“Esta grande infelicidade, a de não estar só”, reveladora sentença do ensaísta francês La Bruyère (1645 ‑1696), foi escolhida pelo contista e poeta Edgar Allan Poe, mestre da “beleza mórbida” literária, para ilustrar o conto “O Homem da Multidão”. Publicada em 1840, a história narra as percepções feitas por um homem que observa o trânsito de pessoas na rua. A partir das características físicas, indumentárias e gestuais, o observador vai desnudando a identidade de personagens anônimos. Em dado momento, quando avista um sujeito idoso, com roupas que escondem requinte atrás da sujeira e movimentos ansiosos para se misturar à multidão das ruas, o narrador inicia uma louca perseguição. A cada novo passo, ele percebe que o “homem das multidões” recusa-se a estar só; seu maior desejo é perambular anonimamente entre a turba londrina.
Ser alguém sem nome e sem rosto no furacão coletivo, acalenta a consciência humana com uma falsa sensação de segurança, construindo um castelo de areia contra o medo da morte. A solidão e a morte andam de braços dados, tornando o indivíduo apenas uma partícula inexistente entre tantos organismos vivos. Esse é o sentimento de Almeida, personagem do curta-metragem O Dia M, dirigido por Paulo Leierer. Interpretado pelo ator Caco Ciocler, Almeida é um homem na casa dos trinta anos que descobre, através de exames laboratoriais, que seus dias de vida estão contados. Sozinho em sua casa, ele decide que precisa lidar com a situação e informar às pessoas próximas que está caminhando para a estrada do sono eterno.
No entanto, a notícia de sua morte não parece afetar absolutamente ninguém ao seu redor. Assim como o ‘homem da multidão’ de Poe, Almeida vai perambulando entre casas, ruas, pessoas e cemitérios, misturando-se ao cotidiano de rostos egoístas, cansados, amargurados e indiferentes. Lembrando a novela russa “A morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, mas sem sequer ter a presença confortante de um Gerassim, o solitário moribundo Almeida se vê às voltas com as máscaras humanas. Perto do leito de morte, ele está só. Completamente só.
Sunday, 1926 por Edward Hopper
Duas das cenas mais assombrosas do drama são espremidas na cara do espectador logo no começo do curta, quando Almeida vai à casa dos pais para anunciar sua morte e, em seguida, procura contratar os serviços de um despachante funerário. No meio da incredulidade furiosa do pai e do deboche sarcástico do despachante, Almeida encara silenciosamente a fragilidade de tudo o que imaginava ser e ter.
On the Stream of Life — Hugo Simberg
Vencedor de Melhor Curta no Hollywood Brazilian Film Festival – HBRFEST em 2009 e do Troféu Shoestring no Rochester Internacional Film Festival, também em 2009, O Dia M foi selecionado em inúmeros festivais nacionais e estrangeiros. A anônima trajetória de um homem que percorre a multidão e que deseja desesperadamente ser notado, pois o dia de seu adeus definitivo galopa a passos largos e ele estará mais solitário do que a própria morte, confronta o indivíduo com sua existência: Será que significamos alguma coisa? Alguém sentirá nossa ausência? Atravessaremos sozinhos o abismo da morte? Até que ponto a atomização do homem o faz querer ser partícipe do coletivo, para depois empurrá-lo para a condição real de solidão e esquecimento?
Essas são algumas das questões com as quais o curta-metragem indaga o espectador, dando firmeza à proposta do diretor Paulo Leierer e de toda a equipe. Destaque para a trilha sonora do filme, com a faixa “First Breath After Coma” (álbum The Earth is not a cold dead place), da banda americana de post rock Explosions in the Sky.
Visualmente, O Dia M lembra uma mistura das pinturas solitárias de Edward Hopper com as lúgubres visões da morte retratadas pelo nórdico Hugo Simberg. Ou, nas palavras do poeta Rainer Maria Rilke: “A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a aguarda. E do céu tomba sobre a cidade. (…) Então, a solidão vai com os rios…”.
Eu sou a mosca que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar. (…) E não adianta vir me dedetizar. Pois nem o DDT pode assim me exterminar. Porque você mata uma e vem outra em meu lugar.
Raul Seixas em “Mosca na Sopa”
Sinônimo de incômodo e desprezo, a mosca é um dos insetos mais rechaçados do convívio social. Ela transtorna reuniões familiares, importuna tradições de ordem e controle, desnuda as estruturas assépticas. A mosca na sopa, personificação adotada pelo compositor e músico brasileiro Raul Seixas, é uma anarquista pública e notória: sua presença é hostilizada, mas independe de aceitação; por mais que seja intimidada, violentada, aprisionada e degolada, ela volta em múltiplos pares. E é com tamanha persistência e deboche que elas, as famigeradas moscas, comunicam sua mensagem.
No final da década 1970, as moscas também marcavam presença física e metafórica em território brasileiro. Para os agentes da ditadura militar, todo e qualquer elemento subversivo que atentasse contra a ordem, o governo e o trinômio “tradição – família – propriedade”, deveria ser sumariamente extinto. Naqueles anos de portas fechadas, entre a periferia de Recife e Olinda, cidades do Nordeste brasileiro, o diretor Hilton Lacerda ambientou a história de uma trupe de artistas que criava um universo próprio de irreverência, zombaria e autoria no teatro-cabaré Chão de Estrelas, criação inspirada pelo grupo de teatro Vivencial Diversiones, que existiu entre 1972 e 1981.
Na ficção, o sistema protocolar de regras, ordens, hierarquia e disciplina do sistema militar, exercia influência angustiante em um tímido recruta nascido e criado no interior de Pernambuco, tornando-lhe penoso e mortífero o dever de sustentar uma máscara que mal lhe cabe no rosto. Esse é o fio condutor da pólvora que explode em “Tatuagem” (Brasil, 2013), filme do cineasta pernambucano Hilton Lacerda em sua estreia como diretor depois de longa experiência como roteirista. A trama traz como pano de fundo o romance entre o agitador cultural e performer Clécio Wanderley, interpretado pelo ator Irandhir Santos, e o soldado raso Arlindo Araújo, conhecido como Fininha, personagem vivido por Jesuíta Barbosa.
Chão de Estrelas, o Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da favela
“Tatuagem” fala de resistência política, criação explosiva, anarquista, debochada, livre; é uma afirmação do espaço daqueles que são esmagados por uma conjuntura armada, mas que resistem, queimam, renovam. Na trama, Chão de Estrelas nasce no seio da periferia, epígrafe acentuada no início do longa-metragem com a fala de Clécio ao destacar que o cabaré é “o Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da favela”, em clara referência aos internacionalmente conhecidos, cultuados e caros ambientes de apresentação artística e corporal da época. É nesse perímetro de reinvenções que o diretor Hilton Lacerda detém o olhar, criando uma narrativa audaciosa.
Clécio e Fininha se conhecem por meio de Paulete (Rodrigo Garcia), irmão da então namorada do recruta. Enquanto Clécio dirigia um espetáculo debochado, Fininha vivia aprisionado nos ditames do quartel, detalhe exposto logo nos minutos iniciais, com a visão do rapaz enquadrado pelas barras dos beliches — efeito criado pela utilização do movimento de zoom-out. O envolvimento desse casal improvável, vai descortinando uma nova visualização e entendimento do mundo, abrindo espaço para as sensibilidades de dois universos distintos. Rodeado pela liberdade em todos os sentidos, Fininha vai, aos poucos, sentindo seu corpo como parte do processo artístico e vivencial que explode no teatro do Chão de Estrelas. Assim como o mitológico canto da sereia, a magia que nasce no cabaré começa a encantar o jovem recruta, mostrando-lhe um ambiente de troca de relações bem mais autêntico do que costumava vivenciar.
