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  • O Dia M (2008), de Paulo Leierer | Curta

    O Dia M (2008), de Paulo Leierer | Curta

    o-dia-m-paulo-leierer-curta-1Esta grande infe­li­ci­dade, a de não estar só”, rev­e­lado­ra sen­tença do ensaís­ta francês La Bruyère (1645 ‑1696), foi escol­hi­da pelo con­tista e poeta Edgar Allan Poe, mestre da “beleza mór­bi­da” literária, para ilus­trar o con­to “O Homem da Mul­ti­dão”. Pub­li­ca­da em 1840, a história nar­ra as per­cepções feitas por um homem que obser­va o trân­si­to de pes­soas na rua. A par­tir das car­ac­terís­ti­cas físi­cas, indu­men­tárias e ges­tu­ais, o obser­vador vai desnudan­do a iden­ti­dade de per­son­agens anôn­i­mos. Em dado momen­to, quan­do avista um sujeito idoso, com roupas que escon­dem requinte atrás da sujeira e movi­men­tos ansiosos para se mis­tu­rar à mul­ti­dão das ruas, o nar­rador ini­cia uma lou­ca perseguição. A cada novo pas­so, ele percebe que o “homem das mul­ti­dões” recusa-se a estar só; seu maior dese­jo é per­am­bu­lar anon­i­ma­mente entre a tur­ba londrina.

    Ser alguém sem nome e sem ros­to no furacão cole­ti­vo, aca­len­ta a con­sciên­cia humana com uma fal­sa sen­sação de segu­rança, con­stru­in­do um caste­lo de areia con­tra o medo da morte. A solidão e a morte andam de braços dados, tor­nan­do o indi­ví­duo ape­nas uma partícu­la inex­is­tente entre tan­tos organ­is­mos vivos. Esse é o sen­ti­men­to de Almei­da, per­son­agem do cur­ta-metragem O Dia M, dirigi­do por Paulo Leier­er. Inter­pre­ta­do pelo ator Caco Cio­cler, Almei­da é um homem na casa dos trin­ta anos que desco­bre, através de exam­es lab­o­ra­to­ri­ais, que seus dias de vida estão con­ta­dos. Soz­in­ho em sua casa, ele decide que pre­cisa lidar com a situ­ação e infor­mar às pes­soas próx­i­mas que está cam­in­han­do para a estra­da do sono eterno.

    No entan­to, a notí­cia de sua morte não parece afe­tar abso­lu­ta­mente ninguém ao seu redor. Assim como o ‘homem da mul­ti­dão’ de Poe, Almei­da vai per­am­bu­lan­do entre casas, ruas, pes­soas e cemitérios, mis­tu­ran­do-se ao cotid­i­ano de ros­tos egoís­tas, cansa­dos, amar­gu­ra­dos e indifer­entes. Lem­bran­do a nov­ela rus­sa “A morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tol­stói, mas sem sequer ter a pre­sença con­for­t­ante de um Geras­sim, o solitário mori­bun­do Almei­da se vê às voltas com as más­caras humanas. Per­to do leito de morte, ele está só. Com­ple­ta­mente só.

    Sunday, 1926 por Edward Hopper
    Sun­day, 1926 por Edward Hopper

    Duas das cenas mais assom­brosas do dra­ma são espremi­das na cara do espec­ta­dor logo no começo do cur­ta, quan­do Almei­da vai à casa dos pais para anun­ciar sua morte e, em segui­da, procu­ra con­tratar os serviços de um despachante funerário. No meio da incredul­i­dade furiosa do pai e do deboche sar­cás­ti­co do despachante, Almei­da encara silen­ciosa­mente a frag­ili­dade de tudo o que imag­i­na­va ser e ter.

    On the Stream of Life - Hugo Simberg
    On the Stream of Life — Hugo Simberg

    Vence­dor de Mel­hor Cur­ta no Hol­ly­wood Brazil­ian Film Fes­ti­val – HBRFEST em 2009 e do Troféu Shoe­string no Rochester Inter­na­cional Film Fes­ti­val, tam­bém em 2009, O Dia M foi sele­ciona­do em inúmeros fes­ti­vais nacionais e estrangeiros. A anôn­i­ma tra­jetória de um homem que per­corre a mul­ti­dão e que dese­ja deses­per­ada­mente ser nota­do, pois o dia de seu adeus defin­i­ti­vo galopa a pas­sos lar­gos e ele estará mais solitário do que a própria morte, con­fronta o indi­ví­duo com sua existên­cia: Será que sig­nifi­camos algu­ma coisa? Alguém sen­tirá nos­sa ausên­cia? Atrav­es­sare­mos soz­in­hos o abis­mo da morte? Até que pon­to a atom­iza­ção do homem o faz quer­er ser partícipe do cole­ti­vo, para depois empurrá-lo para a condição real de solidão e esquecimento?

    Essas são algu­mas das questões com as quais o cur­ta-metragem inda­ga o espec­ta­dor, dan­do firmeza à pro­pos­ta do dire­tor Paulo Leier­er e de toda a equipe. Destaque para a tril­ha sono­ra do filme, com a faixa “First Breath After Coma” (álbum The Earth is not a cold dead place), da ban­da amer­i­cana de post rock Explo­sions in the Sky.

    Visual­mente, O Dia M lem­bra uma mis­tu­ra das pin­turas solitárias de Edward Hop­per com as lúgubres visões da morte retratadas pelo nórdi­co Hugo Sim­berg. Ou, nas palavras do poeta Rain­er Maria Rilke: “A solidão é como uma chu­va. Ergue-se do mar ao encon­tro das noites; de planí­cies dis­tantes e remo­tas sobe ao céu, que sem­pre a aguar­da. E do céu tom­ba sobre a cidade. (…) Então, a solidão vai com os rios…”.

    Assista o cur­ta-metragem aqui:

  • Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda: irreverência e anarquismo | Análise

    Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda: irreverência e anarquismo | Análise

    Eu sou a mosca que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca que pin­tou pra lhe abusar. (…) E não adi­anta vir me dede­ti­zar. Pois nem o DDT pode assim me exter­mi­nar. Porque você mata uma e vem out­ra em meu lugar.

    Raul Seixas em “Mosca na Sopa”

    Sinôn­i­mo de incô­mo­do e despre­zo, a mosca é um dos inse­tos mais rechaça­dos do con­vívio social. Ela transtor­na reuniões famil­iares, impor­tu­na tradições de ordem e con­t­role, desnu­da as estru­turas assép­ti­cas. A mosca na sopa, per­son­ifi­cação ado­ta­da pelo com­pos­i­tor e músi­co brasileiro Raul Seixas, é uma anar­quista públi­ca e notória: sua pre­sença é hos­tiliza­da, mas inde­pende de aceitação; por mais que seja intim­i­da­da, vio­len­ta­da, apri­sion­a­da e dego­la­da, ela vol­ta em múlti­p­los pares. E é com taman­ha per­sistên­cia e deboche que elas, as famiger­adas moscas, comu­ni­cam sua mensagem.

    tatuagem-hilton-lacerda-analise-posterNo final da déca­da 1970, as moscas tam­bém mar­cavam pre­sença físi­ca e metafóri­ca em ter­ritório brasileiro. Para os agentes da ditadu­ra mil­i­tar, todo e qual­quer ele­men­to sub­ver­si­vo que aten­tasse con­tra a ordem, o gov­er­no e o trinômio “tradição – família – pro­priedade”, dev­e­ria ser sumari­a­mente extin­to. Naque­les anos de por­tas fechadas, entre a per­ife­ria de Recife e Olin­da, cidades do Nordeste brasileiro, o dire­tor Hilton Lac­er­da ambi­en­tou a história de uma trupe de artis­tas que cri­a­va um uni­ver­so próprio de irreverên­cia, zom­baria e auto­ria no teatro-cabaré Chão de Estre­las, cri­ação inspi­ra­da pelo grupo de teatro Viven­cial Diver­siones, que exis­tiu entre 1972 e 1981.

    Na ficção, o sis­tema pro­to­co­lar de regras, ordens, hier­ar­quia e dis­ci­plina do sis­tema mil­i­tar, exer­cia influên­cia angus­tiante em um tími­do recru­ta nasci­do e cri­a­do no inte­ri­or de Per­nam­bu­co, tor­nan­do-lhe penoso e mortífero o dev­er de sus­ten­tar uma más­cara que mal lhe cabe no ros­to. Esse é o fio con­du­tor da pólvo­ra que explode em “Tat­u­agem” (Brasil, 2013), filme do cineas­ta per­nam­bu­cano Hilton Lac­er­da em sua estreia como dire­tor depois de lon­ga exper­iên­cia como roteirista. A tra­ma traz como pano de fun­do o romance entre o agi­ta­dor cul­tur­al e per­former Clé­cio Wan­der­ley, inter­pre­ta­do pelo ator Irand­hir San­tos, e o sol­da­do raso Arlin­do Araújo, con­heci­do como Fin­in­ha, per­son­agem vivi­do por Jesuí­ta Bar­bosa.

    Chão de Estrelas, o Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da favela
    Chão de Estre­las, o Moulin Rouge do sub­úr­bio, a Broad­way dos pobres, o Stu­dio 54 da favela

    Tat­u­agem” fala de resistên­cia políti­ca, cri­ação explo­si­va, anar­quista, debocha­da, livre; é uma afir­mação do espaço daque­les que são esma­ga­dos por uma con­jun­tu­ra arma­da, mas que resistem, queimam, ren­o­vam. Na tra­ma, Chão de Estre­las nasce no seio da per­ife­ria, epí­grafe acen­tu­a­da no iní­cio do lon­ga-metragem com a fala de Clé­cio ao destacar que o cabaré é “o Moulin Rouge do sub­úr­bio, a Broad­way dos pobres, o Stu­dio 54 da favela”, em clara refer­ên­cia aos inter­na­cional­mente con­heci­dos, cul­tua­dos e caros ambi­entes de apre­sen­tação artís­ti­ca e cor­po­ral da época. É nesse perímetro de rein­venções que o dire­tor Hilton Lac­er­da detém o olhar, crian­do uma nar­ra­ti­va audaciosa.

    Clé­cio e Fin­in­ha se con­hecem por meio de Paulete (Rodri­go Gar­cia), irmão da então namora­da do recru­ta. Enquan­to Clé­cio diri­gia um espetácu­lo debocha­do, Fin­in­ha vivia apri­sion­a­do nos dita­mes do quar­tel, detal­he expos­to logo nos min­u­tos ini­ci­ais, com a visão do rapaz enquadra­do pelas bar­ras dos belich­es — efeito cri­a­do pela uti­liza­ção do movi­men­to de zoom-out. O envolvi­men­to desse casal improváv­el, vai descorti­nan­do uma nova visu­al­iza­ção e entendi­men­to do mun­do, abrindo espaço para as sen­si­bil­i­dades de dois uni­ver­sos dis­tin­tos. Rodea­do pela liber­dade em todos os sen­ti­dos, Fin­in­ha vai, aos poucos, sentin­do seu cor­po como parte do proces­so artís­ti­co e viven­cial que explode no teatro do Chão de Estre­las. Assim como o mitológi­co can­to da sereia, a magia que nasce no cabaré começa a encan­tar o jovem recru­ta, mostran­do-lhe um ambi­ente de tro­ca de relações bem mais autên­ti­co do que cos­tu­ma­va vivenciar.

