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  • O Lobo de Wall Street (2013), de Martin Scorsese | Crítica

    O Lobo de Wall Street (2013), de Martin Scorsese | Crítica

    o-lobo-de-wall-street-2013-de-martin-scorsese-critica-1Con­sid­er­a­da como um dos setes peca­dos cap­i­tais, a ganân­cia é um sen­ti­men­to cuja origem está pro­fun­da­mente enraiza­da na nos­sa história como seres humanos. Sendo muito cul­tua­da em cer­tos cír­cu­los de negó­cios, a cobiça é muitas vezes vista como essen­cial para quem aspi­ra ser bem suce­di­do. “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, EUA, 2013), novo filme do reno­ma­do dire­tor Mar­tin Scors­ese, é uma odis­seia no mun­do de um grupo de cor­re­tores de Wall Street, onde a ambição desme­di­da impera sem qual­quer restrições.

    Basea­do na vida do cor­re­tor Jor­dan Belfort (Leonar­do DiCaprio), cuja tra­jetória foi reple­ta de dro­gas, exces­sos e fraudes, acom­pan­hamos sua evolução de tra­bal­hador inocente vin­do de uma família pobre para mil­ionário dono de uma grande empre­sa. Jor­dan é um ver­dadeiro “self made man”, que vende sua tra­jetória como exem­p­lo da con­cretiza­ção do son­ho amer­i­cano. Afi­nal, segun­do ele, quem não quer ficar rico?

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    A super equipe de vende­dores de Belfort

    Suas com­petên­cias como vende­dor vão muito além da sua área de atu­ação, e seu prin­ci­pal pro­du­to é ele mes­mo. A plateia de Belfort não é for­ma­da só por seus clientes e fun­cionários, que muitas vezes o ado­ram quase como um deus, mas tam­bém pelo próprio espec­ta­dor do filme. Através de várias falas dire­ta­mente para câmera, Jor­dan não está só con­tan­do a sua história, mas vendendo‑a para você, crian­do sim­pa­tia e gan­han­do sua con­fi­ança. Ao mes­mo tem­po que suas ati­tudes são intol­eráveis, é difí­cil não sen­tir cer­ta fasci­nação por sua “sin­ceri­dade” e caris­ma. É um sen­ti­men­to muito pare­ci­do com aque­le cri­a­do por alguns dos per­son­agens prin­ci­pais do Woody Allen, que as vezes ele mes­mo inter­pre­ta, ao se jus­ti­ficar ao espec­ta­dor o seu com­por­ta­men­to egoís­ta e muitas vezes bizarro.

    As brincadeiras nada usuais dentro da empresa
    As brin­cadeiras nada usuais den­tro da empresa

    Falan­do em não usu­al, leia-se extrav­a­gante e as vezes até grotesco, esqueça total­mente o politi­ca­mente cor­re­to ao assi­s­tir “O Lobo de Wall Street”, pois um dos seus destaques é jus­ta­mente o humor negro, e as vezes de mau gos­to. Pre­con­ceitos, dro­gas, mas­tur­bação, sexo, … tudo é con­ta­to e mostra­do aber­ta­mente e sem cen­sura como se fos­se uma con­ver­sa entre dois ami­gos ínti­mos. Se você gos­tou de filmes como “TED” (2012) e “Super­bad: É Hoje” (2007), provavel­mente vai ado­rar este.

    O quase irreconhecível Leonardo DiCaprio como Leonardo DiCaprio
    O quase irrecon­hecív­el Leonar­do DiCaprio como Belfort

    Out­ro grande destaque do filme é seu exce­lente elen­co. Depois de faz­er dois papéis segui­dos de mil­ionário, no pés­si­mo “O Grande Gats­by” (2013) e no óti­mo “Djan­go Livre” (2012), Leonar­do DiCaprio está sen­sa­cional como o mag­na­ta Belfort, fican­do muitas vezes irrecon­hecív­el de tão envolve­do­ra que é sua atu­ação. Seu papel é quase como uma pos­sív­el mat­u­ração de seu out­ro per­son­agem, o Frank de “Pren­da-me se For Capaz” (2002). Mas ape­sar de já ter um port­fólio bem forte, este é seu sex­to tra­bal­ho com o dire­tor Scors­ese, DiCaprio ain­da não con­quis­tou nen­hum Oscar, fato que pode mudar este ano com sua indi­cação como mel­hor ator pelo papel, prin­ci­pal­mente por já ter lev­a­do o “Globo de Ouro” de 2014 na mes­ma cat­e­go­ria. “O Lobo de Wall Street” tam­bém está sendo indi­ca­do a mais qua­tro Oscars, o de mel­hor filme, dire­tor, ator coad­ju­vante (o exce­lente Jon­ah Hill) e roteiro adaptado.