Cena do filme “Tatuagem” mostrando o “aprisionamento” de Fininha
No filme, o “cair da noite” assume uma simbologia extremamente importante ao abrir novas pontes de resistência. Pontes que podem ser observadas no público que frequenta o teatro-cabaré, formado por homossexuais, simpatizantes, militantes da luta de classes e intelectuais esquerdistas – esta última figura é adotada pelo professor Joubert (Sílvio Restiffe) e seus poemas de cunho político e libertário, além da sua produção experimental, feita com uma câmera Super‑8, direcionada para registrar os momentos marcantes de produção/apresentação dos números do Chão de Estrelas. É através da noite, do erotismo, da luxúria escancarada, do cuspe anárquico em forma de performances ousadas com o corpo e a linguagem, que “Tatuagem” vai traçando novas rotas de peregrinação de forma arrojada.
Hilton Lacerda
O diretor Hilton Lacerda vem de uma longa caminhada como roteirista, trazendo na bagagem filmes como “Febre de Rato” (2011), “Amarelo Manga” (2002), “Baixio das Bestas” (2006), em parceria com o cineasta Cláudio Assis, e “Cartola – Música para os Olhos” (2006), onde divide a direção com Lírio Ferreira. A energia em construir detalhes faz a assinatura de Lacerda um diferencial palpável em “Tatuagem”.
A opção por contar a história de amor entre dois homens ganha contornos autênticos: Clécio e Fininha dividem o afeto íntimo com os espectadores; o romance – claro, direto, cru – não está ali apenas para inquietar os que ainda desviam o olhar diante das cenas de beijo ou de sexo entre dois homens; o amor homossexual e o choque de vivências que ele representa (o agitador cultural e o militar) ultrapassam a acomodação da militância padronizada: nessa relação de polos opostos está o grito dos amores, grupos, movimentos, pensamentos, vidas e sentimentos rotulados como periféricos. É esse o elemento de pulsão levantando por “Tatuagem”, levando à derrocada da hegemonia das instituições sagradas e do desfile dos triunfantes. Para o palco e o público do Chão de Estrelas, não há lugar para preconceitos, não há mártires para castrações. O que existe no cabaré-teatro é o rompimento de tradições; um lugar onde múltiplas jornadas não se chocam, mas se complementam, tendo como exemplo máximo a figura de Clécio: diretor, poeta, agitador, anarquista, amante e pai.
o performer Clécio Wanderley (Irandhir Santos) e o soldado raso Fininha (Jesuíta Barbosa)
A liberdade e a vivência consciente também estão presentes no conceito de família apresentando no filme. Tuca — fruto do relacionamento do agitador cultural com Deusa, mãe solteira, adepta dos mesmos ideais — circula livremente pelas dependências do cabaré, observando os trabalhos de produção do pai. Em uma cena significativa, Clécio pede à Deusa que não traga mais o menino ao cabaré pois aquele “não é lugar para criança”. Nesse gancho, a mãe responde que “não há lugar adequado, e sim educação adequada”, fazendo referência direta a um modelo educacional que aposta na liberdade, consciência e tolerância.
Toda essa provocação clara e subversiva deixa rastros pelo filme e encontra outra forte representante com a personagem Paulete. É na alegria do escândalo que Paulete alimenta o sonho de ser ator reconhecido, dando mais vida ao longa-metragem com suas piadas espirituosas, seus berros e gestos corporais esfuziantes. É difícil destacar uma única cena dramatizada pelo ator Rodrigo García na pele de Paulete: ele consegue fazer os holofotes circularem em torno de si, seja com expressões jocosas, canções despudoradas ou caras e bocas risíveis. García tem o poder de transformar a caricatura do artista gay transvestido em indumentárias femininas, em uma verdadeira metamorfose artística.
Rodrigo Garcia como a personagem Paulete
Há muita intensidade e autenticidade em “Tatuagem” – fato que rendeu sucesso de crítica, prêmios e menções honrosas para o filme e seus atores. Mais uma prova de que rotas alternativas são possíveis, tanto no âmbito do pensamento quanto na ação. O audiovisual brasileiro precisa de olhares diferenciais, novas linguagens, desafios, posturas e riscos, não só da parte dos produtores, mas também de espectadores. Cinema é feito de sensibilidades e da persistência de “moscas” que não se intimidam com o que está dito e feito, trazendo para si a tarefa de questionar a naturalização do mundo. Construir panoramas é como tatuar a pele: na marca eternizada, passado, presente e futuro se comunicam em um mesmo traço. E é no caminho que percorre esse traço que está o novo.
O Som Ao Redor (Brasil, 2012), de Kleber Mendonça Filho, foi um dos longas nacionais mais comentados no ano de 2012, recebendo inclusive uma posição na famigerada lista de A.O. Scott, o principal crítico de cinema da jornal americano New York Times. Trazendo a assinatura de mais um promissor diretor e roteirista de Recife, o longa trata de forma sutil a violência e a sua relação com os problemas sociais da classe média.
Um bairro de uma grande cidade, um lugar onde vive famílias típicas de classe média. Condomínios e casas perto da praia montam um contexto. Apesar de haver condomínios de luxo, há também casas mais simples, do alto de um prédio se avista uma favela próxima. Essa região vem sofrendo um surto de assaltos e violência, e um grupo de seguranças independentes propõe fazer uma espécie de ronda diária para proteger os moradores do lugar. Com a chegada desses elementos estranhos aos padrões de vida do lugar, o longa faz um recorte de um momento muito atual das cidades brasileiras.
Uma vizinhança é um convívio coletivo mas que sempre haverão os que estão coordenando no topo. Em Som ao Redor as hierarquias são estabelecidas através da cor da pele, do poder aquisitivo de compra de uma TV, de uma ameaça ou de tradicionalismos sociais. Kleber Mendonça reflete no longa uma Recife que ainda ecoa uma sociedade do século XVIII, escravocrata e feudal, mas que poderia ser em qualquer lugar do Brasil.
O som do longa confunde num primeiro momento o espectador. As vozes saem baixas, em alguns momentos é inaudível o que os personagens falam. O que parece ser um problema de captação de som funciona mais como um recurso bastante ousado de narrativa. O som externo é o que prevalece, o som ao redor que torna o cotidiano desses moradores um só, independente do que acontece no interior das residências. São os latidos de cachorro, o vizinho que liga o aspirador na janela para provocar intrigas ou mesmo os ambulantes de CDs e DVDs que passam com seus carrinhos de som que realmente importam no enredo.
A forma e o conteúdo do longa andam muito bem juntos. Além do aspecto de som, o longa passeia pelos personagens trazendo sutilezas de cada um em pequenas metáforas de cenas cotidianas. Muitos ângulos trazem sentidos diversos e são esses pequenos cuidados com a câmera que universaliza todo o enredo do longa em cenas carregadas de sentido. As grades das casas com seus próprios cadeados ganham um sentido diferente quando a câmera filma de fora da porta um quadro católico de Jesus e Maria separados pela grade. São sutilezas poéticas facilmente identificáveis no cotidiano.
“Não queria dizer nada, mas tenho recebido minha Veja fora do saco plástico” diz uma moradora de um condomínio da região e a frase deixa clara uma vida morna, entediante e competitiva de uma classe média que vive para provar que pode ostentar um padrão de vida enquanto muitos subordinados – empregados, porteiros e seguranças – são as verdadeiras bases para que essa classe consiga se manter em pé. E enquanto essa classe se preocupa em ostentar seu poder de dinheiro – ganho na forma de um regime de trabalho deprimente – os que são nivelados por baixo como simples prestadores de serviços dessa classe se organizam para que eles possam sobreviver das paranoias dos que estão acima.
