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  • Cidade Aberta, de Teju Cole | Livros

    Cidade Aberta, de Teju Cole | Livros

    Eu gos­to de explo­rar essa imper­feição, porque é assim que as pes­soas são de ver­dade, boas e más, não ape­nas boas ou ape­nas más”, diz o escritor amer­i­cano Teju Cole (1975) em uma entre­vista durante a sua pas­sagem pela FLIP de 2012. Cole con­segue explo­rar a imper­feição humana de for­ma muito rica e analíti­ca em seu romance de estreia Cidade Aber­ta (Com­pan­hia das Letras, 2012, tradução de Rubens Figueire­do), vence­dor do Prêmio Pen/Hemingway 2012 e elo­gia­do pela críti­ca americana.

    Nova York é con­heci­da como uma das cap­i­tais mais cos­mopoli­tas do mun­do, assim como São Paulo, à primeira vista parece reinar a plu­ral­i­dade que con­strói o meio urbano. Mas muito tem se lido na lit­er­atu­ra de lín­gua ingle­sa a voz dos estrangeiros — por exem­p­lo, Junot Diaz em “A Fan­tás­ti­ca Vida Breve de Oscar Wao” — que hoje fig­u­ram grande por­cent­agem da pop­u­lação, fazen­do uma grande difer­ença numa eleição e out­ras decisões políti­cas, por exem­p­lo. Mas ain­da demon­stram que a plu­ral­i­dade não é esse son­ho todo e que ain­da nes­sas grandes cidades se vive em guetos.

    O títu­lo do livro pode se rela­cionar ao ter­mo open city — cidade aber­ta traduzi­do ao pé da letra — que foi usa­do pela primeira vez em 1914 para des­ig­nar uma cidade que durante uma guer­ra está despro­te­gi­da mil­i­tar­mente e segun­do as leis inter­na­cionais não pode sofr­er ataques. Numa primeira análise, ten­do con­sciên­cia desse sig­nifi­ca­do, a primeira refer­ên­cia é o 11 de setem­bro amer­i­cano. Mas o ter­mo tam­bém pode ser pen­san­do com o seu sen­ti­do mais comum, uma cidade aber­ta que recebe diari­a­mente mil­hões pes­soas do mun­do inteiro que a constituem.

    Mas a atro­ci­dade não tem nada de novo, não para seres humanos, não para ani­mais. A difer­ença é que em nos­so tem­po ela é extra­or­di­nar­i­a­mente bem orga­ni­za­da, prat­i­ca­da com cur­rais, trens de car­ga, livros de con­tabil­i­dade, cer­cas de arame farpa­do, cam­pos de tra­bal­ho, gás. E esta últi­ma con­tribuição, a ausên­cia de cor­pos. (p.74)

    Teju Cole
    Cidade Aber­ta tra­ta da visão de um estrangeiro num fre­quente ciclo de descober­ta e adap­tação ao efêmero da cidade. São os olhos de Julius, um nar­rador-per­son­agem que flana pela cidade de Nova York mul­ti­fac­eta­da, que anda lado a lado com o leitor. Des­de as suas enormes lojas de depar­ta­men­tos, os pon­tos turís­ti­cos mar­ca­dos pela História, o metrô e seus per­son­agens até as tragé­dias maquiadas pelo rit­mo da cidade. Julius, esmi­uça cada vér­te­bra da metró­pole, nada escapa do seu olhar não só plás­ti­co, mas pro­fun­da­mente int­elec­tu­al. Vin­do da Nigéria aos 17 anos, o per­son­agem é um psiquia­tra recém-for­ma­do e bas­tante atare­fa­do, que faz do seu tem­po livre uma boa des­cul­pa para andar pela cidade con­heci­da pela sua var­iedade de faces.

    Assim como Baude­laire criou a ideia de flâneur — o homem mod­er­no que flana invisív­el pelo meio urbano pre­stando atenção às movi­men­tações, a efe­meri­dade do movi­men­to citadi­no — em Cidade Aber­ta o leitor é tam­bém um flâneur, jun­to do imi­grante que se con­strói con­forme se rela­ciona com esse meio, a ter­ra natal deix­a­da no pas­sa­do e o sen­ti­men­to de difer­ença. O leitor só é apre­sen­ta­do for­mal­mente a Julius, ao nome que o iden­ti­fi­ca, quan­do pas­sa a se apro­fun­dar nas suas memórias e sua vida na Nigéria deix­a­da para trás.

    O livro é divi­di­do em duas partes e ambas são recur­sos poéti­cos para a nar­ra­ti­va pes­soal do per­son­agem. A primeira inti­t­u­la­da de A morte é uma per­feição do olho e a segun­da Eu procu­ra­va a mim mes­mo demon­stram que mes­mo que Julius se dis­farce de ape­nas um pas­sante, um sim­ples obser­vador, enga­ja­do, inteligente, procu­ran­do localizar cada célu­la for­mado­ra da cidade de Nova Iorque, ele está pro­fun­da­mente lig­a­do na bus­ca de encon­trar a si mes­mo, bus­car suas próprias respostas e definir a sua identidade.

    Fran­cis O. Watts With Bird, de John Brew­ster Jr.
    Aliás, a iden­ti­dade é um pon­to inter­es­sante do livro, a história de Julius e Teju Cole são estre­ita­mente próx­i­mas, sal­vo alguns detal­h­es. Julius não é ape­nas um pas­sante que nar­ra a cidade em um uni­ver­so fic­cional. Ele é um grande con­hece­dor de estru­turas históri­c­as e as obser­va fazen­do anális­es plás­ti­cas, como faria Teju que é his­to­ri­ador de arte. Em deter­mi­na­do pas­seio por um museu, ele encon­tra o quadro “Fran­cis O. Watts With Bird” do pin­tor amer­i­cano John Brew­ster Jr. e além de rela­cionar e con­tex­tu­alizar a pin­tu­ra, ele rela­ta uma lig­ação muito ínti­ma entre obser­vador e obra, não deixan­do dúvi­das que está con­duzin­do o leitor pelo passeio.

    O pas­sar­in­ho rep­re­sen­ta­va a alma da cri­ança, como tam­bém acon­te­cia no retra­to feito por Goya do mal­fada­do Manuel Oso­rio Man­rique de Zúñi­ga, de três anos de idade. A cri­ança na pin­tu­ra de Brew­ster mira­va aten­ta, com uma expressão ser­e­na e etérea, do ano de 1805. Ao con­trário de muitas out­ras cri­anças pin­tadas por Brew­ster, o meni­no tin­ha sua audição per­fei­ta. Seria aque­le retra­to um amule­to con­tra a morte? Uma em cada três pes­soas, naque­la época mor­ria antes dos vinte anos de idade. Seria aqui­lo a expressão de um dese­jo mági­co de que a cri­ança resis­tisse e se agar­rase à vida, assim como se agar­ra­va ao cordão?” (p.52)

    A iden­ti­dade de imi­grante, tão penosa de se con­quis­tar mes­mo estando em um lugar por uma decisão própria, é clara em Cidade Aber­ta. Por exem­p­lo, o com­por­ta­men­to dos pás­saros é usa­do em dois momen­tos pelo per­son­agem, ambos retratam a neces­si­dade de migração, quase que nat­ur­al mas mes­mo assim com seus per­calços. O livro tra­ta bas­tante dis­so, da tran­si­to­riedade das pes­soas e espaços a fim de bus­car algo, aparente­mente tão nor­mal em tem­pos de efemeridade. 

    Nova York sem­pre está se mutan­do, se adap­tan­do às crises, ataques e mes­mo assim ain­da guar­da de for­ma orgul­hosa suas mar­cas que con­tam a história da Améri­ca como um lugar do futuro. O nar­rador con­duz muitos dos seus pas­seios afim de em var­ios momen­tos tirar a maquiagem da cidade, por mais que ele diga que não tro­caria esse lugar, ele tam­bém não con­segue se desven­cil­har da sua primeira iden­ti­dade, da sua cor e origens.

    Cer­ca de duzen­tos anos depois, quan­do um jovem da região do Forte Orange desceu pelo rio Hud­son e se esta­b­ele­ceu em Man­hat­tan, decid­iu escr­ev­er seu opus mag­num sobre um Levi­atã albi­no. O autor, que no pas­sa­do tiha sido paro­quiano da Igre­ja da Trindade, inti­t­u­lou seu livro A baleia; o sub­tí­tu­lo, Moby Dick, só foi acres­cen­ta­do depois da primeira edição. Essa mes­ma Igre­ja da Trindade ago­ra não me rece­beu, deixou-me do lado de fora, expos­to ao cor­tante ar mar­in­ho sem me ofer­e­cer nen­hum lugar para rezar. (p.66)

    Mas há tam­bém alguns pon­tos neg­a­tivos em Cidade Aber­ta. Em alguns momen­tos a nar­ra­ti­va des­per­ta um cer­to cansaço por con­ta das descrições detal­hadas e tam­bém das posições políti­cas e críti­cas, lev­adas bas­tante a sério por Julius, que sem­pre aca­ba encon­tran­do motivos para criticar o domínio amer­i­cano. Essas mes­mas opiniões acabam por deixar algu­mas opções do enre­do repet­i­ti­vas e desnecessárias.

    Mas por ser tam­bém uma uma nar­ra­ti­va em primeira pes­soa, mescla­da pela intim­i­dade do jovem psiquia­tra com sua visão do urbano, Cidade Aber­ta é bas­tante atraente ao leitor curioso. Julius con­segue ques­tionar a solidão e a vida mes­mo quan­do anal­isa as pes­soas e fatos através do seu olhar clíni­co, medin­do a quími­ca e con­ceitos das situações.

    A visão de grandes mas­sa humanas descen­do afobadas para câmaras sub­ter­râneas era per­pet­u­a­mente estran­ha para mim, e eu tin­ha a sen­sação de que a raça humana inteira se pre­cip­i­ta­va, empurra­da por um impul­so de morte anti­nat­ur­al, rumo a cat­acum­bas móveis. Na super­fí­cie da ter­ra, eu esta­va com mil­hares de out­ros em sua solidão, mas den­tro do metrô, de pé entre descon­heci­dos, empurran­do e sendo empurra­do em bus­ca de espaço e de uma brecha para res­pi­rar, todos nós recon­stí­tuíamos trau­mas não admi­ti­dos, a solidão inten­si­fi­ca­da. (p.14
    (…) o pro­fes­sor Saito disse cer­ta vez: Adoro mon­stros imag­inários, mas fico apa­vo­ra­do com os mon­stros reais. (p.19)

    A prin­ci­pio pode-se pen­sar que é ape­nas um estrangeiro vitimiza­do pela cul­tura amer­i­cana, mas ele é bem além dis­so, é um ser humano e seu fluxo de con­sciên­cia com­pro­va que Cidade aber­ta é um livro tam­bém sobre solidão. 

  • Livro: A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao —  Junot Díaz

    Livro: A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao — Junot Díaz

    A Fan­tás­ti­ca Vida Breve de Oscar Wao (Record, 2009), do escritor domini­cano Junot Díaz, é o livro per­feito para quem gos­ta de história e de apren­der sobre out­ras cul­turas. Esse romance acla­ma­do como um dos mel­hores livros de 2008 ren­deu à Díaz o Prêmio Pulitzer de ficção e esteve na lista dos livros mais ven­di­dos do The New York Times por mais de vinte sem­anas, chegan­do ao segun­do lugar.

    Pro­fes­sor de cri­ação literária do Mass­a­chu­setts Insti­tute of Tech­nol­o­gy (MIT) e edi­tor da Boston Review, Díaz já é con­sid­er­a­do nos EUA como um dos escritores mais promis­sores de lín­gua ingle­sa da atu­al­i­dade. Sim, Junot Díaz escreve em inglês. O autor cariben­ho se mudou para o esta­do amer­i­cano de Nova Jer­sey quan­do tin­ha ape­nas seis anos, o mes­mo esta­do que cede cenário à grande parte do seu romance.

    No começo de A Fan­tás­ti­ca Vida Breve de Oscar Wao, Oscar, o pro­tag­o­nista, é um meni­no tími­do, fã de ficção cien­tí­fi­ca, obe­so e virgem – o típi­co nerd que não sai da frente do vídeo-game. Ele tem dois grandes son­hos: ser o J. R. R. Tolkien de sua ger­ação e ter um grande amor que seja correspondido.

    Junot Diaz
    Nasci­do na Repúbli­ca Domini­cana afe­ta­da pelos desav­i­sos do dita­dor Gen­er­al Rafael Leónidas Tru­jil­lo, da mes­ma for­ma que o próprio Díaz, Oscar aca­ba por aban­donar Nova Jer­sey para voltar às ter­ras domini­canas, ain­da na ânsia do seu primeiro bei­jo e das grandes con­quis­tas que ele alme­ja. Víti­ma do que ele acred­i­ta ser uma maldição de família, con­heci­da na ilha como fukú, tudo dá erra­do na vida do já adul­to Oscar e na de out­ros mem­bros da família de León.

    Há quem não acred­ite em fukú e culpe a depressão e tendên­cias sui­ci­das do Oscar, somadas ao azar de ter nasci­do um meni­no sen­sív­el e nerd na cul­tura lati­na de cul­tuação da figu­ra do macho, pelo seu azar. Mas e de onde surgiu a má sorte dos seus par­entes e, na ver­dade, de todos que cruzam o cam­in­ho de Oscar e com­pan­hia? O sen­so de mist­i­cis­mo, super­stição, tradição e até mes­mo mág­i­ca que persegue a família é o que faz deste dra­ma uma obra inesquecível.

    Esta epopeia de uma família imi­grante con­ta um pouco da vida dos mil­hões de lati­nos que vivem tão longe de suas ter­ras e par­entes. Díaz faz exten­so uso da lín­gua espan­ho­la (man­ti­do na tradução para o por­tuguês), gírias e palavrões no seu tex­to, fazen­do pos­sív­el iden­ti­ficar a classe social e nív­el de esco­lar­i­dade dos per­son­agens através da linguagem.

