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  • Três Dedos: Um Escândalo Animado (2009), de Rich Koslowski | HQ

    Três Dedos: Um Escândalo Animado (2009), de Rich Koslowski | HQ

    tres-dedos-um-escandalo-animado-2009-de-rich-koslowski-hqQuan­do éramos cri­anças, cor­ríamos para o sofá (ou cadeira) com o intu­ito de assi­s­tir aos desen­hos ani­ma­dos que envolvi­am per­son­agens-ani­mais, tais como Taz, Per­na­lon­ga, Tom, Jer­ry, Mick­ey, entre out­ros. Mas o que não sabíamos aca­ba de ser rev­e­la­do na obra “Três Dedos: Um escân­da­lo Ani­ma­do” (2009), de Rich Koslows­ki.

    O que muitos críti­cos acusam como um tra­bal­ho vazio ou uma “leitu­ra par­o­dís­ti­ca do mun­do encan­ta­do dos desen­hos” reflete uma ten­ta­ti­va para silen­ciar a gravi­dade no inte­ri­or do escân­da­lo expos­to neste livro.

    Em for­ma de HQ-Doc­u­men­tário, Rich inves­ti­ga os basti­dores da indús­tria cin­e­matográ­fi­ca hol­ly­wood­i­ana através de um lev­an­ta­men­to detal­ha­do que nos mostra seu surg­i­men­to, des­de o fim do cin­e­ma prim­i­ti­vo nos Esta­dos Unidos.

    Nesse con­tex­to, o leitor con­hece a vida do cineas­ta Dizzy Wal­ters, fun­dador do “cin­e­ma ani­ma­do” oci­den­tal. Com uma tra­jetória de vida mar­ca­da por crises e suces­sos, Rich apon­ta que o grande difer­en­cial de Dizzy deu-se na cor­agem de reti­rar do sub­mun­do, os artis­tas – que, por serem “desen­hos ani­ma­dos” — eram demo­niza­dos pela sociedade tradi­cional­ista norte-americana.

    Rich Koslowski
    Rich Koslows­ki

    Viven­do uma fase som­bria, “ele começou a fre­qüen­tar partes cada vez mais perigosas e pouco recomen­dadas da cidade, até que final­mente, uma noite, encon­trou-se vagan­do (…) pela ‘Ani­malân­dia’” e con­heceu – tocan­do numa boate escon­di­da — o rat­in­ho Rick­ey”. Esse encon­tro muda toda a história do cinema.

    O tal­en­to e caris­ma de Rick­ey no pal­co fez Dizzy tomar uma ati­tude arrisca­da: levar para as telas os “ani­ma­dos”, mes­mo cor­ren­do o risco de perder sua dig­nidade, pois nes­sa época, ess­es bich­in­hos sofri­am bas­tante pre­con­ceito, viven­do na mar­gin­al­i­dade e esque­ci­dos pelo poder público.

    Ser um “ani­ma­do” era noci­vo, repug­nante e assus­ta­dor. A sociedade com­pos­ta pelos humanos excluiu a raça ani­ma­da do con­vívio social e a jogou — sem o mín­i­mo de cidada­nia — nos bair­ros per­iféri­cos, no qual muitos deles vivi­am da pros­ti­tu­ição, trá­fi­co de dro­gas e ani­mação em fes­tas infan­tis, onde as cri­anças con­tratavam os “ani­ma­dos” para vio­len­tá-los em orgias envol­ven­do recheio de chi­clete sin­téti­co, refrig­er­ante com alto teor de gás e brigadeiros industriais.

    O risco em tornar um “ani­ma­do” ícone pop era alto, mas Dizzy Wal­ters investiu todo seu din­heiro no filme “Rick­ey na Fer­rovia”. Sur­preen­den­te­mente, o suces­so foi ime­di­a­to! Mes­mo com todo o ceti­cis­mo enraiza­do na críti­ca de cin­e­ma espe­cial­iza­da, as plateias humanas acla­mavam o filme como “rev­olu­cionário”.

    Rich Koslows­ki afir­ma que:

    Rap­i­da­mente, todos os grandes estú­dios de cin­e­ma começaram a pro­duzir filmes estre­la­dos por atores ani­ma­dos. Seis meses após a estréia de ‘Rick­ey na Fer­rovia’, qua­tro dos maiores estú­dios lançari­am pro­duções estre­ladas ape­nas por elen­cos de atores animados.

    Assim, a indús­tria cin­e­matográ­fi­ca de ani­mação pro­move uma avalanche de filmes mar­ca­dos pelo fra­cas­so de bil­hete­ria. Por algum moti­vo descon­heci­do, o públi­co não respon­dia pos­i­ti­va­mente ao lança­men­to dos novos filmes que sur­gi­ram após o “fenô­meno Rickey”.

    O autor entre­vista (entre ex-atores e teste­munhos da época) Hans Wurstmacher:

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    Enquan­to os filmes ani­ma­dos não estre­la­dos por Rick­ey causavam pre­juí­zos aos atrav­es­sadores, pro­du­tores e exibidores, a fama de Dizzy e seu par­ceiro lotavam as capas de revista, jor­ran­do din­heiro por todos os lados!

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    A alta cúpu­la do setor de ani­mação em Hol­ly­wood estran­hou como Dizzy e Rick­ey tornaram-se, do dia para a noite, os novos mag­natas do cin­e­ma. Algo erra­do esta­va acon­te­cen­do nos cír­cu­los inter­nos do setor.

    O suces­so de Rick­ey aumen­ta­va a cada filme real­iza­do, mas para atin­gir a fama ime­di­a­ta os artis­tas sem­pre pagam um alto preço.

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    Até o ano de 1946, ape­nas os filmes da dupla pros­per­avam, fazen­do Rick­ey tornar-se o maior super-astro ani­ma­do de todos os tem­pos, o que o lev­ou a casar-se com uma humana! A união afe­ti­va com Rosa Bel­mont pro­moveu uma grande dis­cussão étni­ca nos anos 40 nos Esta­dos Unidos: Humanos podem unir-se a Ani­ma­dos? Mes­mo com a fúria do públi­co con­ser­vador norte-amer­i­cano, sem dúvi­da, Rick­ey e Rosa que­braram os tabus em torno do amor entre seres tão distintos.

    A vida de Rick­ey e Dizzy esta­va no seu mel­hor momen­to, até que os seg­re­dos sobre o Rit­u­al são rev­e­la­dos à impren­sa a par­tir de uma denún­cia anôn­i­ma real­iza­da em 1948, que trouxe à tona um dos­siê fotográ­fi­co respon­sáv­el pela des­graça da car­reira de ambos. As ima­gens con­fir­mam: o Rit­u­al é uma ter­rív­el realidade.

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    A par­tir das ima­gens expostas por Rich, “Três Dedos” pro­move um debate com ex-atores ani­ma­dos fra­cas­sa­dos para com­preen­der a pos­sív­el lig­ação dos per­son­agens cen­trais com o escân­da­lo envol­ven­do o Ritual.

    Seria essas práti­cas macabras que o levaram à fama abso­lu­ta? É a par­tir des­ta fór­mu­la bizarra que os desen­hos ani­ma­dos con­seguem hip­no­ti­zar mil­hares de cri­anças atual­mente? Seria o “hor­ror” a palavra de ordem nas ani­mações que for­maram ger­ações de home­ns e mulheres?

    Numa rara aparição à Rich Koslows­ki, Rick­ey polemiza:

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    Comen­tários bom­bás­ti­cos bus­cam ques­tionar a indús­tria cin­e­matográ­fi­ca e avaliar o raio‑X do maior escân­da­lo da cul­tura pop nos anos 40.

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    Quem lem­bra do Pato Daniel? Engas­guin­ho? Ton­to? Liu Liu? Rapid­in­ho Rodriguez? Gafan­ho­to Can­tante? Per­nalou­ca? Frei­drich Von Gatze? Mil­lie Mar­su­pi­al? Pato Nil­do? Anti­gos grandes astros da ani­mação que hoje vivem em condições precárias, na maio­r­ia dos casos venden­do-se à indús­tria pornográ­fi­ca lig­a­da à cat­e­go­ria Zoo-She­male-Gag­fac­tor ou tra­bal­han­do nas zonas boêmias da Animalândia.

    A reper­cussão em torno do Rit­u­al pro­moveu ataques de artis­tas e políti­cos famosos (como Mar­i­lyn Mon­roe, o senador Theodore Iver­son, Mar­tin Luther King e J. F. Kennedy), que “se lev­an­taram con­tra o abu­so e trata­men­to ruim dado aos ani­ma­dos”. Poucos meses após a man­i­fes­tação de apoio aos ani­ma­dos, os mes­mo críti­cos que acusavam a indús­tria hol­ly­wood­i­ana por tais crimes sofr­eram trági­cos “aci­dentes de per­cur­so” até hoje inex­plicáveis. Have­ria algu­ma lig­ação entre essas mortes e o Ritual?

    Per­nalou­ca, após ser ques­tion­a­do por Rich sobre sua pos­sív­el lig­ação com rit­u­al, reage de for­ma surpreendente:

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    Desse modo, “Três Dedos” apre­sen­ta aos leitores o proces­so de con­strução dos mitos ani­ma­dos da TV e cin­e­ma. Anal­isa como a indús­tria da ani­mação lucra mil­hões de dólares, investin­do em filmes e séries tele­vi­si­vas infan­tis que movi­men­tam um mer­ca­do macabro, obri­g­an­do os artis­tas a se sub­me­terem ao Rit­u­al em tro­ca da fama, luxo e recon­hec­i­men­to de públi­co. Quan­do os pro­du­tores lucram tudo que podem, os jogam no esquec­i­men­to absoluto.

    O que está por trás do uni­ver­so dos filmes infan­tis? Até que pon­to nos­sos fil­hos devem con­sumir tais con­teú­dos, mar­ca­dos por uma atmos­fera de hor­ror e sub­mis­são? “Três Dedos” é um livro que pre­cisa ser lido e divul­ga­do ime­di­ata­mente nas esco­las, crech­es e aos pais mais cuida­dosos, como um aler­ta moral sobre a maldição envol­ven­do os desen­hos animados.