O Som Ao Redor lembra de certa forma o que o ótimo Sérgio Bianchi fez em Os Inquilinos, além de outros longas do diretor em que a realidade é tratada de forma cínica quando vista do ponto de vista ficcional. Quando observamos como espectadores os pequenos detalhes de convivência urbana e social, estes se tornam abomináveis. Por exemplo, uma simples chegada de compra de uma TV causa a ira de um vizinho que não pode tê-la ou um “não” dado ao cuidador de carros da rua pode levar ele riscar o carro num ato de vingança. Nessa pirâmide social os que estão acima ou abaixo, até mesmo os que vivem do outro lado da cerca acham seus meios de burlar os limites impostos pelas regras ou perpetuar o seu espaço, sempre há os que se acham vitimizados pelo meio e dispostos a se dar bem.
Um ponto bastante interessante e próprio ao contexto da cidade de Recife apresentado no longa, é como a questão da escravidão negra no Brasil ainda reflete de forma tão sutil na caracterização dessa classe média dos personagens de O Som ao Redor . Desde os empregados até os seguranças da rua, a situação social construída sobre os aspectos históricos do país é nítida, forte e ao mesmo tempo sutil e metafórica. Vive-se na sombra de um problema que foi construído ao longo de pelo menos cinco séculos.
O Som ao Redor é um excelente trabalho que surge no mar de produções tão descaracterizadas do cinema nacional atual exibidas no circuito comercial. Flertando com as críticas propostas no Cinema Novo, ele também apresenta os cenários urbanos atuais de um Cinema de Retomada. Vale a pena prestar atenção no trabalho de Kleber Mendonça Filho, que além de curtas premiados como O Vinil Verde, em seu primeiro longa soube olhar criticamente ao seu próprio redor.
Depois de um ano um tanto decepcionante para o Cinema (de entretenimento) Brasileiro — momento em que o segmento resolveu adotar o estilo Global de filmar — 2012 começou muito bem com a estreia de Dois Coelhos(Brasil, 2012) de Afonso Poyart. Bebendo da fonte dos games e de cineastas como Tarantino e Guy Ritchie, o longa quer trazer um novo modo de filmar o gênero de ação no Brasil.
Dois Coelhos usa uma fórmula de enredo muito próxima do já conhecido e não deixa de explorar a malandragem e o famoso jeitinho brasileiro de sair — e entrar- nas situações e acaba trazendo isso para um universo ficcional de ação, se aproximando do estilo comercial americano. E é num fervilhar de perseguições, ironias sobre corrupção e muitas reviravoltas no enredo que o longa abre a temporada de um outro tipo de longas nacionais de entretenimento.
Brincando com o provérbio conhecido de matar dois coelhos numa cajadada só, o personagem Edgar (Fernando Alves Pinto) — que é o narrador dono de um olhar peculiar — decide ser um anti-herói de uma história mal resolvida que ele mesmo causou. O cara acabou de voltar de Miami, uma viagem de férias calculadas depois de se envolver num acidente e ser salvo da justiça por um deputado ¨amigável¨ no Brasil. Ele volta para o país com um plano perfeito para acabar com dois coelhos, que ele acredita serem desnecessários, e ainda se dar bem com isso tudo.
Edgar é o tipo de cara que nunca se deu mal e acaba por deduzir que se todos se dão bem nesse país, porque não colocar alguns personagens em coalisão? E é mais ou menos isso que ele planeja ao colocar políticos, traficantes e outros esquemas para guerrearem entre si e isso tudo é claro, com boas doses de reviravolta. Portanto, esqueça o politicamente correto ao assistir Dois Coelhos, porque afinal, todos querem salvar suas próprias cabeças, custe o que custar.
O diretor estreante — que já tinha dirigido o curta Eu te darei o céu, em 2005 — Afonso Poyart parece gostar bastante de referências pop. Desde a primeira parte de Dois Coelhos, que abusa de cenas com animações manuais e uma versão própria do game GTA, o roteiro é bem ao estilo de Guy Ritchie e afins, com narrativa entrecortada, enredo que oscila entre o passado, futuro e ações atuais e edições exageradas de cenas, fazendo isso sem muito medo de se perder.
O time de atores, que conta com Alessandra Negrini, Caco Ciocler, o rapperThayde e etc, colabora para que o longa consiga andar de forma fluente. Mas acima de tudo Dois Coelhos é um filme de pós-produção, pois é abusando de efeitos visuais, sonoros e de tratamento gráfico que o longa se constrói. A trilha sonora deve ter rendido um bom dinheiro de copyrights pois conta com nomes como Radiohead, 30 seconds to Mars, Tom Waits e Lenine. Você pode assistir vários vídeos do Making off no site do longa por esse link.
Mesmo que se discuta a aproximação de Dois Coelhos com o estilo de filmar americano, é inegável a ousadia de fazer algo do estilo por aqui, num cenário como São Paulo que ajuda a ter muita história para contar. Ele faz muito bem o que promete e não deve nada para os outros do gênero. Afinal, se você paga para filmes estrangeiros do estilo, deve sim dar o braço a torcer para esse longa feito por aqui, que com certeza ele vai abrir um caminho para um novo jeito de fazer cinema no Brasil.
Uma ótima surpresa no cinema nacional, tanto em produção, efeitos especiais e roteiro é O Homem do Futuro (Brasil, 2011), dirigido por Claudio Torres. Apesar do enredo estar longe de ser original, o fato dele fugir das globochancadas — verdadeiros pastelões de vento — que estão sendo lançados ultimamente, acaba fazendo uma grande diferença ao trazer um pouco de raciocínio e piadas mais inteligentes, sem ter que ficar apelando para baixaria. O filme soube fazer uma boa mescla de ficção científica e comédia romântica, balanceando bem os dois, conseguindo agradar ambos públicos. Além disso, apesar de em várias coisas ser previsível — principalmente para quem já viu filmes no estilo — ele ainda consegue nos fazer pensar sobre a lógica e as várias consequências de uma viagem no tempo.
Falando em filmes do mesmo estilo, aos poucos o cinema brasileiro está fazendo suas próprias versões, como o Se eu fosse você (2005), ou remixes de filmes estrangeiros, algo que Hollywood faz até não poder mais. Tudo bem, seria bem mais legal se coisas mais “originais” destinadas ao grande público fossem feitas por aqui, mas acredito que esta é uma boa maneira de ir se aprimorando para no futuro poder criar algo novo com mais qualidade. O Homem do Futuro é um grande remix de filmes estrangeiros, conseguindo muito bem abrasileirar a fórmula do De Volta para o Futuro (Back to the Future, EUA, 1958), e fazer outras boas referências, como O Exterminador do Futuro (The Terminator, EUA, 1984) e Efeito Borboleta (The Butterfly Effect, EUA, 2004), de forma inteligente.
Uma coisa é certa, Wagner Moura está cada vez se afirmando mais como um ótimo ator. É incrível ver por exemplo a sua transformação para fazer o papel de Zero, um personagem totalmente frágil e inseguro, em O Homem do Futuro, quando a sua imagem que ficou mais conhecida foi como o duro Capitão Nascimento, do Tropa de Elite (2007).
Apenas duas coisas deixam a desejar em O Homem do Futuro. A mais crítica são os gritantes erros de continuação — se fossem pequenas coisinhas até que passava, mas não… — e a outra, de opinião mais pessoal, é o Wagner Moura cantando. A música “Tempo Perdido” até que não ficou ruim, mas quando ele canta um trecho da música “Creep” do Radiohead, em sua própria versão, ficou difícil não dar umas contorcidas na poltrona do cinema.
Alguém por acaso conseguiu sair do filme sem ficar com a música “Tempo Perdido” na cabeça durante dias?
Lourenço Mutarelli é um dos escritores mais interessantes e híbridos da literatura atual e Natimorto(Brasil, 2011), dirigido por Paulo Machline, é a adaptação do segundo livro deste escritor conhecido pela densidade e ironia de suas obras.
Um homem e uma mulher numa proposta de tentarem viver suas vidas, literalmente, num quarto de hotel. Os personagens se resumem no homem (Lourenço Mutarelli), uma espécie de produtor musical e a mulher (Simone Spoladore), uma cantora de ópera. Enquanto o cotidiano da relação vai se construindo, eles passam a discutir, entre cigarros e cafés, seus futuros através da associação de embalagens de cigarro e cartas do Tarô.