    Pos­sivel­mente, o títu­lo do livro faz uma refer­ên­cia indi­re­ta ao con­to “A Feliz Vida Breve de Fran­cis Macomber”, em tradução livre, do escritor Hem­ing­way. Essen­cial­mente, o con­to fala sobre cor­agem e covar­dia, dois dos temas mais recor­rentes des­ta obra de Díaz.

    O romance é rec­hea­do de notas de rodapé que dão uma aula de história domini­cana e de refer­ên­cias cul­tur­ais que vão de H. P. Love­craft, Frank Her­bert e Matrix a Paulo Coel­ho, A Noviça Rebelde, Gabriel Gar­cía Mar­quez e Oscar Wilde — de onde surgiu o nome do nos­so pro­tag­o­nista. Cer­ta­mente foi necessária mui­ta pesquisa, espe­cial­mente para man­ter os fatos rela­ciona­dos ao Tru­jil­la­to mais próx­i­mos o pos­sív­el da real­i­dade, como prom­ete o autor. Eu asso­cio de cara este livro com A Fes­ta do Bode (Alfaguara, 2011), ficção do gan­hador do Prêmio Nobel Mario Var­gas Llosa que tam­bém retra­ta os últi­mos anos de poder de Trujillo.

    Junot Díaz demor­ou onze anos para escr­ev­er a tumul­tua­da vida breve de Oscar, que, na ver­dade, não é nem tão breve assim. Como disse Abra­ham Lin­coln, não são os anos da vida que con­tam, mas a vida em anos.

  • Livro: Estórias Abensonhadas — Mia Couto

    Livro: Estórias Abensonhadas — Mia Couto

    Estas estórias falam desse ter­ritório onde nos vamos refazen­do e vamos mol­han­do de esper­ança o ros­to da chu­va, água aben­son­ha­da. Desse ter­ritório onde todo homem é igual, assim: fin­gin­do que está, son­han­do que vai, inven­tan­do que vol­ta. (Pre­fá­cio de Estórias Abensonhadas)

    Ten­ho uma grande con­vicção de que grandes leitores sem­pre foram grandes ouvintes de histórias orais, das vozes nas ruas, con­ver­sas de ônibus e qual­quer out­ro lugar. Ter essa sen­sív­el per­cepção quan­to ao mun­do me parece bas­tante per­ti­nente quan­do você lê livros como se estivesse ouvin­do uma série de boas histórias, assim como acon­tece com Estórias Aben­son­hadas (Com­pan­hia das Letras, 2012) , de Mia Couto.

    É prati­ca­mente indis­pen­sáv­el a apre­sen­tação da figu­ra do escritor Moçam­bi­cano que comu­mente é colo­ca­do no hall dos grandes escritores fan­tás­ti­cos e inven­tivos. Assim como Gabriel Gar­cía Mar­quez, Guimarães Rosa e Manoel de Bar­ros, Mia Couto recria a real­i­dade ressaltan­do situ­ações com tons de magia. Nada é banal na vida dos per­son­agens que com­põem as suas nar­ra­ti­vas e essas fig­uras, com seu próprio por­tuguês e modo de se expres­sar, cir­cu­lam pelo tex­to dire­cio­nan­do o leitor.

    Estórias Aben­son­hadas é um con­jun­to de con­tos e como sinal­iza­do na intro­dução, foram escritos num perío­do pós-guer­ras — em 1994, ano de lança­men­to do livro, fazia ape­nas dois anos que a Guer­ra Civ­il de Moçam­bique soma­da a Guer­ra da Inde­pên­den­cia que se arras­tou des­de os anos 60, havi­am ter­mi­na­do — e o livro é for­ma­do por con­tos onde fig­uras como o sangue e a guer­ra são ele­men­tos de histórias de recomeço e ilu­mi­nações, como se os per­son­agens estivessem apren­den­do a ver a luz nova­mente e assim recon­stru­in­do suas rotinas.

    Mia Couto escreve com a lin­guagem dos son­hos, opera a palavra como um tra­bal­hador opera o seu mel­hor instru­men­to. E vai além, recria seu uso e funções provan­do que a lín­gua Por­tugue­sa se trans­mu­ta con­forme a sua geografia, é viva. E em Estórias Aben­son­hadas essa lín­gua gan­ha ares de esper­ança num ter­reno onde tudo pre­cisa de recon­strução e mes­mo que a morte este­ja pre­sente em boa parte dos con­tos, não há como escon­der a esper­ança de ir adiante.

    Nas Águas do Tem­po, o con­to que abre o livro, o leitor é apre­sen­ta­dos à magia do rela­to e a importân­cia da figu­ra do avô, um sím­bo­lo do con­ta­dor de histórias. O avô per­mite que o neto veja além de um lado do rio em que ele o leva todos dias, pois os fan­tas­mas da guer­ra ain­da cir­cu­lam pela região e deve-se respeitá-los. Como se vê em vários out­ros con­tos, a pre­sença maciça da mitolo­gia da região rep­re­sen­ta­da por fig­uras e palavras próprias dá ordem do tom de oral­i­dade de Mia Couto.

    No mais ou menos, ele falou assim: nós temos olhos que se abrem para den­tro, ess­es que usamos para ver os son­hos. O que acon­tece, meu fil­ho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver ess­es out­ros que nos visi­tam. Os out­ros? sim, ess­es que nos ace­nam da out­ra margem. E assim lhes causamos uma total tris­teza. Eu levo-lhe lá nos pân­tanos para que você apren­da a ver. Não pos­so ser o últi­mo a ser vis­i­ta­do pelos panos. (p.13)

    Em out­ros tex­tos como em O Cego Estre­lin­ho é a força da palavra que faz recri­ar ima­gens nun­ca vis­tas. Com uma grande sen­si­bil­i­dade os per­son­agens tem nomes muito sug­es­tivos como é o caso de Estre­lin­ho que, ori­en­ta­do pelas mãos de Gig­i­to é apre­sen­ta­do por um mun­do fan­tás­ti­co e pul­sante e quan­do este é man­da­do à guer­ra — mata­do­ra de esper­anças e cores — o cego pas­sa a ser ori­en­ta­do pela irmã, a Infe­lizmi­na que não vê nada demais no mun­do ali fora.

    O erro da pes­soa é pen­sar que os silên­cios são todos iguais. Enquan­to não: há dis­tin­tas qual­i­dades de silên­cio. É assim o escuro, este nada apa­ga­do que estes meus olhos tocam: cada um é um, des­b­o­ta­do à sua maneira. Entende, mano Gig­i­to? (p.23)

    Boa parte dos per­son­agens de Estórias Aben­son­hadas tem seus pares que con­tra­bal­ançam a fal­ta de esper­ança, como a capa da edição brasileira sug­ere, duas cadeiras frente a frente ven­do o sol nascer. Duas pes­soas são capazes de ini­ciar uma guer­ra como sinal­iza A Guer­ra dos Pal­haços onde dois pal­haços brin­cantes, numa acalo­ra­da dis­cussão, começam uma guer­ra entre os espec­ta­dores que ten­tam inter­pre­tar a per­for­mance. Um tex­to cur­to mas imen­so de ale­go­rias sobre a estu­pid­ez de um conflito.

    Com romances pre­mi­a­dos e igual­mente inven­tivos, Mia Couto demon­stra maior ver­sa­til­i­dade ain­da em con­tos ou crôni­cas porque são relatos cur­tos e boa parte deles pub­li­ca­do no jor­nal por­tuguês Públi­co. O fato de estarem pre­sentes em jor­nal, além de dar uma grande vis­i­bil­i­dade, dialo­ga muito inti­ma­mente com o leitor, mes­mo aque­le desacos­tu­ma­do com o seu tom fan­tás­ti­co. Creio que um dos fatos cru­ci­ais do escritor con­seguir cri­ar essa relação de intim­i­dade é a sua profis­são de biól­o­go que per­mite que ele seja inven­ti­vo unin­do o ser humano e sua relação com o espaço, ambi­ente e o lugar.

    Estórias Aben­son­hadas ultra­pas­sa qual­quer relação sim­plória de leitor e obra, é como se olhásse­mos através de uma janela e con­hecesse­mos ess­es per­son­agens como nos­sos viz­in­hos, ami­gos e par­entes. São histórias fan­tás­ti­cas escritas com a liber­dade de um con­ta­dor de histórias, pois além de Mia não se pren­der à con­veções lin­guís­ti­cas, ele dialo­ga de muito per­to com as nos­sas próprias raízes, é a lin­guagem uni­ver­sal dos sonhos.

  • Livro: Festa no Covil — Juan Pablo Villalobos

    Livro: Festa no Covil — Juan Pablo Villalobos

    ¨Real­mente os cul­tos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida. Esse não foi um erro do escritor. Foi um erro da humanidade¨ (p.30)

    Impos­sív­el não se sen­tir ten­ta­do pela capa da edição brasileira de Fes­ta no Cov­il (Com­pan­hia das Letras, 2012) — inspi­rada­mente desen­ha­da pela artista Elisa v. Randow — o romance de estreia de Juan Pablo Vil­lalo­bos. Fazen­do uso da sim­bolo­gia da clás­si­ca fes­ta de Dia de Muer­tos mex­i­cana, a capa é um incrív­el con­vite para que você escute um meni­no solitário con­tar algu­mas peripécias.

    Tochtli — coel­ho, na lín­gua aste­ca — é uma cri­ança comum, ou pode­ria ser, que como qual­quer out­ra dese­ja muito um pre­sente. Segun­do ele próprio mora numa man­são no Méx­i­co, tem uma vida ente­di­ante, pos­sui uma vas­ta coleção de chapéus e son­ha em ter um casal de hipopó­ta­mos anões da Libéria. Um dese­jo nada con­ven­cional e que nos diz muito sobre o per­son­agem que nar­ra o romance do mex­i­cano Juan Pablo Vil­lalo­bos.

    Fes­ta no Cov­il tra­ta de for­ma muito sen­sív­el, ao pas­so que te faz res­pi­rar a cada novo pará­grafo, a vida solitária de uma cri­ança em pleno cenário do nar­cotrá­fi­co mex­i­cano. O pai, um reno­ma­do profis­sion­al do ramo, pro­tege o fil­ho numa espé­cie de for­t­aleza e é escon­di­do do resto do mun­do que o garo­to rela­ta pecu­liari­dades do seu cotid­i­ano, como o número de pes­soas que con­hece e como é a sua roti­na diária, tudo do seu pon­to de vista infan­til, inteligente e com dos­es de ironia.

    Parece que o país Libéria é um país nefas­to. O Méx­i­co tam­bém é um país nefas­to. É um país tão nefas­to que você não pode con­seguir um hipopó­ta­mo anão da Libéria. O nome dis­so na ver­dade é ser do ter­ceiro mun­do.” (p.20)

    O nar­cotrá­fi­co, talvez a ativi­dade mais ren­táv­el na lati­noaméri­ca, é um plano de fun­do um tan­to quan­to fos­co em Fes­ta no Cov­il pois, difer­ente de uma visão real­ista, esse mun­do se apre­sen­ta cheio de metá­foras e por­tas fechadas, vis­tas pelos olhos de uma cri­ança. A mar­gin­al­iza­ção da sociedade mex­i­cana foge da figu­ra do imi­grante e tra­ta mais de per­to os atu­ais prob­le­mas do país no com­bate da máfia das dro­gas. Na ver­dade, qual­quer país abaixo da fron­teira dos Esta­dos Unidos pode­ria ser o cenário da vida de Tochtli e talvez um dos pon­tos mais fortes do livro seja essa sen­sação de con­hec­i­men­to de causa que temos ao ver uma cri­ança encar­an­do a real­i­dade de for­ma tão ingênua.

    Mas Vil­lal­lo­bos não faz um rela­to comum e muito menos pro­duz uma nar­co­l­it­er­atu­ra fun­da­da em real­is­mos. Ele usa a voz de Tochtli para cri­ar um apego entre o leitor e o per­son­agem e assim cri­ar um enre­do que beira à suavi­dade de histórias infan­tis. Em muitos momen­tos nos vemos olhan­do assus­ta­dos para o garo­to da ficção, todo o dis­cur­so do pequeno Tochtli é mar­ca­da por suas sen­síveis pecu­liari­dades. As vezes ele é mima­do, não quer mais brin­car e em out­ros momen­tos ele demon­stra uma maturi­dade, con­sum­i­da por fras­es pre­co­ces, que nos leva a ques­tionar a solidão infantil.

    Há ape­nas um flerte com a real­i­dade vista por ess­es olhos inocentes. Se out­ro­ra a lit­er­atu­ra fazia uso das metá­foras fan­tás­ti­cas para con­tar um fato real, em Fes­ta no Cov­il são os olhos infan­tis que inter­pre­tam a vida com inocên­cia e em algu­mas situ­ações com a frieza da ver­dade. Tochtli é solitário, tem aulas par­tic­u­lares em casa e con­vive o tem­po todo com adul­tos, por­tan­to é inevitáv­el que em sua voz saiam definições pre­co­ces. Não se sabe ao cer­to se o garo­to é somente mima­do, víti­ma de um pai ausente e mãe que mor­reu, ou pro­fun­da­mente inspi­ra­do pelas pes­soas mis­te­riosas que con­vivem com ele e vivem ensi­nan­do algo.

    O pres­i­dente John Kennedy esta­va fazen­do um pas­seio num car­ro sem teto e ati­raram na cabeça dele. Ou seja, as guil­hoti­nas são para os reis e os tiros, para os pres­i­dentes. (p.47)

    Durante toda a nar­ra­ti­va de Fes­ta no Cov­il fica níti­da uma relação estre­i­ta do meni­no com as palavras, incluin­do o próprio dis­cur­so que ele cui­da que seja bem explica­ti­vo. O pequeno Tochtli não dorme sem ler o dicionário, ele gos­ta de nomear os sen­ti­men­tos e as pes­soas e quan­do se encan­ta com uma palavra a usa em vários con­tex­tos, inde­pen­dente se elas con­tin­u­am ou não com o mes­mo significado. 

