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  • Mukashi Mukashi* | Crônica

    Mukashi Mukashi* | Crônica

    Masa Sato e todos os netos, Sorocaba, anos 40
    Masa Sato e todos os netos, Soro­ca­ba, anos 40

    Seu nome, Miya, dev­e­ria ter sido Miyako. Na época em que nasceu, era proibido às japone­sas nasci­das no cam­po usarem o ideogra­ma KO [子]. O uso era per­mi­ti­do ape­nas às mul­heres de origem nobre. O ideogra­ma miya [宮] sig­nifi­ca tem­p­lo xin­toís­ta, príncipe ou prince­sa da família impe­r­i­al. Sua mãe, Masa Sato, era de família nobre. Prometi­da a um noi­vo que não gosta­va, casou-se, por amor, com um homem abaixo de sua condição social. Por isso a família a deser­dou. Miya tin­ha um irmão mais vel­ho, Sada­ji e dois irmãos mais jovens, Tome e Kame­ki. Muito jovem, min­ha avó se inter­es­sou por lit­er­atu­ra. Em sua cidade, que fica na provín­cia de Saga, região sul, per­to de Nagasa­ki, só havia bib­liote­cas na igre­ja pres­bi­te­ri­ana. Ela se con­ver­teu, só para fre­quen­tar a bib­liote­ca e ler a obra do escritor francês Vic­tor Hugo. Sada­ji e Kame­ki vier­am para o Brasil antes das irmãs, nos anos 30 e começaram a tra­bal­har no cafezal da família Shi­nobu, na Colô­nia Nipolân­dia, em Birigui, na região oeste de São Paulo. Depois, vier­am Miya e Tome.

    Museu de Etnografia de Paranaguá (Foto:  Kingo Kubota)
    Museu de Etno­grafia de Paranaguá (Foto: Kingo Kubota)

    Kun­yo Tiba, meu avô, mar­in­heiro, tam­bém veio para o Brasil, com a mis­são de bus­car a irmã, Miyoko. Ela resolveu se aven­tu­rar no “País dos fru­tos doura­dos”, como era chama­do pela Imi­gração Japone­sa. Veio como agre­ga­da da família Shi­nobu, um expe­di­ente comum na época. Famílias eram com­postas por mem­bros de difer­entes ori­gens, for­jan­do doc­u­men­tos. Miyoko mora­va na “casa grande”, com a família arti­fi­cial. Kuniyo não pôde voltar ao Japão, porque seu país havia anex­a­do a Manchúria e começaram os con­fli­tos com a Chi­na. No cafezal, con­heceu Miya e casou com ela.

    No Brasil, Miya con­tin­u­ou fre­quen­tan­do a igre­ja pres­bi­te­ri­ana. Prat­i­ca­va a arte do tan­ka — uma das for­mas poéti­cas japone­sas. Kuniyo toca­va shakuhachi — a flau­ta de bam­bu japone­sa. Como ele era era mar­in­heiro, poucos ofí­cios restavam em ter­ra. Mas Kuniyo achou que não teria futuro moran­do na colô­nia japone­sa de Birigui. Decid­iu fab­ricar carvão veg­e­tal e mudou para Tapi­raí, no Sul paulista, que veio a se tornar um impor­tante cen­tro de pro­dução da matéria-pri­ma. A mul­her e os três fil­hos o aju­davam a queimar carvão. Por causa do ofí­cio do patri­ar­ca, a família morou em diver­sos pon­tos da cidade. Kame­ki, o caçu­la Tiba, ficou doente e foi se tratar em Cam­pos de Jordão. Cura­do, decid­iu faz­er um cur­so de far­ma­cêu­ti­co, em São Paulo. Quan­do se for­mou, os irmãos mon­taram uma peque­na far­má­cia no cen­tro de Tapi­raí. Kuniyo decid­iu mon­tar um bar, viz­in­ho à farmácia.

    Família Tiba, Sorocaba, anos 40.
    Família Tiba, Soro­ca­ba, anos 40.

    Meu tio mais vel­ho começou car­reira mil­i­tar e pôde com­prar um sobra­do para os pais, no bair­ro de Jabaquara, em São Paulo. Mudaram-se para lá em mea­d­os dos anos 60. Toda vez que íamos vis­itá-lo, Kuniyo fazia algo­dão-doce para nós. Ele ven­dia o doce nas ruas de São Paulo. Cri­ança, não sabia como o açú­car col­ori­do se trans­for­ma­va em nuvem de algo­dão. A casa de meus avós era meio mág­i­ca. Na coz­in­ha havia um grande telescó­pio. Um dos tios havia entra­do para a Aeronáu­ti­ca e tin­ha mania por ape­tre­chos de avi­ação e aeronáutica.