O enredo de Natimorto se foca neste convívio claustrofóbico, exemplificando de forma muito interessante o sufocamento das relações. Os dois personagens podem sair o momento que quiserem da situação proposta, mas não há a iniciativa. Ele por não acreditar na vida fora do quarto e sentir que sua vida se resume em lamento, café e cigarros e ela por ter a necessidade de alguém que alimente a sua perspectiva de existência, ou seja, uma relação extremamente simbiótica.
Antes de ser conhecido pela surpreendente obra e bem sucedida adaptação de O cheiro do Ralo, Lourenço Mutarelli era famoso pelos seus quadrinhos obscuros e repletos de um humor negro inconfundível. Além disso, o paulista também é conhecido na literatura contemporânea pelas idiossincracias e por construir diálogos inteligentes pautados por movimentos de câmeras-narrativas que vem e vão durante as cenas literárias.
O fato de Mutarelli usar recursos de roteiro para escrever seus romances não significa que as adaptações de seus trabalhos, para o cinema, devam sempre ser transpostas de forma literal. Há detalhes na narrativa literária que surtem efeito aos olhos do leitor mas, quando passadas para uma narrativa de imagem, elas aparentam serem mais longas ou fazem pouco sentido num determinado plano. Na adaptação de Natimorto, ocorreu isso algumas vezes, como, por exemplo, nos longos diálogos repletos de reflexões, numa espécie de bate e volta consigo mesmo, do personagem sociofóbico interpretado pelo próprio Mutarelli. Os longos diálogos no longa se tornam, em algum momentos, um pouco cansativos por ocuparem diferentes tempos do que ocorre na narrativa literária. No livro, os discursos se desenvolvem em muitas páginas, enquanto no filme eles são suprimidos a uma cena do roteiro.
Por outro lado, outras situações se encaixaram perfeitamente, como em muitos momentos onde os planos seguem à risca as descrições do livro em que o narrador aponta a câmera para a boca de determinado personagem, como se o leitor — agora espectador — finalmente pudesse entender determinada situação descrita no livro.
Em Natimorto há poucas cenas externas, o que acaba fazendo a atenção se voltar para as interpretações, como a do próprio escritor que se mostra inseguro no ínicio do filme mas que, com o passar do tempo, se torna uma premissa psicológica do personagem. A aparência miúda e nervosa de Mutarelli confunde, de forma muito interessante, o criador e a criatura. Já Spoladore faz um papel que acredito combinar com ela, possuindo uma voz forte e um olhar irônico cabível à personagem.
Natimorto é uma experiência interessante para o cinema nacional que vem apostando em trabalho menos hiperrealistas e configurando associações com a literatura feita no presente. Mesmo para os desacostumados a um cinema com mais diálogos e experimental, o filme vale o ingresso.
Baseado no polêmico caso policial de assalto ao Banco Central de Fortaleza, em 2005, Assalto ao Banco Central(Brasil, 2011), dirigido por Marcos Paulo, parece mais uma versão abrasileirada — com menos graça e estilo — da franquia 11 Homens e um Segredo, entre outros longas e séries do gênero.
Barão (Milhem Cortaz) é o clássico malandro e trapaceiro à moda Brasileira, tem seus próprios negócios, se veste bem e tem uma mulher de formas exuberantes (leia-se piriguete) ao seu lado. Não satisfeito com isso, decide planejar um grande assalto a banco convocando nomes do crime e outros profissionais que querem lucrar bem com a empreitada. O planejamento do roubo — definição mais correta já que a palavra assalto denota outra coisa — é feito milimetricamente para que não haja violência e nem alarde em nenhum momento. Mas claro, nem tudo são flores e a ganância — bem ao estilo brasileiro para estrangeiros — vai dar outros contornos para a trama.
Um dos problemas mais sérios de Assalto ao Banco Central é apostar na narrativa novelesca, praticada desde sempre pela Globo. Os elementos televisivos não se resumem apenas na transposição dos atores — costumeiramente protagonistas de dramas na TV — interpretando papéis levianos, mas também nos elementos que constroem as cenas, fazendo tudo parecer superficial demais.
Mesmo que a montagem do filme, trabalhando com aleatoriedade usando passado, presente e futuro, tenha sido um acerto, o roteiro não convence, deixando a desejar justamente no quesito de conflito do enredo. Como se Assalto ao Banco Central tivesse que funcionar como longa, e ao mesmo tempo como uma série do estilo CSI e afins, a trama acaba ficando morna, sem permitir nenhum tipo de tensão.
Assalto ao Banco Central acaba não criando vínculo narrativo com nenhum personagem e todos são efêmeros e pouco cativantes. Atores que funcionam muito bem na televisão, como o veterano Lima Duarte, Eriberto Leão e o divertido Gero Camilo, se apresentam como personagens levianos, com piadas forçadas e muito fáceis de cair no esquecimento.
Nenhuma novidade quando às dificuldades que o cinema nacional tem de desligar do universo narrativo da televisão. Assalto ao Banco Central é mais um longa que vem reforçar a medianidade das produções que envolvem produtoras firmadas no mercado televisivo e comercial apostando no cinema como extensão. Nenhum preconceito quanto a participação dessas empresas e artistas — já que podem contribuir com belo poder aquisitivo — mas sim quanto ao foco dado à celebridades, roteiros extremamente levianos e produções que beiram ao estilo estrangeiro sem nenhum tipo de glamour que se apresenta lá fora.
Muitos descuidos narrativos são aceitos na televisão, por conta da breviedade e pouca necessidade de assimilação, mas quando transpostos para o cinema, exigindo mais atenção, tomam outras dimensões, deixando claro que televisão e cinema exigem duas forças totalmente diferentes. Assalto ao Banco Central é mais um filme efêmero que pode render bom público, mas cair no esquecimento logo no próximo mês.
Outras críticas interessantes:
Alexandre Carvalho dos Santos, no Revista Bula
Depois de conquistar público e crítica com o premiado longa Estômago, estreia nesta sexta-feira, dia 18, em Porto Alegre, o novo filme do diretor Marcos Jorge, Corpos Celestes. O trabalho, em parceria com o diretor Fernando Severo, leva às telonas temas pouco vistos no cinema: astronomia e cosmologia. O enredo usa o universo da ciência, com todo o seu metodismo e precisão, para abordar o conflito entre razão e emoção que pega de surpresa um astrônomo bem sucedido.
O drama conta a história de Francisco (Dalton Vigh), um astrônomo que cresceu aprendendo sobre planetas e constelações, e que deve sua produtiva carreira a um fato de seu passado. Mas vivendo seu presente, o cientista questiona a insignificância do homem e a imensidão do cosmos. Nessa situação, ele é surpreendido pelas próprias emoções e tem que encarar seus maiores mistérios. O astrônomo terá de lidar com seus sentimentos por Diana (Carolina Holanda), uma moça bem diferente dele, muito à vontade com o seu lugar no universo.
O filme tem no elenco também Antar Rohit, Alexandre Nero e o menino Rodrigo Cornelsen, além de outros 18 atores e aproximadamente 500 figurantes. O longa foi gravado em cinco diferentes cidades: Curitiba, São Paulo, Castro, Piraquara e Araucária, em mais de 20 diferentes locações.
A primeira exibição de Corpos Celestes aconteceu no 37° Festival de Cinema de Gramado, onde o filme recebeu o prêmio de Melhor Fotografia. Além disso, foi exibido no 40th International Film Festival of Goa, na Índia, e no 5° Festival de Cinema de Goiânia, onde recebeu os prêmios de Melhor Trilha Sonora, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Ator Revelação. No 4° Festival da Lapa, em 2010, Corpos Celestes recebeu o prêmio de Melhor Figurino. Foi um dos 15 filmes brasileiros incluídos na seleção “Brasil: el cine del siglo XXI” realizada por José Carlos Avellar e Gianni Ottone na 55ª Semana Internacional de Cine de Valladolid, na Espanha, em outubro de 2010. Em novembro, o filme recebeu também os prêmios de Melhor Direção e Melhor Roteiro no 5° Festival de Cinema dos Sertões.