    Juan Pablo Vil­lalo­bos, até pouco tem­po atrás, era um nome descon­heci­do da lit­er­atu­ra lati­noamer­i­cana. O mex­i­cano, casa­do com uma brasileira e res­i­dente no país, diz que sua visão sobre o Méx­i­co é de quem obser­va de longe e que nesse pon­to de fora con­segue ver com muito mais clareza a situ­ação vivi­da pelo país. Quan­do ques­tion­a­do se ele espera que no Brasil haja iden­ti­fi­cação com o pequeno Tochtli, diz que sim mas que no Brasil ele vê mais otimis­mo, uma das car­ac­terís­ti­cas impres­sio­n­antes no per­son­agem-garo­to de A Fes­ta no Cov­il.

    É impos­sív­el sair imune de Tochtli e seus son­hos mima­dos. Enquan­to o Méx­i­co, e con­se­quente­mente seu pai, vivem perío­dos de lim­bos, o garo­to ape­nas anseia em encon­trar o casal de ani­mais que fal­ta para seu zoológi­co. Pequenos nuances detal­ham a real­i­dade do per­son­agem que faz de Fes­ta no Cov­il uma fábu­la de uma cri­ança — lem­bran­do o sig­nifi­ca­do do seu nome aste­ca — den­tro de um bura­co, alheio ao mun­do caóti­co e sem esper­ança de fora.

  • Porta Na Cara: Deixe o ego fora da sua história

    Porta Na Cara: Deixe o ego fora da sua história

    George Orwell, em um ensaio, disse que escrevia “Por puro egoís­mo. O dese­jo de ser engen­hoso, de ser comen­ta­do, de ser lem­bra­do após a morte (…)”. O lema dessa ger­ação da qual faço parte é escr­ev­er — ape­nas e somente — por puro egoís­mo. Cli­ma de tragédia.

    Ago­ra, as pes­soas que têm a sar­na de escr­ev­er livros, por Deus, livros sobre suas vidas vazias ain­da “verdes”, mes­mo quan­do são capazes de for­mar uma frase, nun­ca são inter­es­santes – na vida real ou em papel. Ao menos eu nun­ca vi. E aí você vê os livros delas entrarem em liq­uidação por R$ 9,90 e atra­van­car­em todos os sebos da cidade e pen­sa: pelo menos o públi­co não se deixa enga­nar tão fácil. Há doi­dos que escrevem coisas boas sobre suas vidas depois de algum tem­po, ou num inter­va­lo entre dois “aces­sos”, nun­ca durante a lou­cu­ra, e chegaram a best-sell­er. Cite­mos: Colette. José Mau­ro de Vas­con­cel­los. Não, não gos­to de Bukowski.”

    Tre­cho do tex­to da escrito­ra car­i­o­ca Simone Cam­pos para o Le Monde Diplo­ma­tique que dá uma ideia da situ­ação. Leiam.

    Deixe o ego fora da sua história. O ego não é a ver­dade” era o con­sel­ho do escritor Hubert Sel­by Jr. para os ini­ciantes. Acho que ain­da é váli­do nos dias de hoje. O mun­do não é feito a imagem e semel­hança dos seus escritores heróis. Vamos todos ago­ra pedir des­cul­pa ao tio Hen­ry Miller e ao tio Charles Bukows­ki. Que coisa feia vocês andam fazen­do em nome deles, meu deus.

    Se vai se aven­tu­rar a escr­ev­er ficção, é bom faz­er a lição de casa: con­hecer e respeitar os clás­si­cos, dis­cu­tir ideias, não tomar como ofen­sa pes­soal o fato de uma pes­soa não gostar dos autores que você apre­cia, saber ouvir críti­cas sobre o seu tex­to e o mais impor­tante: ter ideia que não existe O Seg­re­do para escrever. 

    È um tra­bal­ho difí­cil tan­to para um ini­ciante quan­to para um escritor com cer­ta noto­riedade. E tam­bém não espere recon­hec­i­men­to de ime­di­a­to. Se fiz­er um bom tra­bal­ho, as edi­toras irão entrar em con­ta­to com você, mas isso não impede que você pos­sa faz­er seu próprio mar­ket­ing.

    Gos­to bas­tante de ler ficção, mas não ten­ho pre­ten­sões literárias ou tal­en­to sufi­ciente para escr­ev­er um con­to sobre uma cri­ança triste ou um mon­u­men­tal romance de quin­hen­tas pági­nas sobre o dra­ma de um homem que é impe­di­do de se fan­tasiar de banana. E muito menos sobre min­ha própria vida. É bom ter limites.

    Con­fes­so que sin­to inve­ja de quem tem a habil­i­dade de cri­ar tra­mas, per­son­agens, sub­tex­to e o que mais se pre­cisa para escr­ev­er uma boa história, mas saber que você não leva jeito para coisa tam­bém é uma arte. Aceite.

    Pen­so estar evi­tan­do com a min­ha ati­tude a der­ruba­da de inocentes árvores e pre­venin­do futuras ger­ações de ter o desagradáv­el con­ta­to com uma obra literária de min­ha auto­ria. E tam­bém evi­tan­do a ver­gonha que seria de ter o maior encal­he de livros jamais vis­to na Améri­ca Latina.

    Bruno man­tém o tum­blr de entre­vis­tas Por­ta na Cara

  • Café Literário: O Livro além do Livro

    Café Literário: O Livro além do Livro

    Se per­gun­tassem há um sécu­lo atrás qual era o pro­je­to de deter­mi­na­do escritor, a respos­ta viria fácil: Escr­ev­er bons livros e pub­licá-los pos­te­ri­or­mente, toda uma roti­na sem­pre foi lev­a­da em con­ta na vida de um escritor. Os temas pode­ri­am ser vari­a­dos, mas o pro­je­to em si se resumiria há um lon­go tem­po de ded­i­cação para a escri­ta, estu­do e bus­cas por edi­tores. Mas e no mun­do chama­do de pós-mod­er­no, como um escritor se com­por­ta diante de tan­ta infor­mação e hib­ridis­mo? Ele con­segue se man­ter ingên­uo no seu pos­to de somente escr­ev­er de for­ma passiva?

    Partin­do de um títu­lo que daria assun­to para bem mais de uma hora no Café Literário da Bien­al do Livro Rio 2011, a mesa O Livro além do Livro teve a ambi­ciosa tare­fa de jun­tar três escritores con­tem­porâ­neos da lit­er­atu­ra brasileira, medi­a­dos pela jor­nal­ista Cris­tiane Cos­ta. O trio for­ma­do para mesa foram os gaú­chos Paulo Scott, Antônio Xerx­e­nesky e a car­i­o­ca Simone Cam­pos. Os três, mes­mo sendo de ger­ações um pouco difer­entes, Paulo é o mais vel­ho, pos­suem suas ativi­dades literárias lig­adas de algu­ma for­ma com a cul­tura digital.

    Entre eles, Simone Cam­pos é a que tem o pro­je­to atu­al mais híbri­do, envol­ven­do a lit­er­atu­ra e games. Des­de a sua estreia como escrito­ra, aos 17 anos, ela apre­sen­ta uso de vocab­ulário da web mescla­dos com diál­o­gos cur­tos e nar­ra­ti­vas que beiram ao exper­i­men­tal. No últi­mo ano, Simone vem tra­bal­han­do no livro-jogo Owned (que já foi anun­ci­a­do o lança­men­to no dia 20 de out­ubro) que tem uma pro­pos­ta próx­i­ma do clás­si­co O Jogo de Amare­lin­ha, de Julio Cortázar, onde o obje­ti­vo é deixar o enre­do ser desen­volvi­do pelas decisões do próprio leitor. O livro vai ser disponív­el online e uma ver­são com extras no impres­so. Simone diz que sen­tia neces­si­dade de cri­ar algo que superasse o número de pos­si­bil­i­dades de se ler uma obra e para tal apren­deu bases de lin­guagem com­puta­cional e lóg­i­ca. Na cer­ta, Owned ain­da vai ren­der muito assun­to, prin­ci­pal­mente por unir duas lin­gua­gens que aparente­mente são pouco associáveis.

    Para Xerx­e­nesky os jogos não estão tão dis­tantes das nar­ra­ti­vas fic­cionais literárias como se pen­sa. Em seu primeiro livro, o romance Areia nos Dentes (Roc­co, 2010), ele deixa clara sua influên­cia ao jogo clás­si­co Alone In the Dark. Expli­ca que um jogo pre­cisa de cabeças tão pen­santes como se acred­i­ta a lit­er­atu­ra ter e que o fato de alguém gostar muito de deter­mi­na­do tipo de nar­ra­ti­va, como em muitas vezes os com­plex­os roteiros de games, não sig­nifique que ela ten­ha algum grau difer­ente de int­elec­tu­al­i­dade. Os escritor gaú­cho ain­da relem­bra que jogos são usa­dos há muito tem­po na lit­er­atu­ra, sem deixar de citar os exper­i­men­tal­is­mos literários, do já cita­do, Julio Cortázar.

    Um dos pon­tos mais bacanas de uma dis­cussão sobre as influên­cias da cul­tura dig­i­tal no desen­volver do tra­bal­ho de um escritor é que os tópi­cos ultra­pas­sam a mera dis­cussão mer­cadológ­i­ca e apoc­alíp­ti­ca sobre os ebooks e tablets. Ess­es autores do pre­sente estão mais pre­ocu­pa­dos em for­mas inter­es­santes de colo­carem em práti­ca suas reações às infor­mações que chegam o tem­po todo. Em tom diver­tido, Paulo Scott fala que na ver­dade ele é um frustra­do em mui­ta coisa que gostaria de ter feito e por isso aca­ba envol­ven­do tudo isso no seu pro­je­to literário.

    Paulo Scott está numa empen­ha­da função de virar DJ Literário remixan­do poe­sias de out­ros poet­as com as suas, ou ain­da, colo­can­do out­ros escritores para lerem, decla­marem e etc trans­for­man­do tudo em um tra­bal­ho mul­ti­midiáti­co. Mes­mo afir­man­do de que o mun­do da ficção literária vai muito além do game e do vir­tu­al, ele tam­bém diz que os jovens escritores, se referindo aos seus com­pan­heiros de mesa, tem uma bagagem de con­hec­i­men­to con­struí­do na leitu­ra e no bom aproveita­men­to das infor­mações. Antônio Xerx­e­nesky foi práti­co em diz­er que um escritor hoje não tem mui­ta opção a não ser faz­er parte das redes soci­ais e ser uma figu­ra ati­va na inter­net. Ele já havia escrito sobre isso num tex­to muito enfáti­co e inter­es­sante sobre os escritores con­tem­porâ­neos brasileiros, no site do IMS — Insti­tu­to Mor­eira Salles.

    Xerx­e­nesky tem uma veia forte na metaficção e met­al­it­er­atu­ra, em seu últi­mo livro — reunião de con­tos — inti­t­u­la­do de A Pági­na Assom­bra­da por Fan­tas­mas (Roc­co, 2011), são níti­dos os vul­tos das refer­ên­cias literárias e eru­di­tas que con­stroem o escritor. Quan­do ques­tion­a­do se sua lit­er­atu­ra é uma espé­cie de fan­fic­tion, ele expli­ca que o seu tex­to é mais uma for­ma de lidar com as refer­ên­cias e não dis­torce-las ou ree­screve-las. No mais, há out­ra for­ma de um autor se livrar de seus próprios demônios a não ser lidan­do com eles?

    O escritor gaú­cho ain­da cita sua influên­cia por escritores como Thomas Pyn­chon, Rober­to Bolaño e Enrique Vilas-Matas, que são con­heci­dos por terem seus próprios pro­je­tos volta­dos ao caos da vida con­tem­porânea. Ou seja, facil­mente o leitor encon­trar fig­uras pop e mitológ­i­cas passe­an­do pelos tex­tos dess­es autores em situ­ações mirabolantes e inusi­tadas. De fato, não há como fugir das próprias refer­ên­cias, onde os próprios escritores são per­son­agens de seus mun­dos paralelos.

    Quan­do se fala em cul­tura dig­i­tal parece que é prati­ca­mente impos­sív­el de se empre­gar jun­to as palavras livro, lit­er­atu­ra, autores, edi­toras e mais o leque de sinôn­i­mos que acom­pan­ham essas out­ras. É muito mais fácil usar ter­mos mais apoc­alíp­ti­cos e de infor­mações de que você não tem chance nen­hu­ma a não ser se ren­der aos ter­abytes de tec­nolo­gia que deix­am sua vida mais inter­es­sante. E é fug­in­do das dis­cussões de mer­ca­do que podemos obser­var mais de per­to como os escritores, estes pre­ocu­pa­dos com a cri­ação e como boa parte deles lidam de for­ma har­môni­ca com a web e o dig­i­tal. As pos­si­bil­i­dades são infini­tas e provavel­mente logo ter­e­mos novas visões e ramos para a lit­er­atu­ra, sem ela, de for­ma nen­hu­ma, deixar de ter suas funções pri­mor­diais, seja para quem escreve ou para quem lê.

    O inter­ro­gAção gravou em áudio todo esse bate-papo e se você quis­er pode escu­tar aqui pelo site, logo abaixo, ou baixar para o seu com­puta­dor e ouvir onde preferir.

