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  • Eu confesso, sou poeta | Crônica

    Eu confesso, sou poeta | Crônica

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    Cerâmi­ca de Marce­lo Tokai

    Chegar em qual­quer lugar, mes­mo um ambi­ente prepara­do para rece­ber poe­sia é um desafio. Ten­ho que des­faz­er expec­ta­ti­vas. A primeira, em relação à etnia japone­sa. Vou logo dizen­do: não escre­vo haicai. Depois, explicar que sou poeta, não poet­i­sa. “Poeta, porque em poet­i­sa todo mun­do pisa”, como diz Leila Mic­co­l­is.

    Óbvio: “japone­sa” escreve haicai. Aí é que está: não sou japone­sa. Nasci no Brasil, nun­ca fui ao Japão. Meus qua­tro avós nasce­r­am no Japão. Por isso, sou san­sei: a ter­ceira ger­ação de imi­grantes japone­ses no Brasil. Até há um tem­po atrás teria paciên­cia para explicar o que é um nikkei. Palavra japone­sa que des­igna o descen­dente de japone­ses nasci­do fora do Japão. No Brasil, nipo-brasileiros. Nos EUA, nipo-amer­i­canos. No Peru, nipo-peru­anos. Netos de imi­grantes japone­ses são nativos do país que rece­beu seus avós.

    Mas ascendên­cia japone­sa “forçou a bar­ra” para que eu ori­en­tasse ofic­i­nas sobre haicai. Aí, pas­sei a estu­dar o tema e a escr­ev­er mais haicai. Não sou hai­jin — haicaís­ta prat­i­cante. Meus poe­mas ain­da não tem hai­mi — o sabor, aqui­lo que os mestres — Mat­suo Bashô, Kobayashi Issa, Yosa Buson e out­ros — diziam ser a essên­cia do poema.

    Teruko Oda, Masuda Goga e Nempuku Sato
    Teruko Oda, Masu­da Goga e Nem­puku Sato

    Nun­ca fiz parte de grêmios literários que prati­cam haicai. Con­heço Teruko Oda, sobrin­ha de Masu­da Goga, fun­dador do primeiro grêmio de haicai do Brasil, o Ipê. Goga apren­deu com Nem­puku Sato, o maior propa­gador do haiku o haicai tradi­cional japonês. Em 2008, para divul­gar o haiku no Brasil, pro­movi, pelo Nikkei Curiti­ba, o Con­cur­so Nacional de Haicai Nem­puku Sato, em parce­ria com a Sec­re­taria da Cul­tura do Paraná.

    Admiro poet­as que, com liber­dade de espíri­to trans­puser­am o haicai para o Brasil: Hele­na Kolody, Mil­lôr Fer­nan­des, Paulo Lemins­ki e Alice Ruiz. Admiro menos Guil­herme de Almei­da e descon­heço Afrânio Peixo­to e Fan­ny Dupré, cita­dos em estu­dos sobre a história do haicai no Brasil.

    A jor­nal­ista e poeta Karen Debertólis, em entre­vista para o pro­gra­ma de rádio “Con­tra­ca­pa”, disse que meus poe­mas pare­cem encadea­men­tos de haicais. Espé­cie de ren­ga, que é mes­mo um encadea­men­to de poe­mas. Mes­mo com essa pista, me sen­tia aliení­ge­na na poe­sia japonesa.

    eu-confesso-sou-poeta-cronica-livro-bichoNos anos 90, fiz cur­so de vídeo e a pro­fes­so­ra, doc­u­men­tarista de São Paulo, disse algo curioso: que eu, ten­do raízes japone­sas não pre­cisa­va escr­ev­er haicai ou can­tar em karaokê. Podia escr­ev­er letras de bal­adas e ser fã de jazz. Gostei do que ela disse. Me enco­ra­jou a escr­ev­er poe­sia em com­posições ready-made, como diz o críti­co Mar­tin Palá­cio Gam­boa, na antolo­gia argenti­na “Bicho de Siete Cabezas”, para a qual tive a hon­ra de ser sele­ciona­da e foi lança­da no começo desse ano, em Buenos Aires.