Produzido pela Zencrane Filmes e com distribuição nacional da Panda Filmes, Corpos Celestes foi filmado em 2006, a partir de prêmio de produção de filmes do Governo do Paraná. O longa, contudo, só pode ser finalizado em 2009/2010, depois de vencer os editais de finalização e difusão do BNDES e da Petrobras. Mais informações no site do filme
O filme já estreou nas seguintes cidades, confira a programação dos cinemas no site do Refilmagem:
O público adolescente vem sendo um alvo interessante para a produção do cinema nacional. Preocupados em tratar de assuntos voltados a essa fase formadora de opinião, filmes comoAs melhores coisas do mundo e Antes que o mundo acabe fizeram boa bilheteria no ano passado, tratando dos dilemas da adolescência, que vão desde as novos formatos de família até a sexualidade, tão em pauta desse período. Desenrola(Desenrola, Brasil, 2011) de Rosane Svartman é mais uma produção voltada ao entretenimento, porém produzida através de um projeto colaborativo com o público e com tons pedagógicos, focado nos adolescentes e consumidores de minisséries como a já clássica Malhação.
Priscila (Olivia Torres) é uma adolescente do ensino médio que vive um dilema voltado a sua virgindade. Morando no Rio de Janeiro ela se acha esquisita por não gostar muito de praia a não ser por gostar de um frequentador assíduo dela, o Rafa (Kayky Brito), o garoto popular, e mais velho, que gosta de surfar e anda com as garotas mais bonitas. Ela vive se perguntando: ¨Afinal, quantas garotas no ensino médio ainda são virgens?¨. Para ela, todos ao seu redor já fizeram sexo, ou pelo menos têm histórias para contar sobre experiências sexuais. Em uma aula de estatística o professor (Pedro Bial) propõe que os alunos escolham assuntos próximos de suas realidades para que possam trabalhar com porcentagens e apresentar em sala. Eis que a situação é perfeita para o grupo de Priscila saber como foi e é a questão da virgindade nos alunos da escola.
O longa é um projeto que envolveu a participação do público em vários momentos, desde das idéias abordadas até a trilha sonora, e foi apresentado primeiramente na televisão sendo mais uma empreitada bem sucedida, pelo menos no que se propõe, da TV Cultura. O canal tem apostado, nos últimos anos, em experimentações teledramatúrgicas que tomam corpo no cinema, como aconteceu com o Amor Segundo B. Schiamberg, do projeto Direções. Em Desenrola fica claro que a participação do público funcionou em muitos momentos, por exemplo, há mesclas de depoimentos reais de adolescentes com as vivências dos personagens do enredo.
Infelizmente em Desenrola, vários assuntos passam por tentativas de abordagem mas acabam se desmanchando em algum momento. O foco do filme é a questão sexual, mas vários pontos que envolvem o dia a dia do adolescente também são tratados, como: relacionamento com os pais, gravidez e bullying, mas todos de formas superficiais. Por exemplo, o uso da camisinha é reforçado pelos adolescentes em conversas, mas no momento em que a situação realmente acontece o assunto desaparece e se perde. Claro que para um adulto de hoje, talvez, muitas situações apresentadas não façam muito sentido e pareçam até forçadas, mas o filme realmente aparenta se focar em estereótipos, o que se torna inquestionável já que foi produzido com ajuda do público.
Desde a Retomadao Brasil busca uma identidade dentro do cinema. As leis de incentivo melhoraram consideravelmente e grandes emissoras, hoje, apostam bastante em filmes, principalmente de entretenimento e/ou com trabalhos pedagógicos. Isso com certeza não é ruim, afinal esse tipo de cinema também cria um perfil do país no exterior, o que desagrada bastante é o reforço do uso de atores de novelas que aparecem como que para ¨salvar¨ as produções. Em Desenrola as aparições de Juliana Paes e até do Kayky Britto, que entendo ser necessário para o público adolescente, poderiam ser trocados por atores menos artificiais, como nos dois filmes que citados no primeiro parágrafo. Mas em geral o longa cumpre o papel de manter um diálogo com o adolescente e de formar público para futuras produções do gênero.
Por quais motivos muitos filmes não são feitos no Brasil? Sempre há alguém a quem culpar:, o governo, a falta de apoio da população, alguma pessoa que não aceitaram colaborar e até mesmo a falta de vontade de ter que ir em busca de recursos e apoio. O curta Os Filmes Que Não Fiz, de Gilberto Scarpa, trata justamente dos motivos mais banais de projetos cinematográficos não terem vingado e se tornado películas.
Em Os Filmes Que Não Fiz, Scarpa interpreta a si mesmo como um diretor que acredita fielmente em seus projetos, mas que nunca tirou nenhum do papel. Nos moldes de entrevistas e documentários de diretores famosos, em que os atores e colaboradores participantes dão seus depoimentos, o diretor conta da sua saga de anti-herói das telonas nacionais.
O tom cínico de Os Filmes Que Não Fiz é um dos elementos mais interessantes, soando como uma crítica sobre o enorme número de pseudo diretores atualmente. O diretor/personagem narra em um tom saudosista e carinhoso os seus roteiros mais interessantes relatando cada detalhe do que poderia ter sido. Ele apresenta de forma extremamente divertida, e em formato de trailer, um a um dos projetos. O curta é uma espécie de ¨curtas dentro de um curta¨ dando um tom metalinguistico ao trabalho. Afinal, por que mesmo muitos filmes não são feitos no Brasil?
O diretor José Padilha não tem medo de ousar, com um currículo contendo filmes que tratam da violência da cidade do Rio de Janeiro, e mais uma vez, chega para acertar no cerne da ferida de todo um país. O aguardado Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro (Brasil, 2010) vem em um período bem a calhar, mostrando que o problema do tráfico não nasce de dentro das favelas.
Tropa de Elite 2 traz o Capitão Nascimento (Wagner Moura) que após mais de 10 anos dedicados ao BOPE, por conta de uma morte em rebelião no presídio de Bangu I, passa a ser Sub Secretário de Segurança do Rio de Janeiro. Compreendendo que essa subida de cargo é uma manobra política, ele continua acreditando que nessa posição continuará fortalecendo o BOPE, mas se dá conta que dessa vez o inimigo vem dos altos cargos do poder, e que realmente, o buraco é mais embaixo.
O destaque de Tropa de Elite 2 são os contornos em que o enredo tomou após toda a controversa apologia à violência em relação da polícia com o tráfico nas favelas do primeiro Tropa de Elite. Nesse momento, o personagem de Wagner Moura se dá conta que o sistema é que é a cabeça-pensante de todo o esquema de corrupção que chega através do tráfico e do problema recorrente nas favelas do país: a ação iminente das milícias agindo como grupos de poder e extermínio dentro das favelas. O tripé política/mídia/corrupção é a base do roteiro que somado com uma ótima produção de arte e efeitos especiais, cria um clima extremamente realista.
As atuações em Tropa de Elite 2, mais uma vez, não deixam a desejar. Wagner Moura retorna como um Capitão Nascimento mais envelhecido, experiente e com um olhar que beira ao extremo do niilismo. Ele não está ali somente para matar, como em Tropa de Elite, e sim para lutar contra todo um sistema. Outras duas atuações de destaque são as do bem cotado Irandhir Santos como o professor Fraga, e Sandro Rocha, interpretando o corrupto policial Russo.