    Ouça a palestra com­ple­ta: (clique no link abaixo para ouvir ou faça o down­load)

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  • Livro: Pequena Biografia de Desejos — Cezar Tridapalli

    Livro: Pequena Biografia de Desejos — Cezar Tridapalli

    Uma das car­ac­terís­ti­cas mais mar­cantes da Lit­er­atu­ra pro­duzi­da hoje é jus­ta­mente o bom uso do real­is­mo do dia a dia — con­sid­er­a­do out­ro­ra um obje­to sem âni­mo e inter­esse — como um con­tex­to rico. O curitibano Cezar Tri­da­pal­li, em Peque­na Biografia de Dese­jos (Edi­to­ra 7Letras, 2011), traz a vida comum e seus per­son­agens como forças motrizes para den­tro do romance, dan­do mais sinais de como a lit­er­atu­ra do pre­sente vem ren­den­do fru­tos extrema­mente inter­es­santes, ali­men­ta­dos pelo anon­i­ma­to do cotidiano.

    Desidério é um porteiro que leva uma roti­na insignif­i­cante para a maio­r­ia das pes­soas, o homem pega o mes­mo ônibus todo dia — para quem mora em Curiti­ba, o famoso Ligeirão-Boqueirão — e pas­sa inúmeras horas acor­da­do, lendo e escreven­do. O per­son­agem prin­ci­pal de Peque­na Biografia de Dese­jos é uma espé­cie de anti-herói, só que sem nen­hum tipo de glam­our que ess­es per­son­agens cos­tu­mam ter, con­stru­i­do sob o per­fil de homem comum vis­to pelos olhos do fantástico.

    O pro­tag­o­nista se apre­sen­ta através das nar­ra­ti­vas de suas próprias maze­las cos­tu­radas com a história de out­ros per­son­agens que aju­dam a dar for­ma na sua vida-ficção. A mãe que foge de casa, um pai que só existe fisi­ca­mente, um casa­men­to sem o mín­i­mo de amor e os son­hos de escr­ev­er livros tão geni­ais quan­to os que pas­sa as madru­gadas lendo, são peque­nas peças que for­mam detal­hada­mente o enre­do da vida do personagem.

    Desidério pode­ria ser um homem comum se os livros não o tirassem do maras­mo do cotid­i­ano. Son­hador, sua real­i­dade — des­de sem­pre urbana e crua pela óti­ca do real­is­mo banal — sem­pre foi molda­da con­forme o liris­mo dos livros. É o homem comum, sem osten­tações, mas reple­to de mecan­is­mos que o tiram do con­formis­mo e o colo­cam den­tro de um real­is­mo fan­tás­ti­co, um dos aspec­tos que intro­duz Peque­na Biografia de Dese­jos como uma obra que se ali­men­ta do con­tem­porâ­neo sem pre­cis­ar, em momen­to algum, ser con­fes­sion­al. Pelo con­trário, Desidério não quer con­fes­sar nada, nem sabe usar as palavras fal­adas, ele suprime seus sen­ti­men­tos e acred­i­ta que a sua real redenção sejam as palavras escritas e num livro só seu.

    É prin­ci­pal­mente a paixão e o dese­jo que movi­men­tam a vida de Desidério. Além de ter um fascínio desme­di­do por livros — o homem chega a escr­ev­er tre­chos de livros na mesa da guari­ta — ele encon­tra Adele, uma pro­fes­so­ra de ital­iano, que ali­men­tan­do um amor platôni­co invol­un­tário, ain­da o enco­ra­ja a escr­ev­er sobre todos os sen­ti­men­tos que ele acred­i­ta­va não possuir.

    A nar­ra­ti­va de Peque­na Biografia de Dese­jos é movi­da jus­ta­mente por essa paixão e dese­jo literário que o pro­tag­o­nista desen­volve ao lon­go das suas leituras. O nar­rador faz uso de uma voz ínti­ma que fun­ciona como um off cin­e­matográ­fi­co, apre­sen­tan­do a vida dos per­son­agens com dire­ito a flash­backs. A cada capí­tu­lo, novas histórias vão sendo apre­sen­tadas e cos­tu­radas ao mosaico que for­ma a grande biografia de Desidério. Sem as per­son­agens — e suas insignificân­cias detal­his­tas asso­ci­adas a um e out­ro enre­do literário — o pro­tag­o­nista jamais exi­s­tiria e encar­aria com taman­ho dese­jo a sua própria ficção.

    O espaço onde cir­cu­la o per­son­agem é Curiti­ba, um pon­to inter­es­sante se pen­sa­do sob a situ­ação que boa parte dos romances con­tem­porâ­neos se orga­nizem em out­ras metrópoles do país. A Curiti­ba de Desidério é descri­ta pelo pon­to de vista de um eter­no transe­unte que con­hece bem ape­nas o bair­ro em que viveu, o tra­je­to que faz há tan­to tem­po de casa para o tra­bal­ho, e vice-ver­sa, e claro, a Bib­liote­ca Públi­ca do Paraná.

    A voz que Tri­da­pal­li faz uso é sufo­cado­ra, dire­ta e reple­ta de refer­ên­cias, o que pode não agradar leitores receosos com o romance con­tem­porâ­neo. Peque­na Biografia de Dese­jos lem­bra obras ao esti­lo de Enrique Vila-Matas, Sara­m­a­go e o fan­tás­ti­co — mais mod­er­a­do — das real­i­dades lati­nas de Gabriel Gar­cia Màrquez e mes­mo assim, man­ten­do sua própria con­strução. Há uma neces­si­dade de res­pi­ração depois de cada capí­tu­lo na saga de Desidério, o que fez min­ha leitu­ra ter con­ta­do com boas pausas entre um capí­tu­lo e out­ro, sendo que isso não é de for­ma algu­ma um prob­le­ma e sim um óti­mo proces­so de assim­i­lação. Além dis­so, é bas­tante líri­co e atu­al o dis­cur­so sem pausa e caóti­co da obra que, mes­mo usan­do muitos recur­sos de lin­guagem con­tem­porânea, man­tém o rit­mo romanesco clássico.

    Peque­na Biografia de Dese­jos nem de longe parece um romance de estreia. É uma ode — e isso é o que mais encan­ta — às paixões e dese­jos que os livros podem causar. É sobre­tu­do, um romance sobre livros para leitores apaixonados.

    Seguem alguns tre­chos do livro:

    ¨Qual a mar­ca que o porteiro de um edi­fi­cio deixaria no mun­do? Pen­sara no livro que havia começa­do e, com estran­ho aliv­io, enfim lhe subiu à face a esper­a­da sen­sação de tris­teza autên­ti­ca, doí­da. Qual a mar­ca que aque­le cara que escreveu O deser­to dos Tár­taros deixara no mun­do? Qual a mar­ca que os quarenta e dois autores lidos por Desidério até ali deixaram no mun­do, no seu mun­do? A respos­ta lhe pare­cia evi­dente, óbvia demais; no entan­to, sen­tia-se enver­gonhado e quase enfure­ci­do por não saber o que respon­der, pois, ain­da que dissesse que as obras dess­es autores fos­sem suas mar­cas, uma voz inter­na insis­tia em pro­por out­ra per­gun­ta: mas para que servem essas mar­cas? Ora, para nos lem­brar de que esta­mos vivos, de que o show tem que con­tin­uar, e que as ilusões devem con­tin­uar sendo ali­men­tadas, e que pre­cisamos con­tin­uar nos per­gun­tan­do para que serve tudo isso.¨ (pg. 90 e 91)

    ¨Assim se arras­tam os dese­jos humanos, às vezes céleres, sor­ri­dentes e fagueiros como cri­anças no cam­po ou pro­pa­gan­das de mar­ga­ri­na, às vezes entre­va­dos, cujos movi­men­tos úni­cos pare­cem ser fas­ci­c­u­lações invol­un­tárias. De uma for­ma ou de out­ra, com­preen­di­dos todos os matizes pos­síveis nesse entremeio, estão sem­pre mor­ren­do sem se terem satisfeitos.¨(pg.218)

  • Crítica: Natimorto

    Crítica: Natimorto

    Lourenço Mutarel­li é um dos escritores mais inter­es­santes e híbri­dos da lit­er­atu­ra atu­al e Nati­mor­to (Brasil, 2011), dirigi­do por Paulo Mach­line, é a adap­tação do segun­do livro deste escritor con­heci­do pela den­si­dade e iro­nia de suas obras.

    Um homem e uma mul­her numa pro­pos­ta de tentarem viv­er suas vidas, lit­eral­mente, num quar­to de hotel. Os per­son­agens se resumem no homem (Lourenço Mutarel­li), uma espé­cie de pro­du­tor musi­cal e a mul­her (Simone Spo­ladore), uma can­to­ra de ópera. Enquan­to o cotid­i­ano da relação vai se con­stru­in­do, eles pas­sam a dis­cu­tir, entre cig­a­r­ros e cafés, seus futur­os através da asso­ci­ação de embal­a­gens de cig­a­r­ro e car­tas do Tarô.

    O enre­do de Nati­mor­to se foca neste con­vívio claus­trofóbi­co, exem­pli­f­i­can­do de for­ma muito inter­es­sante o sufo­ca­men­to das relações. Os dois per­son­agens podem sair o momen­to que quis­erem da situ­ação pro­pos­ta, mas não há a ini­cia­ti­va. Ele por não acred­i­tar na vida fora do quar­to e sen­tir que sua vida se resume em lamen­to, café e cig­a­r­ros e ela por ter a neces­si­dade de alguém que ali­mente a sua per­spec­ti­va de existên­cia, ou seja, uma relação extrema­mente simbiótica.

    Antes de ser con­heci­do pela sur­preen­dente obra e bem suce­di­da adap­tação de O cheiro do Ralo, Lourenço Mutarel­li era famoso pelos seus quadrin­hos obscuros e reple­tos de um humor negro incon­fundív­el. Além dis­so, o paulista tam­bém é con­heci­do na lit­er­atu­ra con­tem­porânea pelas idioss­in­cra­cias e por con­stru­ir diál­o­gos inteligentes pau­ta­dos por movi­men­tos de câmeras-nar­ra­ti­vas que vem e vão durante as cenas literárias.

    O fato de Mutarel­li usar recur­sos de roteiro para escr­ev­er seus romances não sig­nifi­ca que as adap­tações de seus tra­bal­hos, para o cin­e­ma, devam sem­pre ser trans­postas de for­ma lit­er­al. Há detal­h­es na nar­ra­ti­va literária que surtem efeito aos olhos do leitor mas, quan­do pas­sadas para uma nar­ra­ti­va de imagem, elas aparentam serem mais lon­gas ou fazem pouco sen­ti­do num deter­mi­na­do plano. Na adap­tação de Nati­mor­to, ocor­reu isso algu­mas vezes, como, por exem­p­lo, nos lon­gos diál­o­gos reple­tos de reflexões, numa espé­cie de bate e vol­ta con­si­go mes­mo, do per­son­agem sociofóbi­co inter­pre­ta­do pelo próprio Mutarel­li. Os lon­gos diál­o­gos no lon­ga se tor­nam, em algum momen­tos, um pouco cansativos por ocu­parem difer­entes tem­pos do que ocorre na nar­ra­ti­va literária. No livro, os dis­cur­sos se desen­volvem em muitas pági­nas, enquan­to no filme eles são suprim­i­dos a uma cena do roteiro.

    Por out­ro lado, out­ras situ­ações se encaixaram per­feita­mente, como em muitos momen­tos onde os planos seguem à risca as descrições do livro em que o nar­rador apon­ta a câmera para a boca de deter­mi­na­do per­son­agem, como se o leitor — ago­ra espec­ta­dor — final­mente pudesse enten­der deter­mi­na­da situ­ação descri­ta no livro.

    Em Nati­mor­to há pou­cas cenas exter­nas, o que aca­ba fazen­do a atenção se voltar para as inter­pre­tações, como a do próprio escritor que se mostra inse­guro no íni­cio do filme mas que, com o pas­sar do tem­po, se tor­na uma pre­mis­sa psi­cológ­i­ca do per­son­agem. A aparên­cia miú­da e ner­vosa de Mutarel­li con­funde, de for­ma muito inter­es­sante, o cri­ador e a criatu­ra. Já Spo­ladore faz um papel que acred­i­to com­bi­nar com ela, pos­suin­do uma voz forte e um olhar irôni­co cabív­el à personagem.

    Nati­mor­to é uma exper­iên­cia inter­es­sante para o cin­e­ma nacional que vem apo­s­tan­do em tra­bal­ho menos hiper­re­al­is­tas e con­fig­u­ran­do asso­ci­ações com a lit­er­atu­ra fei­ta no pre­sente. Mes­mo para os desacos­tu­ma­dos a um cin­e­ma com mais diál­o­gos e exper­i­men­tal, o filme vale o ingresso.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=PfoHx-kHUhQ

  • Livro: 20 poemas para o seu Walkman

    Livro: 20 poemas para o seu Walkman

    20 poemas para seu walkman

    Você gos­ta de poe­sia? E de músi­ca? Já pen­sou em jun­tar os dois? Poe­mas para ouvir. Via­jar e poder levar poe­mas no seu iPod. Um poe­ma como tril­ha sono­ra de sua vida. Parece uma ideia um tan­to quan­to esquisi­ta. Não para Marília Gar­cia. Ela nasceu no Rio de Janeiro em 29 de novem­bro de 1979, é escrito­ra, tradu­to­ra e edi­to­ra brasileira. Já pub­li­cou os livros Encon­tro às cegas (Edi­to­ra Moby Dick, 2001) e 20 poe­mas para o seu walk­man (Cosac Naify & 7Letras, 2007).

    Em seu livro — 20 poe­mas para o seu walk­man- Marília Gar­cia apre­sen­ta uma poe­sia reple­ta de car­ac­terís­ti­cas mar­cantes, per­cep­tíveis através da leitu­ra dos poe­mas, sendo a prin­ci­pal o não uso das rimas, por se tratar de poe­sia do pre­sente. Essas car­ac­terís­ti­cas instigam a curiosi­dade no leitor e des­per­tam as mais vari­adas sen­sações e emoções, o que se tor­na pos­sív­el com a uti­liza­ção das fig­uras de lin­guagem, prin­ci­pal­mente a sinestesia. 