    O que não sabia e fui apren­der estu­dan­do, é que na poe­sia japone­sa é comum a com­posição de tex­tos em frag­men­tos, seja em diários (nik­ki), “ensaios” (zui­hit­su) ou poe­sia (haiku, tan­ka e out­ras for­mas). Um ami­go, de tan­to de ler meus poe­mas no Face­book, pôs na cabeça que ia pesquis­ar poe­sia con­tem­porânea de Curiti­ba. E disse que encon­trou a palavra sol em muitos de meus poemas.

    Perce­bi que, de modo trôpego e sem forçar a bar­ra do enraiza­men­to, estou voltan­do para um lugar que nun­ca pareço ter saí­do. E assim retorno, caiçara japone­sa, a uma onda fei­ta de lágri­mas. No Brasil a expressão é pie­gas, mas em japonês já foi usa­da em poe­ma, só por causa do tro­cadil­ho: onda é nami, e lágri­mas, nami­da. Não existe nada mais con­fortáv­el do que voltar pra casa, mes­mo que a casa seja a toda hora sacu­d­i­da por tsunamis e ressacas.

  • Livro: Poesia é Não — Estrela Leminski

    Livro: Poesia é Não — Estrela Leminski

    Ler poe­sia é como ler prosa? Ler poe­sia como se lê prosa é desler? Para ler poe­sia ler e rel­er ao relen­to, desli­gan­do o relé do pen­sa­men­to. Desli­gar a face, reli­gar o ver­so. No epi­cen­tro da poe­sia a palavra, a músi­ca, a imagem movem ter­re­mo­tos de imag­i­nação. Para uma sociedade cen­tra­da na fun­cional­i­dade da palavra, que não admite ambigu­idade sub­je­ti­va, ou a comu­ni­cação por exces­so, poe­sia é um desvio que excede a palavra em rit­mo e imagem.

    Fiquei pen­san­do isto quan­do li o Poe­sia é Não (Ilu­min­uras, 2011), de Estrela Lemins­ki. Primeiro li os poe­mas. Depois, a auto­bi­ografia da poeta, nas orel­has do livro. E fol­he­an­do, vi aqui e ali pági­nas com­postas em nuances de cores e tipos difer­entes. Depois li a resen­ha de Mar­cos Pasche no Jor­nal Ras­cun­ho. “Fal­tou Poe­sia”, avi­sou o críti­co, logo no títu­lo. E escreveu um arti­go ante­ci­pan­do sua defe­sa por não criticar a poe­sia e sim a per­son­al­i­dade de Estrela, fil­ha de um casal de poet­as céle­bres. O modo que o críti­co escol­heu é um modo de desler poe­sia, con­cen­tran­do-se na per­son­al­i­dade do poeta e não em sua poe­sia, nem sem­pre con­ti­da ape­nas nos versos.

    Estrela joga com o títu­lo Poe­sia é Não, indi­can­do o que a poe­sia não é. Catarse, obje­to útil, notí­cia, mer­cado­ria, ras­cun­ho de gave­ta, protesto, influên­cia. A neg­a­tivi­dade se lê nos escritos, nas pági­nas grá­fi­cas. Ao deixar de lado o que está escrito e pas­sar a ler o códi­go visu­al, a leitu­ra é outra.Papel de embrul­ho, doc­u­men­to ofi­cial, jor­nal, livro, operária, con­ta e pagado­ra de con­ta, gave­ta, pan­fle­to, ver­bete de dicionário, lit­er­atu­ra, sig­no, as pági­nas grá­fi­cas apon­tam para o que a poe­sia não é. O que ela é , então ?

    Poe­sia é ver o ver­so, o aves­so do que a diz palavra. Se a palavra diz “blogue ado­les­cente”, pode ser que a poe­sia diga, como Estrela, a ale­gria pelo Não, ale­gria de quem cresce e con­hece os praz­eres de viv­er, praz­er da comunhão pela palavra. Ser poeta é não parar de ado­lescer, é amadure­cer ado­lescen­do, envel­he­cer ado­lescen­do, mor­rer ado­lescen­do. Ser poeta é não desi­s­tir da infân­cia para se pre­ocu­par em como escr­ev­er, escr­ev­er bem, escr­ev­er para um públi­co, escr­ev­er sagran­do o já sagra­do. Escr­ev­er poe­sia é desescr­ev­er, é não saber, não acer­tar o rit­mo, ler livros de poe­sia e esque­cer, saber lín­guas e con­fun­di-las com a lín­gua da boca. Sem esquec­i­men­to, ignorân­cia, erro, a poe­sia é pobre, por que uma vida per­fei­ta é pobre, ou impos­sív­el. Quer­er que uma poeta jovem não cresça é ideia de quem acha que todo mun­do deve nascer velho.

