túni­ca e ócu­los escuro para lecionar pre­cisa — mais do que nun­ca — ser ama­do. E como não amar Jack Glad­ney, um pro­fes­sor uni­ver­sitário pio­neiro no estu­do de Hitlerolo­gia (!), mas que não sabe falar uma palavra em alemão? Ruí­do Bran­co é foca­do na vida desse pro­fes­sor excên­tri­co, sua família nada con­ven­cional e a sua fasci­nação por um assun­to pouco queri­do: A morte. Além de tudo, há um aci­dente nuclear em sua cidade e um sujeito extrema­mente engraça­do chama­do Mur­ray. Mais não pos­so con­tar, mas pos­so diz­er que DeLil­lo influ­en­ciou uma ger­ação de escritores como David Fos­ter Wal­lace, Bret Eas­t­on Ellis, Chuck Palah­niuk, entre out­ros. O romance inspirou uma músi­ca do Mog­wai chama­da White Noise (duh), que está no álbum Hard­core Will Nev­er Die (but you will) (2011).


    Eu Falar Boni­to um Dia, David Sedaris – As rem­i­nis­cên­cias de David Sedaris são uma das coisas mais engraçadas que já li em anos. Mas não espere um cli­ma Clarah Aver­buck de falar do próprio umbi­go, nada dis­so. Sedaris tra­bal­ha com engen­ho rela­tan­do sua tem­po­ra­da em sube­m­pre­gos, sua fase “artís­ti­ca”, sua família para lá de estran­ha e como seu namora­do, Hugh, o aguen­ta mes­mo David sendo desagradáv­el a todo instante. Seus con­tos tam­bém podem ser vis­tos como pequenos ensaios sobre gente comum, ralan­do para ter uma vida digna, extrema­mente bem escrito. David Sedaris é colab­o­rador fre­quente de revis­tas como New York­er, Esquire e tan­tas out­ras. Bril­ha muito esse rapaz. 


    The Alco­holic, Jonathan Ames TREVAS. Assim mes­mo, com caps lock e tudo, é a palavra per­fei­ta para descr­ev­er essa HQ de Jonathan Ames, roteirista do seri­ado Bored to Death, da HBO. Jonathan (o per­son­agem, não o autor) quan­do jovem, era um óti­mo aluno até con­hecer o álcool. Sua vida cai num abis­mo gigan­tesco, mas ele con­segue se safar do prob­le­ma e vira um escritor de romances poli­ci­ais de suces­so – claro que o álcool vol­ta para tornar a vida de nos­so herói um infer­no dos dia­bos nova­mente. Além dis­so, a tra­ma con­ta com sua relação com seu cha­pa, Sal, que não é das mel­hores. Nota 10 de dez estre­las pos­síveis. Con­fi­ra para enten­der porque virei um fã con­strage­dor desse autor. 

    Espero que as recomen­dações agra­dem pelo menos um ou out­ro jovem inter­es­sa­do nes­sas coisas. Estou aqui para con­tribuir com seu bem estar. É o mín­i­mo que pos­so faz­er por vocês, lin­dezas. Até a próx­i­ma e evitem serem fla­gra­dos fazen­do besteira. Sabe­mos que assim é fei­ta a juven­tude, mas vamos com calma.

    Boas férias a todos.

  • Gibicon 2011, em Curitiba

    Gibicon 2011, em Curitiba

    De 15 a 17 de jul­ho de 2011, Curiti­ba será o des­ti­no dos fãs de quadrin­hos, HQs, Graph­ic Nov­els, Gibis ou como preferir chamar. Ness­es dias acon­te­cerá a Gibi­con — Con­venção Inter­na­cional de Quadrin­hos de Curiti­ba, com real­iza­ção da Prefeitu­ra de Curiti­ba, Quadrin­hofil­ia e ZnorT! ilustradores.

