“Tudo ao meu redor são rostos familiares, lugares desgastados, faces desgastadas. (…) Os sonhos nos quais eu estou morrendo são os melhores que já tive”
(Mad World, composição do Tears for Fears na voz de Gary Jules).
Certos lugares são devastados por catástrofes naturais ou por extermínio bélico. Mas existe um tipo de desolação que chega sem alarde e se instala. Algumas vezes, ela nasce junto com o lugar. Há os que correm desesperadamente para fugir. E há os que ficam. O filme Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador (original What’s Eating Gilbert Grape?), do diretor sueco Lasse Hallström, conta a história de um jovem que permaneceu no mesmo lugar, enterrado pela rotina de uma cidade onde o relógio parou.
Gilbert (Johnny Depp) vive em Endora, pequena cidade engolida pelo tempo. Depois do suicídio do pai, ele assume a responsabilidade pelo sustento da família. E não apenas isso: Gilbert vive integralmente para cuidar de seu irmão Arnie (Leonardo DiCaprio), um adolescente com problemas mentais, e de sua mãe (Darlene Cates), que sofre de obesidade mórbida. Há ainda duas irmãs, Amy (Laura Harrington) e Ellen (Mary Kate Schellhardt), criaturas atrapalhadas que tentam auxiliar Gilbert, mas acabam cobrando mais do que ajudando.

Trabalhando como faz-tudo em uma mercearia, Gilbert leva Arnie a todos os lugares. O grande evento do ano para os dois irmãos é a passagem de trailers pela estrada que cruza a cidade. Em uma dessas passagens, um dos veículos quebra e precisa permanecer na minúscula Endora por algum tempo. Esse simples fato fortuito é o ponto de transformação na cabeça de Gilbert, já que ele conhece Becky, garota viajada e cosmopolita, que acompanha a avó em excursões pelo país. Vivida pela atriz Juliette Lewis, Becky é o contraponto de Gilbert: enquanto o jovem tem olhos tristes, pesados pelas obrigações que nunca cessam e precisa conviver com sonhos acorrentados, a jovem é viva, intensa e efusiva. No lugar dos arroubos escandalosos, Becky oferece outro tipo de carpe diem: ela apresenta para Gilbert a imensidão de um mundo que está ali, expresso no pôr do sol ou na possibilidade de observar a poesia no invisível. Esse é um dos pontos interessantes do filme.

O enredo sem pirotecnia começa a ganhar o coração do espectador com a atuação sensacional de Leonardo DiCaprio. Os gritos e brincadeiras de Arnie arrancam emoções do peito e despertam o olhar para a existência interior de pessoas que fogem dos padrões considerados normais. As limitações mentais de Arnie não o impedem de sorrir, ser feliz e procurar o carinho incondicional do irmão. Pelo contrário: o espectador observa um adolescente que consegue viver em Endora sem que a monotonia da cidade o empurre para dentro do poço. Nesse caso, a ignorância do mundo funciona como uma benção. Indicado ao Oscar em 1994 na categoria de melhor ator coadjuvante, DiCaprio merece cada menção honrosa pela atuação. Ele alcança os gestos, olhares e padrões de comportamento de uma pessoa com deficiência mental. Na época com dezenove anos, o ator deixou muito veterano de queixo caído.

Na pele de Gilbert, Depp mostrou ser o homem ideal para viver o papel: os olhos melancólicos e pesados de responsabilidade; o jeito afável e dedicado com o qual tratava seu irmão e o desejo incessante de sair daquele lugar. Todas essas emoções ganharam contornos reais no rosto de Johnny Depp, que ainda não tinha sido possuído pelos trejeitos do famigerado capitão Jack Sparow, personagem que interpretaria uma década depois na série interminável Piratas do Caribe. Mais bonito do que nunca, Depp traz na expressão o desespero silencioso de Gilbert; sua inocência misturada ao comodismo e o medo de abandonar a sua benção e calvário: a própria família. Em Endora, a família Grape é a personificação da imobilidade da cidade: a mãe obesa que não sai de casa há sete anos; a própria residência da família, completamente imutável desde que foi construída pelo pai; a rejeição de Gilbert em conhecer o supermercado novo que abriu na cidade, ameaçando a sobrevivência do mercadinho em que trabalha, e a rotina de vida que leva: de casa para o trabalho e vice-versa. Sua única distração é o assédio constante da mulher do corretor Carver, a dona de casa Betty. Em uma das silenciosas crises existenciais de Gilbert, Betty revela qual é o motivo de querer manter um caso com ele, aumentando consideravelmente o caos interno do jovem Grape.

O longa metragem surpreende pela emoção sincera, dicotomias e dilemas que podem estar perto de nós. Muitas vezes, seguimos mecanicamente os dias porque estamos presos na confortável bolha da vida ou em obrigações pétreas que transformam nossas existências em buracos vazios sem direito à esperança. A felicidade de Arnie, seu modo alegre de viver, a “benção da ignorância” e a capacidade de recomeçar os dias sem remorso são um ponto alto na mudança de perspectiva. O baixo orçamento de Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador provou que existem emoções ocultas na epiderme humana que aguardam a oportunidade de vir à tona, e independem de altos investimentos. O cinema abre espaço para essa pulsação se manifestar.


Uma das melhores sensações que eu tenho experimentado na partilha física e mental que acontece nas salas de cinema – basta observar como todos os espectadores parecem estar ligados minimamente pelos acontecimentos que transcorrem na tela – é perceber o exato momento em que um filme hipnotiza toda a plateia, alterando comportamentos e prendendo respirações. Esse é o pêndulo mesmerizador de Ida (2013), filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski. O longa conquistou inúmeros prêmios, incluindo European Film Awards e Associação Americana dos Diretores de Fotografia, além de duas indicações ao Oscar 2015 nas categorias “Melhor filme em língua estrangeira” e “Melhor Fotografia”, vencendo na primeira.