    Cena do filme “Tat­u­agem” mostran­do o “apri­sion­a­men­to” de Fininha

    No filme, o “cair da noite” assume uma sim­bolo­gia extrema­mente impor­tante ao abrir novas pontes de resistên­cia. Pontes que podem ser obser­vadas no públi­co que fre­quen­ta o teatro-cabaré, for­ma­do por homos­sex­u­ais, sim­pa­ti­zantes, mil­i­tantes da luta de class­es e int­elec­tu­ais esquerdis­tas – esta últi­ma figu­ra é ado­ta­da pelo pro­fes­sor Jou­bert (Sílvio Res­tiffe) e seus poe­mas de cun­ho políti­co e lib­ertário, além da sua pro­dução exper­i­men­tal, fei­ta com uma câmera Super‑8, dire­ciona­da para reg­is­trar os momen­tos mar­cantes de produção/apresentação dos números do Chão de Estre­las. É através da noite, do ero­tismo, da luxúria escan­car­a­da, do cuspe anárquico em for­ma de per­for­mances ousadas com o cor­po e a lin­guagem, que “Tat­u­agem” vai traçan­do novas rotas de pere­gri­nação de for­ma arrojada.

    Hilton Lac­er­da

    O dire­tor Hilton Lac­er­da vem de uma lon­ga cam­in­ha­da como roteirista, trazen­do na bagagem filmes como “Febre de Rato” (2011), “Amare­lo Man­ga” (2002), “Baixio das Bestas” (2006), em parce­ria com o cineas­ta Cláu­dio Assis, e “Car­to­la – Músi­ca para os Olhos” (2006), onde divide a direção com Lírio Fer­reira. A ener­gia em con­stru­ir detal­h­es faz a assi­natu­ra de Lac­er­da um difer­en­cial palpáv­el em “Tat­u­agem”.

    A opção por con­tar a história de amor entre dois home­ns gan­ha con­tornos autên­ti­cos: Clé­cio e Fin­in­ha divi­dem o afe­to ínti­mo com os espec­ta­dores; o romance – claro, dire­to, cru – não está ali ape­nas para inqui­etar os que ain­da desvi­am o olhar diante das cenas de bei­jo ou de sexo entre dois home­ns; o amor homos­sex­u­al e o choque de vivên­cias que ele rep­re­sen­ta (o agi­ta­dor cul­tur­al e o mil­i­tar) ultra­pas­sam a aco­modação da mil­itân­cia padroniza­da: nes­sa relação de polos opos­tos está o gri­to dos amores, gru­pos, movi­men­tos, pen­sa­men­tos, vidas e sen­ti­men­tos rotu­la­dos como per­iféri­cos. É esse o ele­men­to de pul­são lev­an­tan­do por “Tat­u­agem”, levan­do à der­ro­ca­da da hege­mo­nia das insti­tu­ições sagradas e do des­file dos tri­un­fantes. Para o pal­co e o públi­co do Chão de Estre­las, não há lugar para pre­con­ceitos, não há már­tires para cas­trações. O que existe no cabaré-teatro é o rompi­men­to de tradições; um lugar onde múlti­plas jor­nadas não se chocam, mas se com­ple­men­tam, ten­do como exem­p­lo máx­i­mo a figu­ra de Clé­cio: dire­tor, poeta, agi­ta­dor, anar­quista, amante e pai.

    o performer Clécio Wanderley (Irandhir Santos) e o soldado raso Fininha (Jesuíta Barbosa)
    o per­former Clé­cio Wan­der­ley (Irand­hir San­tos) e o sol­da­do raso Fin­in­ha (Jesuí­ta Barbosa)

    A liber­dade e a vivên­cia con­sciente tam­bém estão pre­sentes no con­ceito de família apre­sen­tan­do no filme. Tuca — fru­to do rela­ciona­men­to do agi­ta­dor cul­tur­al com Deusa, mãe solteira, adep­ta dos mes­mos ideais — cir­cu­la livre­mente pelas dependên­cias do cabaré, obser­van­do os tra­bal­hos de pro­dução do pai. Em uma cena sig­ni­fica­ti­va, Clé­cio pede à Deusa que não tra­ga mais o meni­no ao cabaré pois aque­le “não é lugar para cri­ança”. Nesse gan­cho, a mãe responde que “não há lugar ade­qua­do, e sim edu­cação ade­qua­da”, fazen­do refer­ên­cia dire­ta a um mod­e­lo edu­ca­cional que apos­ta na liber­dade, con­sciên­cia e tolerância.

    Toda essa provo­cação clara e sub­ver­si­va deixa ras­tros pelo filme e encon­tra out­ra forte rep­re­sen­tante com a per­son­agem Paulete. É na ale­gria do escân­da­lo que Paulete ali­men­ta o son­ho de ser ator recon­heci­do, dan­do mais vida ao lon­ga-metragem com suas piadas espir­i­tu­osas, seus berros e gestos cor­po­rais esfuziantes. É difí­cil destacar uma úni­ca cena drama­ti­za­da pelo ator Rodri­go Gar­cía na pele de Paulete: ele con­segue faz­er os holo­fotes cir­cu­larem em torno de si, seja com expressões jocosas, canções despu­do­radas ou caras e bocas risíveis. Gar­cía tem o poder de trans­for­mar a car­i­catu­ra do artista gay trans­vesti­do em indu­men­tárias fem­i­ni­nas, em uma ver­dadeira meta­mor­fose artística.

    Rodrigo Garcia como a personagem Paulete
    Rodri­go Gar­cia como a per­son­agem Paulete

    Há mui­ta inten­si­dade e aut­en­ti­ci­dade em “Tat­u­agem” – fato que ren­deu suces­so de críti­ca, prêmios e menções hon­rosas para o filme e seus atores. Mais uma pro­va de que rotas alter­na­ti­vas são pos­síveis, tan­to no âmbito do pen­sa­men­to quan­to na ação. O audio­vi­su­al brasileiro pre­cisa de olhares difer­en­ci­ais, novas lin­gua­gens, desafios, pos­turas e riscos, não só da parte dos pro­du­tores, mas tam­bém de espec­ta­dores. Cin­e­ma é feito de sen­si­bil­i­dades e da per­sistên­cia de “moscas” que não se intim­i­dam com o que está dito e feito, trazen­do para si a tare­fa de ques­tionar a nat­u­ral­iza­ção do mun­do. Con­stru­ir panora­mas é como tat­u­ar a pele: na mar­ca eterniza­da, pas­sa­do, pre­sente e futuro se comu­ni­cam em um mes­mo traço. E é no cam­in­ho que per­corre esse traço que está o novo.

  • O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho

    O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho

    o_som_ao_redor-posterO Som Ao Redor (Brasil, 2012), de Kle­ber Men­donça Fil­ho, foi um dos lon­gas nacionais mais comen­ta­dos no ano de 2012, receben­do inclu­sive uma posição na famiger­a­da lista de A.O. Scott, o prin­ci­pal críti­co de cin­e­ma da jor­nal amer­i­cano New York Times. Trazen­do a assi­natu­ra de mais um promis­sor dire­tor e roteirista de Recife, o lon­ga tra­ta de for­ma sutil a vio­lên­cia e a sua relação com os prob­le­mas soci­ais da classe média.

    Um bair­ro de uma grande cidade, um lugar onde vive famílias típi­cas de classe média. Con­domínios e casas per­to da pra­ia mon­tam um con­tex­to. Ape­sar de haver con­domínios de luxo, há tam­bém casas mais sim­ples, do alto de um pré­dio se avista uma favela próx­i­ma. Essa região vem sofren­do um sur­to de assaltos e vio­lên­cia, e um grupo de segu­ranças inde­pen­dentes propõe faz­er uma espé­cie de ron­da diária para pro­te­ger os moradores do lugar. Com a chega­da dess­es ele­men­tos estran­hos aos padrões de vida do lugar, o lon­ga faz um recorte de um momen­to muito atu­al das cidades brasileiras.

    Uma viz­in­hança é um con­vívio cole­ti­vo mas que sem­pre haverão os que estão coor­de­nan­do no topo. Em Som ao Redor as hier­ar­quias são esta­b­ele­ci­das através da cor da pele, do poder aquis­i­ti­vo de com­pra de uma TV, de uma ameaça ou de tradi­cional­is­mos soci­ais. Kle­ber Men­donça reflete no lon­ga uma Recife que ain­da ecoa uma sociedade do sécu­lo XVIII, escrav­ocra­ta e feu­dal, mas que pode­ria ser em qual­quer lugar do Brasil. 

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    O som do lon­ga con­funde num primeiro momen­to o espec­ta­dor. As vozes saem baixas, em alguns momen­tos é inaudív­el o que os per­son­agens falam. O que parece ser um prob­le­ma de cap­tação de som fun­ciona mais como um recur­so bas­tante ousa­do de nar­ra­ti­va. O som exter­no é o que prevalece, o som ao redor que tor­na o cotid­i­ano dess­es moradores um só, inde­pen­dente do que acon­tece no inte­ri­or das residên­cias. São os lati­dos de cachor­ro, o viz­in­ho que liga o aspi­rador na janela para provo­car intri­gas ou mes­mo os ambu­lantes de CDs e DVDs que pas­sam com seus car­rin­hos de som que real­mente impor­tam no enredo.

    A for­ma e o con­teú­do do lon­ga andam muito bem jun­tos. Além do aspec­to de som, o lon­ga pas­seia pelos per­son­agens trazen­do sutilezas de cada um em peque­nas metá­foras de cenas cotid­i­anas. Muitos ângu­los trazem sen­ti­dos diver­sos e são ess­es pequenos cuida­dos com a câmera que uni­ver­sal­iza todo o enre­do do lon­ga em cenas car­regadas de sen­ti­do. As grades das casas com seus próprios cadea­d­os gan­ham um sen­ti­do difer­ente quan­do a câmera fil­ma de fora da por­ta um quadro católi­co de Jesus e Maria sep­a­ra­dos pela grade. São sutilezas poéti­cas facil­mente iden­ti­ficáveis no cotidiano.

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    Não que­ria diz­er nada, mas ten­ho rece­bido min­ha Veja fora do saco plás­ti­co” diz uma morado­ra de um con­domínio da região e a frase deixa clara uma vida mor­na, ente­di­ante e com­pet­i­ti­va de uma classe média que vive para provar que pode osten­tar um padrão de vida enquan­to muitos sub­or­di­na­dos – empre­ga­dos, porteiros e segu­ranças – são as ver­dadeiras bases para que essa classe con­si­ga se man­ter em pé. E enquan­to essa classe se pre­ocu­pa em osten­tar seu poder de din­heiro – gan­ho na for­ma de um regime de tra­bal­ho depri­mente – os que são nive­la­dos por baixo como sim­ples presta­dores de serviços dessa classe se orga­ni­zam para que eles pos­sam sobre­viv­er das para­noias dos que estão acima.