    Meu avô mor­reu em 1974, de câncer no intesti­no. Na época era uma doença dev­as­ta­do­ra. A família cuidou dele por meses. Depois que o mari­do mor­reu, Miya vin­ha pas­sar férias com min­ha mãe. Meus avós só falavam japonês. Eu e meus irmãos não entendíamos o que fala­va. Sin­to pena de não ter estu­da­do a lín­gua japone­sa quan­do cri­ança. Só desco­bri o que era shakuhachi e tan­ka com quase 40 anos. Zan­nen.**

    * Em japonês: anti­go, anti­go. Em ger­al, as histórias de tradição oral japone­sas começam com “Mukashi, mukashi…”
    **Em japonês: Que pena !

  • Crítica: Transe

    Crítica: Transe

    transe

    Fuga, solu­cionado­ra de prob­le­mas e por­ta de entra­da do descon­heci­do. Hoje, país­es de qual­quer grau de desen­volvi­men­to sofrem com prob­le­mas imigratórios/migratórios surgi­dos pela bus­cas daque­les que fazem parte dos índices de desem­prego, dos fugi­tivos da desilusão. Transe (Transe, Itália/Russa/França/Portugal, 2006), da por­tugue­sa Tere­sa Villaverde, tra­ta jus­ta­mente dessa fuga/busca, partin­do da temáti­ca do trá­fi­co inter­na­cional de mulheres.

    A tra­ma de Transe, em si, é sim­ples e de cer­ta for­ma pre­visív­el. Sonia é uma jovem rus­sa que bus­ca fugir do desem­prego, do frio e da solidão. Ao con­seguir sair de São Peters­bur­go ela dá iní­cio a uma ver­dadeira saga rumo ao ¨negó­cio¨ que home­ns e mul­heres podem se tornar em um país estrangeiro. Chegan­do a Ale­man­ha, e cheia de planos, pas­sa a tra­bal­har ile­gal­mente até o dia em que a imi­gração aparece. Depois dis­so, Itália e Por­tu­gal são ape­nas pon­tos da sua que­da pro­gres­si­va, se afun­dan­do cada vez mais na pros­ti­tu­ição e vul­gar­iza­ção do seu cor­po. Ness­es qua­tro can­tos da Europa, ela vai con­hecer uma parte esque­ci­da e obscu­ra do vel­ho con­ti­nente, enten­den­do que uma fuga leva à outra.

    Tudo gira em torno do ato sex­u­al humano, da neces­si­dade físi­ca. Transe lem­bra muito as pro­duções do argentino/francês Gas­par Noé, que tor­na a frieza humana algo banal e comum. Os home­ns, em par­tic­u­lar no filme de Villaverde, são os que acusam a descarta­bil­i­dade das mul­heres. Eles não têm nome e pou­cas vezes pos­suem ros­to, somente pênis e ofe­gações. Ain­da, existe uma car­ac­terís­ti­ca de Voyeur, o espec­ta­dor, de fato dese­ja a próx­i­ma cena que pode ser mais dura que a ante­ri­or. Não se sabe ao cer­to se somos espec­ta­dores ou ape­nas obser­vadores coniventes aos atos ali praticados.

    As cenas de Transe são lon­gas e em muitos momen­tos exager­ada­mente estáti­cas. Não encaro isso como um prob­le­ma grave ou uma ten­ta­ti­va frustra­da da dire­to­ra, pois a per­manên­cia dos planos trazem um sen­ti­men­to de espera a quem assiste e estas sem­pre acon­te­cem após de um ato de vio­lên­cia extrema trazen­do uma sen­sação de digestão do acon­te­ci­do. Uma voz em off sem­pre surge nos perío­dos de transe da pro­tag­o­nista, como se a fizesse não desi­s­tir e se man­ter firme. A atriz Ana Mor­eira parece encar­nar Sonia de for­ma a se con­fundir com o deses­pero da câmera em gravar seu olhar apáti­co, resul­tante das seguidas ten­ta­ti­vas de revolta.

    Transe é uma ode à dor que se tor­na apa­tia e, ain­da, mes­mo sofren­do os mais extremos tipos de vio­lên­cia, a pro­tag­o­nista guar­da a esper­ança de algo inde­cifráv­el ao espec­ta­dor descrente depois de tudo. É uma poe­sia, como dito no ini­cio do filme, ¨tudo é poesia¨.

    Destaque para dois momen­tos nos crédi­tos do filme. A músi­ca ¨O que serᨠde Chico Buar­que fechan­do a plu­ral­i­dade do filme com uma dire­to­ra por­tugue­sa gra­van­do na Rús­sia, Ale­man­ha, Itália e Por­tu­gal. E ain­da, os home­ns per­son­agem no filme são ref­er­en­ci­a­dos ape­nas como ¨Homem Rus­so¨, ¨Homem Ital­iano¨, ¨Rapaz mecâni­co¨ e etc, deixan­do claro a irrelevân­cia dess­es seres sem ros­to que sim­ples­mente pas­saram pela tra­jetória de Sonia.

    Aliás, esse não é a primeira pelícu­la a tratar do assun­to, o sue­co Lukas Moodys­son fez o Para Sem­pre Lil­ia (2002) que tra­ta de uma ado­les­cente que foge (tam­bém com expec­ta­ti­vas de uma vida mel­hor) para a Sué­cia, onde é obri­ga­da a se prostituir.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=ICC2MnrPjD8