    Há tam­bém a forte pre­sença da relação entre tem­po e espaço; a pre­sença de per­son­agens, fic­tí­cios ou não; o pouco uso da pon­tu­ação, a pro­dução de ima­gens; uso de cores e tam­bém, o grande uso de estrangeiris­mos, pre­sentes na maio­r­ia dos poe­mas da escrito­ra. Então, surge a grande per­gun­ta: por que o títu­lo do livro é 20 poe­mas para o seu walk­man?

    O ter­mo Walk­man, do inglês, rep­re­sen­ta a ideia de “cam­in­har”. Seria essa a intenção dos cri­adores do apar­el­ho que foi uti­liza­do para se referir a apar­el­hos portáteis sim­i­lares de repro­dução de áudio. Com sua chega­da, cos­tu­ma-se diz­er que mudaram os hábitos musi­cais, uma vez que cada pes­soa podia car­regar e ouvir seus sons preferi­dos e, prin­ci­pal­mente, sem inco­modar out­ras pes­soas. O walk­man, evoluiu para mp3, mp4, iPod etc. 

    Mas por que um “walk­man”?

    Talvez, porque, como a própria auto­ra, Marília Gar­cia, afir­mou em entre­vista — em 2007 — que “a poe­sia escapa à músi­ca”, poden­do ser enten­di­da de várias formas:

    Ela (a poe­sia) pode ser enten­di­da de diver­sas for­mas, como um som para tocar em seu walk­man ou como uma cena cin­e­matográ­fi­ca nar­ra­da. Acho que o poe­ma é aqui­lo que escapa à lit­er­atu­ra, escapa à músi­ca, escapa ao cin­e­ma, escapa às coisas definíveis, mas que se rela­ciona o tem­po todo com elas, bus­can­do exper­i­men­tar e cri­ar novas formas.” 

    20 poe­mas para o seu walk­man divide-se em qua­tro partes: Per­gun­tas sobre a difer­ença entre, Le pays n’est pás La carte, Encon­tro às cegas (escala indus­tri­al) e Algo que se esqui­va. Curiosa­mente, o livro não apre­sen­ta 20 poe­mas e sim 45. 20 poe­mas para o seu walk­man é o títu­lo de um deles. 

    Poe­sia do Presente 

    Marília Gar­cia, jun­ta­mente com alguns out­ros escritores, como Angéli­ca Fre­itas e Ricar­do Dome­neck, é con­sid­er­a­da escrito­ra do pre­sente. Mas o que sig­nifi­ca isso? Escritores do presente?

    Segun­do a pro­fes­so­ra e pesquisado­ra Susana Scramim, os “escritores do pre­sente” não são nec­es­sari­a­mente con­tem­porâ­neos. Mas estes pos­suem um pen­sa­men­to comum acer­ca do literário. A auto­ra desta­ca que:

    A lit­er­atu­ra do pre­sente que envolve uma noção muito maior do que a noção de con­tem­porâ­neo é aque­la que assume o risco inclu­sive de deixar de ser lit­er­atu­ra, ou ain­da, de faz­er com que a lit­er­atu­ra se coloque num lugar de pas­sagem entre os dis­cur­sos, entre os lugares orig­inários da poe­sia, e que não devem ser con­fun­di­dos com o espaço, com a cir­cun­scrição de um ter­ritório para a lit­er­atu­ra. Escr­ev­er lit­er­atu­ra do pre­sente hoje tem função de faz­er coin­cidi­rem duas coisas que a mod­ernidade esgo­tou há muito: a pos­si­bil­i­dade do con­hec­i­men­to e da experiência. 

    A Poe­sia do Pre­sente, então, “brin­ca” com o leitor, pois o induz a pro­duzir ima­gens, decifrar códi­gos e bus­car respostas para seus ques­tion­a­men­tos. A par­tir da leitu­ra dos poe­mas de Marília Gar­cia ima­gens tam­bém são pro­duzi­das. Desta­ca-se os lugares, lín­guas e pessoas. 

    20 poe­mas para o seu walkman

    I.
    um dos primeiros dias
    do ano, francesc subia a notre – dame
    ‑de-lorette atrás de jacques roubaud
    e sen­ta­va no café gio­con­da de frente
    para uma saco­la com um
    gato dentro.
    um dos primeiros
    dias de outono,não pare­cia seguro
    ficar ali – como a beira do barco
    escor­re­ga­dia e do out­ro lado
    tudo era um quar­to com terraço
    as ruas crescen­do ao redor a estação
    de trem com mato cobrindo as
    lin­has e ás vezes um mergulho
    na água salgada:
    ficar boiando
    com um walk­man e depois olhar para
    os pés: — um pouco insu­lano isso de as
    lín­guas iso­ladas se misturarem
    pouco a pouco e dirigir
    na estra­da à noite. 

    II.
    depois descia as ruas
    e que­ria ficar no car­ro trancado
    segu­ran­do um livro.o penhasco
    apa­ga­va qual­quer definição
    de coisas, mas quando
    se virava
    ela já não estava
    tomara o bar­co para casa e dizia
    que talvez no verão seguinte mas
    só lig­a­va para con­tar do emprego
    de matemáti­ca – “quase um objeto
    poroso” – sair para um con­cer­to de rock
    e preparar vari­ações para uma
    veg­e­tar­i­ana amáv­el que pinta
    de bran­co o apartamento
    antes de ir.

    III.
    um dos primeiros dias
    e chega­va o cartão da
    catalun­ha, dizia que ficava
    mudo em seu metro e noventa
    esbar­ran­do nas pes­soas e olhava
    pra os pés: um tênis azul. se não tivesse
    tan­ta hier­ar­quia ou o que pensaria
    (estaria de verde? traria uma pilha
    de obje­tos nas mãos ? teria um
    fone de ouvi­do? e ain­da cantaria
    em voz alta) 

  • Zoona: Encontro Literário de Curitiba

    Zoona: Encontro Literário de Curitiba

    Nas últi­mas sem­anas vem se espal­ha­do uma inqui­etação em torno da Lit­er­atu­ra con­tem­porânea no Brasil. Os críti­cos e pro­fes­sores Alcir Péco­ra e Beat­riz Rezende tiver­am uma dis­cussão per­ti­nente em torno do assun­to, na pro­pos­ta de pro­gra­ma Desente­d­i­men­to do blog do Insti­tu­to Mor­eira Salles. Alguns dos pon­tos mais ques­tion­adores foi a que Lit­er­atu­ra pro­duzi­da atual­mente é estran­hamente con­t­a­m­i­na­da por out­ras artes se tor­nan­do sem iden­ti­dade, sem muitas novi­dades, como afir­ma com algu­mas palavras o pro­fes­sor da Unicamp.

    Tor­nan­do a dis­cussão uma falá­cia, para­le­la­mente ao caos via web que a dis­cussão causa­va, acon­te­ceu na mes­ma sem­ana, em Curiti­ba, o even­to Zoona Literária, jus­ta­mente trazen­do muitas das vozes con­tem­porâneas con­t­a­m­i­nadas, segun­do a acad­e­mia. O even­to acon­te­ceu nos dias 15,16 e 17 de abril, com a curado­ria do poeta e pro­fes­sor Clau­dio Daniel e da artista e escrito­ra Joana Coro­na. O even­to — como me disse por alto o mul­ti-artista Ricar­do Coro­na — tin­ha a intenção de faz­er uma real zona, no sen­ti­do colo­quial de bagunça e diver­são, tiran­do do eixo a atu­al cena literária de Curitiba. 

    Hom­e­nage­an­do os escritores Valên­cio Xavier e Wil­son Bueno, o Zoona Literária con­tou com escritores e artis­tas que têm suas obras tam­bém pon­tu­adas por um deli­cioso exper­i­men­tal­is­mo e uma relação inti­ma — e necessária — de Lit­er­atu­ra, Artes Plás­ti­cas, Teatro, Cin­e­ma e uma boa lista de out­ras pos­si­bil­i­dades. Um dos aspec­tos mais inter­es­santes das mesas-redondas foi jus­ta­mente os assun­to que cir­cu­lou em cada uma delas, mes­mo que o tema vari­asse: a for­ma leviana como a acad­e­mia con­ser­vado­ra do país e, inclu­sive, a mídia tratam as novas exper­i­men­tações e toda pro­dução literária que ven­ha acom­pan­ha­da da palavra contemporâneo.

    Além do lança­men­to do suple­men­to literário do even­to, o jor­nal Vagau, o Zoona con­tou com muitos escritores — de vários can­tos do país — lançan­do seus tra­bal­hos, por edi­toras inde­pen­dentes — ou menos descon­heci­das — do cir­cuito cos­tumeiro. Aí out­ro pon­to inter­es­sante do Zoona Literária, um momen­to para nomes do cir­cuito mais under­ground — mes­mo sendo fora de moda usar esse ter­mo em pleno ano 2011 com o auge das mídias soci­ais — terem voz, mostrarem, lerem e dis­cu­tirem suas pro­duções. Ain­da, teve leituras de nov­ela, poe­sia e tex­tos em ger­al com per­for­mances, videoartes, doc­u­men­tários e todo tipo de mate­r­i­al que traz à tona o hib­ridis­mo e poli­fo­nia geni­ais em que a pro­dução atu­al opera.

    Mas os pon­tos mais altos do Zoona Literária foram as mesas redondas pau­tadas sobre algu­ma polêmi­ca que movi­men­ta­va a plateia e os debate­dores. Assun­tos como a con­t­a­m­i­nação da Lit­er­atu­ra com Artes Visuais e os exper­i­men­tal­is­mos que a poe­sia vive des­de o Con­cretismo (e até antes) que con­fig­u­ram muito o sta­tus atu­al, per­me­ar­am as primeiras dis­cussões. Depois os debates ficaram mais inten­sos e além de todo o time de escritores óti­mos que ain­da vivem ain­da no anon­i­ma­to, o Zoona con­tou com a par­tic­i­pação dos con­heci­dos Luiz Ruffa­to e Joca Rein­ers Ter­ron.

    Nesse momen­to a dis­cussão ficou mais no entorno dos meios e for­mas que a Lit­er­atu­ra atu­al vem se con­fig­u­ran­do através da inter­net e o adven­to de novas tec­nolo­gias para leitu­ra. Ain­da, se dis­cu­tiu a questão de gêneros den­tro da prosa chama­da de mín­i­ma e o assun­to se tornou ain­da mais inter­es­sante quan­do surgiu o ques­tion­a­men­to sobre as escol­has de um autor na hora de escr­ev­er. E para finalizar o dia, a últi­ma mesa redon­da do sába­do man­teve um olhar sobre os tra­bal­hos de Valên­cio Xavier e Wil­son Bueno, dan­do um âni­mo a mais para os entu­si­as­tas dessa Lit­er­atu­ra tão rica e híbri­da. Quase impos­sív­el ressaltar todas as falas impor­tantes que acon­te­ce­r­am ness­es dias de inten­sa movi­men­tação Literária.

    Um even­to como o Zoona Literária é uma ati­tude lou­váv­el e ousa­da, per­mi­tiu que uma parcela dos leitores e autores da lit­er­atu­ra do pre­sente pudessem dialog­ar e encon­trar for­mas de tornar essas relações mais conc­re­tas. Se con­fir­ma a ideia de que a par­tir do momen­to que a lit­er­atu­ra dialo­ga com out­ras artes, ela deixa de ser pura­mente lit­er­atu­ra, pas­sa a ser uma cri­ação e aí que reside a difi­cul­dade da acad­e­mia aceitar tra­bal­hos mais ousa­dos. Mas, con­ven­hamos, a lin­guagem não tem lim­ites e como diz o filó­so­fo ital­iano Gior­gio Agambem: Con­tem­porâ­neo é aque­le que recebe em pleno ros­to o facho de trevas que provém de seu tem­po. E bem, com trevas os escritores e pesquisadores da Lit­er­atu­ra Con­tem­porânea lidam todos os dias.

  • Livro: O Sobrevivente — Chuck Palahniuk

    Livro: O Sobrevivente — Chuck Palahniuk

    O Sobre­vivente (Edi­to­ra Nova Alexan­dria, 2003) foi incumbido a ser o suces­sor da bem rece­bi­da adap­tação de O Clube da Luta, escrito pelo amer­i­cano Chuck Palah­niuk. O autor é o nome mais lem­bra­do — até mais que o dire­tor David Finch­er — quan­do se comen­ta do lon­ga-metragem estre­la­do por Brad Pitt e Edward Nor­ton. O filme deu entra­da ao escritor, que até aque­le momen­to era só um cara mal com­preen­di­do, um mar­gin­al mod­er­no da lit­er­atu­ra amer­i­cana, ao grande públi­co. Mar­ca­do por uma lin­guagem con­tro­ver­sa, Palah­niuk pas­sou a escr­ev­er muito e sem demo­ra, repetindo sem­pre a fór­mu­la de lin­guagem que o dera tan­ta visibilidade.

    O homem da vez é Ten­der Bran­son, um dos poucos sobre­viventes da Igre­ja do Cre­do — um mis­to de igre­ja que pos­sui cos­tumes puri­tanos e tendên­cias sui­ci­das com sociedade fecha­da — e não entende muito qual a sua função fora dos parâmet­ros esta­b­ele­ci­dos pela sua religião. Não que a sociedade fora da Igre­ja tam­bém não impon­ha regras, mas a supos­ta liber­dade de escol­ha que se diz haver, inco­mo­da esse homem. Bran­son é um empre­ga­do esforça­do numa man­são que nem ele mes­mo con­hece os donos, é manía­co por orga­ni­za­ção e sabe todos os truques para man­ter a ¨ordem¨. Mas toda essa fal­sa per­feição esconde lados som­brios dele como, por exem­p­lo, sua iden­ti­dade notur­na de con­sel­heiro para sui­ci­das via tele­fone. No dia em que Ten­der resolve mudar as regras, sua vida sim­ples­mente dá uma revi­ra­vol­ta rumo à situ­ações pouco prováveis, mas realistas.