    O Som Ao Redor lem­bra de cer­ta for­ma o que o óti­mo Sér­gio Bianchi fez em Os Inquili­nos, além de out­ros lon­gas do dire­tor em que a real­i­dade é trata­da de for­ma cíni­ca quan­do vista do pon­to de vista fic­cional. Quan­do obser­va­mos como espec­ta­dores os pequenos detal­h­es de con­vivên­cia urbana e social, estes se tor­nam abom­ináveis. Por exem­p­lo, uma sim­ples chega­da de com­pra de uma TV causa a ira de um viz­in­ho que não pode tê-la ou um “não” dado ao cuidador de car­ros da rua pode levar ele riscar o car­ro num ato de vin­gança. Nes­sa pirâmide social os que estão aci­ma ou abaixo, até mes­mo os que vivem do out­ro lado da cer­ca acham seus meios de burlar os lim­ites impos­tos pelas regras ou per­pet­u­ar o seu espaço, sem­pre há os que se acham vitimiza­dos pelo meio e dis­pos­tos a se dar bem.

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    Um pon­to bas­tante inter­es­sante e próprio ao con­tex­to da cidade de Recife apre­sen­ta­do no lon­ga, é como a questão da escravidão negra no Brasil ain­da reflete de for­ma tão sutil na car­ac­ter­i­za­ção dessa classe média dos per­son­agens de O Som ao Redor . Des­de os empre­ga­dos até os segu­ranças da rua, a situ­ação social con­struí­da sobre os aspec­tos históri­cos do país é níti­da, forte e ao mes­mo tem­po sutil e metafóri­ca. Vive-se na som­bra de um prob­le­ma que foi con­struí­do ao lon­go de pelo menos cin­co séculos.

    O Som ao Redor é um exce­lente tra­bal­ho que surge no mar de pro­duções tão descar­ac­ter­i­zadas do cin­e­ma nacional atu­al exibidas no cir­cuito com­er­cial. Fler­tan­do com as críti­cas pro­postas no Cin­e­ma Novo, ele tam­bém apre­sen­ta os cenários urbanos atu­ais de um Cin­e­ma de Retoma­da. Vale a pena prestar atenção no tra­bal­ho de Kle­ber Men­donça Fil­ho, que além de cur­tas pre­mi­a­dos como O Vinil Verde, em seu primeiro lon­ga soube olhar criti­ca­mente ao seu próprio redor.

    Trail­er:

  • Crítica: Dois Coelhos

    Crítica: Dois Coelhos


    Depois de um ano um tan­to decep­cio­nante para o Cin­e­ma (de entreten­i­men­to) Brasileiro — momen­to em que o seg­men­to resolveu ado­tar o esti­lo Glob­al de fil­mar — 2012 começou muito bem com a estreia de Dois Coel­hos (Brasil, 2012) de Afon­so Poyart. Beben­do da fonte dos games e de cineas­tas como Taran­ti­no e Guy Ritchie, o lon­ga quer traz­er um novo modo de fil­mar o gênero de ação no Brasil.

    Dois Coel­hos usa uma fór­mu­la de enre­do muito próx­i­ma do já con­heci­do e não deixa de explo­rar a malan­dragem e o famoso jeit­in­ho brasileiro de sair — e entrar- nas situ­ações e aca­ba trazen­do isso para um uni­ver­so fic­cional de ação, se aprox­i­man­do do esti­lo com­er­cial amer­i­cano. E é num fervil­har de perseguições, iro­nias sobre cor­rupção e muitas revi­ra­voltas no enre­do que o lon­ga abre a tem­po­ra­da de um out­ro tipo de lon­gas nacionais de entretenimento.

    Brin­can­do com o provér­bio con­heci­do de matar dois coel­hos numa cajada­da só, o per­son­agem Edgar (Fer­nan­do Alves Pin­to) — que é o nar­rador dono de um olhar pecu­liar — decide ser um anti-herói de uma história mal resolvi­da que ele mes­mo cau­sou. O cara acabou de voltar de Mia­mi, uma viagem de férias cal­cu­ladas depois de se envolver num aci­dente e ser sal­vo da justiça por um dep­uta­do ¨amigáv­el¨ no Brasil. Ele vol­ta para o país com um plano per­feito para acabar com dois coel­hos, que ele acred­i­ta serem desnecessários, e ain­da se dar bem com isso tudo.

    Edgar é o tipo de cara que nun­ca se deu mal e aca­ba por deduzir que se todos se dão bem nesse país, porque não colo­car alguns per­son­agens em coal­isão? E é mais ou menos isso que ele plane­ja ao colo­car políti­cos, traf­i­cantes e out­ros esque­mas para guer­rearem entre si e isso tudo é claro, com boas dos­es de revi­ra­vol­ta. Por­tan­to, esqueça o politi­ca­mente cor­re­to ao assi­s­tir Dois Coel­hos, porque afi­nal, todos querem sal­var suas próprias cabeças, custe o que custar.

    O dire­tor estre­ante — que já tin­ha dirigi­do o cur­ta Eu te darei o céu, em 2005 — Afon­so Poyart parece gostar bas­tante de refer­ên­cias pop. Des­de a primeira parte de Dois Coel­hos, que abusa de cenas com ani­mações man­u­ais e uma ver­são própria do game GTA, o roteiro é bem ao esti­lo de Guy Ritchie e afins, com nar­ra­ti­va entrecor­ta­da, enre­do que oscila entre o pas­sa­do, futuro e ações atu­ais e edições exager­adas de cenas, fazen­do isso sem muito medo de se perder.

    O time de atores, que con­ta com Alessan­dra Negri­ni, Caco Cio­cler, o rap­per Thayde e etc, colab­o­ra para que o lon­ga con­si­ga andar de for­ma flu­ente. Mas aci­ma de tudo Dois Coel­hos é um filme de pós-pro­dução, pois é abu­san­do de efeitos visuais, sonoros e de trata­men­to grá­fi­co que o lon­ga se con­strói. A tril­ha sono­ra deve ter ren­di­do um bom din­heiro de copy­rights pois con­ta com nomes como Radio­head, 30 sec­onds to Mars, Tom Waits e Lenine. Você pode assi­s­tir vários vídeos do Mak­ing off no site do lon­ga por esse link.

    Mes­mo que se dis­cu­ta a aprox­i­mação de Dois Coel­hos com o esti­lo de fil­mar amer­i­cano, é inegáv­el a ousa­dia de faz­er algo do esti­lo por aqui, num cenário como São Paulo que aju­da a ter mui­ta história para con­tar. Ele faz muito bem o que prom­ete e não deve nada para os out­ros do gênero. Afi­nal, se você paga para filmes estrangeiros do esti­lo, deve sim dar o braço a torcer para esse lon­ga feito por aqui, que com certeza ele vai abrir um cam­in­ho para um novo jeito de faz­er cin­e­ma no Brasil.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=uHW3RCtLqbU

  • Crítica: O Homem do Futuro

    Crítica: O Homem do Futuro

    Uma óti­ma sur­pre­sa no cin­e­ma nacional, tan­to em pro­dução, efeitos espe­ci­ais e roteiro é O Homem do Futuro (Brasil, 2011), dirigi­do por Clau­dio Tor­res. Ape­sar do enre­do estar longe de ser orig­i­nal, o fato dele fugir das globochan­cadas — ver­dadeiros pastelões de ven­to — que estão sendo lança­dos ulti­ma­mente, aca­ba fazen­do uma grande difer­ença ao traz­er um pouco de raciocínio e piadas mais inteligentes, sem ter que ficar apelando para baixaria. O filme soube faz­er uma boa mescla de ficção cien­tí­fi­ca e comé­dia român­ti­ca, bal­ance­an­do bem os dois, con­seguin­do agradar ambos públi­cos. Além dis­so, ape­sar de em várias coisas ser pre­visív­el — prin­ci­pal­mente para quem já viu filmes no esti­lo — ele ain­da con­segue nos faz­er pen­sar sobre a lóg­i­ca e as várias con­se­quên­cias de uma viagem no tempo.

    Falan­do em filmes do mes­mo esti­lo, aos poucos o cin­e­ma brasileiro está fazen­do suas próprias ver­sões, como o Se eu fos­se você (2005), ou remix­es de filmes estrangeiros, algo que Hol­ly­wood faz até não poder mais. Tudo bem, seria bem mais legal se coisas mais “orig­i­nais” des­ti­nadas ao grande públi­co fos­sem feitas por aqui, mas acred­i­to que esta é uma boa maneira de ir se apri­moran­do para no futuro poder cri­ar algo novo com mais qual­i­dade. O Homem do Futuro é um grande remix de filmes estrangeiros, con­seguin­do muito bem abrasileirar a fór­mu­la do De Vol­ta para o Futuro (Back to the Future, EUA, 1958), e faz­er out­ras boas refer­ên­cias, como O Exter­mi­nador do Futuro (The Ter­mi­na­tor, EUA, 1984) e Efeito Bor­bo­le­ta (The But­ter­fly Effect, EUA, 2004), de for­ma inteligente.

    Uma coisa é cer­ta, Wag­n­er Moura está cada vez se afir­man­do mais como um óti­mo ator. É incrív­el ver por exem­p­lo a sua trans­for­mação para faz­er o papel de Zero, um per­son­agem total­mente frágil e inse­guro, em O Homem do Futuro, quan­do a sua imagem que ficou mais con­heci­da foi como o duro Capitão Nasci­men­to, do Tropa de Elite (2007).

    Ape­nas duas coisas deix­am a dese­jar em O Homem do Futuro. A mais críti­ca são os gri­tantes erros de con­tin­u­ação — se fos­sem peque­nas cois­in­has até que pas­sa­va, mas não… — e a out­ra, de opinião mais pes­soal, é o Wag­n­er Moura can­tan­do. A músi­ca “Tem­po Per­di­do” até que não ficou ruim, mas quan­do ele can­ta um tre­cho da músi­ca “Creep” do Radio­head, em sua própria ver­são, ficou difí­cil não dar umas con­tor­ci­das na poltrona do cinema.

    Alguém por aca­so con­seguiu sair do filme sem ficar com a músi­ca “Tem­po Per­di­do” na cabeça durante dias?

    Out­ras críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=IEEE7qbmYUU

  • Crítica: Natimorto

    Crítica: Natimorto

    Lourenço Mutarel­li é um dos escritores mais inter­es­santes e híbri­dos da lit­er­atu­ra atu­al e Nati­mor­to (Brasil, 2011), dirigi­do por Paulo Mach­line, é a adap­tação do segun­do livro deste escritor con­heci­do pela den­si­dade e iro­nia de suas obras.

    Um homem e uma mul­her numa pro­pos­ta de tentarem viv­er suas vidas, lit­eral­mente, num quar­to de hotel. Os per­son­agens se resumem no homem (Lourenço Mutarel­li), uma espé­cie de pro­du­tor musi­cal e a mul­her (Simone Spo­ladore), uma can­to­ra de ópera. Enquan­to o cotid­i­ano da relação vai se con­stru­in­do, eles pas­sam a dis­cu­tir, entre cig­a­r­ros e cafés, seus futur­os através da asso­ci­ação de embal­a­gens de cig­a­r­ro e car­tas do Tarô.