  • Rede UCI exibe documentário “Generation Iron” nesta quarta (26) e quinta-feira (27)

    Rede UCI exibe documentário “Generation Iron” nesta quarta (26) e quinta-feira (27)

    uci-transparente

    Nes­ta quar­ta (26) e quin­ta-feira (27), às 20h45, a rede UCI exibe o doc­u­men­tário “Gen­er­a­tion Iron”, para os fãs de mus­cu­lação e fisi­cul­tur­is­mo. As sessões, que em Curiti­ba (PR) acon­te­cem no cin­e­ma UCI Estação, apre­sen­tarão um pouco mais sobre a vida das estre­las dessa modalidade.

    Do pro­du­tor do clás­si­co orig­i­nal “Pump­ing Iron”, “Gen­er­a­tion Iron” é um mer­gul­ho pro­fun­do no mun­do do fisi­cul­tur­is­mo profis­sion­al. O doc­u­men­tário, nar­ra­do por Mick­ey Rourke retra­ta o dia-a-dia de vários atle­tas, entre eles o recém-chega­do e ambi­cioso Ben Pakul­s­ki e o astro europeu Roel­ly Win­klaar, em sua jor­na­da para ser coroa­do o Mr. Olympia.

    As entradas já estão à ven­da e cus­tam R$ 40 (inteira). Para mais infor­mações sobre os filmes, os cin­e­mas UCI e a pro­gra­mação com­ple­ta, acesse o site www.ucicinemas.com.br e/ou as redes soci­ais www.ucicinemas.com.br/redes+sociais. Os ingres­sos poderão ser adquiri­dos nas bil­hete­rias, nos ter­mi­nais de autoa­tendi­men­to ou tam­bém pelo site da rede.

    Serviço:
    UCI Estação
    Rua Sete de Setem­bro, 2775/ loja C‑01
    Rebouças – Curiti­ba – Paraná
    CEP: 80230–010
    Tele­fones: (41) 3595–5555/ (41) 3595–5550

  • Uma História de Sarajevo (2005), de Joe Sacco | HQ da Semana

    Uma História de Sarajevo (2005), de Joe Sacco | HQ da Semana

    uma-historia-de-sarajevo-2005-de-joe-sacco-hq-da-semana-capaDiante das ten­sões políti­cas que estão explodin­do na Ucrâ­nia, Síria e uma pos­sív­el re-polar­iza­ção inter­na­cional, ten­to mon­tar o que­bra-cabeças indi­vid­ual des­ta con­jun­tu­ra tur­bu­len­ta. Esse “redesen­har” de fron­teiras do Leste europeu e adjacên­cias me obrigam a com­preen­der (como pro­fes­sor de História) min­i­ma­mente isso tudo. Assim, des­de que tive aces­so às reflexões de Edward Said com “Ori­en­tal­is­mo” (2007), da dire­to­ra de cin­e­ma Kathryn Bigelow e das con­ver­sas em sala de aula, fui atrás de novas refer­ên­cias sobre algo que descon­hece­mos: O out­ro lado do mapa.

    No meu trân­si­to de leitor/HQ amador, encon­trei por aca­so dois nomes bem posi­ciona­dos no debate políti­co que segue: Joe Sac­co e Enki Bilal. Hoje quero falar de Sac­co, ape­sar de Bilal pos­suir algu­mas con­vergên­cias poéti­cas muito inter­es­santes com ele. Talvez o explore nas min­has próx­i­mas pon­tas soltas.

    Após sor­rir e chorar com “Der­ro­tista” (2006) retiro da estante “Uma História de Sara­je­vo” (2005). Esse livro pren­deu min­ha leitu­ra numa sen­ta­da, pois ele rev­ela o quan­to descon­hece­mos as cica­trizes de um dos con­fli­tos mais san­gren­tos da História: o con­fli­to na Bós­nia entre 1992–95.

    Joe Sacco (por Don Usner)
    Joe Sac­co (por Don Usner)

    Com seu tal­en­to volta­do para o jor­nal­is­mo em quadrin­hos, o escritor maltês desven­da o cenário de guer­ra a par­tir de um con­jun­to de lem­branças da sua fonte mais per­ti­nente: o ex-sol­da­do, Neven.

    A par­tir de pequenos paga­men­tos (bebidas, almoços) a Neven, Sac­co é fis­ga­do para visu­alizar uma memória san­grenta, mar­ca­do por gru­pos para­mil­itares que coman­davam o con­fli­to na Bós­nia, for­ma­do por ex-pre­sidiários, mer­cenários, artis­tas e qual­quer um que deci­da lutar por Sara­je­vo “livre”.

    Neven é seu guia, um com­pan­heiro fun­da­men­tal: “Enten­da, estou vul­neráv­el. É uma guer­ra pelo amor de Deus, e ago­ra que eu me envolvi nela pre­ciso de um ombro ami­go (…), alguém que me car­regue suave­mente pelas ruínas”.

    Através da rigidez típi­ca do seu traço em p&b, somos lev­a­dos a um uni­ver­so com­ple­ta­mente descon­heci­do aos oci­den­tais (leitores da impren­sa ofi­cial), no qual o sig­nifi­ca­do da vida perde o val­or em nome da “limpeza étni­ca”, chamus­ca­da por uma com­plexa teia envol­ven­do religião, geopolíti­ca, intri­gas e morte.

    Seu quadrin­ho-doc­u­men­tário nar­ra o proces­so de desin­te­gração da Iugoslávia (1991), enquan­to “na Bós­nia, a repúbli­ca de maior mis­tu­ra étni­ca, tudo parece estar em paz na cap­i­tal Sara­je­vo, enquan­to políti­cos nacional­is­tas sérvios debatem acalo­rada­mente o futuro da ter­ra que divi­dem”. Com o pós-guer­ra fria e o des­man­te­lo da URSS, novos inter­ess­es geopolíti­cos con­fig­u­ram-se, prin­ci­pal­mente a eman­ci­pação de país­es antes vin­cu­la­dos ao gigante soviéti­co. Na Bós­nia, a situ­ação não foi diferente.

    Trecho de "Uma História de Sarajevo"
    Tre­cho de “Uma História de Sarajevo”

    Nesse sen­ti­do, Neven faz um retra­to da frag­men­tação a par­tir da for­mação de gru­pos arma­dos que bus­cam impedir o cer­co a Sara­je­vo pelos sérvios e croatas. No con­jun­to de sol­da­dos ded­i­ca­dos ao con­fli­to, os eixos nar­ra­tivos prin­ci­pais cir­cu­lam nas exper­iên­cias mil­itares como Ismet Bajramovic, Jusuf Praz­i­na, Musan Tapalovic e Ramiz Delal­ic, e seus pequenos impérios de sangue. Vale a pena fris­ar que não há didatismo na obra, aqui você não vai “apren­der” sobre o con­fli­to na Bós­nia, mas sim mer­gul­har nos seus destroços.

    Ao tran­si­tar por estes líderes, Neven rela­ta uma história até então pouco con­heci­da sobre o con­fli­to, da ascen­são dos gru­pos para­mil­itares, as atro­ci­dades cometi­das aos civis, o impacto políti­co que tais “exérci­tos” provo­caram na esfera políti­ca nacional até seu enfraque­c­i­men­to total, após a Bós­nia neu­tralizar suas zonas de atu­ação “ile­gais”.

    Página da HQ
    Pági­na da HQ

    Neven declara que “começam a se acu­mu­lar provas com­pro­m­ete­do­ras con­tra out­ros sen­hores da guer­ra (…) incluin­do o assas­si­na­to de cidadãos, em espe­cial sérvios (…) os anti­gos heróis de Sara­je­vo não serão per­doa­d­os. Eles ameaçaram a autori­dade do gov­er­no em casa e o enver­gonharam fora dela”.

    Como con­fi­ar em Neven? Que lim­ites Sac­co esta­b­ele­ceu para con­stru­ir uma ponte entre a amizade e a con­fi­ança entre os dois? Afi­nal, o que este con­fli­to rep­re­sen­ta para nós? Para Bruno Gar­cia, “con­trar­ian­do o bom sen­so, o con­fli­to com­ple­ta [22] anos sendo melan­col­i­ca­mente igno­ra­do pela impren­sa inter­na­cional, que parece já ter extraí­do do even­to tudo que era pos­sív­el para vender jornais”.

    A con­tribuição de Sac­co para ilu­mi­nar nos­sos olhares para o Out­ro reforça o abis­mo cri­a­do pelos oci­den­tais, diante de con­fli­tos expos­tos nos tele­jor­nais na hora do jan­tar. Até quan­do não vamos enx­er­gar as crises inter­na­cionais como algo que nos afe­ta dire­ta­mente? Inspi­ra­do em Edward Said, seria o Ori­ente um mito Oci­den­tal? Até quan­do as bom­bas vão explodir em nos­sa indifer­ença? Joe Sac­co, com “Uma História de Sara­je­vo”, provo­ca e atiça com o obje­ti­vo de reti­rar o leitor do lugar comum.

  • Fotógrafo de Guerra (2001), de Christian Frei

    Fotógrafo de Guerra (2001), de Christian Frei

    James-Natchwey-Kosovo

    O olho do homem serve de fotografia ao invisív­el, como o ouvi­do serve de eco ao silêncio.

    Macha­do de Assis

    A fotografia con­quis­tou espaço como um dos maiores fenô­menos comu­ni­ca­cionais da humanidade. A téc­ni­ca da “cap­tação de ima­gens por meio de uma exposição lumi­nosa” vem sendo uti­liza­da de difer­entes for­mas no decor­rer do seu proces­so históri­co, começan­do por meio de méto­dos analógi­cos até alcançar as ino­vações da fotografia dig­i­tal, pro­por­cionadas pelo avanço tecnológico.

    Reg­is­trar um momen­to feliz, guardar uma fonte históri­ca, denun­ciar acon­tec­i­men­tos, ante­ci­par tragé­dias, cri­ar memórias, remod­e­lar son­hos e difundir ideias são algu­mas das inúmeras for­mas pelas quais a fotografia se faz pre­sente. Den­tro desse con­ceito, exis­tem aque­les que uti­lizam a fotografia como meio para trans­for­mar uma real­i­dade, recon­stru­ir vidas. É exata­mente o que faz o fotó­grafo James Nachtwey.