    Como todo bom per­son­agem anti-herói que se preze, Bran­son vive os momen­tos dis­tin­tos de subi­da ao cli­max, indo até a máx­i­ma de poder — que ele acred­i­ta ter — e sim­ples­mente decai, pois a que­da é inevitáv­el e ele sabe muito bem dis­so. Chuck Palah­niuk usa um recur­so muito inter­es­sante para mostrar a con­tagem regres­si­va da que­da do últi­mo sobre­vivente: o livro tem exatos 50 capí­tu­los, ao chegar no 25 a con­tagem é regres­si­va, a cada capí­tu­lo o leitor sabe que o fim está próx­i­mo, há um deses­pero apáti­co na voz de Branson.

    A lin­guagem usa­da em O Sobre­vivente é a mes­ma que já mar­cou a car­reira do escritor amer­i­cano, dom­i­na­da por um fluxo de con­sciên­cia com­ple­ta­mente trans­gres­sor ela não poupa palavrões e nem ele­men­tos total­mente mar­gin­ais que deix­am o tex­to extrema­mente frag­men­ta­do, mas de fácil com­preen­são pelo leitor. Afi­nal isso se assemel­ha muito com o fluxo de falas cotid­i­anas, claro, com um tom bem mais esquizofrênico.

    As críti­cas per­manecem muito pare­ci­das com as abor­dadas em O Clube da Luta, a apa­tia do homem mod­er­no e a fácil ilusão que o con­sum­is­mo traz se fazem pre­sentes nos per­son­agens que o úni­co fim passív­el é a que­da. Chuck Palah­niuk acer­ta todos em O Sobre­vivente, deixan­do claro que todos somos molda­dos para seguir um padrão e quan­do há que­bra dis­so, ocorre uma inevitáv­el mudança ‑muitas vezes fatal — de per­cur­so. Um livro de tirar o fôlego e acer­tar em todas as feridas.

  • Livro: Juliet, Nua e Crua — Nick Hornby

    Livro: Juliet, Nua e Crua — Nick Hornby

    Nick Horn­by é um escritor inglês bas­tante con­heci­do por causa do livro Alta Fidel­i­dade, que gan­hou um ver­são para o cin­e­ma em 2000, estre­la­da por John Cusack. Adep­to das refer­ên­cias pop, Horn­by sem­pre traz enre­dos envol­ventes que tratam de assun­tos rotineiros, mas com uma exce­lente dose de humor e uma nar­ra­ti­va bas­tante dinâmi­ca. Seu livro mais recente Juli­et, Nua e Crua (Edi­to­ra Roc­co, 2010) , exem­pli­fi­ca bem isso.

    Tuck­er Crowe é um músi­co que fez bas­tante suces­so durante sua car­reira, até que cer­to dia resolve aban­doná-la e sumir com­ple­ta­mente. Entre seus fãs há Dun­can, um inglês obceca­do com a car­reira de Crowe (ele se con­sid­era um “crow­el­o­gista”), a pon­to de via­jar até os Esta­dos Unidos para con­hecer até mes­mo um ban­heiro que o can­tor usou. Tuck­er por sua vez, vive num local iso­la­do com sua esposa e um de seus 5 fil­hos, Jackson. 

    Cer­to dia, Dun­can recebe uma demo com ver­sões de músi­cas de Crowe. Annie, sua esposa, comete a ousa­dia de ouvir o dis­co antes de Dun­can e resolve escr­ev­er uma resen­ha a respeito da mes­ma, crit­i­can­do a idol­a­tria dos fãs de Crowe. Dun­can decide pub­licá-la no fã site do can­tor e pede que Annie coloque seu email para pos­síveis con­tatos. Ele esper­a­va que ela recebesse críti­cas fer­ren­has, mas quem escreve para ela é o próprio Crowe. 

    Em ape­nas um livro, Horn­by con­ta a tra­jetória de diver­sos per­son­agens e con­segue entre­laçá-las de for­ma magis­tral. Além dis­so, ele traz as já citadas refer­ên­cias pop, fala de ban­das como U2, fala em cor­re­spondên­cias via email e out­ras tan­tas. Para explicar a car­reira de Tuck­er Crowe, em Juli­et, Nua e Crua, o escritor usa um per­fil fic­tí­cio reti­ra­do da Wikipedia. Tam­bém são mostra­dos ao leitor os emails que Crowe tro­ca com Annie. Tive a opor­tu­nidade de ler o livro em sua lín­gua orig­i­nal e na mes­ma, é bas­tante fluí­da. Com um inglês bas­tante colo­quial, Horn­by tor­na a leitu­ra bas­tante agradável.

    Juli­et, Nua e Crua traz os mel­hores ele­men­tos que podem exi­s­tir numa lit­er­atu­ra con­tem­porânea: agili­dade da nar­ra­ti­va, per­son­agens cati­vantes, refer­ên­cias da atu­al­i­dade e um enre­do que prende a atenção. Num oceano de livros que pouco trazem de novo, Horn­by mostra que a lit­er­atu­ra pode sim ser mod­er­na com boas dos­es de humor, sem descam­bar para a mesmice. 

  • Livro: A Morte de Bunny Munro — Nick Cave

    Livro: A Morte de Bunny Munro — Nick Cave

    Nick Cave ini­ciou sua car­reira musi­cal no iní­cio dos anos 70. Ele escreveu letras para suas diver­sas ban­das, entre elas The Birth­day Par­ty, Grin­der­man e os Bad Seeds. Sem­pre foi pos­sív­el notar sua exce­lente incli­nação para a lit­er­atu­ra, mas eis que ele nos pre­sen­teia com um livro chama­do A Morte de Bun­ny Munro (Edi­to­ra Record, 2010).

    Com um humor áci­do, Cave nos leva para a vida de Bun­ny Munro, um homem que vende pro­du­tos de por­ta em por­ta, enquan­to sua esposa depres­si­va fica em casa cuidan­do de seu úni­co fil­ho, Bun­ny Junior. Munro vê sua vida mudar com­ple­ta­mente quan­do, ao chegar em casa, encon­tra o cor­po de sua esposa que havia cometi­do suicí­dio. Após cer­to tem­po de catarse, ele resolve voltar ao tra­bal­ho. Sem ter com quem deixar o fil­ho, os dois saem pelas estradas, no mel­hor esti­lo de On the Road.

    A Morte de Bun­ny Munro é o segun­do livro de Cave e apre­sen­ta uma qual­i­dade literária que fal­ta em mil­hares de escritores que vemos por aí. A estória é muito bem estru­tu­ra­da e nos absorve com­ple­ta­mente. Uti­lizan­do de altas dos­es de iro­nia para se referir à ícones pop (suas refer­ên­cia à Avril Lav­i­gne e Kylie Minogue são sim­ples­mente sen­sa­cionais!), ele nos diverte, ao mes­mo tem­po que nos deixa apreen­sivos para saber o des­ti­no de Bun­ny e de seu filho. 

    A lin­guagem do livro A Morte de Bun­ny Munro é um pouco dura, nada ali é roman­ti­za­do. Mas o destaque mes­mo fica para Bun­ny Junior. Meni­no sen­sív­el e inteligente, ele parece ter mais forças que o próprio pai para poder continuar. 

  • Livro: Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll | Livro

    Livro: Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll | Livro

    João Gilber­to Noll diz que a sua escri­ta é: ¨Como se real­mente a lin­guagem fos­se um exer­cí­cio dese­jante de ação. Ação não no sen­ti­do norte-amer­i­cano, evi­den­te­mente, de cin­emão, mas no sen­ti­do de que o per­son­agem começa de um jeito e vai ter­mi­nar de out­ro.¨ De fato, não há mel­hor definição para Hotel Atlân­ti­co (Edi­to­ra Roc­co, 1989), talvez a obra mais cel­e­bra­da do autor gaúcho.

    Ao se deparar com um cadáver sendo lev­a­do pelo IML nas escadarias de um hotel em Copaca­bana, um homem sem nome — que mais tarde se apre­sen­ta como um ator — resolve se auto-pro­por uma viagem pelo Brasil. Aparente­mente inde­ciso sobre a sua vida o homem vai até a rodoviária e com­pra a pas­sagem para o lugar mais longe naque­le momen­to. Aca­ba por embar­car para Flo­ri­anópo­lis, seguin­do para cidades do inte­ri­or do Rio Grande do Sul viven­cian­do uma ver­dadeira odis­séia rodea­do de per­son­agens esquisi­tos e em bus­ca de algo que nun­ca fica claro o que é.

    Hotel Atlân­ti­co cel­e­bra os novos rumos que a lit­er­atu­ra brasileira toma­va no fim dos anos 80. Nesse perío­do os novos escritores começavam a cri­ar esti­los mais próprios e João Gilber­to Noll já era con­heci­do por ser um autor que fugia de qual­quer regra e se fazia mági­co da lin­guagem. E é assim que o livro se apre­sen­ta, uma nar­ra­ti­va de ação mas pro­fun­da­mente cal­ca­da no ques­tion­a­men­to humano. Não há muitas certezas no enre­do e é jus­ta­mente nesse aspec­to que mora o fasci­nante desen­ro­lar da história do homem em fuga. Noll propõe a saga de um homem sem prece­dentes e con­strói a nar­ra­ti­va de for­ma que não nos inter­es­sa o pas­sa­do dele, ape­nas as decisões que ele vá tomar a cada situ­ação inusi­ta­da que lhe aparece.

    Em momen­to algum Hotel Atlân­ti­co se propõe em explicar o pas­sa­do, ou mes­mo, desven­dar o futuro do per­son­agem. O momen­to é val­oriza­do em cada lin­ha e pará­grafo, dan­do ao leitor poucos momen­tos para res­pi­rar ou ten­tar definir o que irá acon­te­cer ao homem na sequên­cia. O próprio títu­lo do livro é algo que vai se desen­vol­ven­do e crian­do sen­ti­do com o enre­do já quase definido. E esse é o esti­lo que Noll se ref­ere ao diz­er que gos­ta da ação que lem­bra a nar­ra­ti­va cin­e­matográ­fi­ca, afi­nal o livro é um belo roteiro, um road movie exis­ten­cial reple­to de pais­agens e pes­soas car­i­catas de cada lugar. Out­ro aspec­to inter­es­sante é a lev­eza eróti­ca que muitos momen­tos são descritos. Mes­mo sem poupar expressões sex­u­ais o autor cria momen­tos real­mente sór­di­dos, porém em tons banais, com as situ­ações vivi­das pelo homem sem nome e as mul­heres no caminho.

    Dan­do uma amostra do que viria nos anos 90 e pos­te­ri­or­mente na primeira déca­da dos anos 2000, Hotel Atlân­ti­co é uma obra ímpar da lit­er­atu­ra brasileira con­tem­porânea que serviu para tirar o foco da lit­er­atu­ra region­al­ista com lon­gas nar­ra­ti­vas, para uma lit­er­atu­ra mais impar­cial que pas­sa­va a beber de todas as artes, se tor­nan­do mais próx­i­ma do homem urbano. A nar­ra­ti­va sem tem­po fixo e com ações pon­tu­ais serviu de base para a adap­tação homôn­i­ma da dire­to­ra Suzana Ama­r­al, vale a pena conferir.

    Site do filme Hotel Atlântico

  • Livro: Leite Derramado — Chico Buarque

    Livro: Leite Derramado — Chico Buarque

    Eulálio Mon­tene­gro D‘Assumpção (sem pro­nun­ciar o “p” mudo para não causar deboche) é o pro­tag­o­nista do romance de Chico Buar­que, Leite Der­ra­ma­do, pub­li­ca­do pela Com­pan­hia das Letras em 2009. Este sen­hor com pouco mais de 100 anos, encon­tra-se em um leito de hos­pi­tal, de onde nar­ra suas memórias e pen­sa­men­tos, nem sem­pre cronológi­cos, seja porque sua memória já o con­funde ou por estar sob efeitos dos medica­men­tos, por isso muitas vezes em Leite Der­ra­ma­do aparece: “Não sei se já lhes con­tei algu­ma vez como con­heci Matilde na mis­sa do meu pai…”; as pes­soas para quem ele con­ta os fatos são as enfer­meiras, sua fil­ha ou ape­nas divagações.

    Den­tro desse emaran­hado de pen­sa­men­tos e lem­branças nos damos con­ta de aspec­tos da história do Brasil, dos acon­tec­i­men­tos na sociedade do Rio de Janeiro do sécu­lo pas­sa­do, falar em francês na pre­sença dos empre­ga­dos, por exem­p­lo, e até mes­mo feitos dos famil­iares desse ancião na Europa. A par­tir do “que­bra-cabeça históri­co” apre­sen­ta­do em Leite Der­ra­ma­do, podemos encon­trar refer­ên­cia à vin­da da família real por­tugue­sa, com a qual veio o seu trisavô, à belle épóque, à Segun­da Guer­ra Mundi­al, à que­bra da bol­sa de Nova Iorque e à ditadu­ra mil­i­tar. Todos ess­es fatos nos são nar­ra­dos para lem­brar da importân­cia do seu sobrenome per­ante a sociedade que aos poucos, com a vin­da dos netos, bis­ne­tos e tatarane­tos vai tor­nan­do-se cada vez menos impor­tante, pois antiga­mente era um sobrenome que lhes abri­am por­tas e ago­ra no pre­sente não influ­en­cia em mais nada.

    Chico Buar­que, através do apan­hado de infor­mações, faz uso muito refi­na­do da lin­guagem, usan­do flash-backs não-lin­ear­es, con­fundin­do o leitor e inserindo a temáti­ca do racis­mo com sutileza, como por exem­p­lo a Matilde que é descri­ta como “a mais escur­in­ha das irmãs” ou o seu dese­jo sobre o seu cole­ga fil­ho de escravo.