José Padilha acerta nessa sequência por tirar o foco no anti-humanismo do Capitão Nascimento e trazer a tona uma situação de âmbito nacional. Isso tudo com um humor negro e realismo de incomodar o espectador, me lembrando muito o filme Amem do diretor grego Costa-Gravas. Os efeitos especiais estão bem ao estilo americano de se fazer ação, e mesmo que em Tropa de Elite 2 tudo transcorra com mais moderação, em relação ao primeiro filme, em nenhum momento deixa de causar o mesmo efeito de indignação, impossibilitando o espectador a ficar alheio das situações.
Em épocas de Ficha Limpa e eleições em que o desespero dos candidatos parece predominar, Tropa de Elite 2 chega para desestabilizar o espectador que vai às salas de cinema. Mesmo que o filme mostre no ínicio um aviso de que é uma obra de ficção, apesar de ser muito parecido com a realidade, é impossível não sair da sala de cinema com um sentimento de falta de dever cumprido e que no Brasil, ou você desafia o sistema, ou ele engole você.
Há tempos que o público infantil não era favorecido com um bom filme nacional e Eu e Meu Guarda-Chuva (Brasil, 2010), dirigido por Toni Vanzolini e baseado no livro homônimo de Branco Mello, veio para tentar suprir parte desta lacuna.
Três melhores amigos, Eugênio (Lucas Cotrim), Frida (Rafaela Victor) e Cebola (Victor Froiman) estão no seu último dia de férias, antes das aulas começarem na nova escola. Para aproveitar ao máximo o tempo que ainda lhes resta, decidem fazer algo emocionante: visitar o prédio do colégio para pixá-lo. Lá se deparam com o fantasma do Barão Von Staffen (Daniel Dantas), o fundador do colégio, que aprisiona Frida em sua terrível sala de aula e os dois amigos vão tentar fazer de tudo para salvá-la.
O enredo de Eu e Meu Guarda-Chuva é muito bem trabalhado e consegue despertar a curiosidade e a criatividade do público mais jovem, com temas um pouco mais complexos do que se vê normalmente em longas do gênero. Boa parte do filme se passa dentro do sonho de Eugênio e, como é normal no mundo onírico, são dados vários “pulos” de um ambiente para outro de maneiras bem engraçadas, além de ter vários elementos fantasiosos. O longa também faz uma bela crítica ao sistema de ensino que só se preocupa em os alunos decorarem a matéria para dar “resposta exatas”, para assim agradar o ego do professor, e com a sua estrutura ainda muito antiga.
O filme consegue trazer uma magia parecida com a que havia em O Castelo Rá-Tim-Bum. Mas infelizmente, diferente deste, os atores principais não conseguem ser tão envolventes, pois a atuação fica na maioria das vezes no mecânico, comprometendo a imersão na magia de Eu e Meu Guarda-Chuva. Mas, os outros atores, com algumas ótimas participações especiais, fizeram um bom trabalho.
Apesar de ter ótimas locações e uma bela fotografia, com efeitos especiais simples mas bem realizados, a qualidade da imagem em geral de Eu e Meu Guarda-Chuva é péssima, toda granulada, que incomoda bastante. Com uma produção tão atenciosa com os detalhes é difícil entender como isso foi acontecer, até porque faz tempo que não vejo um filme nacional com tal tipo de problema.
Eu e Meu Guarda-Chuva é um filme mágico e bastante divertido, algo que já faz um tempo não aparecia no cinema nacional. Não só a criançada, mas também os adultos irão se divertir nessa viagem onírica.
O ano de 2010 tem sido, definitivamente, o ano de lançamento de produções ousadas (e maravilhosas) no cinema nacional. Seguindo a leva dos filmes mais metafóricos e sensoriais Os Famosos e os Duendes da Morte (Brasil, 2010), de Esmir Filho vem para entrar na lista dos longas que renovam a linguagem cinematográfica brasileira.
O longa é baseado, e livre adaptado, do livro homônimo de Ismael Cannepelle, que inclusive atua no filme. O protagonista seria mais um garoto aparentemente comum se não encarasse de forma tão onírica o seu sentimento de deslocamento. Ele mora numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, vive através das músicas do Bob Dylan, não tem muitos amigos e se acha deslocado do que ele chama de ¨um bando de colonos¨. A história dele se mistura com as de outras pessoas que sentiam a mesma necessidade de fuga dele. A busca de uma vida virtual, as lembranças e a identificação com a irmã de um amigo fazem dele cada dia mais distante do espaço geográfico em que vive.
O filme É uma história sensorial, uma viagem lomográfica pelo interior do sul do país e pelos sentimentos daqueles que vivem muitas vezes isolados, não de forma social, mas com uma solidão que se compreende com as imagens bucólicas da pequena cidade, que a câmera insiste em focar. Os Famosos e os Duendes da Morte se apropria de maneira poética da linguagem literária do livro, transpondo os sentimentos do garoto com curtas imagens experimentais dos outros personagens, deixando mais evidente a sua fuga, nem que seja por lembranças que não pertençam a ele. A própria linguagem audiovisual é tratada de forma metalinguistica, pois o garoto mescla as imagens vistas na internet com os sentimentos e lembranças que possui, mostrando a experiência dele como espectador.
Esmir Filho acerta em Os Famosos e os Duendes da Morte não somente por ousar adaptar uma obra pouco conhecida escrita por um jovem, mas também por realçar a história com atores-personagens da região, todos de primeira viagem. Os sotaques, os costumes e o passeio das cenas pela cidade deixa tudo muito mais real, uma espécie de poesia documentada, mudando o foco costumeiro do norte para o sul do país. Outro ponto, que funciona de forma retórica no filme, é que nada fica claro demais nas cenas, é necessário o uso dos sentidos para se desejar ter respostas do que se vê na tela.
Os Famosos e os Duendes da Morte foi apresentado na Mostra Internacional de São Paulo de 2009 e recebeu premiações em inúmeros festivais. Esse é o primeiro longa de Esmir Filho, que ficou conhecido pelo curta-viral Tapa na Pantera de 2006. Uma bela estréia do jovem paulistano, com um filme que ousa mesmo como cinema e abusa das simbologias para os espectadores mais atentos.
Baseado na telenovela de sucesso da década de 70, O Bem Amado (Brasil, 2010), dirigido por Guel Arraes, é uma das adaptações nacionais mais aguardadas do ano para as telas do cinema.
Na fictícia Sucupira, o recém-eleito prefeito Odorico Paraguaçu (Marco Nanini) tem como principal meta política construir um cemitério para a cidade, mas não pode inaugurá-lo até conseguir um falecido. O tempo vai passando e as coisas vão começando a complicar para ele, principalmente devido a forte oposição que vai crescendo. Afim de salvar seu mandato, está disposto a fazer tudo que for preciso.
O Bem Amado está sendo bastante comentado por ter sido lançado justamente em um ano de eleições. Afinal, nada melhor do que uma comédia, por ser bastante acessível e leve, para estimular o olhar crítico em relação aos políticos. Infelizmente o filme não traz nada de novo à reflexão sobre o assunto, tudo que ele aborda já foi visto e revisto milhões de vezes, servido agora mais apenas como algo para se dar risada.
Algumas tomadas do longa são bem engraçadas, como as divagações de Odorico a respeito da inauguração do “faraônico” cemitério, mas as piadas em geral são as já batidas em tantos programas de humor televisivos. Além disso O Bem Amado investe pesadamente em repetições e principalmente nas interpretações escandalosas, cheias de gritos, que nas primeiras vezes até gera algumas risadas, mas depois fica muito cansativo. Apesar disso, as analogias relacionando Sucupira e o Brasil, usando vídeos e imagens históricas, estilo mockumentary (falso documentário), conseguem dar um ritmo mais acelerado, tornando a experiência menos tediosa.
Não cheguei a acompanhar a telenovela, então infelizmente não pude fazer nenhuma comparação em relação ao longa. Se você chegou a ver os dois, gostaria de saber: o que você achou da adaptação? Foi relativamente fiel?
Como entretenimento puro, apenas para dar risadas sem a mínima reflexão, O Bem Amado é o filme certo. Já para aqueles que não aguentam mais personagens totalmente esteriotipados, diálogos batidos e situações estilo “Zorra Total”, sugiro procurar outra coisa para assistir.