    Retrato do fotógrafo James Nachtwey
    Retra­to do fotó­grafo James Nachtwey

    James Nachtwey tem ded­i­ca­do sua existên­cia aos reg­istros fotográ­fi­cos de guer­ras, con­fli­tos, mis­érias e desumanidades ao redor do plan­e­ta. Sua ativi­dade de luta e denún­cia con­tra a atu­al condição do homem pode ser apre­sen­ta­da através do doc­u­men­tário Fotó­grafo de Guer­ra (War Pho­tog­ra­ph­er, direção de Chris­t­ian Frei, 2001). Por meio da uti­liza­ção de micro-câmeras acopladas à câmera fotográ­fi­ca de Nachtwey, o dire­tor Chris­t­ian Frei tra­bal­hou em cima das ativi­dades real­izadas pelo fotojornalista.

    As fil­ma­gens ocor­reram nas zonas de con­fli­to do Koso­vo, Palesti­na e Indonésia, dan­do uma iden­ti­dade real à dor de cen­te­nas de pes­soas a par­tir do momen­to em que elas são retratadas em imagem, for­man­do um reg­istro silen­cioso. Era assim que o lúci­do doc­u­men­tarista exer­cia sua função social. Segun­do Nachtwey, é incon­ce­bív­el “per­mi­tir que a mis­éria humana con­tin­ue clan­des­ti­na”. Durante todo o doc­u­men­tário, o fotó­grafo dire­ciona sua ideia na exposição da real­i­dade, provan­do que existe uma grande respon­s­abil­i­dade por trás de cada movi­men­to do homem, seja intimista ou comunitário.

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    A per­son­al­i­dade silen­ciosa, tími­da e despren­di­da do fotó­grafo reforça a aut­en­ti­ci­dade de seu tra­bal­ho. Por estar próx­i­mo das víti­mas, parece com­par­til­har da mis­éria e do imen­so vazio que as dev­as­ta. James Nachtwey der­ru­ba o fal­so moral­is­mo que per­me­ia gov­er­nos e os mais altos pilares da sociedade ao retratar momen­tos chocantes, como a mãe que enter­ra o fil­ho viti­ma­do pela bar­bárie da guer­ra, ou quan­do um homem é bru­tal­mente assas­si­na­do por ter out­ra ide­olo­gia políti­ca. O fotó­grafo de guer­ra pres­en­cia comu­nidades inteiras assi­s­tirem com­ple­ta­mente impo­tentes ao estupro de suas mul­heres e ao esface­la­men­to de suas famílias, sim­ples­mente por per­tencerem à out­ra etnia. Toda essa dor é obser­va­da den­tro de um acor­do tác­i­to entre fotó­grafo e fotografa­do; um acor­do de coração e espíri­to. Fotó­grafo de Guer­ra é mais um daque­les doc­u­men­tários que jus­ti­fi­cam todo o sac­ri­fí­cio de um homem de ser maior do que sua própria dor.

    A cada min­u­to que eu esta­va lá, eu que­ria fugir.
    Eu não que­ria ver isso.
    Eu iria bater e cor­rer ou enfrentar
    a respon­s­abil­i­dade de estar lá com uma câmera?

    James Nachtwey

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=KQe2-nuDp‑E

  • TPB AFK: The Pirate Bay Away From Keyboard | Crítica

    TPB AFK: The Pirate Bay Away From Keyboard | Crítica

    TPB AFK: The Pirate Bay Away From Keyboard | CríticaO doc­u­men­tário TPB AFK: The Pirate Bay Away From Key­board (2013), dirigi­do pelo sue­co Simon Klose, acom­pan­ha o proces­so judi­cial por pirataria enfrenta­do pelos três cri­adores do site The Pirate Bay entre os anos 2008 a 2012. Talvez você este­ja se per­gun­tan­do “legal, mas o que eu ten­ho a ver com toda essa história?” e é aí que entra o pon­to prin­ci­pal do lon­ga. Ele não é a respeito da vida dos fun­dadores do site ou uma imer­são no mun­do do copy­right, mas sim um filme sobre a liber­dade de com­par­til­har e o futuro da própria internet.

    Para quem não con­hece, o The Pirate Bay é pos­sivel­mente o maior site de tor­rents da inter­net e, uma hora ou out­ra, aca­ba sendo um pon­to de para­da obri­gatória para quem cos­tu­ma faz­er down­loads. Mas se você pen­sou, ou só ouviu falar, que lá é ape­nas um paraí­so de arquiv­os ile­gais, onde você pode encon­trar prati­ca­mente tudo que quis­er para baixar, está com­ple­ta­mente engana­do. O seu propósi­to é sim­ples­mente pos­si­bil­i­tar o com­par­til­hamen­to de arquiv­os, mas o que os usuários vão faz­er com esse serviço, já é com­ple­ta­mente out­ra história.

    os fundadores do The Pirate Bay: Gottfrid, Peter e Fredrik
    os fun­dadores do The Pirate Bay: Got­tfrid (anaka­ta), Peter (brokep) e Fredrik (TiAMO)

    Ape­sar da ideia ini­cial de que assi­s­tir a um doc­u­men­tário sobre um proces­so judi­cial seja algo maçante e restri­to ape­nas para fãs da causa da inter­net livre, o óti­mo tra­bal­ho de edição de Per K. Kirkegaard, faz com que você prati­ca­mente não sin­ta o tem­po pas­san­do. Esta foi inclu­sive uma das maiores pre­ocu­pações do dire­tor, ele tin­ha fil­ma­do muito mate­r­i­al, mas não que­ria mostrar aqui­lo de uma maneira cha­ta, então criou um pro­je­to no Kick­Starter para con­seguir con­tratar um edi­tor profis­sion­al. Ele esti­mou o cus­to para isso de $25.000 e con­seguiu atin­gir essa meta em menos de três dias, con­seguin­do no total $51,424. Tam­bém vale a pena destacar a óti­ma tril­ha sono­ra cri­a­da por Ola Fløt­tum, que é sutil mas muito envol­vente. Para quem está pre­ocu­pa­do em não enten­der alguns ter­mos téc­ni­cos, há uma expli­cação deles durante o filme, então não pre­cisa se preocupar.

    O títu­lo do doc­u­men­tário veio da abre­vi­ação AFK (Away From Key­board — que seria algo como: Longe Do Tecla­do) que é uma oposição a ideia da sigla IRL (In Real Life — Na Vida Real), uti­liza­da por algu­mas pes­soas para des­ig­nar quan­do algo acon­tece no mun­do fora das telas dos com­puta­dores. O IRL sep­a­ra o on do offline, enquan­to o AFK vê o online ape­nas como uma exten­são do offline, ou seja, está inclu­so no que podemos perce­ber como real­i­dade e não como algo imag­inário ou fic­cional. Os três fun­dadores do site, como a maio­r­ia dos mem­bros do Par­tido Pira­ta, exibidos no doc­u­men­tário, se con­hece­r­am ini­cial­mente pela inter­net e o fato deles nun­ca terem se encon­tra­do pes­soal­mente, não foi um obstácu­lo para poderem cri­ar uma relação ver­dadeira de amizade e confiança.

    Monique Wadsted, a advogado que representa Hollywood no processo
    Monique Wad­st­ed, a advo­ga­do que rep­re­sen­ta Hol­ly­wood no processo

    Um dos motivos do dire­tor ter feito o filme, era que ele não con­seguia ver a relação que a indús­tria de mídia faz ale­gan­do que o com­par­til­hamen­to de arquiv­os é uma ameaça à cria­tivi­dade. Para ele, o aces­so irrestri­to à cul­tura era o cerne da rev­olução online, onde qual­quer expressão artís­ti­ca imag­ináv­el pudesse aflo­rar cria­ti­va­mente. De um lado, seus ami­gos artis­tas estavam sofren­do pela redução nas ven­das, mas por out­ro, as pos­si­bil­i­dades de pro­duzir, com­er­cializar e dis­tribuir a arte deles tin­ha muda­do fun­da­men­tal­mente para mel­hor. Ele ficou então pen­san­do que dev­e­ria haver for­mas de con­stru­ir uma próspera econo­mia dig­i­tal, que incor­po­rasse essas novas fer­ra­men­tas, em vez de crim­i­nal­izá-las. Com este doc­u­men­tário Simon espera lev­an­tar ques­tion­a­men­tos a respeito desse proces­so legal e tam­bém dos já real­iza­dos con­tra pes­soas que com­par­til­havam arquiv­os, para que este cenário mude.

    Simon Klose no vídeo da campanha do KickStarter
    Simon Klose no vídeo da cam­pan­ha do KickStarter

    Esse foi um dos motivos para que que o doc­u­men­tário fos­se dis­tribuí­do sob a licença BY-NC-SA da Cre­ative Com­mons, assim qual­quer um pode com­par­til­har e mod­i­ficar com atribuições, mas não pode faz­er uso com­er­cial da mes­ma. Simon até fez um post no blog do doc­u­men­tário expli­can­do detal­hada­mente porque ele escol­heu esta licença. O dire­tor incen­ti­va não só que as pes­soas façam o down­load, mas que tam­bém com­par­til­hem e remix­em o filme, crian­do out­ras obras. A mes­ma pro­pos­ta tam­bém foi fei­ta, e inclu­sive o remix foi parte da pro­dução, pelo doc­u­men­tário RIP!: Um Man­i­festo Remix, do canadense Brett Gay­lor, provavel­mente o primeiro doc­u­men­tário aber­to (open source) cri­a­do.

    Câmera pirata no Festival
    Câmera pira­ta no Festival

    TPB AFK: The Pirate Bay Away From Key­board foi lança­do dia 8 de fevereiro de 2013 no 63º Fes­ti­val Inter­na­cional de Filmes em Berlim e tam­bém simul­tane­a­mente na inter­net, uma ati­tude total­mente con­dizente com toda a filosofia do site. Inclu­sive uma pes­soa que foi ao fes­ti­val fez uma fil­magem pira­ta do mes­mo, gru­dan­do uma câmera na cadeira com sil­ver tape, cap­tan­do além do filme com­ple­to, o bate-papo com o dire­tor após a exibição. Veja o mes­mo no YouTube ou faça o down­load via tor­rent.

    Des­ta vez se você ficou inter­es­sa­do em assi­s­tir o filme, não vai ter somente a pos­si­bil­i­dade de assi­s­tir ao trail­er logo abaixo, como tam­bém vê-lo na ínte­gra leg­en­da­do pelo YouTube. Se quis­er tam­bém pode faz­er o down­load em difer­entes qual­i­dades (480p, 720p e 1080p) e baixar a leg­en­da separadamente.