    Sob meu olhar de leito­ra, Leite Der­ra­ma­do está próx­i­mo ao Budapeste, com histórias e per­son­agens difer­entes, claro, mas com uma cer­ta aprox­i­mação na vida das per­son­agens, ambos estão “per­di­dos”, ou mel­hor, em algum tipo de decadên­cia, e próx­i­mo tam­bém ao Estor­vo, pela descrição das cenas no Rio de Janeiro. Quan­to à for­ma da lin­guagem, cer­ta­mente Chico Buar­que cresceu muito neste, Leite Der­ra­ma­do, pois ele con­segue pren­der o leitor durante toda a nar­ra­ti­va, talvez pela empa­tia que o vel­ho Eulálio nos causa ao con­tar sobre sua ama­da Matilde, mas prin­ci­pal­mente pelo pri­mor da escri­ta, na maio­r­ia das vezes pare­cen­do fluxo de con­sciên­cia, e aí está o pri­mor do romance, Chico Buar­que con­segue faz­er uso da lin­guagem como poucos, pren­den­do e con­fundin­do o leitor na nar­ra­ti­va, mas sem que ele ten­ha se per­di­do ao elab­o­rar a obra.

    Com as car­ac­terís­ti­cas apon­tadas sobre traços históri­cos, out­ro traço que podemos destacar é o traço psi­cológi­co do pro­tag­o­nista, a par­tir das descrições e lem­branças dele, é pos­sív­el anal­is­ar a fal­ta que fez uma estru­tu­ra famil­iar, o quan­to o deixou per­di­do as via­gens com o pai para a Europa e a aprox­i­mação das moças nas sofisti­cadas suítes dos hotéis, con­hecer a neve das mon­tan­has etc. Creio que tam­bém o que mar­ca psi­co­logi­ca­mente o pro­tag­o­nista de Leite Der­ra­ma­do é a presença/ausência de Matilde, pre­sente sem­pre em suas memórias, mas ausente a par­tir de alguns acon­tec­i­men­tos e é quan­do Eulálio relem­bra da ama­da que seus pen­sa­men­tos se con­fun­dem. Vale a pena dedicar alguns momen­tos para con­hecer mel­hor esse vel­ho saudo­sista e se perder entre as palavras der­ra­madas nesse romance do Chico Buar­que, Leite Der­ra­ma­do.

    Assista o autor lendo tre­chos da obra:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=_tkaXxXXKVI&feature=player_embedded

  • Resumo da Bienal do Livro Paraná 2010

    Resumo da Bienal do Livro Paraná 2010

    A for­mação de leitores é tema con­stante nas dis­cussões sobre as for­mas de mel­ho­rar a edu­cação no país. A média de livros lidos pelo brasileiro é de dois vol­umes por habi­tante, um número extrema­mente baixo se com­para­do com país­es europeus e out­ros país­es con­sid­er­a­dos desen­volvi­dos. Com isso se tem pro­lif­er­a­do, em razoáv­el escala, o número de feiras, jor­nadas e bien­ais literárias pelo país. Não difer­ente, em out­ubro desse ano acon­te­ceu a primeira Bien­al do Livro Paraná 2010, em Curiti­ba, con­tan­do com 10 dias de pro­gra­mação cul­tur­al para fomen­tar o setor e, prin­ci­pal­mente, aprox­i­mar os vis­i­tantes do uni­ver­so da literatura.

    Pen­san­do nis­so, as atrações foram muitas e ten­taram abranger as mais diver­sas dis­cussões em torno do livro e da lit­er­atu­ra com temas volta­dos a con­tem­po­ranei­dade e as exper­iên­cias do leitor. Alguns destaques foi o Café Literário, que com a curado­ria de João Pereira, do jor­nal Ras­cun­ho, trouxe autores con­tem­porâ­neos dis­cutin­do temas per­ti­nentes não só aos escritores, mas tam­bém aos leitores, os aprox­i­man­do da lit­er­atu­ra como obje­to de estu­do e dis­cussão. O Even­to Nobre trouxe, no sex­to dia da Bien­al do Livro Paraná 2010, o escritor Rubem Alves defend­en­do uma edu­cação pelos sen­ti­dos e, no últi­mo dia, acon­te­ceu uma bela hom­e­nagem ao críti­co Wil­son Mar­tins. Já os debates mais ide­ológi­cos acon­te­ce­r­am no Espaço Livre, que no últi­mo dia deba­teu a liber­dade de impren­sa com Marce­lo Madureira e o pro­mo­tor Rodri­go Chemin. Além dis­so, a qual­i­dade na pro­dução artís­ti­ca para as cri­anças e jovens foi tema em dois dias do Fórum de Debates. Ain­da, o Ter­ritório Jovem, no déci­mo dia de Bien­al, dis­cu­tiu o mun­do da meni­na, um dos temas mais pre­sentes na lit­er­atu­ra infan­to-juve­nil atual.

    Um dos pon­tos fra­cos da Bien­al do Livro Paraná 2010 foi a fal­ta de pre­sença das grandes edi­toras de vários seg­men­tos literários, sendo que muitas daque­las anun­ci­adas estavam somente pre­sentes em estantes na for­ma de pro­du­to e não com uma rep­re­sen­tação ofi­cial, o que era de fato real­mente esper­a­do pelos vis­i­tantes. Dev­i­do a forte pre­sença de sebos e livrarias de pon­ta de estoque, a sen­sação era mais de se estar em uma feira de livros. Além dis­so, muitos leitores que bus­cav­am descon­tos e difer­en­ci­ações de com­pras, além de pro­du­tos mais inédi­tos, se decep­cionaram com preços iguais com os encon­tra­dos fora dele e com a mes­ma ofer­ta de opções, o que deses­tim­u­lou o dese­jo de com­pra em ger­al. Será que ain­da não foi perce­bido que se hou­ver um descon­to espe­cial, por ser uma Bien­al, have­ria um aumen­to sig­ni­fica­ti­vo nas vendas?

    Há uma importân­cia muito grande em apoiar, como vis­i­tantes, colab­o­radores, divul­gadores e etc, even­tos como a Bien­al do Livro Paraná 2010 sim­ples­mente pelo fato de ser em prol da mul­ti­pli­cação de val­ores cul­tur­ais em um país que vive, e é for­ma­do, pela mul­ti­cul­tur­al­i­dade. Pois a lit­er­atu­ra é uma das fer­ra­men­tas mais impor­tantes para a for­mação de cidada­nia e do faz­er-se ser humano.

    Quem teve a opor­tu­nidade de par­tic­i­par dos bate-papos e dis­cussões da Bien­al do Livro Paraná 2010 difi­cil­mente se sen­tiu de algu­ma for­ma arrepen­di­do, pois havi­am muitas opções de óti­ma qual­i­dade. Mas, infe­liz­mente, para muitos que foram em bus­ca de preços mais baratos e diver­si­dade nas escol­has, saíram de mãos vazias e o dese­jo não saci­a­do de adquirir algu­mas obras.

    Out­ras opiniões de quem tam­bém participou:

  • Café Literário: Heloisa Seixas e João Paulo Cuenca

    Café Literário: Heloisa Seixas e João Paulo Cuenca

    O leitor que nun­ca fora seduzi­do por um exce­lente romance, que atire a primeira pedra! Mes­mo que haja con­tro­vér­sias entre os escritores sobre a ¨util­i­dade¨ da leitu­ra, uma coisa é fato: a lit­er­atu­ra causa algu­ma espé­cie de sen­ti­do no leitor, uma ato de sedução ocorre no momen­to ínti­mo da relação leitor e obra. Foi com esse enfoque que os escritores Heloisa Seixas e João Paulo Cuen­ca, debat­er­am A sedução do romance: onde está sua força? no Café Literário, medi­a­do por Luis Hen­rique Pel­lan­da, do dia 09 de out­ubro, na Bien­al do Livro Paraná 2010.

    Heloisa Seixas é car­i­o­ca, romancista, cro­nista, tradu­to­ra e um de seus con­jun­tos de con­tos mais con­heci­dos é Pente de Vênus. A escrito­ra já escreveu con­tos para vários suple­men­tos cul­tur­ais e é casa­da com o escritor Ruy Cas­tro. Já João Paulo Cuen­ca, que tam­bém é car­i­o­ca, faz parte do rol de escritores bem cota­dos e con­tem­porâ­neos. Em breve terá um roteiro adap­ta­do pelo dire­tor Luis Fer­nan­do Car­val­ho e lançou recen­te­mente O úni­co final feliz para uma história de amor é um aci­dente, que faz parte do pro­je­to Amores Expres­sos.

    Os seg­re­dos de um bom romance literário nen­hum escritor con­ta. Já, nós leitores, podemos enu­mer­ar mil­hares de adje­tivos que nos fiz­er­am entor­pecer por deter­mi­na­da obra e/ou per­son­agens. Pen­san­do nes­sa situ­ação de leitor que Luis Hen­rique Pel­lan­da ini­ciou o bate-papo com os dois escritores, afi­nal o que os seduz­iu como leitor para pos­te­ri­or neces­si­dade de escrita?

    Para Heloisa Seixas a respos­ta foi ime­di­a­ta, con­tan­do da sua aprox­i­mação, segun­do ela pre­coce, aos 12 anos com a obra O Pri­mo Basilio, de Eça de Queiroz. Logo em segui­da, rela­ta de for­ma oníri­ca a iden­ti­fi­cação que hou­vera durante a leitu­ra com uma das per­son­agens que acabou a acom­pan­han­do durante cer­to perío­do. Inclu­sive, Heloisa con­ta de out­ras situ­ações em que estes per­son­agens a man­tinham numa real­i­dade onde as ficções, fos­sem de livros ou na TV, man­tinham uma por­ta aber­ta e de diál­o­go que somente ela como leito­ra podia aces­sar. Mas, defin­i­ti­va­mente, afir­ma que se não fos­sem as histórias con­tadas, e a cap­tura de atenção destas, ela jamais seria escrito­ra ou sen­tiria a neces­si­dade de cri­ar suas próprias narrativas.

    João Paulo Cuen­ca diz que Fer­nan­do Sabi­no com Encon­tro Mar­ca­do mudou a sua relação com a lit­er­atu­ra. O escritor con­ta que é um trági­co exis­ten­cial­ista, sem­pre fora assim, e esse livro somente reforçou essa neces­si­dade de ques­tion­a­men­to sen­ti­do des­de da infân­cia. Inclu­sive, ele expli­ca o ato de ler deve ter esse efeito, deve ger­ar um anti-equi­líbrio, um desapren­diza­do. A leitu­ra, e a lit­er­atu­ra para Cuen­ca, não devem sal­var ninguém e sim deses­ta­bi­lizar o sis­tema e até mes­mo causar descon­for­to. Para ele o autor nun­ca deve ser refer­ên­cia para nada e sim um grande cau­sador de polêmi­cas e questionamentos.

    A questão da função literária retornou muitas vezes no diál­o­go dos escritores. Ambos desa­cred­i­tam que o autor ten­ha algu­ma função especí­fi­ca na con­strução de um romance, inclu­sive, Heloisa comen­ta que a obra é até mes­mo uma con­strução egoís­ta de quem escreve. Para ela o romance é um dos atos mais ínti­mos do autor, pois mexe com os sen­ti­men­tos deste, sendo uma relação de amor e ódio do íni­cio ao fim. A car­i­o­ca brin­ca dizen­do que o escritor que acred­i­ta que sua lit­er­atu­ra é útil para algo, vendeu a alma ao diabo.

    O debate se deu, como um todo, de for­ma muito aber­ta e bem ref­er­en­ci­a­da com as obras dos dois escritores e as obras que influ­en­cia­ram o cam­in­ho de ambos. A relação leitor/livro/autor é total­mente dinâmi­ca e só é fun­cional quan­do os três tra­bal­ham jun­tos. Out­ra metá­fo­ra inter­es­sante vin­da de João Paulo Cuen­ca é que o ato de escr­ev­er um romance é como estar num labrir­in­to escuro onde a luz, no fim, fica oscilan­do. É esse proces­so de descober­ta do próprio autor que aca­ba por refle­tir na descober­ta do leitor no livro, ambos bus­cam algo na obra. E enfim, o debate pro­va que não há uma úni­ca for­ma de sedução da lit­er­atu­ra para com o leitor, ela é um mecan­is­mo que faz girar os saberes o tem­po todo, fazen­do sur­gir essa sen­sação de exper­iên­cia a três: leitor/livro/autor.

    O inter­ro­gAção gravou em áudio todo esse bate-papo e se você quis­er pode escu­tar aqui pelo site, logo abaixo, ou baixar para o sue com­puta­dor e ouvir onde preferir.

    Ouça a palestra com­ple­ta: (clique no link abaixo para ouvir ou faça o down­load)

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  • Café Literário: Elvira Vigna e Luiz Ruffato

    Café Literário: Elvira Vigna e Luiz Ruffato

    A dis­cussão se a lit­er­atu­ra é de fato um obje­to trans­for­mador ou não, sendo sim­ples­mente pas­si­va per­ante o leitor, existe há sécu­los e é um dos assun­tos mais per­ti­nentes nos meios literários. Foi com esse ques­tion­a­men­to, den­tro do tópi­co Lit­er­atu­ra: um ato de resistên­cia?, que os escritores Luiz Ruffa­to e Elvi­ra Vigna con­ver­saram no Café Literário, medi­a­do por Luis Hen­rique Pel­lan­da, do dia 08 de out­ubro, na Bien­al do Livro Paraná 2010.