    Juven­tude nem sem­pre é vital­i­dade. Vel­hice não é sinôn­i­mo de decrepi­tude. O domínio sobre a lin­guagem, que os críti­cos esper­am dos bons (?) escritores não é sinal de maturi­dade. É sinal de quem tem medo de cri­ar, de quem se pro­tege por trás da ter­mi­nolo­gia letra­da. O jargão int­elec­tu­al não inter­es­sa para a maio­r­ia dos mor­tais. A maio­r­ia silen­ciosa, ao con­trário do que pen­sam os críti­cos, ama a poe­sia — ama ouvir canções pop­u­lares, por exem­p­lo. A maio­r­ia silen­ciosa ama escr­ev­er ver­sos, na ado­lescên­cia cronológ­i­ca ou tar­dia. E a maio­r­ia silen­ciosa se enver­gonha de amar a poe­sia, quan­do o críti­co se lev­an­ta em nome do cânone literário e pre­ga que é pre­ciso ter ver­gonha por amar poe­sia e escr­ev­er bobagens que qual­quer um escreve quan­do o coração dispara.

    Atirem o poeta ao mar”, diz um dos ver­sos de Estrela, evo­can­do o pai, que escreveu um livro juve­nil (Guer­ra den­tro da gente, Sci­p­i­one) no qual um poeta, con­sid­er­a­do o pal­haço da trip­u­lação de uma embar­cação é ati­ra­do ao mar. A úni­ca solução para o poeta é atirá-lo ao mar, já que o poeta é inútil em qual­quer sociedade. Que faz­er com os que amam seus encan­ta­men­tos? Não se pode ati­rar os amadores de poe­sia ao mar, não sobraria mar para todos. Prefer­ív­el diz­er ao críti­co não leia seus poe­mas e con­dene a per­son­al­i­dade do poeta. Assim ape­nas um será afo­ga­do por suas más palavras.

    Mas o poeta é trezen­tos ou trezen­tos mil, e seus ver­sos se des­do­bram entre as palavras de ordem. Ape­sar das advertên­cias do críti­co, os leitores atrav­es­sam o tex­to e seus pre­tex­tos e saem atrás de mira­gens. Para os que amam se diver­tir, a poe­sia de Estrela é, sim. 

    *Marília Kub­o­ta, além de colab­o­rado­ra do inter­ro­gAção, escreve no seu blog Micrópo­lis.

  • Entrevista Lau Siqueira: Poesia a vida inteira

    Entrevista Lau Siqueira: Poesia a vida inteira

    O poeta Lau Siqueira nasceu em Jaguarão (RS), em 21 de março de 1957. Começou a pub­licar poe­mas no Jor­nal Cor­reio do Povo, de Por­to Ale­gre, nos anos 70. Seu primeiro livro foi O Comí­cio das Veias, pub­li­ca­do em 1993. Seguem O Guardador de Sor­risos (1998), Sem Meias Palavras (2000). Par­ticipou das antolo­gias Mário Quin­tana – 1985, Na Vira­da do Sécu­lo — Poe­sia de Invenção no Brasil (Landy, 2002) e Agen­das da Tri­bo. Há 20 anos mora em João Pes­soa (PB), e há out­ro par de anos man­tém o blogue Poe­sia Sim

    Lau Siqueira tam­bém esteve em Curiti­ba lançan­do o livro Poe­sia Sem Pele.

    Teu nome é Lau­re­ci Siqueira . De onde vem o “ Lau”?