    Trail­er:

    Filme Com­ple­to:
    httpv://www.youtube.com/watch?v=eTOKXCEwo_8

  • DOC de Amor (2010), de Jucélio Matos

    DOC de Amor (2010), de Jucélio Matos

    Esse amor sem razão.
    Sem val­or amanhã.
    Mes­mo assim arderá eternamente.

    Mari­na Lima

    O cin­e­ma brasileiro inde­pen­dente col­he seus fru­tos. Vive­mos uma fase mar­ca­da pelas novas pos­si­bil­i­dades de pro­dução audio­vi­su­al em vir­tude da democ­ra­ti­za­ção das mídias e suporte de expressão. Hoje é pos­sív­el colo­car em práti­ca ideias, até então amar­radas pela lim­i­tação dos recur­sos téc­ni­cos, que esta­va disponív­el nas mãos de poucos. Ago­ra podemos cri­ar e faz­er cin­e­ma no Brasil em per­spec­ti­va plur­al, exper­i­men­tan­do a lin­guagem den­tro de nos­sas via­bil­i­dades e dese­jos de cri­ação, com nos­sos celu­lares, máquinas fotográ­fi­cas e demais dis­pos­i­tivos móveis.

    Novos doc­u­men­taris­tas surgem nes­sa safra cria­ti­va, pro­duzin­do sen­ti­do à História – seja na políti­ca, nos debates soci­ais, religião, etc — no caso de Jucélio Matos, às histórias das sen­si­bil­i­dades con­tem­porâneas. Ao ini­ciar seus estu­dos sobre cin­e­ma em 2004, Jucélio se rev­el­ou para a cena audio­vi­su­al per­nam­bu­cana em pouco tem­po, com o filme Doc de Amor (2010).

    Real­iza­do para um tra­bal­ho de con­clusão de cur­so da Fac­ul­dade Mau­rí­cio de Nas­sau, o filme já des­bravou qua­tro fes­ti­vais (Fes­ti­val Brasileiro de Cin­e­ma Uni­ver­sitário (RJ), Cur­ta Cabo Frio (RJ), Fes­ti­val do Filme etno­grá­fi­co do Recife (PE) e Arra­ial Cine Fest (BA)) e vem gan­han­do espaço por onde pas­sa, ao explo­rar um tema descon­cer­tante e mis­te­rioso para muitos de nós: o Amor.

    O filme apre­sen­ta um mosaico de histórias: expon­do a vida de várias pes­soas comuns viven­do seu dia-dia, sejam nos pos­tos de gasoli­na, nos bares, nas coz­in­has, nas casas, nas aven­turas ou nos lanch­es habit­u­ais de fim de tarde. Em cada coração que tran­si­ta no filme, podemos encon­trar difer­entes reina­dos, que deci­dem as for­mas de viven­ciar suas noções de Amor.

    O filme prob­lema­ti­za o ato de amar, vis­to nos depoi­men­tos como rup­tura das con­venções, que antes pren­di­am nos­sos cor­pos numa estru­tu­ra rígi­da, sus­ten­ta­do pelo sen­so mas­culin­izante da sociedade, lim­i­tan­do as pos­si­bil­i­dades de exper­i­men­tação dos sentidos.

    Jucélio sabe cap­tar os aro­mas das per­spec­ti­vas, das vozes que pren­dem o espec­ta­dor nas nar­ra­ti­vas mais ínti­mas, na bus­ca de pro­duzir vários sabores que se aprox­i­mam do pal­adar de Rodol­fo, o coz­in­heiro real, espe­cial­ista em trans­for­mar o Amor num con­jun­to de porções regadas à sal­a­da verde (lev­eza), com um toque de arroz mar­ro­quino (con­sistên­cia), mescla­do com pro­teí­na — entre o salmão e o camarão (ener­gia e tran­qüil­i­dade), fechan­do com um café e choco­late, para não perder o ânimo.

    Nem sem­pre o Amor é vis­to como trân­si­to de liber­dade. Ele tam­bém é con­t­role e dis­ci­plina, como aque­le pote de jujubas que você não pode devorá-lo de ime­di­a­to, mas só pode com­er um, sob o monopólio de uma tuto­ra, que impede o dese­jo de se lam­buzar no açú­car. É o que podemos ver no reina­do de Paula, que percebe o Amor numa lóg­i­ca de jogo e con­t­role – muitas vezes de for­ma tirâni­ca – para ger­ar “fun­cional­i­dade” e medi­da na relação. Para ela, “amar é cas­ti­go. Nada sobre con­t­role, tudo em peri­go. Adoráv­el pen­itên­cia, chicote ami­go. Se chegar a falên­cia, mor­ro con­ti­go”.

    Entre comi­da e con­t­role, temos expec­ta­ti­va e morte, entre risos e timidez, temos a rep­re­sen­tação cêni­ca que faz do Amor um grande espetácu­lo, demar­can­do as fron­teiras entre o real e o dese­jo. Até que pon­to nos é per­mi­ti­do que­brar mais de um pote e saciar nos­sa fome?

    Cada vida aber­ta nos ensi­na que o Amor não é vis­to ape­nas por um ângu­lo, mas vivi­dos em múlti­p­los olhares não-con­tem­pla­tivos, que fazem do sen­ti­men­to um cam­po de exper­iên­cias e tro­ca de sen­si­bil­i­dades, mes­mo que o out­ro não fale sua lín­gua, ou que não con­si­ga viv­er no mes­mo teto. Os amores enquan­to proces­so, fluxo e instru­men­to de redefinição con­stante de cada indivíduo.

    O filme não expõe o Amor enquan­to efe­ti­vação, resul­ta­do final, pre­vis­i­bil­i­dade, o que Jucélio procu­ra é tran­si­tar pelas exper­iên­cias que se colo­cam diante de nós, para com­par­til­har um con­jun­to de visões em proces­so de con­strução, muitas vezes não-ditas no uni­ver­so sen­so-comum, que é vigia­da pela estu­pid­ez da vir­il­i­dade machista, restri­ta ao moral­is­mo tri­un­fante do homem sifil­izador e da mul­her recata­da, enri­je­ci­da pela tradição do cor­po que se fecha para os pos­síveis e impossíveis.

    Para­le­lo às nar­ra­ti­vas, Jucélio explo­ra no filme o uso de leg­en­das para con­tar out­ra história, exigin­do do espec­ta­dor atenção redo­bra­da no cruza­men­to entre o tex­to e as ima­gens. Era uma vez, um príncipe que “só gosta­va de príncipes”, com receio de perder todas as suas riquezas, o príncipe “decide escr­ev­er um dis­cur­so a todo seu reina­do”, um pro­nun­ci­a­men­to que fala do Amor.

    Para rece­ber inspi­ração, o príncipe vai à bus­ca de con­viv­er com pes­soas que com­par­til­havam das mes­mas emoções. As leg­en­das que nar­ram esta história não apare­cem numa ordem defini­da, mas durante todo o filme, dis­per­sas entre as vozes que rev­e­lam seus amores ao espec­ta­dor. As leg­en­das tam­bém são uti­lizadas em algu­mas cenas para acom­pan­har simul­tane­a­mente os depoimentos.

    Quan­do entre­vista Rodol­fo, Jucélio exper­i­men­ta tro­car a voz do depoente pelas leg­en­das, onde a entre­vista é tex­tu­al­iza­da, a par­tir de um corte na cena, para invert­er a relação que o espec­ta­dor man­tinha até então com o filme. Nesse momen­to, quem assiste é tam­bém leitor, ao acom­pan­har a con­ver­sa entre os dois, a par­tir do tex­to disponív­el, silen­cian­do as vozes, ao destacar ima­gens de Rodol­fo no tra­bal­ho, coz­in­han­do, despre­ocu­pa­do com a pre­sença da câmera, que fixa o olhar em seus movi­men­tos quase automáti­cos na cozinha.

    Jucélio Matos, dire­tor do documentário

    Já no final do filme, Jucélio retoma as leg­en­das para con­cluir que o príncipe, ao escr­ev­er seu dis­cur­so, “apron­tou-se ele­gan­te­mente… e desis­tiu. Não havia sen­ti­do em falatório algum. Porque ape­sar de amor rimar tan­to com dor, ele resolveu acred­i­tar no tem­po pre­sente. Inde­pen­dente em qual lado do espel­ho estivesse. E a real­i­dade e ficção viraram assim, um só amor”.

    Seria o príncipe do Doc de Amor uma exten­são de Jucélio? Ou nos­sas exten­sões mais ínti­mas, postas em questão? Para aden­trar neste uni­ver­so que se des­faz com uma névoa bran­ca, que se perde entre as fol­has e o céu, é pre­ciso se per­mi­tir, ati­var todos os poros que ain­da nos restam para con­sumir e ser con­sum­i­do pelos amores que com­par­til­hamos num espaço aber­to-fecha­do-aber­to, num exer­cí­cio con­stante de rein­venção dos con­ceitos que cer­cam o Amor, a fim de torná-lo livre, para degus­tações afe­ti­vas, em quem sabe, efetivas…

    O sol rea­parece, os cor­pos são obri­ga­dos a se sep­a­rar… é hora de ir emb­o­ra para casa… mas, como diz Jorge Maut­ner*, “min­has lágri­mas se acabaram, mas não a von­tade de chorar… só o amor pode matar o medo”.

    Esse é o Doc de Amor, meu Doc de Amor, que Jucélio Matos fez para o mun­do. Por uma história das sensibilidades.

    * Jorge Maut­ner em Ressureições do álbum Revirão (Warn­er Music), de 2007

  • Sintel

    Sintel

    Quan­do se cria uma história de rap­to com dois dragões e uma mul­her, nor­mal­mente um enre­do onde a mocin­ha é man­ti­da cati­va pelos dragões já vai se for­man­do em nos­sas cabeças. Mas e se a história fos­se com­ple­ta­mente difer­ente desse padrão? Sin­tel (2010), dirigi­do por Col­in Levy, nar­ra jus­ta­mente a jor­na­da de uma mul­her na bus­ca de seu mel­hor ami­go, um dragão que encon­trou feri­do quan­do ele ain­da era bem pequeno, que foi rap­ta­do por um grande dragão enquan­to brin­cavam um dia pelos tel­ha­dos das casas.

