O primeiro plano do filme mostra aquelas características portas do tipo “saloon”. Depois de alguns segundos, por detrás das portas, surgem dois pés em um passo alargado, semelhante ao de um pinguim. É Chaplin. Simples assim. No lugar de sua característica bengala, o Carlitos agora está com um violino na mão. O filme é “O Vagabundo” (The Vagabond), de 1916, realizado para a produtora Mutual Film Corporation. O cineasta Charles Chaplin está com liberdade total e recursos quase ilimitados, ainda que com a “obrigação” de produzir 12 comédias de sucesso por ano. Sendo o terceiro filme de um contrato substancial, já que o salário do primeiro ano fora de 670 mil dólares mais os bônus, em “O Vagabundo” é possível perceber uma ambição melodramática latente.
Surgido em 1914, Carlitos (no original: Little Tramp) tem sua faceta sentimental germinada neste curta. No enredo, um violonista itinerante, Chaplin, encontra uma jovem, Edna Purvionce, a primeira e eterna musa do cineasta, aprisionada por um grupo de ciganos. Os dois fogem juntos e começam a morar na estrada. Um pintor encontra Edna no meio da floresta e se encanta. Ele a homenageia em um quadro chamado “A Irlanda em pessoa”. Quando este é exposto em uma galeria, a mãe verdadeira de Edna reconhece o retrato de sua filha. O pintor conduz a mulher ao encontro de Edna, que decide partir junto com ela, mas levando também o Vagabundo. E tudo isso em 24 minutos!
Com longos planos abertos em uma câmera estática, o filme apresenta uma decupagem característica do início do cinema. Os preenchimentos dos enquadramentos já demonstram um artista em processo de sofisticação, o que fica nítido logo na primeira gag (efeito cômico, piada) do filme. Carlitos toca seu violino em frente a porta de um bar, e, enquanto isso, uma trupe de músicos chega em frente à outra porta do bar. Quando Carlitos acaba sua perfomance, vai recolher o dinheiro com os frequentadores do estabelecimento. Pouco tempo depois, um músico da trupe também vai pedir dinheiro, mas é rechaçado já que momentos antes Chaplin também tinha pedido dinheiro. Óbvio que isso acaba em muita confusão e correria. Mas o que me intriga, é como Chaplin já pensava em usar o som como elemento constitutivo de uma gag. E não só o som, mas a imagem. Há um enquadramento, por exemplo, em que é possível ver, em primeiro plano, a trupe de músicos tocando e, em segundo plano, no fundo do quadro, um Chaplin, bem pequenino, com seu violino. É uma construção distinta, levando em contato a forma como eram usados os planos gerais nos filmes daquela época.

Ver Edna Purvionce na tela é sempre um prazer, ainda mais que em quase toda sua carreira no cinema ela esteve ao lado de Chaplin. O rosto redondo e afilado da atriz, sempre soube fazer caras e bocas perfeitas para os filmes do cineasta, cuja atuação encontrava na performance de Edna uma figura quase que amiga. Na verdade, olhar os dois na tela era, em muitos momentos, testemunhar uma amizade artística. Em “O Vagabundo”, Edna se destaca e realmente incorpora a “cigana escravizada”. Deixando de lado a aparência angelical, a atriz está suja, com roupas rasgadas e os cabelos completamente desengonçados.
E Chaplin é Chaplin. Com planos abertos em meio a natureza, o vagabundo como músico itinerante é brilhante, afinal, toda a fome e energia do personagem explode em uma performance marcante. O violino e o corpo de Chaplin se tornam um só. Carlitos inclusive chega a passar o arco do instrumento em seu nariz! Com o violino, em momentos de harmonia seu corpo se move suavemente, e em momentos de tensão ele é contraído e jogado por uma força que, obviamente, Chaplin se deixa levar, chegando inclusive a cair em uma bacia de água! Nesta cena, Chaplin e Edna estão em ritmos paralelos. Enquanto o vagabundo se empolga com seu instrumento, a atriz também se deixa levar pela música, e no mesmo instante em que o corpo de Chaplin se move de forma selvagem, Edna lava a roupa freneticamente. Pura sintonia!
Chaplin se livra dos ciganos que prendiam Edna e foge com ela, mas antes cospe na cara do cigano malvado, interpretado pelo gigante Eric Campbel, porém de uma maneira “distinta”, como aquelas belas estátuas que jorram água pelos lábios. Em uma leve câmera baixa, Chaplin toma as rédeas da carruagem dos ciganos, e em um pequeno travelling (movimento de câmara em que esta realmente se desloca no espaço) para trás, apresenta um bonito plano com os “vilões” correndo desesperadamente pela estrada. Depois, não há bons ou maus personagens, somente descobertas. Um pintor sem inspiração encontra Edna. Uma mãe desolada encontra sua filha perdida. E o vagabundo quase perde o que havia encontrado.

Um dos grandes trunfos de Chaplin se dá na forma como ele utiliza o cenário em sua volta, em uma espécie de transfiguração da realidade. Há filmes do período Mutual em que esta característica é levada a extremos, ver “A Casa de Penhores” (1916), mas em “O Vagabundo”, Chaplin alia este poder de transformação a uma sensibilidade romântica, o que vai ser a pedra de toque de obras posteriores, como “O Garoto” (1921) e “O Circo” (1928). Assim, são notavéis os simples momentos de Chaplin preparando “uma cozinha ao céu aberto” em uma mesa improvisada, quebrando ovos com um martelo e lavando minuciosamente o rosto manchado e maltratado de Edna.
No final, o pintor retorna, em um carro, com a mãe de Edna e um grupo de pessoas que estavam na exposição para o local onde Chaplin morava. A senhora, nitidamente rica, resolve dar um maço de dinheiro para Carlitos, que, sem titubear, recusa e ainda afasta a oferta com a palma de sua mãe direita – eis a elegância de um vagabundo. Neste momento, o semblante do Carlitos muda. Na verdade não é somente Carlitos ali, mas também o próprio Chaplin. Na cena, há 4 atores em um plano americano (quando a pessoa é enquadrada do joelho para cima), mas é nítido como o corpo do Vagabundo enche o quadro.