    O que é o nos­so nome? É o que está na cédu­la de iden­ti­dade ou é o nome no qual as pes­soas nos recon­hecem? Nem sem­pre essas coisas coin­ci­dem. Acho que este é o meu caso. Na min­ha iden­ti­dade está escrito Lau­recí Siqueira dos San­tos. Foi assim que meu pai me bati­zou. No entan­to, nem ele me chama­va pelo nome de batismo. Meu apeli­do de infân­cia era Dido. Até hoje alguns ami­gos de infân­cia lá de Jaguarão, me chamam assim. O “codi­nome” Lau foi se empoderan­do nat­u­ral­mente da min­ha existên­cia e da min­ha inex­istên­cia. Tudo porque quan­do apre­sen­ta­do às pes­soas a con­fusão apare­cia logo: Laude­cir, Lau­re­mi, Laude­ci?… As pes­soas sim­pli­fi­cavam nat­u­ral­mente, rap­i­da­mente, reduzin­do para Lau. Isso acon­te­ceu muito com cole­gas de tra­bal­ho e na esco­la, prin­ci­pal­mente, mas em out­ros espaços tam­bém . Depois veio o primeiro livro e eu pen­sei que era mais coer­ente assi­nar o nome pelo qual eu já esta­va con­heci­do entre os ami­gos. Enfim, se tudo tem uma história, esta min­ha história é assim. O nome tam­bém expli­ca uma poe­sia que bus­ca se despir das sonori­dades desnecessárias. Assim, o meu nome literário é tam­bém mín­i­mo e ao mes­mo tem­po de den­sa sonoridade.

    Você nasceu em Jaguarão , pas­sou a infân­cia, lá, depois morou em Por­to Ale­gre ? Con­ta um pouco sobre a tua juventude.

    É ver­dade, nasci em Jaguarão, cidade históri­ca e muito boni­ta, às mar­gens de um rio (Rio Jaguarão) que cor­ta a fron­teira com o Rio Uruguay. A cidade tem uma vida cul­tur­al inten­sa, pro­duzin­do uma Feira Bina­cional do Livro onde farei uma sessão de autó­grafos no mês de novem­bro. Mor­ei lá até os 15 anos e fui para Por­to Ale­gre, de onde voltei no final do serviço mil­i­tar para aju­dar a cuidar do meu pai que esta­va muito doente. Assim, fiquei nova­mente em Jaguarão no ano de 1977, até que meu pai mor­reu no dia 3 de dezem­bro e em janeiro de 78 voltei para Por­to Ale­gre onde mor­ei nova­mente até me mudar para a Paraí­ba, “de mala e cuia”, em 1985. Este é o resumo da ópera.

    Por que mudou do Rio Grande para a Paraíba?

    Por motivos muito par­tic­u­lares. Eu casei na Paraí­ba, vivi casa­do 13 anos e depois divor­ciei. Mas aí já tin­ha duas fil­has para dar con­ta dos meus afe­tos e das min­has respon­s­abil­i­dades de pai apaixon­a­do e fui fican­do. Hoje ten­ho uma neta, tam­bém por aqui. Além dis­so, o povo paraibano é muito espe­cial, muito acol­he­dor e sem­pre me sen­ti queri­do por aqui. Hoje me sin­to um ser­tane­jo do pam­pa ou um pam­peano do sertão que mora num dos litorais mais belos do País. Não é difí­cil largar tudo e vir pra cá. Os encan­tos são muitos. A cap­i­tal da Paraí­ba é a ter­ceira mais anti­ga do país. É uma das cidades mais verdes do país e ain­da não está assim tão caóti­ca. Aqui se con­vive com pas­sa­do e futuro numa mes­ma avenida. 

    Em Por­to Ale­gre você con­heceu Mário Quin­tana ? Que lem­brança tem dele ? Que out­ros poet­as foram impor­tantes para sua for­mação e informação ?

    Mário era uma per­son­al­i­dade das ruas de Por­to Ale­gre. Quem andou pelo cen­tro da cap­i­tal gaúcha até os anos 80, pelo menos algu­ma deve ter vis­to o poeta cam­in­han­do pela Rua da Pra­ia, pelas ruas do cen­tro. Ele tin­ha hábitos reg­u­lares. Mora­va no Hotel Majes­tic, onde hoje é a Casa de Cul­tura Mário Quin­tana. Toma­va café sem­pre no anti­go Ryan, gosta­va de uma sal­a­da de fru­tas no Mer­ca­do Cen­tral. Eu vi Mário muitas vezes, na Feira do Livro, na anti­ga Livraria do Globo, na Bib­liote­ca Públi­ca onde até assisti um recital com ele, nos anos 80. Tam­bém tive o priv­ilé­gio de entre­vistá-lo, jun­ta­mente com a jor­nal­ista Joana Belarmi­no, em janeiro de 1987. Enfim, além dis­so, podia encon­trá-lo nos livros que escreveu e traduz­iu. A primeira tradução de Proust que li, foi sua. Ele tra­bal­ha­va no jor­nal Cor­reio do Povo e quan­do o jor­nal fechou, pude vê-lo em uma passea­ta de jor­nal­is­tas pelas ruas de Por­to Ale­gre. Acho que foi sim um poeta impor­tante para a min­ha for­mação, mas eu admiro muitos poet­as. Inclu­sive me sin­to a von­tade para diz­er que não gos­to de tudo que leio nos poet­as que admiro. Sin­to da mes­ma for­ma quan­to aos meus con­tem­porâ­neos. Sou um escritor abso­lu­ta­mente aber­to às influên­cias e não me pre­ocupo em ser engoli­do por algum esti­lo. Acho que quan­to maiores e mais diver­si­fi­cadas as leituras, mais pos­si­bil­i­dades temos de con­stru­ir uma lin­guagem sin­gu­lar, que não seja a mais pura e bela diluição, a imi­tação de algum poeta ama­do. Enfim, os poet­as que mais me fasci­nam são os que cam­in­ham no fio da naval­ha, os que bus­cam o extremo, a margem do erro… o risco permanente.