    Sin­tel foi cri­a­do inteira­mente uti­lizan­do soft­wares livres como Blender, para mod­e­lagem 3D e ani­mação, GIMP e Inkscape, para trata­men­to de ima­gens e desen­hos, entre out­ros. Se você quis­er, pode ver mais infor­mações sobre o pro­je­to aqui. No site ofi­cial tam­bém é pos­sív­el encon­trar todo tipo de mate­r­i­al extra, pois foi doc­u­men­ta­do e disponi­bi­liza­do grande parte do proces­so de cri­ação, uma exce­lente fonte para quem gos­ta de ani­mação. O pro­je­to do cur­ta foi cri­a­do pela Blender Foun­da­tion como meio de apri­morar a fer­ra­men­ta Blender, finan­cia­do prin­ci­pal­mente por doações fei­ta pela inter­net, assim como a ani­mação Big Buck Bun­ny.

    Sin­tel chama bas­tante atenção não só pela qual­i­dade da ani­mação — que é um soco no estô­ma­go para quem acha que artes feitas em soft­ware livre são feias — mas tam­bém pela qual­i­dade do roteiro e da direção. Tam­bém, não deve ter sido a toa que o Col­in Levy foi tra­bal­har para a Pixar em 2011! Recomen­do tam­bém uma visi­ta no blog do dire­tor, para con­hecer mais sobre o seu trabalho.

    Como sou vici­a­do em tril­has sono­ras de filmes, ani­mações e jogos, fiquei muito feliz em saber que é pos­sív­el baixar a tril­ha sono­ra com­ple­ta de Sin­tel. Se você tam­bém gos­ta escu­tar este tipo de músi­ca, prin­ci­pal­mente instru­men­tal, recomen­do o download.

    No final do vídeo enquan­to rolam os crédi­tos, são exibidos várias ima­gens extras da con­strução dos per­son­agens e do ambi­ente, vale a pena ver até o final! (Se as leg­en­das não car­regarem auto­mati­ca­mente é pre­ciso ativá-la cli­clan­do no ícone “CC” na bar­ra do vídeo)

    httpv://www.youtube.com/watch?v=eRsGyueVLvQ&hd=1

    Você tam­bém pode faz­er o down­load com­ple­to do Sin­tel em vários for­matos e com legendas.

    Quem tiv­er inter­esse em saber mais sobre a pro­dução de Sin­tel, des­de a cri­ação do con­ceito a ani­mação final, pode assi­s­tir ao doc­u­men­tário abaixo de quase uma hora, que abrange os está­gios da pro­dução da ani­mação entre Novem­bro de 2009 e Jul­ho de 2010. Infe­liz­mente o doc­u­men­tário está disponív­el somente em inglês e sem leg­en­das, mas mes­mo assim vale a pena ser vis­to só pelas ima­gens. Quem quis­er ir um pouco mais além pode inclu­sive faz­er o down­load de uma ver­são mais sim­pli­fi­ca­da da per­son­agem prin­ci­pal para brin­car no Blender.

    httpv://www.youtube.com/watch?v=IN6w6GnN-Ic

  • Crítica: Deus Salve Ozzy Osbourne

    Crítica: Deus Salve Ozzy Osbourne

    Com o curioso títu­lo de Deus Salve Ozzy Osbourne (God Bless Ozzy Osbourne, Argenti­na / Aus­trália / Canadá / Chile / Nova Zelân­dia / Reino Unido / EUA, 2011) foi lança­do o primeiro doc­u­men­tário, dirigi­do por Mike Fleiss e Mike Piscitel­li, sobre o músi­co John Michael Osbourne, mais con­heci­do como Ozzy Osbourne, ex-vocal­ista da ban­da Black Sab­bath que depois de ter sido expul­so da ban­da seguiu car­reira solo.

    Durante o doc­u­men­tário acom­pan­hamos a história de Ozzy, des­de seu nasci­men­to aos dias atu­ais, com depoi­men­tos dos mem­bros da sua própria família e de vários out­ros músi­cos como Tom­my Lee, Paul McCart­ney, Bil­ly Mor­ri­son e Hen­ry Rollins. Além dos depoi­men­tos, há um mate­r­i­al de arqui­vo muito rico — com alguns tre­chos inédi­tos — e tam­bém fil­ma­gens back­stage fei­ta pela equipe do lon­ga que acom­pan­hou Ozzy durante vários shows, onde vemos, por exem­p­lo, Ozzy fazen­do exer­cí­cios de voz com um DVD feito espe­cial­mente para isso, que é algo bem difer­ente do que esta­mos acos­tu­ma­dos a ver.

    Foi inter­es­sante notar que Deus Salve Ozzy Osbourne abor­da os acon­tec­i­men­to da vida de Ozzy de uma maneira bem bran­da, pos­suin­do como parte mais críti­ca — se é que dá para chamar assim — quan­do seus fil­hos, de ambos os casa­men­tos, são ques­tion­a­dos se ele tin­ha sido um bom pai, respon­dem que não — as vezes com uma tril­ha sono­ra lev­e­mente dramáti­ca — pois esta­va quase sem­pre bêba­do ou dro­ga­do. Além dis­so há tam­bém uma análise psi­cológ­i­ca de seu com­por­ta­men­to brin­cal­hão e descon­tro­la­do feito pela sua própria esposa, Sharon, que não deixa tam­bém de ser bem sus­peito. Tiran­do essas duas partes tudo são flo­res, mes­mo suas piores fas­es são retratadas de maneira a não pare­cerem tão ruins. Uma questão que fiquei curioso de saber foi em relação a cri­ação do real­i­ty show The Osbournes, que segun­do o lon­ga foi feito na fase mais críti­ca de Ozzy. Questões do tipo teri­am sido um óti­mo mate­r­i­al para o documentário.

    No final de Deus Salve Ozzy Osbourne ain­da há um cli­ma de redenção em relação a Ozzy, que já não usa mais álcool e dro­gas e está ten­tan­do con­quis­tar cada vez mais sua inde­pendên­cia em relação às out­ras pes­soas. E para ter­mi­nar a san­tifi­cação com auréo­la de ouro — não tin­ha como não faz­er um tro­cadil­ho — é exibido ele rezan­do escon­di­do antes de entrar no pal­co. Bem, não deve ser mera coin­cidên­cia que o doc­u­men­tário foi pro­duzi­do pelo seu fil­ho Jack Osbourne

    Deixan­do de lado toda essa parte, Deus Salve Ozzy Osbourne, de uma maneira ger­al é um doc­u­men­tário bem mon­ta­do, pos­suin­do uma tril­ha sono­ra bem dosa­da e trazen­do mate­ri­ais de arqui­vo muito inter­es­santes. É um pra­to cheio tan­to os fãs quan­to para os que querem con­hecer mais sobre a car­reira e vida de Ozzy.

    Para quem gos­ta de doc­u­men­tários de heavy met­al, recomen­do bas­tante Met­al: Uma Jor­na­da pelo Mun­do do Heavy Met­al (Met­al: A Head­banger’s Jour­ney, Canadá, 2005) e a sua sequên­cia Glob­al Met­al (Canadá, 2008), dirigi­do pelo antropól­o­go Sam Dunn, que é fã de carteir­in­ha do esti­lo musi­cal, o que tor­na a sua abor­dagem muito mais inter­es­sante e apaixonada.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=jU0xRi-4Wug

  • Amor? estreia em Porto Alegre nesta sexta-feira

    Amor? estreia em Porto Alegre nesta sexta-feira

    Vence­dor do Prêmio do Júri Pop­u­lar e do Prêmio Vagalume do 43º Fes­ti­val de Brasília do Cin­e­ma Brasileiro, Amor? chega às telas do Rio Grande do Sul no próx­i­mo dia 27 de maio. Nem ficção, nem doc­u­men­tário, o lon­ga é um híbri­do dos dois. Para relatar rela­ciona­men­tos amorosos em que a vio­lên­cia é parte do cotid­i­ano, inde­pen­dente da for­ma em que se apre­sen­ta, atores repro­duzi­ram depoi­men­tos ver­dadeiros col­hi­dos de víti­mas dessas relações, baseadas em ciúmes, cul­pa, paixão e poder.

    A opção do dire­tor João Jardim, con­sagra­do por filmes como Janela da Alma, Pro Dia Nascer Feliz e Lixo Extra­ordinário, foi escol­hi­da dev­i­do à del­i­cadeza do tema. “Até pen­sei em mostrar os ver­dadeiros per­son­agens na tela, mas, além da pri­vaci­dade de cada um, havia a pri­vaci­dade do par­ceiro de quem falavam. Além dis­so, havia tam­bém questões legais. Poderíamos ou não expor estas pes­soas a esta situ­ação? Então, optei por con­vi­dar atores. Por isso, Amor? não é um doc­u­men­tário. Nem ficção. É impos­sív­el de clas­si­ficá-lo”, afir­mou o diretor.

    Para repro­duzir a vivên­cia destas pes­soas na tela, o time de atores, a maio­r­ia expe­ri­entes, ensaiou antes de gravar os tre­chos de depoi­men­tos sele­ciona­dos, mas não pesquisou sobre seus per­son­agens. A ideia do dire­tor era ter atu­ações livres, para que o elen­co pudesse incor­po­rar as histórias. A lista inclui nomes como Lil­ia Cabral, Eduar­do Mosco­vis, Julia Lem­mertz, Ânge­lo Antônio, Fabi­u­la Nasci­men­to, Mar­i­ana Lima, Sil­via Lourenço, Cláu­dio Jab­o­randy e Leti­cia Collin.

    Para o proces­so de pesquisa e seleção dos entre­vis­ta­dos de Amor?, Jardim con­tou com o tra­bal­ho de Renée Caste­lo Bran­co. A fase de pesquisas, real­iza­da em cen­tros, orga­ni­za­ções e del­e­ga­cias, con­sum­iu um ano de tra­bal­ho. Foram gravadas 50 entre­vis­tas. Destas, oito foram sele­cionadas para serem inter­pre­tadas pelos atores.

    O filme Amor? estre­ou em abril em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Hor­i­zonte, San­tos, Sal­vador e For­t­aleza. Em Por­to Ale­gre, o lon­ga foi exibido durante o 7º Fes­ti­val de Verão do RS de Cin­e­ma Inter­na­cional e terá uma sessão de pré-estreia para con­vi­da­dos no próx­i­mo dia 19 de maio, às 21h30 no Uni­ban­co Arteplex. Amor? é uma pro­dução da Copaca­bana Filmes, copro­dução Fogo Azul Filmes, GNT e Labocine e con­ta com patrocínio da AVON. Out­ras infor­mações, fotos e trail­er no site ofi­cial.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=rzkWlh3DA8I

  • Crítica: Catfish

    Crítica: Catfish

    crítica catfish

    Cada vez mais, nos­sas vidas estão mais conec­tadas — ou reg­istradas — na inter­net. Você pos­ta um pen­sa­men­to rápi­do no Twit­ter, se comu­ni­ca com seus ami­gos no Face­book, envia suas fotos para o Flickr, … Cat­fish (USA, 2010) é um doc­u­men­tário, dirigi­do por Hen­ry Joost e Ariel Schul­man, que explo­ra jus­ta­mente as relações, cada vez mais, virtuais.