    O enre­do de Nati­mor­to se foca neste con­vívio claus­trofóbi­co, exem­pli­f­i­can­do de for­ma muito inter­es­sante o sufo­ca­men­to das relações. Os dois per­son­agens podem sair o momen­to que quis­erem da situ­ação pro­pos­ta, mas não há a ini­cia­ti­va. Ele por não acred­i­tar na vida fora do quar­to e sen­tir que sua vida se resume em lamen­to, café e cig­a­r­ros e ela por ter a neces­si­dade de alguém que ali­mente a sua per­spec­ti­va de existên­cia, ou seja, uma relação extrema­mente simbiótica.

    Antes de ser con­heci­do pela sur­preen­dente obra e bem suce­di­da adap­tação de O cheiro do Ralo, Lourenço Mutarel­li era famoso pelos seus quadrin­hos obscuros e reple­tos de um humor negro incon­fundív­el. Além dis­so, o paulista tam­bém é con­heci­do na lit­er­atu­ra con­tem­porânea pelas idioss­in­cra­cias e por con­stru­ir diál­o­gos inteligentes pau­ta­dos por movi­men­tos de câmeras-nar­ra­ti­vas que vem e vão durante as cenas literárias.

    O fato de Mutarel­li usar recur­sos de roteiro para escr­ev­er seus romances não sig­nifi­ca que as adap­tações de seus tra­bal­hos, para o cin­e­ma, devam sem­pre ser trans­postas de for­ma lit­er­al. Há detal­h­es na nar­ra­ti­va literária que surtem efeito aos olhos do leitor mas, quan­do pas­sadas para uma nar­ra­ti­va de imagem, elas aparentam serem mais lon­gas ou fazem pouco sen­ti­do num deter­mi­na­do plano. Na adap­tação de Nati­mor­to, ocor­reu isso algu­mas vezes, como, por exem­p­lo, nos lon­gos diál­o­gos reple­tos de reflexões, numa espé­cie de bate e vol­ta con­si­go mes­mo, do per­son­agem sociofóbi­co inter­pre­ta­do pelo próprio Mutarel­li. Os lon­gos diál­o­gos no lon­ga se tor­nam, em algum momen­tos, um pouco cansativos por ocu­parem difer­entes tem­pos do que ocorre na nar­ra­ti­va literária. No livro, os dis­cur­sos se desen­volvem em muitas pági­nas, enquan­to no filme eles são suprim­i­dos a uma cena do roteiro.

    Por out­ro lado, out­ras situ­ações se encaixaram per­feita­mente, como em muitos momen­tos onde os planos seguem à risca as descrições do livro em que o nar­rador apon­ta a câmera para a boca de deter­mi­na­do per­son­agem, como se o leitor — ago­ra espec­ta­dor — final­mente pudesse enten­der deter­mi­na­da situ­ação descri­ta no livro.

    Em Nati­mor­to há pou­cas cenas exter­nas, o que aca­ba fazen­do a atenção se voltar para as inter­pre­tações, como a do próprio escritor que se mostra inse­guro no íni­cio do filme mas que, com o pas­sar do tem­po, se tor­na uma pre­mis­sa psi­cológ­i­ca do per­son­agem. A aparên­cia miú­da e ner­vosa de Mutarel­li con­funde, de for­ma muito inter­es­sante, o cri­ador e a criatu­ra. Já Spo­ladore faz um papel que acred­i­to com­bi­nar com ela, pos­suin­do uma voz forte e um olhar irôni­co cabív­el à personagem.

    Nati­mor­to é uma exper­iên­cia inter­es­sante para o cin­e­ma nacional que vem apo­s­tan­do em tra­bal­ho menos hiper­re­al­is­tas e con­fig­u­ran­do asso­ci­ações com a lit­er­atu­ra fei­ta no pre­sente. Mes­mo para os desacos­tu­ma­dos a um cin­e­ma com mais diál­o­gos e exper­i­men­tal, o filme vale o ingresso.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=PfoHx-kHUhQ

  • Crítica: Assalto ao Banco Central

    Crítica: Assalto ao Banco Central

    Basea­do no polêmi­co caso poli­cial de assalto ao Ban­co Cen­tral de For­t­aleza, em 2005, Assalto ao Ban­co Cen­tral (Brasil, 2011), dirigi­do por Mar­cos Paulo, parece mais uma ver­são abrasileira­da — com menos graça e esti­lo — da fran­quia 11 Home­ns e um Seg­re­do, entre out­ros lon­gas e séries do gênero.

    Barão (Mil­hem Cor­taz) é o clás­si­co malan­dro e tra­paceiro à moda Brasileira, tem seus próprios negó­cios, se veste bem e tem uma mul­her de for­mas exu­ber­antes (leia-se piriguete) ao seu lado. Não sat­is­feito com isso, decide plane­jar um grande assalto a ban­co con­vo­can­do nomes do crime e out­ros profis­sion­ais que querem lucrar bem com a empre­ita­da. O plane­ja­men­to do roubo — definição mais cor­re­ta já que a palavra assalto deno­ta out­ra coisa — é feito mili­met­ri­ca­mente para que não haja vio­lên­cia e nem alarde em nen­hum momen­to. Mas claro, nem tudo são flo­res e a ganân­cia — bem ao esti­lo brasileiro para estrangeiros — vai dar out­ros con­tornos para a trama.

    Um dos prob­le­mas mais sérios de Assalto ao Ban­co Cen­tral é apos­tar na nar­ra­ti­va nov­e­l­esca, prat­i­ca­da des­de sem­pre pela Globo. Os ele­men­tos tele­vi­sivos não se resumem ape­nas na trans­posição dos atores — cos­tumeira­mente pro­tag­o­nistas de dra­mas na TV — inter­pre­tan­do papéis levianos, mas tam­bém nos ele­men­tos que con­stroem as cenas, fazen­do tudo pare­cer super­fi­cial demais.

    Mes­mo que a mon­tagem do filme, tra­bal­han­do com aleato­riedade usan­do pas­sa­do, pre­sente e futuro, ten­ha sido um acer­to, o roteiro não con­vence, deixan­do a dese­jar jus­ta­mente no que­si­to de con­fli­to do enre­do. Como se Assalto ao Ban­co Cen­tral tivesse que fun­cionar como lon­ga, e ao mes­mo tem­po como uma série do esti­lo CSI e afins, a tra­ma aca­ba fican­do mor­na, sem per­mi­tir nen­hum tipo de tensão.

    Assalto ao Ban­co Cen­tral aca­ba não crian­do vín­cu­lo nar­ra­ti­vo com nen­hum per­son­agem e todos são efêmeros e pouco cati­vantes. Atores que fun­cionam muito bem na tele­visão, como o vet­er­a­no Lima Duarte, Erib­er­to Leão e o diver­tido Gero Cami­lo, se apre­sen­tam como per­son­agens levianos, com piadas forçadas e muito fáceis de cair no esquecimento.

    Nen­hu­ma novi­dade quan­do às difi­cul­dades que o cin­e­ma nacional tem de desli­gar do uni­ver­so nar­ra­ti­vo da tele­visão. Assalto ao Ban­co Cen­tral é mais um lon­ga que vem reforçar a medi­an­idade das pro­duções que envolvem pro­du­toras fir­madas no mer­ca­do tele­vi­si­vo e com­er­cial apo­s­tan­do no cin­e­ma como exten­são. Nen­hum pre­con­ceito quan­to a par­tic­i­pação dessas empre­sas e artis­tas — já que podem con­tribuir com belo poder aquis­i­ti­vo — mas sim quan­to ao foco dado à cele­bri­dades, roteiros extrema­mente levianos e pro­duções que beiram ao esti­lo estrangeiro sem nen­hum tipo de glam­our que se apre­sen­ta lá fora.

    Muitos des­cui­dos nar­ra­tivos são aceitos na tele­visão, por con­ta da bre­viedade e pou­ca neces­si­dade de assim­i­lação, mas quan­do trans­pos­tos para o cin­e­ma, exigin­do mais atenção, tomam out­ras dimen­sões, deixan­do claro que tele­visão e cin­e­ma exigem duas forças total­mente difer­entes. Assalto ao Ban­co Cen­tral é mais um filme efêmero que pode ren­der bom públi­co, mas cair no esquec­i­men­to logo no próx­i­mo mês.

    Out­ras críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=6pHbFZRRLwk

  • Corpos Celestes: novo filme de Marcos Jorge estreia sexta em Porto Alegre

    Corpos Celestes: novo filme de Marcos Jorge estreia sexta em Porto Alegre

    Depois de con­quis­tar públi­co e críti­ca com o pre­mi­a­do lon­ga Estô­ma­go, estreia nes­ta sex­ta-feira, dia 18, em Por­to Ale­gre, o novo filme do dire­tor Mar­cos Jorge, Cor­pos Celestes. O tra­bal­ho, em parce­ria com o dire­tor Fer­nan­do Severo, leva às telonas temas pouco vis­tos no cin­e­ma: astrono­mia e cos­molo­gia. O enre­do usa o uni­ver­so da ciên­cia, com todo o seu metodis­mo e pre­cisão, para abor­dar o con­fli­to entre razão e emoção que pega de sur­pre­sa um astrônomo bem sucedido.

    O dra­ma con­ta a história de Fran­cis­co (Dal­ton Vigh), um astrônomo que cresceu apren­den­do sobre plan­e­tas e con­ste­lações, e que deve sua pro­du­ti­va car­reira a um fato de seu pas­sa­do. Mas viven­do seu pre­sente, o cien­tista ques­tiona a insignificân­cia do homem e a imen­sid­ão do cos­mos. Nes­sa situ­ação, ele é sur­preen­di­do pelas próprias emoções e tem que encar­ar seus maiores mis­térios. O astrônomo terá de lidar com seus sen­ti­men­tos por Diana (Car­oli­na Holan­da), uma moça bem difer­ente dele, muito à von­tade com o seu lugar no universo.

    O filme tem no elen­co tam­bém Antar Rohit, Alexan­dre Nero e o meni­no Rodri­go Cor­nelsen, além de out­ros 18 atores e aprox­i­mada­mente 500 fig­u­rantes. O lon­ga foi grava­do em cin­co difer­entes cidades: Curiti­ba, São Paulo, Cas­tro, Piraquara e Araucária, em mais de 20 difer­entes locações.