    E a poe­sia, quan­do se tornou impor­tante? Ao con­trário de tan­tos, você não começou escreven­do poesia…

    A poe­sia foi se tor­nan­do grada­ti­va­mente impor­tante pra mim. Na ado­lescên­cia eu detes­ta­va poe­sia. Apren­di a gostar com os român­ti­cos Cas­tro Alves e Fagun­des Varela por motivos abso­lu­ta­mente extra-literários. Um pelo dis­cur­so agu­do con­tra o sitema de escrav­is­mo da monar­quia brasileira, out­ro pela dor de ter per­di­do um fil­ho. Dig­amos que não come­cei a escr­ev­er poe­sia, mas tam­bém não come­cei escreven­do gênero algum. Escr­ev­er era ape­nas uma for­ma de res­pi­rar mel­hor num mun­do em que o silên­cio ger­a­va o medo e tudo era de uma vio­lên­cia assus­ta­do­ra. Cresci numa área de segu­rança nacional, em ple­na ditadu­ra. Acho que isso tudo me ensi­nou uma for­ma de ver as coisas. Escr­ev­er é um ato úni­co e con­tín­uo. Sin­to que des­de sem­pre estive escreven­do o mes­mo livro, mes­mo já ten­do pub­li­ca­do cin­co inédi­tos e um pela Coleção Dul­cinéia Cata­do­ra que con­sidero, talvez, o mais impor­tante de todos. Procuro sem­pre fugir dos rótu­los e, pra diz­er a ver­dade, algu­mas vezes ques­tiono até mes­mo o fato de ser chama­do de poeta. O que é ser poeta? Eu acho que ser poeta é exata­mente não ser.

    Par­ticipou do movi­men­to Arte Postal ? O que era este movimento ?

    Como se diz aqui no Nordeste, fui me metendo meio que de “enx­eri­do” e acabei tro­can­do toques com nomes impor­tantes do movi­men­to arte-postal e com artis­tas da van­guar­da visu­al, como Paulo Brusky, Sama­r­al, Hugo Pontes, Moa­cy Cirne e Con­stança Lucas. Pes­soas que depois acabei con­hecen­do pes­soal­mente (menos Sama­r­al que fale­ceu pre­mat­u­ra­mente) e hoje são meus ami­gos. Con­heci mui­ta gente bacana, mui­ta cri­ação na área da Poe­sia Visu­al que cir­cula­va como se estivesse ante­ci­pan­do o que hoje temos na inter­net. Eu envi­a­va fanzines que pro­duzia para divul­gar min­ha pro­dução poéti­ca, min­has exper­iên­cias, mes­mo antes de sequer pen­sar em pub­licar livros. Fazia um orig­i­nal numa fol­ha de ofí­cio e imprim­ia em aero­gra­mas, encam­in­han­do não ape­nas para out­ros mil­i­tantes da arte postal, mas sele­cio­nan­do aleato­ri­a­mente endereços nas vel­has lis­tas tele­fôni­cas e encam­in­han­do cor­re­spondên­cias poéti­cas, geral­mente anôn­i­mas. Enfim, no meu caso foi da for­ma como hoje se envia spam pela internet.

    Você tra­bal­hou na sec­re­taria de cul­tura de João Pes­soa ? Que car­go exerceu ? Quais os feitos mem­o­ráveis de sua pas­sagem por lá ?