    Nev Shul­man é um fotó­grafo de 24 anos de idade que ao ter uma foto pub­li­ca­da em um jor­nal, con­hece Abby Pierce, uma meni­na de 8 anos que gos­ta de pin­tar. Através do Face­book, ele aca­ba con­hecen­do a irmã mais vel­ha de Abby, Megan Fac­cio, a qual logo cria uma afinidade e a par­tir daí um rela­ciona­men­to vir­tu­al se inicia.

    Não vou falar muito pois Cat­fish é aque­le tipo de filme que o quan­to menos você sabe a respeito do decor­rer da tra­ma, mel­hor. Assim você con­segue expe­ri­en­ciar ao máx­i­mo sem ficar aguardan­do algum acon­tec­i­men­to já pre­vis­to, com as grandes sur­pre­sas já con­heci­das. Tive a mes­ma sen­sação quan­do vi Ricky, out­ro lon­ga muito inter­es­sante, sobre um bebê bem difer­ente do nor­mal, onde qual­quer infor­mação a mais sobre ele estra­ga a surpresa.

    Em A Rede Social, foi pos­sív­el acom­pan­har o surg­i­men­to do Face­book e várias mudanças que esta fer­ra­men­ta pro­por­cio­nou. Já Cat­fish, sim­ples­mente leva você muito mais além do uso dela e da comu­ni­cação á dis­tân­cia em ger­al. Para quem usa redes soci­ais na inter­net é muito difí­cil não haver qual­quer tipo de iden­ti­fi­cação com o filme, pois ele lida com situ­ações que acon­te­cem todos os dias nelas. As várias questões entre o real e o vir­tu­al vivi­das por Nev, reper­cutem dire­ta­mente sobre todos os usuários mais ativos da inter­net. Uma das fras­es dita por ele que real­mente traz o que pen­sar a respeito deste assun­to é: “ela deve ser bem mas­sa, pelo menos no Face­book…”.

    Além dis­so nos faz refle­tir sobre a maneira que lidamos com relações no mun­do vir­tu­al, com as novas pos­si­bil­i­dades e lim­i­tações que exis­tem den­tro delas, sem ser de maneira algu­ma uma lição de moral ou algo educa­ti­vo, mas sim um rela­to muito pes­soal. Aliás, acred­i­to que Cat­fish tam­bém pode­ria ser um óti­mo estí­mu­lo para ini­ciar dis­cussões sobre este assun­to entre jovens, den­tro ou fora das salas de aula.

    Uma das grandes per­gun­tas que fica durante e após ver Cat­fish é se aqui­lo real­mente acon­te­ceu da for­ma que foi exibido. Assim como o ques­tion­a­men­to a respeito da inter­net lev­an­ta­do aci­ma, temos o mes­mo em relação ao próprio filme. Seria ele ficção, real­i­dade, ou até uma mis­tu­ra entre os dois? Dev­i­do ao seu esti­lo bem caseiro, descon­traí­do e pes­soal, é muito fácil esque­cer de que há alguém segu­ran­do uma câmera em algum lugar, pois a sen­sação é de que esta­mos real­mente lá com ele acom­pan­han­do aque­las situações.

    Para quem ficou curioso do porque do títu­lo Cat­fish, no final dele um per­son­agem fala uma curiosi­dade bem inter­es­sante sobre o bagre (cat­fish) que aca­ba expli­can­do o moti­vo da escol­ha. Out­ra coisa inter­es­sante foi a apre­sen­tação, no iní­cio do filme, do logo da Uni­ver­sal, que ficou muito bem fei­ta para poder com­bi­nar com o lon­ga. Ideia pare­ci­da tam­bém foi fei­ta para o lon­ga Scott Pil­grim Con­tra o Mun­do.

    Con­forme a tra­ma de Cat­fish vai se desen­vol­ven­do, uma cer­ta ten­são vai aumen­tan­do, a pon­to de em cer­tos momen­tos ficar tão grande que faz você se retorcer inteira­mente numa mis­tu­ra de curiosi­dade, medo e incon­formi­dade. Con­fes­so que poucos filmes me deixaram tão ten­sos quan­to este. Infe­liz­mente o mes­mo ain­da não foi lança­do ofi­cial­mente aqui no Brasil, mas se por algum meio — há algu­mas ver­sões leg­en­dadas pela inter­net — você tiv­er a opor­tu­nidade assistí-lo, não pense duas vezes.

    Para quem quis­er pesquis­ar mais depois de ter assis­ti­do, o site ofi­cial do doc­u­men­tário Cat­fish é excep­cional. Ele sim­u­la o aces­so ao com­puta­dor de Nev, onde você pode além de aces­sar alguns mate­ri­ais sobre o lon­ga, ver fotos, reg­istro de con­ver­sas via chat e emails dele. Além dis­so há tam­bém uma pas­ta pro­te­gi­da, alguém por aca­so con­seguiu desco­brir qual é a senha?

    Out­ras críti­cas interessantes:

    • Alexan­dre Maki, no seu blog

    Con­segui achar um trail­er leg­en­da­do, mas mes­mo haven­do vários erros de tradução na leg­en­da, para quem não entende inglês con­tin­ua sendo váli­do. Mais abaixo colo­quei o trail­er orig­i­nal sem legendas.

    Trail­er Legendado:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=TOQmDxOV4‑0

    Out­ro Trail­er — Sem Legendas:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=1xp4M0IjzcQ

  • Festival Verão RS 2011: Danúbio

    Festival Verão RS 2011: Danúbio

    danubioDanúbio (Brasil, 2010), dirigi­do por Hen­rique Lima, é o primeiro doc­u­men­tário da série Grandes Mestres, sobre a vida e obra do artista plás­ti­co gaú­cho Danúbio Gonçalves. Na úni­ca sessão que foi exibi­da no 7º Fes­ti­val de Verão do RS de Cin­e­ma Inter­na­cional, esta­va pre­sente não só o dire­tor do doc­u­men­tário, mas tam­bém o próprio Danúbio, que após a exibição con­ver­saram um pouco com a plateia.

    Danúbio Vil­lamil Gonçalves, nasci­do em Bagé, RS, em 1925 é gravador, desen­hista, pin­tor e pro­fes­sor. Para ler mais sobre o artista, vis­ite a Wikipedia, Enci­clopé­dia Itaú Cul­tur­al ou no MARGS (este pos­sui um mate­r­i­al muito interessante).

    No doc­u­men­tário não há um nar­rador prin­ci­pal, ape­nas depoi­men­tos, que em grande parte são do próprio artista, geran­do um cli­ma de con­ver­sa bem pes­soal e amigáv­el. Há tam­bém várias tomadas exibindo as obras de Danúbio, o que é um pra­to cheio não só para aque­les que apre­ci­am a sua obra, mas tam­bém para aque­les que a descon­hecem. Durante quase toda a duração do lon­ga, uma tril­ha sono­ra quase sem­pre instru­men­tal, aju­da a man­ter o rit­mo de Danúbio, ape­sar de não ter sido necessária em várias situações.

    Em Danúbio, são mostra­dos tam­bém alguns tre­chos de filmes mex­i­canos muito inter­es­santes, como do dire­tor Gabriel Figueroa que já pos­suía uma téc­ni­ca, enquadra­men­tos e mon­ta­gens que só hoje em dia estão mais ado­ta­dos e muitas vezes quem os uti­liza serem mod­er­nos. Aliás, esta é uma das brigas do Danúbio, a incor­po­ração da tradição da arte oci­den­tal, pois se vive num momen­to de negação do pas­sa­do. O artista é um dos que defende bas­tante esta val­oriza­ção e deixa isto bem claro não só no doc­u­men­tário, mas na sua fala após a sua exibição em con­jun­to com o dire­tor que tam­bém defende esta posição.

    Para quem gos­ta de arte e quer con­hecer um pouco mais sobre a vida, obra e ideiais do artista, Danúbio é uma óti­ma opor­tu­nidade. Não é sem­pre que se vê um doc­u­men­tário tão bem feito sobre este gênero em ter­ritório nacional. Com certeza vale a pena assisti-lo!

    Con­fi­ra abaixo alguns tre­chos do doc­u­men­tário Danúbio:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=Is0-0aGxXNo

  • Festival Verão RS 2011: Port Of Memory

    Festival Verão RS 2011: Port Of Memory

    Port of MemoryPort Of Mem­o­ry (França, 2009) é um doc­u­men­tário, dirigi­do por Kamal Alja­fari, que não dire­ciona o espec­ta­dor com palavras e nar­ra­ti­vas, ape­nas ima­gens. Acom­pan­hamos o dia a dia de uma família, que mora na em Jaf­fa na Palesti­na, e todas as peque­nas pecu­liari­dades de cada um de seus inte­grantes. Eles rece­ber­am uma ordem de despe­jo da sua casa, e sem saber muito o que faz­er, con­tin­u­am ten­tan­do seguir suas vidas em uma cidade já prati­ca­mente deserta.

    É bem difí­cil diz­er se as situ­ações que acom­pan­hamos são real­mente doc­u­men­tadas ou ficção, o que de cer­ta maneira, ficou bem inter­es­sante. A inter­pre­tação em ger­al, aca­ba fican­do mais para o espec­ta­dor de Port Of Mem­o­ry, que lida a todo momen­to com a dico­to­mia presença/ausência de som, pes­soas e até da própria realidade.

    Port of Mem­o­ry rece­beu o Prêmio Louis Mar­corelles de Cul­tures­france do Fes­ti­val do Ciné­ma du Réel 2010 e foi exibido no 7º Fes­ti­val de Verão do RS de Cin­e­ma Inter­na­cional, em Por­to Alegre.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=GcqjtRuPvus

  • Crítica: Profissão:Músico

    Crítica: Profissão:Músico

    profissão: músico

    A pop­u­lar­iza­ção do MP3 e do down­load de músi­cas pela inter­net mexeu com a estru­tu­ra do comér­cio da indús­tria fono­grá­fi­ca, e de várias out­ras tam­bém. Este é um fato inques­tionáv­el e con­heci­do por muitos, prin­ci­pal­mente pelos próprios artis­tas. Profis­são: Músi­co é um doc­u­men­tário, dirigi­do por Daniel Igná­cio Var­gas, que abor­da jus­ta­mente esta mudança a par­tir da per­spec­ti­va dess­es artistas.

