Quando éramos crianças, corríamos para o sofá (ou cadeira) com o intuito de assistir aos desenhos animados que envolviam personagens-animais, tais como Taz, Pernalonga, Tom, Jerry, Mickey, entre outros. Mas o que não sabíamos acaba de ser revelado na obra “Três Dedos: Um escândalo Animado” (2009), de Rich Koslowski.
O que muitos críticos acusam como um trabalho vazio ou uma “leitura parodística do mundo encantado dos desenhos” reflete uma tentativa para silenciar a gravidade no interior do escândalo exposto neste livro.
Em forma de HQ-Documentário, Rich investiga os bastidores da indústria cinematográfica hollywoodiana através de um levantamento detalhado que nos mostra seu surgimento, desde o fim do cinema primitivo nos Estados Unidos.
Nesse contexto, o leitor conhece a vida do cineasta Dizzy Walters, fundador do “cinema animado” ocidental. Com uma trajetória de vida marcada por crises e sucessos, Rich aponta que o grande diferencial de Dizzy deu-se na coragem de retirar do submundo, os artistas – que, por serem “desenhos animados” — eram demonizados pela sociedade tradicionalista norte-americana.

Vivendo uma fase sombria, “ele começou a freqüentar partes cada vez mais perigosas e pouco recomendadas da cidade, até que finalmente, uma noite, encontrou-se vagando (…) pela ‘Animalândia’” e conheceu – tocando numa boate escondida — o ratinho Rickey”. Esse encontro muda toda a história do cinema.
O talento e carisma de Rickey no palco fez Dizzy tomar uma atitude arriscada: levar para as telas os “animados”, mesmo correndo o risco de perder sua dignidade, pois nessa época, esses bichinhos sofriam bastante preconceito, vivendo na marginalidade e esquecidos pelo poder público.
Ser um “animado” era nocivo, repugnante e assustador. A sociedade composta pelos humanos excluiu a raça animada do convívio social e a jogou — sem o mínimo de cidadania — nos bairros periféricos, no qual muitos deles viviam da prostituição, tráfico de drogas e animação em festas infantis, onde as crianças contratavam os “animados” para violentá-los em orgias envolvendo recheio de chiclete sintético, refrigerante com alto teor de gás e brigadeiros industriais.
O risco em tornar um “animado” ícone pop era alto, mas Dizzy Walters investiu todo seu dinheiro no filme “Rickey na Ferrovia”. Surpreendentemente, o sucesso foi imediato! Mesmo com todo o ceticismo enraizado na crítica de cinema especializada, as plateias humanas aclamavam o filme como “revolucionário”.
Rich Koslowski afirma que:
Rapidamente, todos os grandes estúdios de cinema começaram a produzir filmes estrelados por atores animados. Seis meses após a estréia de ‘Rickey na Ferrovia’, quatro dos maiores estúdios lançariam produções estreladas apenas por elencos de atores animados.
Assim, a indústria cinematográfica de animação promove uma avalanche de filmes marcados pelo fracasso de bilheteria. Por algum motivo desconhecido, o público não respondia positivamente ao lançamento dos novos filmes que surgiram após o “fenômeno Rickey”.
O autor entrevista (entre ex-atores e testemunhos da época) Hans Wurstmacher:

Enquanto os filmes animados não estrelados por Rickey causavam prejuízos aos atravessadores, produtores e exibidores, a fama de Dizzy e seu parceiro lotavam as capas de revista, jorrando dinheiro por todos os lados!

A alta cúpula do setor de animação em Hollywood estranhou como Dizzy e Rickey tornaram-se, do dia para a noite, os novos magnatas do cinema. Algo errado estava acontecendo nos círculos internos do setor.
O sucesso de Rickey aumentava a cada filme realizado, mas para atingir a fama imediata os artistas sempre pagam um alto preço.