A rede UCI Cinemas abre venda antecipada, a partir desta sexta-feira (17), para a sequência do longa nacional “Tropa de Elite 2″, que estreia dia 8 de outubro. Também dirigido por José Padilha, “Tropa de Elite 2″ apresenta Wagner Moura, como o famoso capitão Nascimento; além dos atores André Ramiro, Maria Ribeiro, Milhem Cortaz e Seu Jorge.
A continuação de um dos filmes de maior sucesso do cinema nacional em 2007, traz o capitão Nascimento, agora mais velho, como o secretário de Segurança Pública, e, pai de Rafael, interpretado pelo jovem Pedro Van Held.
Os clientes UCI podem comprar antecipadamente o seu ingresso para “Tropa de Elite 2″, nas bilheterias do UCI Estação e/ou UCI Palladium, nos terminais de autoatendimento instalado nos cinemas ou no site.
Serviço: UCI Cinemas Estação – Sala Digital 3D (sala 5)
Endereço: Avenida Sete de Setembro, 2775 – Shopping Estação
Atendimento eletrônico: (41) 3595–5599
UCI Cinemas Palladium – Sala Digital 3D (sala 4)
Endereço: Rua Presidente Kennedy, 4121, piso L3 – Palladium Shopping Center
Atendimento eletrônico: (41) 3208–3344
Muitos documentários brasileiros acabam repetindo a fórmula estilística da TV, como Globo Repórter e muitos outros, e se no tema possui uma história de superação, já se coloca todo aquele melodrama para enfatizar ainda mais tudo. Felizmente, B1 — Tenório em Pequim (Brasil, 2010) dirigido por Felipe Braga e Eduardo Hunter Moura, passa bem longe dessas descrições.
Mesmo sendo o único atleta do mundo a ter conseguido quatro medalhas de ouro consecutivas nas Paraolimpíadas, o nome Antônio Tenório da Silva, judoca brasileiro, ainda é desconhecido para grande parte das pessoas do país (inclusive, eu era uma delas). Em B1 — Tenório em Pequim, acompanhamos a trajetória do atleta desde sua preparação para ser um dos candidatos a participar das paraolimpíadas, até a sua luta final em Pequim.
Para quem nunca teve contato com uma paraolímpiada, em B1 — Tenório em Pequim vai conhecer um pouco mais seu funcionamento, e perceberá que ela não é muito diferente da olimpíada tradicional. Outra coisa interessante é que também há pessoas que tentam burlar o sistema, só que em vez de ser por dopping, atletas fingem debilidades, neste caso a dificuldade de enxergar, pois o valor da medalha é igual, no mundo esportivo. Além disso, também é explicado o porque do nome B1, presente no título do filme, e qual as implicações dele.
Durante todo o documentário, somos não somente apresentados a todo esse mundo do judô praticado por Tenório, mas também a sua própria pessoa, dentro e fora dos tatames. A partir de entrevistas feitas para outras pessoas, durante a filmagem de B1 — Tenório em Pequim, e por depoimentos feitos para o próprio filme, conhecemos um pouco mais da sua história, como por exemplo dos acidentes que o tornaram cego, mas nunca de maneira melodramática. Parte do filme também foca em outros lutadores, apesar de no final não ficarmos mais sabendo qual foi o resultado deles na competição.
Com a câmera muitas vezes estática, possuímos uma visão mais ampla das lutas, que dá uma liberdade maior de escolha no que focar. Para quem não gosta muito do esporte, pode achar certos momentos meio cansativo essas cenas, mas não chega a ser entediante. No final do filme há uma grande mudança de ritmo, enquanto na maior parte do tempo temos praticamente só som ambiental, com uma trilha sonora bem agitada e e tomadas mais rápidas, enfatizando o grande momento da competição, que acaba gerando um estranhamento. Além disso, há todo uma construção de um suspense totalmente desnecessário a respeito do resultado da competição, apesar de haver uma tomada com uma sacada muito boa.
Um dos grandes problemas técnicos da equipe foi a dificuldade em gravar o som, principalmente pelo grande número de barulho no ambiente, e em alguns momentos as vozes dos personagens é baixa demais, dificultando o entendimento de certos diálogos. Talvez isso tenha se dado pelo uso de um equipamento mais simples, por ser uma produção menor, mas mesmo assim, se conseguiu tirar um bom proveito dele. Um recurso interessante utilizado em certos momentos do filme, foi que enquanto a câmera focava uma luta, ouvíamos em destaque a voz do técnico. Isto se deve a uma afirmação feita por Tenório, durante o longa, dizendo que durante a luta a sua audição fica focada na voz do técnico, que é uma das coisas mais importantes a se fazer como lutador. Aliás, durante B1 — Tenório em Pequim, também somos apresentados a voz de um programa de leitura de texto para computador, lendo certos trechos do diário do Tenório, o que reforça o tempo inteiro a importância do som na sua vida.
B1 — Tenório em Pequim é uma ótima oportunidade para não só conhecer mais sobre uma figura importante no esporte brasileiro e o próprio funcionamento das paraolimpíadas, mas também para acompanhar uma história de luta, persistência e superação apesar de todas as dificuldades e limitações.
O sorteio já foi realizado e os vencedores serão comunicados por email.
Para marcar o lançamento de B1 – Tenório em Pequim, que estreia dia 3 de setembro, o interrogAção, juntamente com a equipe de produção do filme, estarão sorteando 5 pares de convites para o filme. Promoção válida para todo Brasil.
A promoção vai até dia 12 de Setembro e os vencedores serão notificados por email.
Sinopse: O que faz um campeão? Perseverança, sacrifício e disciplina somam-se na jornada de Tenório, judoca profissional classificado como B1 – cego total. Isolamento e solidão são alguns dos desafios enfrentados por este brasileiro espetacular em um projeto inédito, a conquista de uma quarta medalha de ouro em Paraolimpíadas. Filmado no Brasil, França e China, o documentário “B1 – Tenório em Pequim” mergulha na sensibilidade de um personagem explosivo e tocante, e narra por um ponto de vista que nada tem de deficiente a preparação para este grande combate, numa emocionante viagem cinematográfica.
O sorteio já foi realizado e os vencedores serão comunicados por email.
Seguindo a leva dos filmes espíritas produzidos nacionalmente, Nosso Lar (Brasil, 2010), de Wagner de Assis, se destaca entre todos os outros devido á alta qualidade de produção em relação aos efeitos especiais. O que é também um diferencial aos filmes nacionais em geral, por causa do alto custo de produção, fato inédito na história cinema brasileiro.
André Luiz (Renato Prieto) era um médico de sucesso e, após sua morte, percebe que a vida ainda continua. Como não entende nada do que está acontecendo, afinal sempre foi um homem da ciência, ele busca respostas da única maneira que sabe: utilizando sua razão de médico. Durante esta nova jornada, André passa pelo Umbral, uma espécie de purgatório, e depois é resgatado para a cidade Espiritual Nosso Lar. Lá aprende coisas que nunca imaginou e uma nova pessoa surge dentro dele.
O elenco de Nosso Lar é extremamente fraco, para não dizer péssimo, o que acaba comprometendo demais o filme. O personagem principal não convence e, como narrador, é pior ainda. Os demais personagens também são muito falsos e, certas cenas que deveriam ser dramáticas, acabam gerando risos de tão ridículas que ficaram. Sem falar na maneira como os diálogos foram construídos, o que apenas piorou a situação. Eles são muito didáticos e formais, criando uma atmosfera artificial ainda maior.