    O doc­u­men­tário Profis­são: Músi­co con­ta um pouco da exper­iên­cia do Pro­je­to CCOMA, um duo de jazz instru­men­tal con­tem­porâ­neo, com a história deles como pano de fun­do e tam­bém pos­sui relatos de out­ros artis­tas ao redor do mun­do. A mon­tagem do média metragem foi muito bem fei­ta e pos­sui um rit­mo bem dinâmi­co, muitas vezes exibindo mais de um vídeo na tela ao mes­mo tem­po, com cortes bem rápi­dos, refletindo bas­tante as car­ac­terís­ti­cas do con­ceito mashup (mis­tu­ra), que aliás car­ac­ter­i­za grande parte da pro­dução dess­es próprios músicos.

    No próprio site do média metragem Profis­são: Músi­co tem-se a seguinte infor­mação: “Ago­ra, não bas­ta só tocar. A profis­são de músi­co mudou muito nos últi­mos anos. A inter­net trouxe o artista para per­to do públi­co e vice-ver­sa, não impor­tan­do mais se este músi­co vive em Lon­dres ou no inte­ri­or das mon­tan­has do Sul do Brasil. O Faça Você Mes­mo (DYI) é a for­ma revis­i­ta­da para faz­er o próprio mar­ket­ing no mun­do dig­i­tal.” que é a pre­mis­sa base deste documentário.

    Infe­liz­mente, a argu­men­tação — assim como a pre­mis­sa base — uti­liza­da em Profis­são: Músi­co é vaga demais e de cer­ta maneira irre­al­ista. O son­ho de todo artista, inde­pen­dente da área, é poder viv­er somente da sua pro­dução, mas são ape­nas poucos — exceções — que con­seguem isto. O foco do doc­u­men­tário — e ele deixa claro logo no iní­cio — é jus­ta­mente os músi­cos que não são essas mino­rias e que tra­bal­ham muito para con­seguir sobre­viv­er, ou seja, a real­i­dade deles é com­ple­ta­mente out­ra. Seria necessário um out­ro tipo de pen­sa­men­to para poder se apro­fun­dar em pos­síveis alter­na­ti­vas para esta out­ra real­i­dade. Ou seja, não dá para ficar ten­do como mod­e­lo de com­para­ção as exceções de um mer­ca­do que já se sabe — e ele mes­mo afir­ma isso — estar em ruí­nas, o que infe­liz­mente não acon­tece no doc­u­men­tário, ele fica pre­so na visão saudo­sista de como as coisas eram mel­hores no passado.

    A impressão que fica é que o respon­sáv­el por isso foi de cer­ta for­ma a inter­net. Será que foi esque­ci­do que a maio­r­ia dos artis­tas não faz parte do pequeno grupo de exceções e que tem que batal­har e ir atrás de con­seguir gan­har o seu pão e de divul­gar o seu tra­bal­ho? Pelo meu con­hec­i­men­to — pos­so estar engana­do — faz muito tem­po, bem antes da idade média, que artis­tas muitas vezes pre­cisavam faz­er out­ra coisa para se sus­ten­tar, além da sua arte, ape­nas não havia na época o car­go de pro­du­tor, divul­gador, etc, então eles acabavam sendo mul­ti-profis­sion­ais sem mes­mo saberem. As exceções tam­bém eram aque­les que, como hoje, con­seguiam viv­er prin­ci­pal­mente — difí­cil diz­er se total­mente, talvez só aque­les que eram “apadrin­hados” por alguém rico, que de cer­ta for­ma os tor­navam súdi­tos de um só um sen­ho­rio — de sua arte, e estes muitas vezes ain­da pas­savam por situ­ações muito difí­ceis. Seria mes­mo essa difi­cul­dade um prob­le­ma atual?

    Out­ro pon­to impor­tante que tam­bém não foi ques­tion­a­do em Profis­são: Músi­co é a qual­i­dade da músi­ca pro­duzi­da. Pode ser que um músi­co nun­ca ven­ha a ter suces­so porque sim­ples­mente ele não pos­sui um públi­co que goste da músi­ca dele, ou ele é tão pequeno que não con­segue sus­ten­tar o artista. E é jus­ta­mente a inter­net que con­segue aju­dar os artis­tas a encon­trarem seu públi­co, que muitas vezes pode estar seg­men­ta­do em várias partes do mun­do. Vejo ela mais como uma solução do que parte do prob­le­ma. Só aqui no Brasil temos dois exem­p­los de músi­cos que con­seguiram chegar a fama graças a inter­net: Mal­lu Mag­a­l­hães e a ban­da Can­sei de ser Sexy. Além dis­so, há vários sites que aju­dam estes a divul­gar seu tra­bal­ho, e até gan­har din­heiro, como o MySpace e o brasileiro Tra­ma Virtual.

    Durante Profis­são: Músi­co são recol­hi­dos depoi­men­tos de vários artis­tas do mun­do inteiro e, em especí­fi­co, as opiniões dos músi­cos Naná Vas­con­ce­los e Philip (tam­bém dono de uma loja de dis­cos na França, pelo que eu pude achar), são geni­ais em suas obser­vações sobre como o mer­ca­do mudou e qual é a real­i­dade do artista ago­ra. Ape­sar dos vários prob­le­mas, o doc­u­men­tário vale a pena ser assis­ti­do jus­ta­mente pela opinião dess­es dois músicos.

    Para mais infor­mações sobre o doc­u­men­tário, vis­ite o site ofi­cial do projeto.

    Só para não ger­ar nen­hum mal enten­di­do: de maneira algu­ma invali­do o tra­bal­ho dos cri­adores do doc­u­men­tário ao expres­sar min­has obser­vações aci­ma. Acred­i­to que opiniões difer­entes são uma óti­ma opor­tu­nidade de diál­o­go e tam­bém de apren­diza­do para todos que par­tic­i­pam da conversa.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=wkXUDfvaLoE

  • ¨Mamonas Pra Sempre¨ estreia 15 anos após aniversário de morte do grupo

    ¨Mamonas Pra Sempre¨ estreia 15 anos após aniversário de morte do grupo

    Mamonas Pra Sem­pre é o primeiro e úni­co filme ofi­cial sobre uma das ban­das mais pop­u­lares dos anos 90. Com direção e pro­dução de Clau­dio Kahns, o doc­u­men­tário rev­ela os basti­dores do maior fenô­meno da músi­ca brasileira, com mate­r­i­al inédi­to, grava­do pelo próprio grupo.

    A car­reira da ban­da de rock cômi­co, com mis­tu­ra de punk rock e influên­cias de gêneros pop­u­lares, durou ape­nas 7 meses (jul.1995 ‑mar.1996 ). Com um úni­co álbum homôn­i­mo, o grupo atingiu a ven­da de mais de 3 mil­hões de cópias no Brasil, sendo cer­ti­fi­ca­do com o Dis­co de Dia­mante, em 1995. Ape­sar do suces­so estron­doso, no auge de suas car­reiras, os inte­grantes da ban­da foram víti­mas de um aci­dente aéreo fatal, em 02 de março de 1996.

    Com mais de 2 mil­hões de espec­ta­dores em 300 shows, o grupo con­ta­giou o país e, ain­da hoje, con­ta com aprox­i­mada­mente 2 mil­hões e meio de fãs em comu­nidades das redes sociais.

    Dis­tribuí­do pela Europa Filmes e em parce­ria com a Rede Record, o filme estreia em maio nos cin­e­mas do país, 15 anos após a morte dos inte­grantes do grupo.

    Mamonas Para Sempre
    Doc­u­men­tário 85′ (2009)
    Direção e Pro­dução: Cláu­dio Kahns

    Sinopse: Mamonas Pra Sem­pre, rec­hea­do de mate­r­i­al inédi­to, nar­ra a história da ban­da que, em menos de dez meses, saiu do anon­i­ma­to para ser um dos maiores fenô­menos da músi­ca brasileira. O filme res­ga­ta a tra­jetória do grupo, os desafios ven­ci­dos e sua ascen­são. Irrev­er­entes, inteligentes, sar­cás­ti­cos, mas, aci­ma de tudo, extrema­mente cria­tivos, os Mamonas viraram o país de cabeça para baixo enquan­to diver­ti­am e uni­am as famílias brasileiras. Após lon­ga pesquisa, foi com­pi­la­do um vas­to arqui­vo de ima­gens inédi­tas, incluin­do cenas do começo da ban­da, basti­dores e gravações dos próprios Mamonas em suas turnês e apre­sen­tações. O resul­ta­do de tudo isso é um filme úni­co, com memórias que até hoje mar­cam a todos.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=dzfMrJGcb4k

  • Crítica: Senna

    Crítica: Senna

    Filmes e doc­u­men­tários sobre cele­bri­dades cos­tu­mam miti­ficar e/ou dis­torcer muito do que real­mente acon­te­ceu, é difí­cil encon­trar um que não seja muito ten­den­cioso. Sen­na (Inglater­ra, 2010), dirigi­do pelo inglês Asif Kapa­dia, é um doc­u­men­tário que uti­liza ape­nas ima­gens de arqui­vo sobre Ayr­ton Sen­na, um dos maiores pilo­tos da história do auto­mo­bil­is­mo, retratan­do de for­ma extra­ordinária um tre­cho de sua vida.

    Sen­na abrange os anos de Ayr­ton como pilo­to de Fór­mu­la 1, des­de sua tem­po­ra­da de estréia, em 1984, até a sua morte pre­coce uma déca­da depois. Difer­ente do que talvez se pode­ria imag­i­nar, o foco não é, em momen­to algum, o con­tro­ver­so tema da sua morte, mas sim na tra­jetória deste homem den­tro e fora das pis­tas de corrida.