    A primeira exibição de Cor­pos Celestes acon­te­ceu no 37° Fes­ti­val de Cin­e­ma de Gra­ma­do, onde o filme rece­beu o prêmio de Mel­hor Fotografia. Além dis­so, foi exibido no 40th Inter­na­tion­al Film Fes­ti­val of Goa, na Índia, e no 5° Fes­ti­val de Cin­e­ma de Goiâ­nia, onde rece­beu os prêmios de Mel­hor Tril­ha Sono­ra, Mel­hor Direção de Arte, Mel­hor Fotografia e Ator Rev­e­lação. No 4° Fes­ti­val da Lapa, em 2010, Cor­pos Celestes rece­beu o prêmio de Mel­hor Fig­uri­no. Foi um dos 15 filmes brasileiros incluí­dos na seleção “Brasil: el cine del siglo XXI” real­iza­da por José Car­los Avel­lar e Gian­ni Ottone na 55ª Sem­ana Inter­na­cional de Cine de Val­ladol­id, na Espan­ha, em out­ubro de 2010. Em novem­bro, o filme rece­beu tam­bém os prêmios de Mel­hor Direção e Mel­hor Roteiro no 5° Fes­ti­val de Cin­e­ma dos Sertões.

    Pro­duzi­do pela Zen­crane Filmes e com dis­tribuição nacional da Pan­da Filmes, Cor­pos Celestes foi fil­ma­do em 2006, a par­tir de prêmio de pro­dução de filmes do Gov­er­no do Paraná. O lon­ga, con­tu­do, só pode ser final­iza­do em 2009/2010, depois de vencer os edi­tais de final­iza­ção e difusão do BNDES e da Petro­bras. Mais infor­mações no site do filme

    O filme já estre­ou nas seguintes cidades, con­fi­ra a pro­gra­mação dos cin­e­mas no site do Refilmagem:

    Curiti­ba
    São Paulo
    Rio de Janeiro

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=rTvJZ7S9GFc

  • Crítica: Desenrola

    Crítica: Desenrola

    O públi­co ado­les­cente vem sendo um alvo inter­es­sante para a pro­dução do cin­e­ma nacional. Pre­ocu­pa­dos em tratar de assun­tos volta­dos a essa fase for­mado­ra de opinião, filmes como As mel­hores coisas do mun­do e Antes que o mun­do acabe fiz­er­am boa bil­hete­ria no ano pas­sa­do, tratan­do dos dile­mas da ado­lescên­cia, que vão des­de as novos for­matos de família até a sex­u­al­i­dade, tão em pau­ta desse perío­do. Desen­ro­la (Desen­ro­la, Brasil, 2011) de Rosane Svart­man é mais uma pro­dução volta­da ao entreten­i­men­to, porém pro­duzi­da através de um pro­je­to colab­o­ra­ti­vo com o públi­co e com tons pedagógi­cos, foca­do nos ado­les­centes e con­sum­i­dores de minis­séries como a já clás­si­ca Malhação.

    Priscila (Olivia Tor­res) é uma ado­les­cente do ensi­no médio que vive um dile­ma volta­do a sua vir­gin­dade. Moran­do no Rio de Janeiro ela se acha esquisi­ta por não gostar muito de pra­ia a não ser por gostar de um fre­quen­ta­dor assí­duo dela, o Rafa (Kayky Brito), o garo­to pop­u­lar, e mais vel­ho, que gos­ta de sur­far e anda com as garo­tas mais boni­tas. Ela vive se per­gun­tan­do: ¨Afi­nal, quan­tas garo­tas no ensi­no médio ain­da são vir­gens?¨. Para ela, todos ao seu redor já fiz­er­am sexo, ou pelo menos têm histórias para con­tar sobre exper­iên­cias sex­u­ais. Em uma aula de estatís­ti­ca o pro­fes­sor (Pedro Bial) propõe que os alunos escol­ham assun­tos próx­i­mos de suas real­i­dades para que pos­sam tra­bal­har com por­cent­a­gens e apre­sen­tar em sala. Eis que a situ­ação é per­fei­ta para o grupo de Priscila saber como foi e é a questão da vir­gin­dade nos alunos da escola.

    O lon­ga é um pro­je­to que envolveu a par­tic­i­pação do públi­co em vários momen­tos, des­de das idéias abor­dadas até a tril­ha sono­ra, e foi apre­sen­ta­do primeira­mente na tele­visão sendo mais uma empre­ita­da bem suce­di­da, pelo menos no que se propõe, da TV Cul­tura. O canal tem apos­ta­do, nos últi­mos anos, em exper­i­men­tações tele­dra­matúr­gi­cas que tomam cor­po no cin­e­ma, como acon­te­ceu com o Amor Segun­do B. Schi­amberg, do pro­je­to Direções. Em Desen­ro­la fica claro que a par­tic­i­pação do públi­co fun­cio­nou em muitos momen­tos, por exem­p­lo, há mesclas de depoi­men­tos reais de ado­les­centes com as vivên­cias dos per­son­agens do enredo.

    Infe­liz­mente em Desen­ro­la, vários assun­tos pas­sam por ten­ta­ti­vas de abor­dagem mas acabam se des­man­chan­do em algum momen­to. O foco do filme é a questão sex­u­al, mas vários pon­tos que envolvem o dia a dia do ado­les­cente tam­bém são trata­dos, como: rela­ciona­men­to com os pais, gravidez e bul­ly­ing, mas todos de for­mas super­fi­ci­ais. Por exem­p­lo, o uso da camis­in­ha é reforça­do pelos ado­les­centes em con­ver­sas, mas no momen­to em que a situ­ação real­mente acon­tece o assun­to desa­parece e se perde. Claro que para um adul­to de hoje, talvez, muitas situ­ações apre­sen­tadas não façam muito sen­ti­do e pareçam até forçadas, mas o filme real­mente aparenta se focar em estereóti­pos, o que se tor­na inques­tionáv­el já que foi pro­duzi­do com aju­da do público.

    Des­de a Retoma­da o Brasil bus­ca uma iden­ti­dade den­tro do cin­e­ma. As leis de incen­ti­vo mel­ho­raram con­sid­er­av­el­mente e grandes emis­so­ras, hoje, apos­tam bas­tante em filmes, prin­ci­pal­mente de entreten­i­men­to e/ou com tra­bal­hos pedagógi­cos. Isso com certeza não é ruim, afi­nal esse tipo de cin­e­ma tam­bém cria um per­fil do país no exte­ri­or, o que desagra­da bas­tante é o reforço do uso de atores de nov­e­las que apare­cem como que para ¨sal­var¨ as pro­duções. Em Desen­ro­la as aparições de Juliana Paes e até do Kayky Brit­to, que enten­do ser necessário para o públi­co ado­les­cente, pode­ri­am ser tro­ca­dos por atores menos arti­fi­ci­ais, como nos dois filmes que cita­dos no primeiro pará­grafo. Mas em ger­al o lon­ga cumpre o papel de man­ter um diál­o­go com o ado­les­cente e de for­mar públi­co para futuras pro­duções do gênero.

    Out­ras críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=5xW0-mzdZ8w

  • Os Filmes Que Não Fiz

    Os Filmes Que Não Fiz

    Por quais motivos muitos filmes não são feitos no Brasil? Sem­pre há alguém a quem cul­par:, o gov­er­no, a fal­ta de apoio da pop­u­lação, algu­ma pes­soa que não aceitaram colab­o­rar e até mes­mo a fal­ta de von­tade de ter que ir em bus­ca de recur­sos e apoio. O cur­ta Os Filmes Que Não Fiz, de Gilber­to Scarpa, tra­ta jus­ta­mente dos motivos mais banais de pro­je­tos cin­e­matográ­fi­cos não terem vin­ga­do e se tor­na­do películas.

    Em Os Filmes Que Não Fiz, Scarpa inter­pre­ta a si mes­mo como um dire­tor que acred­i­ta fiel­mente em seus pro­je­tos, mas que nun­ca tirou nen­hum do papel. Nos moldes de entre­vis­tas e doc­u­men­tários de dire­tores famosos, em que os atores e colab­o­radores par­tic­i­pantes dão seus depoi­men­tos, o dire­tor con­ta da sua saga de anti-herói das telonas nacionais.

    O tom cíni­co de Os Filmes Que Não Fiz é um dos ele­men­tos mais inter­es­santes, soan­do como uma críti­ca sobre o enorme número de pseu­do dire­tores atual­mente. O diretor/personagem nar­ra em um tom saudo­sista e car­in­hoso os seus roteiros mais inter­es­santes rela­tan­do cada detal­he do que pode­ria ter sido. Ele apre­sen­ta de for­ma extrema­mente diver­ti­da, e em for­ma­to de trail­er, um a um dos pro­je­tos. O cur­ta é uma espé­cie de ¨cur­tas den­tro de um cur­ta¨ dan­do um tom met­alin­guis­ti­co ao tra­bal­ho. Afi­nal, por que mes­mo muitos filmes não são feitos no Brasil?

  • Crítica: Tropa de Elite 2

    Crítica: Tropa de Elite 2

    O dire­tor José Padil­ha não tem medo de ousar, com um cur­rícu­lo con­tendo filmes que tratam da vio­lên­cia da cidade do Rio de Janeiro, e mais uma vez, chega para acer­tar no cerne da feri­da de todo um país. O aguarda­do Tropa de Elite 2 – O inimi­go ago­ra é out­ro (Brasil, 2010) vem em um perío­do bem a cal­har, mostran­do que o prob­le­ma do trá­fi­co não nasce de den­tro das favelas.

    Tropa de Elite 2 traz o Capitão Nasci­men­to (Wag­n­er Moura) que após mais de 10 anos ded­i­ca­dos ao BOPE, por con­ta de uma morte em rebe­lião no presí­dio de Ban­gu I, pas­sa a ser Sub Secretário de Segu­rança do Rio de Janeiro. Com­preen­den­do que essa subi­da de car­go é uma manobra políti­ca, ele con­tin­ua acred­i­tan­do que nes­sa posição con­tin­uará for­t­ale­cen­do o BOPE, mas se dá con­ta que dessa vez o inimi­go vem dos altos car­gos do poder, e que real­mente, o bura­co é mais embaixo.

    O destaque de Tropa de Elite 2 são os con­tornos em que o enre­do tomou após toda a con­tro­ver­sa apolo­gia à vio­lên­cia em relação da polí­cia com o trá­fi­co nas fave­las do primeiro Tropa de Elite. Nesse momen­to, o per­son­agem de Wag­n­er Moura se dá con­ta que o sis­tema é que é a cabeça-pen­sante de todo o esque­ma de cor­rupção que chega através do trá­fi­co e do prob­le­ma recor­rente nas fave­las do país: a ação imi­nente das milí­cias agin­do como gru­pos de poder e exter­mínio den­tro das fave­las. O tripé política/mídia/corrupção é a base do roteiro que soma­do com uma óti­ma pro­dução de arte e efeitos espe­ci­ais, cria um cli­ma extrema­mente realista.

    As atu­ações em Tropa de Elite 2, mais uma vez, não deix­am a dese­jar. Wag­n­er Moura retor­na como um Capitão Nasci­men­to mais envel­he­ci­do, expe­ri­ente e com um olhar que beira ao extremo do niil­is­mo. Ele não está ali somente para matar, como em Tropa de Elite, e sim para lutar con­tra todo um sis­tema. Out­ras duas atu­ações de destaque são as do bem cota­do Irand­hir San­tos como o pro­fes­sor Fra­ga, e San­dro Rocha, inter­pre­tan­do o cor­rup­to poli­cial Russo.