    Na ver­dade, fui o dire­tor exec­u­ti­vo da Fun­dação Cul­tur­al de João Pes­soa – FUNJOPE, entre 2007 e 2008. É a Fun­dação que dirige as políti­cas de cul­tura na cidade. Não temos Sec­re­taria Munic­i­pal de Cul­tura aqui. De 2005 a 2006, eu era o dire­tor adjun­to na gestão do ator Luiz Car­los Vas­con­ce­los que fez o médi­co em Carandiru, Baile Per­fuma­do e out­ros filmes. Ele se afas­tou para fil­mar Pedra do Reino, na Rede Globo e eu assu­mi. Depois veio o Chico Cesar e ago­ra a Fun­dação é dirigi­da por Mil­ton Dor­nel­las, um ami­go músi­co dos bons que foi meu adjun­to. Por­tan­to, tive­mos teatro, lit­er­atu­ra e músi­ca na direção da Fun­dação nos últi­mos anos. Olha, para falar dos feitos mem­o­ráveis, não sei se ten­ho jeito. Até porque ess­es feitos não são meus. Vou falar de algu­mas coisas que con­sidero rel­e­vantes, como ter cri­a­do o depar­ta­men­to de Lit­er­atu­ra na Fun­dação, coisa que antes não exis­tia; tam­bém assinei jun­ta­mente com o secretário da Edu­cação da época, Wal­ter Galvão, a cri­ação da primeira bib­liote­ca públi­ca do municí­pio de João Pes­soa. Na ver­dade, lev­a­mos arte e cul­tura para prati­ca­mente todos os bair­ros da cidade e desta­co aí o pro­je­to Cir­cuito Cul­tur­al das Praças que até hoje visa aproveitar os anfiteatros que foram cri­a­dos pela Prefeitu­ra nas praças públi­cas para apre­sen­tação sem­anal de gru­pos da cidade, em todas as áreas, em todas as estéti­cas. Tra­bal­hamos muito pela preser­vação da diver­si­dade cul­tur­al, pela preser­vação das tradições da cul­tura pop­u­lar, dos bens ima­te­ri­ais, trazen­do para a cena expressões que se encon­travam mar­gin­al­izadas, como as Cam­bindas, o Cav­a­lo Mar­in­ho, o Boi de Reis, o Coco de Roda, o Babau, o Coco de Embo­la­da, o tradi­cional for­ró pé-de-ser­ra que hoje Chico Cesar bus­ca preser­var no Esta­do, enquan­to Secretário de Cul­tura da Paraí­ba. Até mes­mo o Cordel anda­va deix­a­do de lado porque a gestão ante­ri­or bus­ca­va preser­var as ações de pão e cir­co, deixan­do a cul­tura na mín­gua. Nós afir­mamos as políti­cas de cul­tura den­tro da gestão. Pau­ta­mos politi­ca­mente a cul­tura na cidade. Dialog­amos com a cena con­tem­porânea, apoian­do a cri­ação de even­tos under­grounds ou pop­u­lares, aju­damos a con­sol­i­dar aqui o Fes­ti­val de Cin­e­ma de Lín­gua Por­tugue­sa, o CINEPORT, imple­men­ta­mos ofic­i­nas de arte pela cidade inteira, bus­camos a qual­i­dade musi­cal para os nos­sos even­tos de verão que hoje ref­er­en­ci­am João Pes­soa nacional­mente. A cidade tem hoje um dos mais impor­tantes fes­ti­vais de verão do país, o Estação Nordeste. Na ver­dade tudo isso foi fru­to de um debate cole­ti­vo que vin­ha se for­man­do através dos anos, nos instru­men­tos da luta dos artis­tas, como o Musi­clube da Paraí­ba, nas idéias do gru­pos como Jaguaribe Carne, com Pedro Osmar, Chico Cesar e Paulo Ró, de pen­sadores e gestores da cul­tura paraibana como Car­los Aran­ha e Fer­nan­do Abath… Enfim, bus­camos preser­var a iden­ti­dade cul­tur­al nordes­ti­na e dialog­ar com a con­tem­po­ranei­dade. São essas as idéias que ain­da prevale­cem por lá. Não são coisas min­has, relevân­cias min­has, mas questões cole­ti­vas, debati­das e imple­men­tadas cole­ti­va­mente. Por­tan­to, estive den­tro de um proces­so e não fiz nada soz­in­ho. E esse é o que foi o difer­en­cial e que ain­da está sendo. Foi uma gestão de com­pan­heiros e con­tin­ua sendo uma gestão de com­pan­heiros e com­pan­heiras. Como diz Chico Cesar, no meu tem­po, eu fui “ape­nas o orde­nador de despe­sas”. (risos)

    Para que ou para quem serve a poesia ?