Até o ano de 1946, apenas os filmes da dupla prosperavam, fazendo Rickey tornar-se o maior super-astro animado de todos os tempos, o que o levou a casar-se com uma humana! A união afetiva com Rosa Belmont promoveu uma grande discussão étnica nos anos 40 nos Estados Unidos: Humanos podem unir-se a Animados? Mesmo com a fúria do público conservador norte-americano, sem dúvida, Rickey e Rosa quebraram os tabus em torno do amor entre seres tão distintos.
A vida de Rickey e Dizzy estava no seu melhor momento, até que os segredos sobre o Ritual são revelados à imprensa a partir de uma denúncia anônima realizada em 1948, que trouxe à tona um dossiê fotográfico responsável pela desgraça da carreira de ambos. As imagens confirmam: o Ritual é uma terrível realidade.

A partir das imagens expostas por Rich, “Três Dedos” promove um debate com ex-atores animados fracassados para compreender a possível ligação dos personagens centrais com o escândalo envolvendo o Ritual.
Seria essas práticas macabras que o levaram à fama absoluta? É a partir desta fórmula bizarra que os desenhos animados conseguem hipnotizar milhares de crianças atualmente? Seria o “horror” a palavra de ordem nas animações que formaram gerações de homens e mulheres?
Numa rara aparição à Rich Koslowski, Rickey polemiza:

Comentários bombásticos buscam questionar a indústria cinematográfica e avaliar o raio‑X do maior escândalo da cultura pop nos anos 40.

Quem lembra do Pato Daniel? Engasguinho? Tonto? Liu Liu? Rapidinho Rodriguez? Gafanhoto Cantante? Pernalouca? Freidrich Von Gatze? Millie Marsupial? Pato Nildo? Antigos grandes astros da animação que hoje vivem em condições precárias, na maioria dos casos vendendo-se à indústria pornográfica ligada à categoria Zoo-Shemale-Gagfactor ou trabalhando nas zonas boêmias da Animalândia.
A repercussão em torno do Ritual promoveu ataques de artistas e políticos famosos (como Marilyn Monroe, o senador Theodore Iverson, Martin Luther King e J. F. Kennedy), que “se levantaram contra o abuso e tratamento ruim dado aos animados”. Poucos meses após a manifestação de apoio aos animados, os mesmo críticos que acusavam a indústria hollywoodiana por tais crimes sofreram trágicos “acidentes de percurso” até hoje inexplicáveis. Haveria alguma ligação entre essas mortes e o Ritual?
Pernalouca, após ser questionado por Rich sobre sua possível ligação com ritual, reage de forma surpreendente:

Desse modo, “Três Dedos” apresenta aos leitores o processo de construção dos mitos animados da TV e cinema. Analisa como a indústria da animação lucra milhões de dólares, investindo em filmes e séries televisivas infantis que movimentam um mercado macabro, obrigando os artistas a se submeterem ao Ritual em troca da fama, luxo e reconhecimento de público. Quando os produtores lucram tudo que podem, os jogam no esquecimento absoluto.
O que está por trás do universo dos filmes infantis? Até que ponto nossos filhos devem consumir tais conteúdos, marcados por uma atmosfera de horror e submissão? “Três Dedos” é um livro que precisa ser lido e divulgado imediatamente nas escolas, creches e aos pais mais cuidadosos, como um alerta moral sobre a maldição envolvendo os desenhos animados.


Ao ler “Trilogia Nikopol”, do Enki Bilal, nos deparamos com a seguinte reflexão gilbertiana: “Quem hoje fala de futuro, sabemos que fala num tempo que já é quase presente, tal a rapidez com que estamos passando de presente a futuro. Nunca mais do que hoje o homem viveu tempo aparente só moderno já tão alcançado pelo pós-moderno e ainda influenciado pelo pré-moderno”. O que um pernambucano tem em comum com um iugoslavo?





E assim, tomo essa obra como elemento de reflexão sobre o mal-estar do autor perante o futuro, que se aproxima-chega de forma assustadora. Um futuro cinza, demarcado pela desesperança do homem pelo homem, este atirado numa disputa animalesca pelo controle do Outro e de si.
Um trauma emocional é o tipo de veneno com grande concentração de substâncias mortíferas. Agindo internamente e induzindo a um grande sofrimento, o trauma quase sempre vem acompanhado de estados físicos ou psíquicos lesionados pelo tempo e pelas vivências negativas acumuladas. Sorrateiramente, ele vai crescendo em dimensões e poder destrutivo, e tal qual uma epidemia, é difícil extirpá-lo.