    José Padil­ha acer­ta nes­sa sequên­cia por tirar o foco no anti-human­is­mo do Capitão Nasci­men­to e traz­er a tona uma situ­ação de âmbito nacional. Isso tudo com um humor negro e real­is­mo de inco­modar o espec­ta­dor, me lem­bran­do muito o filme Amem do dire­tor grego Cos­ta-Gravas. Os efeitos espe­ci­ais estão bem ao esti­lo amer­i­cano de se faz­er ação, e mes­mo que em Tropa de Elite 2 tudo transcor­ra com mais mod­er­ação, em relação ao primeiro filme, em nen­hum momen­to deixa de causar o mes­mo efeito de indig­nação, impos­si­bil­i­tan­do o espec­ta­dor a ficar alheio das situações.

    Em épocas de Ficha Limpa e eleições em que o deses­pero dos can­didatos parece pre­dom­i­nar, Tropa de Elite 2 chega para deses­ta­bi­lizar o espec­ta­dor que vai às salas de cin­e­ma. Mes­mo que o filme mostre no íni­cio um avi­so de que é uma obra de ficção, ape­sar de ser muito pare­ci­do com a real­i­dade, é impos­sív­el não sair da sala de cin­e­ma com um sen­ti­men­to de fal­ta de dev­er cumpri­do e que no Brasil, ou você desafia o sis­tema, ou ele engole você.

    Out­ras críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=rfKRvqTvTuo

  • Crítica: Eu e Meu Guarda-Chuva

    Crítica: Eu e Meu Guarda-Chuva

    Há tem­pos que o públi­co infan­til não era favore­ci­do com um bom filme nacional e Eu e Meu Guar­da-Chu­va (Brasil, 2010), dirigi­do por Toni Van­zoli­ni e basea­do no livro homôn­i­mo de Bran­co Mel­lo, veio para ten­tar suprir parte des­ta lacuna.

    Três mel­hores ami­gos, Eugênio (Lucas Cotrim), Fri­da (Rafaela Vic­tor) e Cebo­la (Vic­tor Froiman) estão no seu últi­mo dia de férias, antes das aulas começarem na nova esco­la. Para aproveitar ao máx­i­mo o tem­po que ain­da lhes res­ta, deci­dem faz­er algo emo­cio­nante: vis­i­tar o pré­dio do colé­gio para pixá-lo. Lá se deparam com o fan­tas­ma do Barão Von Staffen (Daniel Dan­tas), o fun­dador do colé­gio, que apri­siona Fri­da em sua ter­rív­el sala de aula e os dois ami­gos vão ten­tar faz­er de tudo para salvá-la.

    O enre­do de Eu e Meu Guar­da-Chu­va é muito bem tra­bal­ha­do e con­segue des­per­tar a curiosi­dade e a cria­tivi­dade do públi­co mais jovem, com temas um pouco mais com­plex­os do que se vê nor­mal­mente em lon­gas do gênero. Boa parte do filme se pas­sa den­tro do son­ho de Eugênio e, como é nor­mal no mun­do oníri­co, são dados vários “pulos” de um ambi­ente para out­ro de maneiras bem engraçadas, além de ter vários ele­men­tos fan­ta­siosos. O lon­ga tam­bém faz uma bela críti­ca ao sis­tema de ensi­no que só se pre­ocu­pa em os alunos dec­o­rarem a matéria para dar “respos­ta exatas”, para assim agradar o ego do pro­fes­sor, e com a sua estru­tu­ra ain­da muito antiga.

    O filme con­segue traz­er uma magia pare­ci­da com a que havia em O Caste­lo Rá-Tim-Bum. Mas infe­liz­mente, difer­ente deste, os atores prin­ci­pais não con­seguem ser tão envol­ventes, pois a atu­ação fica na maio­r­ia das vezes no mecâni­co, com­pro­m­e­tendo a imer­são na magia de Eu e Meu Guar­da-Chu­va. Mas, os out­ros atores, com algu­mas óti­mas par­tic­i­pações espe­ci­ais, fiz­er­am um bom trabalho.

    Ape­sar de ter óti­mas locações e uma bela fotografia, com efeitos espe­ci­ais sim­ples mas bem real­iza­dos, a qual­i­dade da imagem em ger­al de Eu e Meu Guar­da-Chu­va é pés­si­ma, toda gran­u­la­da, que inco­mo­da bas­tante. Com uma pro­dução tão aten­ciosa com os detal­h­es é difí­cil enten­der como isso foi acon­te­cer, até porque faz tem­po que não vejo um filme nacional com tal tipo de problema.

    Eu e Meu Guar­da-Chu­va é um filme mági­co e bas­tante diver­tido, algo que já faz um tem­po não apare­cia no cin­e­ma nacional. Não só a cri­ança­da, mas tam­bém os adul­tos irão se diver­tir nes­sa viagem onírica.

    Out­ras críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=lManmp1yVCs

  • Crítica: Os Famosos e os Duendes da Morte

    Crítica: Os Famosos e os Duendes da Morte

    O ano de 2010 tem sido, defin­i­ti­va­mente, o ano de lança­men­to de pro­duções ousadas (e mar­avil­hosas) no cin­e­ma nacional. Seguin­do a leva dos filmes mais metafóri­cos e sen­so­ri­ais Os Famosos e os Duen­des da Morte (Brasil, 2010), de Esmir Fil­ho vem para entrar na lista dos lon­gas que ren­o­vam a lin­guagem cin­e­matográ­fi­ca brasileira.

    O lon­ga é basea­do, e livre adap­ta­do, do livro homôn­i­mo de Ismael Can­ne­pelle, que inclu­sive atua no filme. O pro­tag­o­nista seria mais um garo­to aparente­mente comum se não encar­asse de for­ma tão oníri­ca o seu sen­ti­men­to de deslo­ca­men­to. Ele mora numa cidade do inte­ri­or do Rio Grande do Sul, vive através das músi­cas do Bob Dylan, não tem muitos ami­gos e se acha deslo­ca­do do que ele chama de ¨um ban­do de colonos¨. A história dele se mis­tu­ra com as de out­ras pes­soas que sen­ti­am a mes­ma neces­si­dade de fuga dele. A bus­ca de uma vida vir­tu­al, as lem­branças e a iden­ti­fi­cação com a irmã de um ami­go fazem dele cada dia mais dis­tante do espaço geográ­fi­co em que vive.

    O filme É uma história sen­so­r­i­al, uma viagem lomo­grá­fi­ca pelo inte­ri­or do sul do país e pelos sen­ti­men­tos daque­les que vivem muitas vezes iso­la­dos, não de for­ma social, mas com uma solidão que se com­preende com as ima­gens bucóli­cas da peque­na cidade, que a câmera insiste em focar. Os Famosos e os Duen­des da Morte se apro­pria de maneira poéti­ca da lin­guagem literária do livro, transpon­do os sen­ti­men­tos do garo­to com cur­tas ima­gens exper­i­men­tais dos out­ros per­son­agens, deixan­do mais evi­dente a sua fuga, nem que seja por lem­branças que não pertençam a ele. A própria lin­guagem audio­vi­su­al é trata­da de for­ma met­alin­guis­ti­ca, pois o garo­to mescla as ima­gens vis­tas na inter­net com os sen­ti­men­tos e lem­branças que pos­sui, mostran­do a exper­iên­cia dele como espectador.

    Esmir Fil­ho acer­ta em Os Famosos e os Duen­des da Morte não somente por ousar adap­tar uma obra pouco con­heci­da escri­ta por um jovem, mas tam­bém por realçar a história com atores-per­son­agens da região, todos de primeira viagem. Os sotaques, os cos­tumes e o pas­seio das cenas pela cidade deixa tudo muito mais real, uma espé­cie de poe­sia doc­u­men­ta­da, mudan­do o foco cos­tumeiro do norte para o sul do país. Out­ro pon­to, que fun­ciona de for­ma retóri­ca no filme, é que nada fica claro demais nas cenas, é necessário o uso dos sen­ti­dos para se dese­jar ter respostas do que se vê na tela.

    Os Famosos e os Duen­des da Morte foi apre­sen­ta­do na Mostra Inter­na­cional de São Paulo de 2009 e rece­beu pre­mi­ações em inúmeros fes­ti­vais. Esse é o primeiro lon­ga de Esmir Fil­ho, que ficou con­heci­do pelo cur­ta-viral Tapa na Pan­tera de 2006. Uma bela estréia do jovem paulis­tano, com um filme que ousa mes­mo como cin­e­ma e abusa das sim­bolo­gias para os espec­ta­dores mais atentos.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=4fBUjaii4kw

  • Crítica: O Bem Amado

    Crítica: O Bem Amado

    o bem amado

    Basea­do na telen­ov­ela de suces­so da déca­da de 70, O Bem Ama­do (Brasil, 2010), dirigi­do por Guel Arraes, é uma das adap­tações nacionais mais aguardadas do ano para as telas do cinema.

    Na fic­tí­cia Sucu­pi­ra, o recém-eleito prefeito Odori­co Paraguaçu (Mar­co Nani­ni) tem como prin­ci­pal meta políti­ca con­stru­ir um cemitério para a cidade, mas não pode inau­gurá-lo até con­seguir um fale­ci­do. O tem­po vai pas­san­do e as coisas vão começan­do a com­plicar para ele, prin­ci­pal­mente dev­i­do a forte oposição que vai crescen­do. Afim de sal­var seu manda­to, está dis­pos­to a faz­er tudo que for preciso.

    O Bem Ama­do está sendo bas­tante comen­ta­do por ter sido lança­do jus­ta­mente em um ano de eleições. Afi­nal, nada mel­hor do que uma comé­dia, por ser bas­tante acessív­el e leve, para estim­u­lar o olhar críti­co em relação aos políti­cos. Infe­liz­mente o filme não traz nada de novo à reflexão sobre o assun­to, tudo que ele abor­da já foi vis­to e revis­to mil­hões de vezes, servi­do ago­ra mais ape­nas como algo para se dar risada.

    Algu­mas tomadas do lon­ga são bem engraçadas, como as diva­gações de Odori­co a respeito da inau­gu­ração do “faraôni­co” cemitério, mas as piadas em ger­al são as já bati­das em tan­tos pro­gra­mas de humor tele­vi­sivos. Além dis­so O Bem Ama­do investe pesada­mente em repetições e prin­ci­pal­mente nas inter­pre­tações escan­dalosas, cheias de gri­tos, que nas primeiras vezes até gera algu­mas risadas, mas depois fica muito cansati­vo. Ape­sar dis­so, as analo­gias rela­cio­nan­do Sucu­pi­ra e o Brasil, usan­do vídeos e ima­gens históri­c­as, esti­lo mock­u­men­tary (fal­so doc­u­men­tário), con­seguem dar um rit­mo mais acel­er­a­do, tor­nan­do a exper­iên­cia menos tediosa.

    Não cheguei a acom­pan­har a telen­ov­ela, então infe­liz­mente não pude faz­er nen­hu­ma com­para­ção em relação ao lon­ga. Se você chegou a ver os dois, gostaria de saber: o que você achou da adap­tação? Foi rel­a­ti­va­mente fiel?