    A poe­sia não serve para abso­lu­ta­mente nada, ain­da bem. Não existe nada mais inútil que a dana­da da poe­sia. Para quem serve? Sei lá… acho que serve de pano de fun­do aos que curtem jog­ar amare­lin­ha com psiquia­tras que inves­tigam as pro­fun­dezas do espíri­to humano.

    Um poeta pre­cisa ter grupo, site, blogue, livro , ser dinâmi­co, ati­vo, empreende­dor ? Pre­cisa gan­har prêmios, rece­ber bol­sas de cri­ação literária e coisas tais ?

    Um poeta pre­cisa ter con­sciên­cia do seu ofí­cio que é: tra­bal­har, tra­bal­har, tra­bal­har… Tra­bal­har para sus­ten­tar o cadáver desajeita­do que é e tra­bal­har exaus­ti­va­mente a palavra, escreven­do ou não. Então ele pode ter grupo, pode ter blog, ser dinâmi­co, ati­vo, pas­si­vo, malu­co, empreende­dor, bundão… Ele só não pode achar que já está pron­to, que já é uma cele­bri­dade por ser razoavel­mente con­heci­do ou elo­gia­do pelos ami­gos. Um poeta nun­ca é uma cele­bri­dade. Pelo menos, não deve pen­sar que é. Porque aí ele terá mor­ri­do e será ape­nas uma camisa e uma calça flu­tuan­do pelas ruas em bus­ca de algum tipo de imor­tal­i­dade. O poeta não pode ter medo de arriscar-se. Ser poeta é não ter medo do abis­mo, ser poeta é cor­rer riscos per­ma­nen­te­mente. É não ter medo do ridícu­lo. Ele pode até rece­ber prêmios, bol­sas de cri­ação literária, mas acho com­pli­ca­do alguém achar que pode escr­ev­er um grande livro ape­nas porque rece­beu uma bol­sa de cri­ação literária. Poe­sia é como diz meu queri­do poeta Ronald Augus­to, “coisa nen­hu­ma” e por­tan­do o poeta tem que estar pre­ocu­pa­do é com coisa nen­hu­ma mes­mo. O poeta pre­cisa viv­er inten­sa­mente a vida (como qual­quer pes­soa), viv­er pro­fun­da­mente a palavra e bus­car exper­i­men­tar esse mis­tério que é a pul­sação dos seus movi­men­tos, dos seus sig­nifi­ca­dos den­tro da invenção poéti­ca, den­tro das pos­si­bil­i­dades de trans­gressão dos próprios processos.

    Você lançou teu livro Poe­sia sem Pele na Sem­ana Anti­man­i­co­mi­al, na Paraí­ba. Como a lou­cu­ra pode ser arte na cidade ?

    Sim, acho que a poe­sia não pode ser enga­ja­da — emb­o­ra pos­sa ser temáti­ca. No entan­to, o poeta pode escol­her entre ser um cidadão enga­ja­do ou não. Eu estou enga­ja­do na Luta Anti­man­i­co­mi­al, con­tra o anti­go e crim­i­noso mod­e­lo dos choques, das lobot­o­mias… ações que viti­maram pes­soas do meu mais pro­fun­do afe­to. Des­de muito novo estou enga­ja­do nas questões humanas. Na ver­dade eu sabia e sei que cuidar do out­ro é cuidar de si mes­mo. E acho que a arte é uma das curas da humanidade. Por isso, a lou­cu­ra pode ser arte na cidade.

    quar­ta capa

    o poeta

    é o que bus­ca na palavra

    a dimen­são do átomo

    o silên­cio extremo

    por detrás de cada fato

    o poeta é o etéreo e o ácido

    na pele dos val­ores estáticos

    estéti­cos são seus baralhos

    o poeta é o vapor bara­to e o

    lance de dados

    o aca­so e o atalho

    macalé e mallarmé

    no mes­mo saco

    o poeta é um guapo

    (de: POESIA SEM PELE , Casa Verde, 2011. Pedi­dos pelo email: poesiasempele@gmail.com)