Em compensação, os efeitos especiais e a produção em si são ótimos. Espero que com Nosso Lar, a produção de cinema nacional comece a produzir mais filmes com esse tipo de qualidade. Se fosse produzido uma ficção científica seguindo a produção deste, acho que o resultado poderia ser fantástico. Outro ponto positivo é que o longa não carrega junto com si as características novelescas brasileiras, diferente do que aconteceu com Chico Xavier de Daniel Filho. Apesar de a trilha sonora ter a participação de Phillip Glass, o longa pecou em literalmente sobrecarregar, em alto volume, os ouvidos de quem assiste, aumentando ainda mais a sensação de artificialidade no filme.
Nosso Lar é um filme bastante tendencioso e, quem não é simpatizante com as ideias espíritas, provavelmente ficará bem incomodado com toda a “propaganda” e afirmação da religião feito durante todo o longa. Só para deixar bem claro, em nenhum momento estou criticando a religião em si, estou apenas o analisando como cinema. Fica como indicação o filme Fonte da Vida, de Darren Aronofsky, que é também um longa de ficção espiritual, mas sem cair na panfletagem. Aliás, ele também foi produzido pela empresa responsável pelos efeitos visuais do Nosso Lar.
Acredito que Nosso Lar fará sucesso com o público espírita, e aos interessados na religião, mas que, principalmente devido ao péssimo elenco e didatismo exagerado, não agrade muito as outras pessoas. Mas de um jeito ou de outro, este é um longa que quebra todos os padrões, e até preconceitos, a respeito da qualidade visual das produções do cinema nacional. O que já em si é muito válido.
Quer assistir Nosso Lar de graça? Então participe da Promoção Nosso Lar e concorra a convites para ver o filme em todo o Brasil.
Nessa última década o cinema brasileiro vem tentando criar novas identidades audiviosuais e, optando pela tentativa de narrativas e enredos que fujam do já batido favela-sertão do país, muitos filmes surgem com enredos contemporâneos e urbanos. Histórias de amor duram apenas 90 minutos (Brasil, 2009), de Paulo Halm é mais um desses filmes com características fiéis a essa nova fase.
Em Histórias de amor duram apenas 90 minutos tudo gira em torno da crise de criação do aspirante a escritor Zeca (Caio Blat). Ele já está na casa dos 30 anos, é casado com a aparentemente bem resolvida Julia (Maria Ribeiro) e ainda vive com o dinheiro que seu pai dá todo mês. Zeca passa a acreditar que sua mulher o trai e vai mais além, ele acha que ela o trai com uma outra mulher, a bela dançarina Carol (Luz Cipriota). O fetiche masculino está completo a partir do momento em que Zeca passa a se sentir atraído pela sexy dançarina argentina.
Quem nos conta a angústia da falta de produção e as aventuras sexuais-amorosas é o próprio Zeca, que apresenta o seu insucesso de sair da página 50 do seu futuro livro e acaba por ser escravo de suas próprias paranóias e ócio. O narrador de Histórias de amor duram apenas 90 minutos vive o paradoxo de desejar uma vida sem pudores e, por outro lado, fica lamentado os seus atos, o que acaba, infelizmente, somando pontos contra a convencibilidade do personagem.
Zeca é o estereótipo moderno de algum escritor marginal da década de 60 ou 70, só com a diferença de ter quem sustente sua vida alternativa. Mas Caio Blat sabe orientar o personagem justamente pela falta de autenticidade e dependência do Zeca e também pela narrativa divertida que ele apresenta o desenrolar da história. O que não convence muito, e aparenta muitas vezes forçada, é a sensualidade da personagem Carol, que abusa do sotaque e das curvas argentinas para dar charme a interpretação.
A produção de arte no Histórias de amor duram apenas 90 minutos tem um quê de originalidade destacando os dois ambientes mais importantes do filme, os apartamentos do casal e da argentina, ambos muito legais e fiéis ao estilo dos personagens. A fotografia das ruas de boêmia carioca também é ótima e dá charme à película.
Histórias de amor duram apenas 90 minutos não é nenhuma produção grandiosa, sem ousadias de enredo ou de linguagem, mas é um filme que vai além do cinema atual, que tenta ser pseudo crítico e extremamente expositivo sobre as deficiências sociais do país.
Olhos Azuis (Brasil, 2010), de José Joffily, é uma produção bem diferente das outras já feitas no cinema nacional. Abordando temas como violência e preconceitos, mas sem o típico cenário (para não dizer batido) favela/prisão, ele é um ótimo thriller psicológico, gênero ainda raro por aqui.
Marshall (David Rasche) está no seu último dia de trabalho como chefe da imigração do Aeroporto de JFK, de Nova Iorque, e precisa escolher um substituto para seu cargo. Afim de passar uma última lição a seus subordinados, assim como testá-los para saber quem poderia estar mais apto a sua substituição, decide exagerar um pouco mais no seu processo de seleção de quem vai poder ou não entrar no “paraíso” americano. Nonato (Irandhir Santos), é um brasileiro radicado nos EUA, acaba sendo o alvo principal de Marshall, em uma luta entre “olhos azuis” e “olhos negros”, que não poderá acabar muito bem para um dos dois.
É difícil não ficar incomodado com as situações apresentadas em Olhos Azuis. Quem já sofreu (alguém por acaso não?) qualquer tipo de discriminação pela ignorância de uma pessoa a respeito de alguma coisa, sabe muito bem do que se trata. O interessante é que o filme aborda o preconceito de ambos os lados, onde não há uma única verdade. Mas a grande pergunta que fica é: estaria esse preconceito (o xenofobismo, neste caso em particular) gerando mais preconceito? Como seria possível confrontar argumentos puramente irracionais de outra pessoa? Como evitar que não ocorra esse processo de retroalimentação?
O filme teve como inspiração o documentário Blue Eyes, de Jane Elliot, uma filmagem de um experimento feito por uma pedagoga americana que conduz situações geradoras de preconceitos irracionais (algum não é?) entre seus participantes. Só que desta vez invertendo os papéis, as vítimas são os “olhos azuis” e não os “olhos negros”. Com isso ela pretende mostrar, tanto para eles quanto para quem assiste, como que com pequenas atitudes/gestos somos preconceituosos em relação os outros, e que todo mundo tem sua parcela de preconceitos, mesmo sem perceber muitas vezes. É um material muito interessante para qualquer um que se interesse pelo assunto, o recomendo muito.
Toda a montagem de Olhos Azuis é muito bem feita, alternando sempre entre momentos de tensão e outros mais tranquilos, que apesar de darem um pouco de espaço para respirar ainda assim não conseguem aliviar em nada toda aquela carga emocional que vai se acumulando cada vez mais, que continua presente até mesmo depois do fim do filme. A história é exibida totalmente alternada, por muito tempo não se sabe o que é passado ou presente e apesar de já ter desde o começo uma idéia de um final trágico, é difícil saber exatamente o que vai acontecer até o último momento do filme.
O elenco também foi muito bem escolhido, se prezou por encontrar atores que tivessem a mesma nacionalidade do seu personagem, resultando em uma grande sensação de realismo perante as telas. O convencimento da trama, e dos personagens principalmente, costuma ser um dos maiores problemas no outros filmes do mesmo gênero produzidos nacionalmente. Normalmente fica algo ou exagerado demais, as vezes tanto que fica até patético, ou vazio demais, as coisas vão acontecendo e você não se envolve emocionalmente com nada. Por conta desses motivos acredito que Olhos Azuis, é um grande diferencial para a produção brasileira.
Em Hotel Ruanda, de Terry George, um personagem reflete sobre as imagens de genocídio exibindo a guerra nos noticiários de outros países, onde as pessoas ao ver as imagens ficavam chocadas por alguns segundos, mas depois continuavam calmamente a comer a sua janta, como se nada tivesse acontecido. Acredito a mudança de atitude em relação à um assunto cabe a cada pessoa. Com Olhos Azuis, a mesma situação pode se repetir após o final do mesmo, se uma verdadeira mudança não for almejada.
O filme, assim como o documentário no qual foi baseado, possui um material muito rico para se abordar questões a respeito do preconceito, patriotismo e também política, mas sem cair em moralizações.