    Como entreten­i­men­to puro, ape­nas para dar risadas sem a mín­i­ma reflexão, O Bem Ama­do é o filme cer­to. Já para aque­les que não aguen­tam mais per­son­agens total­mente este­ri­oti­pa­dos, diál­o­gos bati­dos e situ­ações esti­lo “Zor­ra Total”, sugiro procu­rar out­ra coisa para assistir.

    Out­ras críti­cas interessantes:

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    httpv://www.youtube.com/watch?v=ChmKFr1TQT8

  • Venda antecipada de ingressos para “Tropa de Elite 2” na UCI Cinemas

    Venda antecipada de ingressos para “Tropa de Elite 2” na UCI Cinemas

    tropa de elite 2

    A rede UCI Cin­e­mas abre ven­da ante­ci­pa­da, a par­tir des­ta sex­ta-feira (17), para a sequên­cia do lon­ga nacional “Tropa de Elite 2″, que estreia dia 8 de out­ubro. Tam­bém dirigi­do por José Padil­ha, “Tropa de Elite 2″ apre­sen­ta Wag­n­er Moura, como o famoso capitão Nasci­men­to; além dos atores André Ramiro, Maria Ribeiro, Mil­hem Cor­taz e Seu Jorge.

    A con­tin­u­ação de um dos filmes de maior suces­so do cin­e­ma nacional em 2007, traz o capitão Nasci­men­to, ago­ra mais vel­ho, como o secretário de Segu­rança Públi­ca, e, pai de Rafael, inter­pre­ta­do pelo jovem Pedro Van Held.

    Os clientes UCI podem com­prar ante­ci­pada­mente o seu ingres­so para “Tropa de Elite 2″, nas bil­hete­rias do UCI Estação e/ou UCI Pal­la­di­um, nos ter­mi­nais de autoa­tendi­men­to insta­l­a­do nos cin­e­mas ou no site.

    Serviço:
    UCI Cin­e­mas Estação – Sala Dig­i­tal 3D (sala 5)
    Endereço: Aveni­da Sete de Setem­bro, 2775 – Shop­ping Estação
    Atendi­men­to eletrôni­co: (41) 3595–5599

    UCI Cin­e­mas Pal­la­di­um – Sala Dig­i­tal 3D (sala 4)
    Endereço: Rua Pres­i­dente Kennedy, 4121, piso L3 – Pal­la­di­um Shop­ping Center
    Atendi­men­to eletrôni­co: (41) 3208–3344

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=gsZP9ZX3fsI

  • Crítica: B1 — Tenório em Pequim

    Crítica: B1 — Tenório em Pequim

    b1 tenorio em pequim

    Muitos doc­u­men­tários brasileiros acabam repetindo a fór­mu­la estilís­ti­ca da TV, como Globo Repórter e muitos out­ros, e se no tema pos­sui uma história de super­ação, já se colo­ca todo aque­le melo­dra­ma para enfa­ti­zar ain­da mais tudo. Feliz­mente, B1 — Tenório em Pequim (Brasil, 2010) dirigi­do por Felipe Bra­ga e Eduar­do Hunter Moura, pas­sa bem longe dessas descrições.

    Mes­mo sendo o úni­co atle­ta do mun­do a ter con­segui­do qua­tro medal­has de ouro con­sec­u­ti­vas nas Paraolimpíadas, o nome Antônio Tenório da Sil­va, judo­ca brasileiro, ain­da é descon­heci­do para grande parte das pes­soas do país (inclu­sive, eu era uma delas). Em B1 — Tenório em Pequim, acom­pan­hamos a tra­jetória do atle­ta des­de sua preparação para ser um dos can­didatos a par­tic­i­par das paraolimpíadas, até a sua luta final em Pequim.

    Para quem nun­ca teve con­ta­to com uma paraolímpia­da, em B1 — Tenório em Pequim vai con­hecer um pouco mais seu fun­ciona­men­to, e perce­berá que ela não é muito difer­ente da olimpía­da tradi­cional. Out­ra coisa inter­es­sante é que tam­bém há pes­soas que ten­tam burlar o sis­tema, só que em vez de ser por dopping, atle­tas fin­gem debil­i­dades, neste caso a difi­cul­dade de enx­er­gar, pois o val­or da medal­ha é igual, no mun­do esporti­vo. Além dis­so, tam­bém é expli­ca­do o porque do nome B1, pre­sente no títu­lo do filme, e qual as impli­cações dele.

    Durante todo o doc­u­men­tário, somos não somente apre­sen­ta­dos a todo esse mun­do do judô prat­i­ca­do por Tenório, mas tam­bém a sua própria pes­soa, den­tro e fora dos tatames. A par­tir de entre­vis­tas feitas para out­ras pes­soas, durante a fil­magem de B1 — Tenório em Pequim, e por depoi­men­tos feitos para o próprio filme, con­hece­mos um pouco mais da sua história, como por exem­p­lo dos aci­dentes que o tornaram cego, mas nun­ca de maneira melo­dramáti­ca. Parte do filme tam­bém foca em out­ros luta­dores, ape­sar de no final não ficar­mos mais saben­do qual foi o resul­ta­do deles na competição.

    Com a câmera muitas vezes estáti­ca, pos­suí­mos uma visão mais ampla das lutas, que dá uma liber­dade maior de escol­ha no que focar. Para quem não gos­ta muito do esporte, pode achar cer­tos momen­tos meio cansati­vo essas cenas, mas não chega a ser ente­di­ante. No final do filme há uma grande mudança de rit­mo, enquan­to na maior parte do tem­po temos prati­ca­mente só som ambi­en­tal, com uma tril­ha sono­ra bem agi­ta­da e e tomadas mais ráp­i­das, enfa­ti­zan­do o grande momen­to da com­petição, que aca­ba geran­do um estran­hamen­to. Além dis­so, há todo uma con­strução de um sus­pense total­mente desnecessário a respeito do resul­ta­do da com­petição, ape­sar de haver uma toma­da com uma saca­da muito boa.

    Um dos grandes prob­le­mas téc­ni­cos da equipe foi a difi­cul­dade em gravar o som, prin­ci­pal­mente pelo grande número de barul­ho no ambi­ente, e em alguns momen­tos as vozes dos per­son­agens é baixa demais, difi­cul­tan­do o entendi­men­to de cer­tos diál­o­gos. Talvez isso ten­ha se dado pelo uso de um equipa­men­to mais sim­ples, por ser uma pro­dução menor, mas mes­mo assim, se con­seguiu tirar um bom proveito dele. Um recur­so inter­es­sante uti­liza­do em cer­tos momen­tos do filme, foi que enquan­to a câmera foca­va uma luta, ouvíamos em destaque a voz do téc­ni­co. Isto se deve a uma afir­mação fei­ta por Tenório, durante o lon­ga, dizen­do que durante a luta a sua audição fica foca­da na voz do téc­ni­co, que é uma das coisas mais impor­tantes a se faz­er como luta­dor. Aliás, durante B1 — Tenório em Pequim, tam­bém somos apre­sen­ta­dos a voz de um pro­gra­ma de leitu­ra de tex­to para com­puta­dor, lendo cer­tos tre­chos do diário do Tenório, o que reforça o tem­po inteiro a importân­cia do som na sua vida.

    B1 — Tenório em Pequim é uma óti­ma opor­tu­nidade para não só con­hecer mais sobre uma figu­ra impor­tante no esporte brasileiro e o próprio fun­ciona­men­to das paraolimpíadas, mas tam­bém para acom­pan­har uma história de luta, per­sistên­cia e super­ação ape­sar de todas as difi­cul­dades e limitações.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=3C4njl-N45M

  • Promoção B1 – Tenório em Pequim ENCERRADA: ganhe convites para o filme

    Promoção B1 – Tenório em Pequim ENCERRADA: ganhe convites para o filme

    b1 tenorio em pequim

    O sorteio já foi real­iza­do e os vence­dores serão comu­ni­ca­dos por email.

    Para mar­car o lança­men­to de B1 – Tenório em Pequim, que estreia dia 3 de setem­bro, o inter­ro­gAção, jun­ta­mente com a equipe de pro­dução do filme, estarão sorte­an­do 5 pares de con­vites para o filme. Pro­moção vál­i­da para todo Brasil.

    A pro­moção vai até dia 12 de Setem­bro e os vence­dores serão noti­fi­ca­dos por email.

    Sinopse: O que faz um campeão? Per­se­ver­ança, sac­ri­fí­cio e dis­ci­plina somam-se na jor­na­da de Tenório, judo­ca profis­sion­al clas­si­fi­ca­do como B1 – cego total. Iso­la­men­to e solidão são alguns dos desafios enfrenta­dos por este brasileiro espetac­u­lar em um pro­je­to inédi­to, a con­quista de uma quar­ta medal­ha de ouro em Paraolimpíadas. Fil­ma­do no Brasil, França e Chi­na, o doc­u­men­tário “B1 – Tenório em Pequim” mer­gul­ha na sen­si­bil­i­dade de um per­son­agem explo­si­vo e tocante, e nar­ra por um pon­to de vista que nada tem de defi­ciente a preparação para este grande com­bate, numa emo­cio­nante viagem cinematográfica.

    O sorteio já foi real­iza­do e os vence­dores serão comu­ni­ca­dos por email.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=8Pc-2IMzgoQ

  • Crítica: Nosso Lar

    Crítica: Nosso Lar

    nosso lar

    Seguin­do a leva dos filmes espíri­tas pro­duzi­dos nacional­mente, Nos­so Lar (Brasil, 2010), de Wag­n­er de Assis, se desta­ca entre todos os out­ros dev­i­do á alta qual­i­dade de pro­dução em relação aos efeitos espe­ci­ais. O que é tam­bém um difer­en­cial aos filmes nacionais em ger­al, por causa do alto cus­to de pro­dução, fato inédi­to na história cin­e­ma brasileiro.

    André Luiz (Rena­to Pri­eto) era um médi­co de suces­so e, após sua morte, percebe que a vida ain­da con­tin­ua. Como não entende nada do que está acon­te­cen­do, afi­nal sem­pre foi um homem da ciên­cia, ele bus­ca respostas da úni­ca maneira que sabe: uti­lizan­do sua razão de médi­co. Durante esta nova jor­na­da, André pas­sa pelo Umbral, uma espé­cie de pur­gatório, e depois é res­gata­do para a cidade Espir­i­tu­al Nos­so Lar. Lá aprende coisas que nun­ca imag­i­nou e uma nova pes­soa surge den­tro dele.

    O elen­co de Nos­so Lar é extrema­mente fra­co, para não diz­er pés­si­mo, o que aca­ba com­pro­m­e­tendo demais o filme. O per­son­agem prin­ci­pal não con­vence e, como nar­rador, é pior ain­da. Os demais per­son­agens tam­bém são muito fal­sos e, cer­tas cenas que dev­e­ri­am ser dramáti­cas, acabam geran­do risos de tão ridícu­las que ficaram. Sem falar na maneira como os diál­o­gos foram con­struí­dos, o que ape­nas piorou a situ­ação. Eles são muito didáti­cos e for­mais, crian­do uma atmos­fera arti­fi­cial ain­da maior.