Comigo não é diferente. Com o passar do tempo, sinto ainda mais falta das ideias e opiniões expressas por Daniel nas 









Presença fantasmagórica, sombria, temida. Uma caricatura de dentes amarelos e rosto esquálido, que vaga pelas noites de tempestade. Vulto dentro de um quarto escuro, com forte aroma de velas misturado com cipreste e crisântemo, avolumando lágrimas indisfarçáveis. Não importa a imagem ou descrição atribuída, a morte é uma das obsessões do homem tanto quanto a vontade de saber sobre o início da existência e seu elo perdido.



Quantos livros que você leu eram ambientados em um mundo fantástico, com fadas, elfos, trolls e até mesmo dragões? Se você acha esse tipo de livro uma literatura menor, vale lembrar o sucesso das obras de Tolkien, George Martin e até de autores brasileiros como Eduardo Spohr. É difícil predizer que elemento levou tais autores ao sucesso, mas com certeza a construção de uma história envolvente e bem ambientada, um universo crível e imersivo são aspectos que garantem a audiência literária que tais obras obtiveram.



Se o assunto é poesia brasileira, o primeiro nome que nos sacode a mente e pula direto para a língua, sem pestanejar, é o de Carlos Drummond de Andrade. Poeta mineiro nascido em 1902, Drummond virou sinônimo indiscutível de arte poética, traduzido em diversos países e reverenciado como um dos maiores gênios que o Brasil teve o prazer de gerar. Feito de memórias, ironias e delicadezas, o trabalho do poeta também enveredou pela prosa de ficção, mesmo que em menor número. O livro Contos Plausíveis, lançado pela editora Companhia das Letras em 2012, traz uma amostra da capacidade de Drummond em criar fábulas do cotidiano, circulando pelas ruas da cidade e estradinhas do interior, entre o ontem, o hoje e o depois.


Há livros que te encantam do início ao fim, não só pela sua história mas também por conta das suas ilustrações e seus vários pequenos detalhes, onde você se vê o pegando inúmeras vezes apenas para tentar descobrir algo novo ou reler um trecho rapidinho. Foi exatamente esta experiência que tive depois de ler Contos de Lugares Distantes do escritor e quadrinista australiano Shaun Tan, lançado aqui no Brasil pela Cosac Naify e traduzido por Érico Assis.




Saber a história de seus ancestrais não é apenas uma jornada histórica, mas também uma jornada pessoal de auto-conhecimento e, certas vezes, de cura também. Belle Yang nasceu em Taiwan, passou parte da infância no Japão e depois foi para os Estados Unidos com seus pais e lá cursou biologia. Mas para fugir de um violento ex-namorado, chamado por eles de “ovo podre”, voltou a China (1986), estudou artes plásticas e se deparou também com a luta dos chineses pela democraria e fim da corrupção (1989). Sentiu então pela primeira vez em sua vida o que é estar privada da sua liberdade de expressão e ao voltar no final de 1989 para Califórnia, decide que precisa fazer alguma coisa com essa liberdade, mas ainda não sabia ao certo o que.
Todo o processo da criação da própria
Apesar de inicialmente parecer que, por se tratar de uma outra cultura e outra época, apenas poucas situações irão soar familiares, você provavelmente irá se espantar com a quantidade de situações e tipos de pessoas que se assimilam com as do seu cotidiano. Certas vezes parece até novela mexicana, tamanha as intrigas e jogos vividos por essas pessoas. Isso, somado a um bocado de filosofia e reflexões taoístas e budistas e cultura popular chinesa. interessante, não?
Quem tem interesse em ver um pouco dos “bastidores” da produção desta obra, segue abaixo um vídeo da produção de umas das páginas.
Kevin Khatchadourian é autor de uma chacina escolar que levou quase uma dezena de pessoas à morte. Naturalmente ao sabermos dessa informação, são inevitáveis as perguntas que buscam elucidar a razão de tal ato. “O que leva jovens com uma vida aparentemente boa a tomarem tal atitude, tirando a vida de pessoas inocentes?” “Por quê?” é a pergunta que sintetiza muitas vezes nossa perplexidade diante do fato.