    Ayr­ton era bas­tante con­heci­do, prin­ci­pal­mente no Brasil, pelo seu forte lado espir­i­tu­al. Durante Sen­na, ele rela­ta a seguinte exper­iên­cia: “De repente, perce­bi que não esta­va mais dirigin­do o car­ro con­scien­te­mente. Eu esta­va em uma dimen­são difer­ente. Era como se estivesse em um túnel… Eu esta­va muito além do lim­ite, mas con­seguia ir além.”. Uma das primeiras coisas que veio á mente neste momen­to foi o episó­dio “O recorde mundi­al”, dirigi­do por Takeshi Koike, do lon­ga Ani­ma­trix (2003), que mostra um corre­dor que dev­i­do sua excep­cional força de von­tade e esforço para romper com seus próprios lim­ites, tan­tos psíquicos quan­to físi­cos, aca­ba por se desconec­tar soz­in­ho da Matrix e ter um deslum­bre do “mun­do real”.

    Uma car­ac­terís­ti­ca de Sen­na que chama bas­tante atenção é que, difer­ente­mente do que se faz nor­mal­mente em doc­u­men­tários, ele não pos­sui entre­vis­tas em primeiro plano. Os relatos con­ce­bidos pelos famil­iares, ami­gos e pes­soas que acom­pan­haram a vida do pilo­to, são todos feitos em off, enquan­to as ima­gens de arqui­vo são exibidas. Asif Kapa­dia acer­tou em cheio resistin­do à uti­liza­ção deste recur­so, o resul­ta­do ficou muito mais dinâmi­co e rico, pois as ima­gens, muitas delas inédi­tas, valer­am muito mais do que ape­nas as palavras ditas. A tril­ha sono­ra do lon­ga é com­pos­ta basi­ca­mente de músi­ca clás­si­ca instru­men­tal, o que inten­si­fi­ca bas­tante o cli­ma do filme, mas não chega a ser pretenciosa.

    Sen­na não é um doc­u­men­tário somente para fãs da F1, mes­mo uma pes­soa que não con­hece muito a história do pilo­to nem tem qual­quer afinidade com o esporte, como eu, con­segue não só acom­pan­har e enten­der o seu fun­ciona­men­to (e talvez até se inter­es­sar por ele), mas tam­bém se encan­tará com a per­son­al­i­dade forte e deter­mi­na­da de Ayr­ton. Vale a pena assistir!

    Out­ras críti­cas interessantes:

    • Marce­lo For­lani, no Omelete
    • Rubens Ewald Fil­ho, no seu Blog

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=Y9GnfTJApGY

  • Crítica: B1 — Tenório em Pequim

    Crítica: B1 — Tenório em Pequim

    b1 tenorio em pequim

    Muitos doc­u­men­tários brasileiros acabam repetindo a fór­mu­la estilís­ti­ca da TV, como Globo Repórter e muitos out­ros, e se no tema pos­sui uma história de super­ação, já se colo­ca todo aque­le melo­dra­ma para enfa­ti­zar ain­da mais tudo. Feliz­mente, B1 — Tenório em Pequim (Brasil, 2010) dirigi­do por Felipe Bra­ga e Eduar­do Hunter Moura, pas­sa bem longe dessas descrições.

    Mes­mo sendo o úni­co atle­ta do mun­do a ter con­segui­do qua­tro medal­has de ouro con­sec­u­ti­vas nas Paraolimpíadas, o nome Antônio Tenório da Sil­va, judo­ca brasileiro, ain­da é descon­heci­do para grande parte das pes­soas do país (inclu­sive, eu era uma delas). Em B1 — Tenório em Pequim, acom­pan­hamos a tra­jetória do atle­ta des­de sua preparação para ser um dos can­didatos a par­tic­i­par das paraolimpíadas, até a sua luta final em Pequim.

    Para quem nun­ca teve con­ta­to com uma paraolímpia­da, em B1 — Tenório em Pequim vai con­hecer um pouco mais seu fun­ciona­men­to, e perce­berá que ela não é muito difer­ente da olimpía­da tradi­cional. Out­ra coisa inter­es­sante é que tam­bém há pes­soas que ten­tam burlar o sis­tema, só que em vez de ser por dopping, atle­tas fin­gem debil­i­dades, neste caso a difi­cul­dade de enx­er­gar, pois o val­or da medal­ha é igual, no mun­do esporti­vo. Além dis­so, tam­bém é expli­ca­do o porque do nome B1, pre­sente no títu­lo do filme, e qual as impli­cações dele.

    Durante todo o doc­u­men­tário, somos não somente apre­sen­ta­dos a todo esse mun­do do judô prat­i­ca­do por Tenório, mas tam­bém a sua própria pes­soa, den­tro e fora dos tatames. A par­tir de entre­vis­tas feitas para out­ras pes­soas, durante a fil­magem de B1 — Tenório em Pequim, e por depoi­men­tos feitos para o próprio filme, con­hece­mos um pouco mais da sua história, como por exem­p­lo dos aci­dentes que o tornaram cego, mas nun­ca de maneira melo­dramáti­ca. Parte do filme tam­bém foca em out­ros luta­dores, ape­sar de no final não ficar­mos mais saben­do qual foi o resul­ta­do deles na competição.

    Com a câmera muitas vezes estáti­ca, pos­suí­mos uma visão mais ampla das lutas, que dá uma liber­dade maior de escol­ha no que focar. Para quem não gos­ta muito do esporte, pode achar cer­tos momen­tos meio cansati­vo essas cenas, mas não chega a ser ente­di­ante. No final do filme há uma grande mudança de rit­mo, enquan­to na maior parte do tem­po temos prati­ca­mente só som ambi­en­tal, com uma tril­ha sono­ra bem agi­ta­da e e tomadas mais ráp­i­das, enfa­ti­zan­do o grande momen­to da com­petição, que aca­ba geran­do um estran­hamen­to. Além dis­so, há todo uma con­strução de um sus­pense total­mente desnecessário a respeito do resul­ta­do da com­petição, ape­sar de haver uma toma­da com uma saca­da muito boa.

    Um dos grandes prob­le­mas téc­ni­cos da equipe foi a difi­cul­dade em gravar o som, prin­ci­pal­mente pelo grande número de barul­ho no ambi­ente, e em alguns momen­tos as vozes dos per­son­agens é baixa demais, difi­cul­tan­do o entendi­men­to de cer­tos diál­o­gos. Talvez isso ten­ha se dado pelo uso de um equipa­men­to mais sim­ples, por ser uma pro­dução menor, mas mes­mo assim, se con­seguiu tirar um bom proveito dele. Um recur­so inter­es­sante uti­liza­do em cer­tos momen­tos do filme, foi que enquan­to a câmera foca­va uma luta, ouvíamos em destaque a voz do téc­ni­co. Isto se deve a uma afir­mação fei­ta por Tenório, durante o lon­ga, dizen­do que durante a luta a sua audição fica foca­da na voz do téc­ni­co, que é uma das coisas mais impor­tantes a se faz­er como luta­dor. Aliás, durante B1 — Tenório em Pequim, tam­bém somos apre­sen­ta­dos a voz de um pro­gra­ma de leitu­ra de tex­to para com­puta­dor, lendo cer­tos tre­chos do diário do Tenório, o que reforça o tem­po inteiro a importân­cia do som na sua vida.

    B1 — Tenório em Pequim é uma óti­ma opor­tu­nidade para não só con­hecer mais sobre uma figu­ra impor­tante no esporte brasileiro e o próprio fun­ciona­men­to das paraolimpíadas, mas tam­bém para acom­pan­har uma história de luta, per­sistên­cia e super­ação ape­sar de todas as difi­cul­dades e limitações.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=3C4njl-N45M

  • Promoção B1 – Tenório em Pequim ENCERRADA: ganhe convites para o filme

    Promoção B1 – Tenório em Pequim ENCERRADA: ganhe convites para o filme

    b1 tenorio em pequim

    O sorteio já foi real­iza­do e os vence­dores serão comu­ni­ca­dos por email.

    Para mar­car o lança­men­to de B1 – Tenório em Pequim, que estreia dia 3 de setem­bro, o inter­ro­gAção, jun­ta­mente com a equipe de pro­dução do filme, estarão sorte­an­do 5 pares de con­vites para o filme. Pro­moção vál­i­da para todo Brasil.

    A pro­moção vai até dia 12 de Setem­bro e os vence­dores serão noti­fi­ca­dos por email.

    Sinopse: O que faz um campeão? Per­se­ver­ança, sac­ri­fí­cio e dis­ci­plina somam-se na jor­na­da de Tenório, judo­ca profis­sion­al clas­si­fi­ca­do como B1 – cego total. Iso­la­men­to e solidão são alguns dos desafios enfrenta­dos por este brasileiro espetac­u­lar em um pro­je­to inédi­to, a con­quista de uma quar­ta medal­ha de ouro em Paraolimpíadas. Fil­ma­do no Brasil, França e Chi­na, o doc­u­men­tário “B1 – Tenório em Pequim” mer­gul­ha na sen­si­bil­i­dade de um per­son­agem explo­si­vo e tocante, e nar­ra por um pon­to de vista que nada tem de defi­ciente a preparação para este grande com­bate, numa emo­cio­nante viagem cinematográfica.

    O sorteio já foi real­iza­do e os vence­dores serão comu­ni­ca­dos por email.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=8Pc-2IMzgoQ

  • Senhora Liberdade

    Senhora Liberdade

    liberdade

    No próx­i­mo dia 06 de agos­to, estréia nos cin­e­mas o filme 400 con­tra 1, de Caco Souza, que ten­ta res­gatar o históri­co de William da Sil­va Lima, um dos prin­ci­pais pro­tag­o­nistas da for­mação da orga­ni­za­ção crim­i­nosa Coman­do Ver­mel­ho, no Rio de Janeiro.

    Em Sen­ho­ra Liber­dade, cur­ta-metragem tam­bém de Caco Souza, a per­son­al­i­dade de William é trata­da de for­ma mais intí­ma e traz o inter­es­sante enga­ja­men­to políti­co e int­elec­tu­al do pre­so que está há em regime fecha­do há mais de 30 anos e hoje bus­ca a liber­dade condicional.

    No for­ma­to de doc­u­men­tário, Sen­ho­ra Liber­dade é de con­cepções sim­ples porém rico em con­teú­do, nos fazen­do com­preen­der as raízes da atu­al vio­lên­cia urbana brasileira e enten­der como, ain­da hoje, ecoam situ­ações que sur­gi­ram nos momen­tos de repressão nos piores anos da ditadu­ra militar.

    httpv://www.youtube.com/watch?v=-lCHgA93XhQ

    httpv://www.youtube.com/watch?v=KvypQZ0nK8o