    A cap­i­tal paranaense além de con­tar com um óti­mo número de bons quadrin­istas e ilustradores de renome, tam­bém sem­pre esteve no cir­cuito de lança­men­tos de esti­lo. Con­tan­do com a primeira gib­ite­ca do Brasil, a cidade resolveu realizar o even­to com três dias rec­hea­d­os de atrações nacionais e inter­na­cionais, além de ofic­i­nas e muitas ativi­dades voltadas aos fãs de quadrin­hos. Segun­do os real­izadores, o even­to é inti­t­u­la­do de número zero por ser jus­ta­mente um aque­c­i­men­to ao próx­i­mo que será em comem­o­ração aos 30 anos da Gib­ite­ca.

    Mas como diz o tex­to de intro­dução do site, não se enganem achan­do que a Gibi­con desse ano será menor, con­tan­do com nomes como Lourenço Mutarel­li, os gêmeos Fábio e Gabriel Bá, o curitibano Sol­da e mais uma trupe de peso, o even­to prom­ete ser extrema­mente inter­es­sante e inten­so durante os três dias.

    A Gibi­con acon­tece em vários lugares da cidade e vai ser gra­tu­ito, para se inscr­ev­er somente é necessário a doação de um gibi ou livro sobre o assun­to. Con­fi­ra maiores infor­mações no site do even­to e acom­pan­he a cober­turas de algu­mas ativi­dades aqui, no inter­ro­gAção!

  • Dica de leitura: Macanudo

    Dica de leitura: Macanudo

    Macanudo, em espan­hol: extra­ordinário, exce­lente, estu­pen­do, magnífico.

    E é essa palavra que é usa­da para o títu­lo da coleção de tir­in­has do car­tunista argenti­no Lin­iers, ou mel­hor, Ricar­do Siri Lin­iers, nasci­do em Buenos Aires, que quan­do cur­sou pub­li­ci­dade perce­beu que o que mais gosta(va) de faz­er é desenhar.

    Dono de um traço encan­ta­dor, é difí­cil diz­er qual per­son­agem é o mais inter­es­sante, porque todos trazem um pouco da questão do exis­ten­cial­is­mo e quase sem­pre faz refer­ên­cia a out­ros artis­tas. Nada mel­hor que palavras de uma car­tunista para explicar mel­hor quem é Lin­iers:

    foto por Juliana via Flickr

    Qual­quer um pode desen­har um gato, qual­quer um pode desen­har uma garo­ta ou um homem com chapéu, mas não é qual­quer um que pode faz­er com que esse gato, essa garo­ta ou esse homem com chapéu sejam difer­entes de todos os que tivésse­mos vis­to ante­ri­or­mente e passem a faz­er parte do mun­do como se os conhecêssemos.
    Lin­iers desen­ha per­son­agens, e seus per­son­agens são extra­ordinários. E os desen­ha tão bem que são todos lin­dos, até os feios são tão per­feita­mente feios que são belos. Solitários, com uma inocên­cia pop à vezes meio per­ver­sa, movem-se com elegân­cia entre a tris­teza e o assom­bro, como atores anôn­i­mos de pequenos filmes B caseiros.
    Lápis, nan­quim e aquarela se unem habil­mente com a poe­sia e o absur­do em um mun­do cheio de sur­pre­sas. Qual­quer coisa pode acon­te­cer em Macanudo. Suas histórias caem no humor inocente com a pureza de quem des­fru­ta das coisas mais bobas da vida.
    Lin­iers desen­ha um mun­do duro com abso­lu­ta del­i­cadeza. Uma ale­gria melancóli­ca que con­trasta com a feli­ci­dade boba. Seu tra­bal­ho é belo e diver­tido. E ele é um rapaz macanudo.”
    (Mait­e­na in: Macanudo n. 1 / por Lin­iers. Camp­inas, SP: Zara­batana Books, 2008.)

    Quem quis­er con­hecer um pouco mais desse car­tunista, pode vis­i­tar seu site ou espi­ar a Ilustra­da do jor­nal Fol­ha de S. Paulo, de segun­da a sexta.

    Aqui no Brasil suas tir­in­has são pub­li­cadas pela Zara­batana, e infe­liz­mente só tem pub­li­ca­do até o vol­ume 3. Infe­liz­mente, porque na Argenti­na as tir­in­has estão no 8º volume.