    Margot Robbie, Leonardo DiCaprio e o diretor Martin Scorsese
    Mar­got Rob­bie, Leonar­do DiCaprio e o dire­tor Mar­tin Scorsese

    Uma curiosi­dade inter­es­sante a respeito des­ta pro­dução é que o ver­dadeiro Jor­dan Belfort ain­da está vivo e foi bas­tante con­sul­ta­do durante a pro­dução do filme. Além de ter pas­sa­do um tem­po jun­to com Belfort durante a preparação para o papel, DiCaprio tam­bém o con­sul­ta­va quan­do tin­ha algu­ma dúvi­da durante as fil­ma­gens. Segun­do o ator, Jor­dan é bem aber­to a respeito des­ta sua fase mais obscu­ra, não ten­do prob­le­ma de falar sobre ela, inclu­sive em público.

    Quase um deus perante seus funcionários
    Quase um deus per­ante seus funcionários

    Com três horas de duração, “O Lobo de Wall Street” con­segue explo­rar bem a sua história e per­son­agens, tudo se desen­volve de for­ma tão nat­ur­al que você quase não percebe o tem­po pas­san­do. A não lin­eari­dade da nar­ra­ti­va cria um rit­mo bem dinâmi­co, não apelando para flash­backs ou cortes muito rápi­dos demais somente para envolver o espec­ta­dor em seu enre­do. Sua car­ga dramáti­ca é muito bem bal­ancea­da com o seu humor, mas ape­sar de engraça­do não clas­si­fi­caria como comé­dia. Ao final do filme fica ape­nas uma grande questão: como você me vende­ria uma caneta?

    Assista o trail­er leg­en­da­do abaixo:

    Veja tam­bém o makin off dos efeitos especiais:

  • Crítica: Ilha do Medo

    Crítica: Ilha do Medo

    ilha do medo

    O ano é 1954, auge da Guer­ra Fria, onde novos e mais extremos trata­men­tos psiquiátri­cos, talvez influ­en­ci­a­dos pelos exper­i­men­tos nazis­tas, são ado­ta­dos. Ted­dy Daniels (Leonar­do DiCaprio[bb]) é um poli­cial fed­er­al e vet­er­a­no da 2ª Guer­ra Mundi­al, que em con­jun­to com Chuck Aule (Mark Ruf­fa­lo[bb]), vai a Shut­ter Island inves­ti­gar o desa­parec­i­men­to de uma inter­na­da no man­icômio judi­cial local. Esta é a tra­ma prin­ci­pal de Ilha do Medo (Shut­ter Island, EUA, 2009), o novo filme de Mar­tin Scors­ese, um thriller psi­cológi­co mis­tu­ra­do com esti­los como poli­cial e hor­ror gótico.

    O que ini­cial­mente pare­cia ser ape­nas mais uma inves­ti­gação, em um local macabro, trans­for­ma-se em uma imer­são à loucura/sanidade humana. Não ape­nas ques­tio­nan­do difer­entes méto­dos de trata­men­to, e suas eficá­cias, o filme tam­bém inci­ta a dúvi­da sobre o próprio con­ceito de lou­cu­ra e, como tudo pode se trans­for­mar de acor­do com o pon­to de vista. Ele foi basea­do no livro Ilha do Medo, de Den­nis Lehane, lança­do aqui no Brasil pela edi­to­ra Cia das Letras.

    Ini­cial­mente, Ilha do Medo ger­ou a impressão de ser meio exager­a­do e bas­tante ten­den­cioso, prin­ci­pal­mente dev­i­do à tril­ha sono­ra impac­tante (que de tan­to ser repeti­da, aca­ba-se acos­tu­man­do). Quase da metade do filme para o final, o cli­ma enga­ta mais, fican­do tudo mais nat­ur­al, e a tra­ma fica muito inter­es­sante. Mes­mo abor­dan­do um tema já meio bati­do, con­segue envolver bas­tante em toda a bus­ca pela ver­dade na inves­ti­gação de Ted­dy com o seu par­ceiro, trazen­do ape­nas em breves momen­tos a sen­sação de estar­mos acom­pan­han­do e anal­isan­do tudo de fora. Assim como, dev­i­do à óti­ma fotografia e edição, é pos­sív­el facil­mente imer­gir den­tro do cli­ma alu­cinógeno, e às vezes claus­trofóbi­co, cri­a­do por Scorsese.

    Ilha do Medo não é para quem está bus­can­do ação e tiros, mas sim para quem quer imer­gir em uma tra­ma cheia de ram­i­fi­cações ines­per­adas. Com um óti­mo elen­co, desta­can­do a atu­ação de DiCaprio, esta é uma exce­lente opor­tu­nidade para (re)pensar na sua própria sanidade.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=xruhUAK5mbo