O crítico e diretor francês François Truffaut, escreveu que a primeira fase da carreira de Chaplin se pergunta “Será que existo?”. Acredito que outra pergunta que também norteia esta fase é “Porque que eu existo?”, e no final de “O Vagabundo” há uma resposta. Carlitos existe para aquilo: Abraçar Edna, tocar no próprio rosto surpreso pela partida da parceira, dizer “Adeus pequena garota” (Goodbye Little Girl), sorrir levemente e levantar a mão esquerda, sem acenar, para um carro que leva a sua amada.
Entre 1914 e 1922, Charles Chaplin produziu 69 curtas. Deste período, a minha fase favorita é a da Mutual. Nos 12 filmes feitos para produtora é possível ver um cineasta fervilhando de energia e ideias. No entanto, nesta época o cineasta estava preocupado em agradar o público, o que fez com que muitos dos filmes da Mutual tivessem finais felizes, apressados e mal construídos. Exemplo disso é o desfecho de “O Vagabundo”. Acredito que se o curta terminasse com Chaplin de costas para a câmera, olhando o carro de Edna indo embora, o efeito seria mais coerente com a proposta do curta: apresentar um vagabundo que sempre está procurando um lugar onde possa se encaixar. No final, Edna tem um insight e fica desesperada. O carro volta e Chaplin vai embora junto com os outros personagens. Foi algo muito rápido. Não que um final feliz seja um problema, mas há um contraste entre a epifania de Edna e o comportamento que ela estava apresentando desde que conheceu o pintor. Porém, esta diferença não prejudica a construção do personagem de Chaplin no curta. “O Vagabundo” é uma pequena aventura sentimental que ainda pode emocionar, afinal, assim como a obra-prima melodramática “O Garoto”, este é “um filme com um sorriso, e talvez uma lágrima…”.
Assista ao filme completo abaixo:


Quando criança, John (Mark Wahlberg) não tinha muitos amigos e se sentia um estranho em relação às outras crianças, até que no Natal de 1985 ele ganha no Natal o clássico ursinho Teddy. Quantas crianças não tiveram um desses nessa época? Mas com John foi diferente, numa noite ele faz um pedido para que seu novo amigo fosse um “amigo de verdade” e Ted simplesmente ganha vida. Com uma introdução narrada em tom de fábula, a comédia de humor negro Ted (
Ted é uma típica comédia americana, só que feita para agradar principalmente a geração dos anos 80, cujas piadas vão fazer mais sentido, e os fãs de humor nada politicamente correto. O diretor Seth MacFarlane é mais conhecido por ter criado as séries animadas Family Guy e American Dad, que satirizam a fundo a cultura americana. Neste seu primeiro longa, Seth também faz a dublagen do ursinho Ted, inclusive fazendo uma brincadeira no meio do filme sobre sua voz ser igual a do Peter Griffin, personagem principal do Family Guy, que também é dublado por ele.
É quase impossível não gargalhar com a chuva de clichês lançados pelos diálogos entre John e Ted, que mantém vivos muitos dos seus gostos de criança. O longa é repleto de referências sendo atiradas por todos os lados, onde nada passa impune pela boca nada-politicamente-correta do pequeno Ted, que em certo momento brinca que quando famoso fora confundido com o Alf — o E.Teimoso, além de citar Star Wars, Top Gun e claro, Flash Gordon, o grande vício dos dois personagens. Além disso, o filme segue o mesmo estilo de Family Guy, onde os personagens vai e vem interagem com celebridades do mundo real, parecido com o que também acontece nos filmes do Sacha Baron Cohen (O Ditador, Bruno e Borat), seguindo inclusive o mesmo humor ácido.
O longa acabou virando meme nas redes sociais por conta do deputado Protógenes Queiroz ter se queixado no twitter dizendo que levou seu filho de 11 anos ao cinema e ter assistido a uma infâmia. Apesar de ter um urso fofo como um dos protagonistas, não há engano de que o filme não é para crianças, o trailer e o cartaz veiculado do mesmo deixa isso bem claro. Mas mesmo assim, casos parecidos ainda se repetiram várias vezes. Ver a classificação indicativa parece que anda meio em falta…
Ted é imperdível para quem adora se divertir com piadas de humor negro e está cansado de filmes bonitinhos e politicamente corretos. E o nível de diversão aumenta ainda mais se você também acompanhou séries como Flash Gordon e passou uma infância agitada nos anos 80.









Sinopse: ‘Gente Grande’ é uma comédia sobre cinco amigos, que faziam da parte do mesmo time de basquete, que se re-encontram após vários anos para o funeral do seu treinador. Com as esposas e os filhos na cidade, eles passam juntos o fim de semana de 4 de julho, na casa do lago onde,alguns anos antes, comemoraram o campeonato. E, ao rememorar os tempos antigos, eles descobrem que envelhecer não significa necessariamente amadurecer.