    Luiz Ruffa­to é ex-jor­nal­ista e escritor profis­sion­al, entre vários títu­los escreveu o pre­mi­a­do Eles eram muitos cav­a­l­os (leia a críti­ca deste livro) e o atu­al Estive em Lis­boa e lem­brei de você (leia a críti­ca deste livro), pelo pro­je­to Amores Expres­sos. Elvi­ra Vigna é escrito­ra, desen­hista e tem uma empre­sa de tradução. Tam­bém escreveu livros pre­mi­a­dos, gan­hou o Prêmio Jabu­ti com a obra infan­til Lã de Umbi­go, e lançou recen­te­mente a obra Nada a Diz­er.

    O debate deu ini­cio com os autores falan­do sobre as for­mas de resistên­cia que a lit­er­atu­ra se apre­sen­tou em suas vidas. Para Elvira Vigna, a sua vida sem­pre esteve à margem de algo, e foi a própria exper­iên­cia que a lev­ou até a leitu­ra. Esta se trans­for­mou em obje­to de resistên­cia a tudo que ela vivia, e fun­cio­nou como o mel­hor meio de se encon­trar. Já para Luiz Ruffa­to, o livro foi e é trans­for­mador. Ele con­ta que a lit­er­atu­ra ampliou os hor­i­zontes pequenos que ele enx­er­ga­va quan­do cri­ança em Cataguas­es e, inclu­sive, lança a ideia da Igre­ja do Livro Trans­for­mador, como uma for­ma de levar a sério o poder da literatura.

    Dan­do con­tinuidade a ideia de trans­for­mação que Ruffa­to propõe, Pel­lan­da o ques­tiona se é esse sen­ti­men­to de resistên­cia que o faz sem­pre usar a classe operária como plano de fun­do e per­son­agem de suas obras. O mineiro responde dizen­do que de cer­ta for­ma sim, essa escol­ha é uma opção políti­ca, uma neces­si­dade de dar voz a quem ele acred­i­ta­va estar dis­tante e que tam­bém se sente por­ta­dor de meios de ter essa visão mais real­ista. Ain­da, afir­ma que com esse tipo de lit­er­atu­ra, ele foi apre­sen­ta­do a um novo uni­ver­so de leitores, pes­soas de fora dos cír­cu­los literários, alcançan­do uma das neces­si­dades que ele con­sid­era bási­ca à lit­er­atu­ra: ser acessív­el a todos.

    Para a escrito­ra car­i­o­ca, Ruffa­to é um otimista em relação ao poder da obra literária. Ela expli­ca que só con­segue ver isso com pes­simis­mo. Elvi­ra acred­i­ta que por tra­bal­har com a asso­ci­ação palavra + imagem, o poder da obra aca­ba por se tornar efêmero e que sim­ples­mente ¨bal­ança¨, mas não muda nen­hu­ma estru­tu­ra. Aliás, a escrito­ra car­i­o­ca, ape­sar de bem humora­da, se apre­sen­ta bem resistente a todo o val­or apli­ca­do sobre a obra literária como meio de transformação.

    Mes­mo que Elvi­ra Vigna não veja a lit­er­atu­ra da mes­ma for­ma que Luiz Ruffa­to, ela mes­ma diz que se con­tradiz ao afir­mar que a Lit­er­atu­ra pode ser sim um meio de ataque, de resistên­cia a estru­tu­ra nor­mal impos­ta pela lóg­i­ca do romance tradi­cional. Ela usa seu livro Nada a Diz­er para exem­pli­ficar as for­mas que um autor pode pro­duzir a iden­ti­fi­cação do leitor com a obra sem se focar tan­to no enre­do, e sim, na estéti­ca da palavra.

    Ain­da, a escrito­ra vê a inter­net como a maior fer­ra­men­ta para se fomen­tar a cul­tura literária. Para ela a tela do com­puta­dor é o antôn­i­mo da TV, prin­ci­pal­mente por ser um meio ati­vo, onde é o usuário que cria os links e refer­ên­cias con­tra­stan­do com o segun­do apar­el­ho em que somos usuários total­mente pas­sivos e con­sum­i­dores . Há a neces­si­dade de leitu­ra e escri­ta na web, mes­mo os famosos, e muito crit­i­ca­dos, ¨140 car­ac­teres¨ é um dos meios mais cria­tivos de se pas­sar uma men­sagem. Se há esti­los de escri­ta com lim­i­tações muito rig­orosas, como o Haikai, qual o prob­le­ma em ter algo pare­ci­do na inter­net? O escritor mineiro con­cor­da com a cole­ga de mesa dizen­do que cada história tem uma maneira de ser escri­ta e nada mel­hor do que a cria­tivi­dade da web para isso.

    Muitos out­ros assun­tos acabaram entran­do na dis­cussão sobre a lit­er­atu­ra como meio de resistên­cia. O tópi­co é de fato vas­to e pode englo­bar questões que partem des­de da relação autor-leitor, até as políti­cas sobre o incen­ti­vo da leitu­ra no país. Luíz Ruffa­to e Elvi­ra Vigna afir­mam que o próprio escritor sofre crises de iden­ti­dade, prin­ci­pal­mente quan­do bus­ca faz­er uma lit­er­atu­ra mais util­i­tarista. Ambos ressaltam dois pon­tos prin­ci­pais: a neces­si­dade do autor se assumir no cam­po estéti­co da escri­ta e da neces­si­dade social de fomen­tar a cul­tura literária. A mesa com os dois escritores foi uma das mais agradáveis do Café Literário na Bien­al do Livro Paraná 2010 jus­ta­mente por traz­er o antag­o­nis­mo bem-humora­do dos dois escritores, crian­do um debate muito inter­es­sante sem ser ten­den­cioso ou agressivo.

    O inter­ro­gAção gravou em áudio todo esse bate-papo e se você quis­er pode escu­tar aqui pelo site, logo abaixo, ou baixar para o sue com­puta­dor e ouvir onde preferir.

    Ouça a palestra com­ple­ta: (clique no link abaixo para ouvir ou faça o down­load)

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  • Livro: Estive em Lisboa e Lembrei de Você — Luiz Ruffato

    Livro: Estive em Lisboa e Lembrei de Você — Luiz Ruffato

    Estive em Lisboa e Lembrei de Você

    Em mea­d­os de 2005 foi cri­a­do o pro­je­to Amores Expres­sos. Nele, dezes­seis escritores brasileiros via­jari­am para diver­sas cidades ao redor do mun­do e cada um iria escr­ev­er um romance basea­do em sua viagem. O pro­je­to cau­sou as mais diver­sas reações, pois se ques­tion­a­va de onde iria sair o din­heiro para custear as via­gens, e se era necessário que saíssem do país para bus­car inspi­ração. Entre ess­es escritores esta­va Luiz Ruffa­to, e o resul­ta­do da viagem dele foi o livro Estive em Lis­boa e Lem­brei de Você.

    Polêmi­cas à parte, Ruffa­to é bas­tante con­heci­do no meio literário con­tem­porâ­neo. Nasci­do em Minas Gerais, na cidade de Cataguas­es, já gan­hou diver­sos prêmios impor­tantes, como o da APCA (Asso­ci­ação Paulista de Críti­cos de Arte) e o Macha­do de Assis, da Fun­dação Bib­liote­ca Nacional. Algu­mas de suas obras mais impor­tantes são Eles eram muitos cav­a­l­os e a série Infer­no Pro­visório.

    Em Estive em Lis­boa e Lem­brei de Você, Ruffa­to foi a Lis­boa e nos trouxe a história de um rapaz chama­do Sergin­ho. Des­gos­toso com a vida que lev­a­va no Brasil, após prob­le­mas amorosos e finan­ceiros, ele con­ver­sa com seu Oliveira (por­tuguês res­i­dente de sua cidade) e resolve ir para Lis­boa “ten­tar a vida”. Após o choque ini­cial, Sergin­ho se adap­ta à vida por­tugue­sa e começa a tra­bal­har como garçom. Faz amizades, aprende um novo vocab­ulário e se aven­tu­ra pela cidade. Logo no iní­cio do livro encon­tramos uma nota do autor dizen­do que este foi basea­do numa entre­vista que ele fez com Sér­gio de Souza Sam­paio, o Serginho.

    Luiz Ruffa­to tem uma imen­sa facil­i­dade para retratar cidades. Em Eles eram muitos cav­a­l­os ele fala de São Paulo com taman­ha intim­i­dade que se pode imag­i­nar que ele seja paulis­tano. O mes­mo acon­tece com Estive em Lis­boa e Lem­brei de Você. O autor con­segue descr­ev­er as diver­sas par­tic­u­lar­i­dades da cidade, com um tom literário que poucos con­seguem cri­ar. Sua prosa é bas­tante fluí­da, com poucos pará­grafos e sua escri­ta con­tínua faz com que o leitor entre em con­ta­to dire­to com seus personagens.

    Ruffa­to não criou nen­hu­ma for­ma nova na Lit­er­atu­ra, mas trouxe uma sim­pli­ci­dade envol­vente que há muito não víamos na Lit­er­atu­ra. E inclu­sive, o autor esteve entre os final­is­tas do Prêmio São Paulo de Lit­er­atu­ra 2010, junta­mente com nomes da lit­er­atu­ra con­tem­porânea como Chico Buar­que e Bernar­do Car­val­ho.

    Infe­liz­mente, pou­ca atenção é dada à lit­er­atu­ra con­tem­porânea, prin­ci­pal­mente nas salas de aula. Muito tem acon­te­ci­do em nos­so meio literário, muitos escritores surgem com obras inter­es­santes e com pen­sa­men­tos que mere­cem ser con­heci­dos. Ruffa­to tem um papel impor­tante nesse meio, pois suas obras são um óti­mo exem­p­lo da lit­er­atu­ra con­tem­porânea brasileira, reflexo da soci­dade que vive­mos e dos cos­tumes dessa ger­ação. Ape­sar de ter óti­mos tra­bal­hos pub­li­ca­dos ele ain­da não é recon­heci­do pelo grande públi­co. Esper­amos que essa situ­ação mude muito em breve.

  • Livro: Eles Eram Muitos Cavalos — Luiz Ruffato

    Livro: Eles Eram Muitos Cavalos — Luiz Ruffato

    Em Eles Eram Muitos Cav­a­l­os, de Luiz Ruffa­to, São Paulo se apre­sen­ta nua e crua, porém inteira. Como se fos­se vista através vários olhares estrangeiros, por relatos das pes­soas que cir­cu­lam por ali todos os dias.

    É uma terça-feira do ano 2000 e ali estão todos os traços de um dia apoc­alip­ti­co de fim de sécu­lo. Em Eles Eram Muitos Cav­a­l­os a nar­ra­ti­va se dá como se estivésse­mos assistin­do a um doc­u­men­tário que nos desse aces­so a tudo o que está acon­te­cen­do em uma metró­pole em um úni­co dia: tem­per­atu­ra, descrições de per­son­agens, falas entrecor­tadas, monól­o­gos e etc. A pro­pos­ta é mon­tar uma colcha de retal­hos da for­mação urbana de São Paulo. Tudo está ali, des­de mod­e­los frustradas, pas­san­do por fol­has de clas­si­fi­ca­dos num metrô até o clás­si­co reti­rante vin­do em bus­ca de uma vida mel­hor. A pro­dução de ima­gens da real­i­dade é inten­sa e situa o leitor no tem­po e em veloci­dade própria que lem­bra muito uma pro­dução audiovisual.

    A lit­er­atu­ra há muito deixou de ser, se é que algum dia foi, uma arte iso­la­da, ou a úni­ca deten­to­ra da palavra. Hoje ela fun­ciona como reflexo do caos urbano, da ligeireza das vidas e da fini­tude do tem­po. A lit­er­atu­ra é, e neces­si­ta ser, tudo ao mes­mo tem­po e para isso as fron­teiras entre o real e o fic­cional começam a se tornar, a cada obra, menos espes­sas. Luiz Ruffa­to tra­ta dessa con­tem­po­ranei­dade de for­ma pri­morosa deixan­do que cada exper­iên­cia pos­sa ser tão pŕox­i­ma e intimista que você fica se per­gun­tan­do se aque­la situ­ação não é da sua viz­in­hança ou com algu­ma pes­soa próx­i­ma, pois sabe que já ouviu e viu aqui­lo antes.

    O autor usa recur­sos real­is­tas clás­si­cos, inclu­sive a iro­nia Macha­di­ana, e em muitos momen­tos o exagero de descrições e o pecu­liar das falas faz com que o leitor se obrigue a cri­ar laços da ficção com a real­i­dade, se con­fundin­do muitas vezes com estes vul­tos urbanos descritos. De fato, uma exper­iên­cia úni­ca em que Luiz Ruffa­to sabe adap­tar cada peque­na pro­pos­ta e mudar o cenário de for­ma que o leitor mal cria laços com a situ­ação e logo parte para a pŕox­i­ma, não deixan­do de cri­ar uma sequên­cia. A mul­ti­pli­ci­dade de vozes é o pon­to forte da nar­ra­ti­va, o leitor pas­sa a ser um sujeito cole­ti­vo, par­tic­i­pante de cada vida ou momen­to das 69 exper­iên­cias ali pro­postas. É uma grande câmera em que o leitor ape­nas acom­pan­ha os trav­el­ings da narrativa.

    E que a ver­dade seja dita, por mais que as pre­mis­sas sejam extrema­mente neg­a­ti­vas sobre qual­quer relação que o cin­e­ma pos­sa ter com a lit­er­atu­ra, hoje é muito difí­cil desvin­cu­lar as duas lin­gua­gens. Prin­ci­pal­mente na lit­er­atu­ra tida como con­tem­porânea, a lin­guagem mar­ca­da das pelícu­las se faz pre­sente no tex­to. No caso de Eles Eram Muitos Cav­a­l­os é a sen­sação doc­u­men­tal que pre­dom­i­na durante todo o dis­cur­so. Não existin­do um per­son­agem prin­ci­pal ou nar­rador, é o próprio leitor que cir­cu­la por todos os meios daque­le dia comum de São Paulo, mostran­do que a geografia dos espaços tam­bém é um belo cenário.