Fazer um filme que seja cinematograficamente inovador não é algo trivial, muito menos quando se deseja que ele chame a atenção do grande público das salas de cinema. Esse feito fica ainda mais difícil quando não é utilizado grandes efeitos especiais ou narrativas complexas, que podem muitas vezes afastar mais o público do que o instigar. “Boyhood: Da Infância à Juventude” (Boyhood, 


Ser imortal, ou pelo menos algo próximo a isso, é um desejo que inspira muitas histórias e pesquisas, passando desde abordagens mais místicas às mais tecnológicas. Essa condição, além de oferecer várias possibilidades, também levanta várias questões que são muitas vezes difíceis de se imaginar dada a brevidade de nosso tempo de vida. Como será que uma criatura perpétua se sentiria em relação ao caminhar da história da humanidade? E uma relação amorosa que durasse séculos? Estes são os dois fios condutores da trama de “Amantes Eternos” (“Only Lovers Left Alive”, Inglaterra/Alemanha/Grécia, 2013), dirigido e escrito por Jim Jarmusch.



Considerada como um dos setes pecados capitais, a ganância é um sentimento cuja origem está profundamente enraizada na nossa história como seres humanos. Sendo muito cultuada em certos círculos de negócios, a cobiça é muitas vezes vista como essencial para quem aspira ser bem sucedido. “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, 











Adentrar as diferentes esferas do inconsciente, aceitando o risco de suas voltas – muitas vezes sem retorno -, fazem de Augustine um filme maior do que a disputa entre doença/cura e médico/paciente; a sutileza está nas transformações que nascem no rio profundo e inabitado, exatamente onde mora o desejo.
Depois do fiasco de Dragon Ball: Evolution (2009), uma adaptação pavorosa da franquia Dragon Ball, a apreensão em torno do que poderiam fazer com o anime/mangá Rurouni Kenshin era intensa e real. Um dos maiores sucessos japoneses do gênero, a série de mangá “Rurouni Kenshin: Crônicas de um Espadachim da Era Meiji” foi criada pelo artista Nobuhiro Watsuki em 1994, e uma versão em anime foi lançada dois anos depois, alcançando um sucesso estrondoso. No Brasil, a saga do espadachim andarilho ficou conhecida como Samurai X, uma alusão à cicatriz que Kenshin carrega no rosto, e que ainda hoje faz a cabeça de muita gente. Por isso, seria uma desagradável surpresa ter essa série despejada na lama, exatamente como aconteceu com Dragon Ball.






Com um visual deslumbrante e um elenco com vários nomes de peso, O Grande Gatsby (






Um trailer de encher os olhos e um grande investimento em marketing. Foi assim que a Disney criou uma enorme expectativa com Oz, Mágico e Poderoso (Oz the Great and Powerful, 




O fragmento citado faz parte do conhecido poema “The Road Not Taken” (‘A estrada não tomada’ ou, na tradução do poeta português Antônio Simões, ‘O caminho que não tomei’), do poeta norte-americano Robert Frost. O sentimento de insegurança cede lugar à escolha pela “estrada mais difícil”, íngreme e inacessível. Essa é a sensação deixada pelo enredo de A Viagem, título abobalhado para o original Cloud Atlas, novo filme dos irmãos Andy e Lana Wachowski em parceria com o diretor alemão Tom Tykwer. O longa tem dado muito trabalho à crítica, empurrando argumentos e pressupostos contra a parede. Um simples “não gostei” ou “sim, é realmente muito bom” não cabe para descrever essa adaptação fantástica do romance homônimo de David Mitchell.



O documentário 
























Um homem pode ser absolvido pelos seus vícios por conta de um grande ato de heroísmo, que salvou muitas vidas em uma situação onde provavelmente todos iriam morrer? Este é o grande questionamento em torno de O Voo (








É com esta frase que o diretor Ruben Fleischer 








Abraham Lincoln é com certeza uma das figuras públicas mais conhecida e amada nos Estados Unidos, e ninguém melhor do que o diretor Steven Spielberg, para enaltecer ainda mais essa figura em Lincoln (
Acompanhamos também vários momentos íntimos de Lincoln em situações que geralmente não imaginamos um presidente fazendo, como ele engraxando suas próprias botas ou de joelho no chão colocando lenha na sua lareira. O foco do filme é mostrar como era o dia a dia desta pessoa que teve um papel tão importante em modelar o país como ele é hoje, revelando mais o homem e menos o mito. A facilidade, em relação a hoje em dia, de pessoas comuns falarem com o presidente a respeito de problemas que estavam tendo, também causa certo estranhamento. Assim como toda a mentalidade racista e cheia de preconceitos de uma época em que falar sobre mulheres terem o direito ao voto causava uma grande confusão. Este é um momento anterior ao ambientado no filme “
O grande destaque do longa são as ótimas atuações, principalmente o Daniel Day-Lewis como Lincoln, cujo último trabalho foi o fraquíssimo “
Lincoln pode não fazer muito sentido em território nacional como um “cinema pipoca”, não só pelo pouco — ou inexistente — apelo emocional desta figura pública por aqui, mas principalmente pela sua longa duração, praticamente duas horas e meia de filme. Sendo o mesmo assistido mais como uma experiência pela curiosidade histórica, o longa acaba sendo muito interessante, mas realmente é preciso estar nesse movimento. E com o Oscar aí, não há dúvida que este seja o queridinho dos americanos, resta agora torcer para que o nacionalismo não fale mais alto do que a qualidade dos candidatos entre si. Se não ocorrer novamente toda a trambicagem na hora da votação, é claro.