    Em com­pen­sação, os efeitos espe­ci­ais e a pro­dução em si são óti­mos. Espero que com Nos­so Lar, a pro­dução de cin­e­ma nacional comece a pro­duzir mais filmes com esse tipo de qual­i­dade. Se fos­se pro­duzi­do uma ficção cien­tí­fi­ca seguin­do a pro­dução deste, acho que o resul­ta­do pode­ria ser fan­tás­ti­co. Out­ro pon­to pos­i­ti­vo é que o lon­ga não car­rega jun­to com si as car­ac­terís­ti­cas nov­e­l­escas brasileiras, difer­ente do que acon­te­ceu com Chico Xavier de Daniel Fil­ho. Ape­sar de a tril­ha sono­ra ter a par­tic­i­pação de Phillip Glass, o lon­ga pecou em lit­eral­mente sobre­car­regar, em alto vol­ume, os ouvi­dos de quem assiste, aumen­tan­do ain­da mais a sen­sação de arti­fi­cial­i­dade no filme.

    Nos­so Lar é um filme bas­tante ten­den­cioso e, quem não é sim­pa­ti­zante com as ideias espíri­tas, provavel­mente ficará bem inco­moda­do com toda a “pro­pa­gan­da” e afir­mação da religião feito durante todo o lon­ga. Só para deixar bem claro, em nen­hum momen­to estou crit­i­can­do a religião em si, estou ape­nas o anal­isan­do como cin­e­ma. Fica como indi­cação o filme Fonte da Vida, de Dar­ren Aronof­sky, que é tam­bém um lon­ga de ficção espir­i­tu­al, mas sem cair na pan­fle­tagem. Aliás, ele tam­bém foi pro­duzi­do pela empre­sa respon­sáv­el pelos efeitos visuais do Nos­so Lar.

    Acred­i­to que Nos­so Lar fará suces­so com o públi­co espíri­ta, e aos inter­es­sa­dos na religião, mas que, prin­ci­pal­mente dev­i­do ao pés­si­mo elen­co e didatismo exager­a­do, não agrade muito as out­ras pes­soas. Mas de um jeito ou de out­ro, este é um lon­ga que que­bra todos os padrões, e até pre­con­ceitos, a respeito da qual­i­dade visu­al das pro­duções do cin­e­ma nacional. O que já em si é muito válido.

    Quer assi­s­tir Nos­so Lar de graça? Então par­ticipe da Pro­moção Nos­so Lar e con­cor­ra a con­vites para ver o filme em todo o Brasil.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=3EcOGAxYPHo

  • Crítica: Histórias de amor duram apenas 90 minutos

    Crítica: Histórias de amor duram apenas 90 minutos

    historias de amor duram apenas 90 minutos

    Nes­sa últi­ma déca­da o cin­e­ma brasileiro vem ten­tan­do cri­ar novas iden­ti­dades audi­v­io­suais e, optan­do pela ten­ta­ti­va de nar­ra­ti­vas e enre­dos que fujam do já bati­do favela-sertão do país, muitos filmes surgem com enre­dos con­tem­porâ­neos e urbanos. Histórias de amor duram ape­nas 90 min­u­tos (Brasil, 2009), de Paulo Halm é mais um dess­es filmes com car­ac­terís­ti­cas fiéis a essa nova fase.

    Em Histórias de amor duram ape­nas 90 min­u­tos tudo gira em torno da crise de cri­ação do aspi­rante a escritor Zeca (Caio Blat). Ele já está na casa dos 30 anos, é casa­do com a aparente­mente bem resolvi­da Julia (Maria Ribeiro) e ain­da vive com o din­heiro que seu pai dá todo mês. Zeca pas­sa a acred­i­tar que sua mul­her o trai e vai mais além, ele acha que ela o trai com uma out­ra mul­her, a bela dança­ri­na Car­ol (Luz Cipri­o­ta). O fetiche mas­culi­no está com­ple­to a par­tir do momen­to em que Zeca pas­sa a se sen­tir atraí­do pela sexy dança­ri­na argentina.

    Quem nos con­ta a angús­tia da fal­ta de pro­dução e as aven­turas sex­u­ais-amorosas é o próprio Zeca, que apre­sen­ta o seu insuces­so de sair da pági­na 50 do seu futuro livro e aca­ba por ser escra­vo de suas próprias paranóias e ócio. O nar­rador de Histórias de amor duram ape­nas 90 min­u­tos vive o para­doxo de dese­jar uma vida sem pudores e, por out­ro lado, fica lamen­ta­do os seus atos, o que aca­ba, infe­liz­mente, soman­do pon­tos con­tra a con­ven­ci­bil­i­dade do personagem.

    Zeca é o estereótipo mod­er­no de algum escritor mar­gin­al da déca­da de 60 ou 70, só com a difer­ença de ter quem sus­tente sua vida alter­na­ti­va. Mas Caio Blat sabe ori­en­tar o per­son­agem jus­ta­mente pela fal­ta de aut­en­ti­ci­dade e dependên­cia do Zeca e tam­bém pela nar­ra­ti­va diver­ti­da que ele apre­sen­ta o desen­ro­lar da história. O que não con­vence muito, e aparenta muitas vezes força­da, é a sen­su­al­i­dade da per­son­agem Car­ol, que abusa do sotaque e das cur­vas argenti­nas para dar charme a interpretação.

    A pro­dução de arte no Histórias de amor duram ape­nas 90 min­u­tos tem um quê de orig­i­nal­i­dade desta­can­do os dois ambi­entes mais impor­tantes do filme, os aparta­men­tos do casal e da argenti­na, ambos muito legais e fiéis ao esti­lo dos per­son­agens. A fotografia das ruas de boêmia car­i­o­ca tam­bém é óti­ma e dá charme à película.

    Histórias de amor duram ape­nas 90 min­u­tos não é nen­hu­ma pro­dução grandiosa, sem ousa­dias de enre­do ou de lin­guagem, mas é um filme que vai além do cin­e­ma atu­al, que ten­ta ser pseu­do críti­co e extrema­mente expos­i­ti­vo sobre as defi­ciên­cias soci­ais do país.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=jC1CxN_61kw

  • Crítica: Olhos Azuis

    Crítica: Olhos Azuis

    olhos azuis

    Olhos Azuis (Brasil, 2010), de José Joffi­ly, é uma pro­dução bem difer­ente das out­ras já feitas no cin­e­ma nacional. Abor­dan­do temas como vio­lên­cia e pre­con­ceitos, mas sem o típi­co cenário (para não diz­er bati­do) favela/prisão, ele é um óti­mo thriller psi­cológi­co, gênero ain­da raro por aqui.

    Mar­shall (David Rasche) está no seu últi­mo dia de tra­bal­ho como chefe da imi­gração do Aero­por­to de JFK, de Nova Iorque, e pre­cisa escol­her um sub­sti­tu­to para seu car­go. Afim de pas­sar uma últi­ma lição a seus sub­or­di­na­dos, assim como testá-los para saber quem pode­ria estar mais apto a sua sub­sti­tu­ição, decide exager­ar um pouco mais no seu proces­so de seleção de quem vai poder ou não entrar no “paraí­so” amer­i­cano. Nona­to (Irand­hir San­tos), é um brasileiro rad­i­ca­do nos EUA, aca­ba sendo o alvo prin­ci­pal de Mar­shall, em uma luta entre “olhos azuis” e “olhos negros”, que não poderá acabar muito bem para um dos dois.

    É difí­cil não ficar inco­moda­do com as situ­ações apre­sen­tadas em Olhos Azuis. Quem já sofreu (alguém por aca­so não?) qual­quer tipo de dis­crim­i­nação pela ignorân­cia de uma pes­soa a respeito de algu­ma coisa, sabe muito bem do que se tra­ta. O inter­es­sante é que o filme abor­da o pre­con­ceito de ambos os lados, onde não há uma úni­ca ver­dade. Mas a grande per­gun­ta que fica é: estaria esse pre­con­ceito (o xeno­fo­bis­mo, neste caso em par­tic­u­lar) geran­do mais pre­con­ceito? Como seria pos­sív­el con­frontar argu­men­tos pura­mente irra­cionais de out­ra pes­soa? Como evi­tar que não ocor­ra esse proces­so de retroalimentação?

    O filme teve como inspi­ração o doc­u­men­tário Blue Eyes, de Jane Elliot, uma fil­magem de um exper­i­men­to feito por uma ped­a­goga amer­i­cana que con­duz situ­ações ger­ado­ras de pre­con­ceitos irra­cionais (algum não é?) entre seus par­tic­i­pantes. Só que des­ta vez inver­tendo os papéis, as víti­mas são os “olhos azuis” e não os “olhos negros”. Com isso ela pre­tende mostrar, tan­to para eles quan­to para quem assiste, como que com peque­nas atitudes/gestos somos pre­con­ceitu­osos em relação os out­ros, e que todo mun­do tem sua parcela de pre­con­ceitos, mes­mo sem perce­ber muitas vezes. É um mate­r­i­al muito inter­es­sante para qual­quer um que se inter­esse pelo assun­to, o recomen­do muito.

    Toda a mon­tagem de Olhos Azuis é muito bem fei­ta, alter­nan­do sem­pre entre momen­tos de ten­são e out­ros mais tran­qui­los, que ape­sar de darem um pouco de espaço para res­pi­rar ain­da assim não con­seguem aliviar em nada toda aque­la car­ga emo­cional que vai se acu­mu­lan­do cada vez mais, que con­tin­ua pre­sente até mes­mo depois do fim do filme. A história é exibi­da total­mente alter­na­da, por muito tem­po não se sabe o que é pas­sa­do ou pre­sente e ape­sar de já ter des­de o começo uma idéia de um final trági­co, é difí­cil saber exata­mente o que vai acon­te­cer até o últi­mo momen­to do filme.

    O elen­co tam­bém foi muito bem escol­hi­do, se pre­zou por encon­trar atores que tivessem a mes­ma nacional­i­dade do seu per­son­agem, resul­tan­do em uma grande sen­sação de real­is­mo per­ante as telas. O con­venci­men­to da tra­ma, e dos per­son­agens prin­ci­pal­mente, cos­tu­ma ser um dos maiores prob­le­mas no out­ros filmes do mes­mo gênero pro­duzi­dos nacional­mente. Nor­mal­mente fica algo ou exager­a­do demais, as vezes tan­to que fica até patéti­co, ou vazio demais, as coisas vão acon­te­cen­do e você não se envolve emo­cional­mente com nada. Por con­ta dess­es motivos acred­i­to que Olhos Azuis, é um grande difer­en­cial para a pro­dução brasileira.

    Em Hotel Ruan­da, de Ter­ry George, um per­son­agem reflete sobre as ima­gens de genocí­dio exibindo a guer­ra nos noti­ciários de out­ros país­es, onde as pes­soas ao ver as ima­gens ficavam chocadas por alguns segun­dos, mas depois con­tin­u­avam cal­ma­mente a com­er a sua jan­ta, como se nada tivesse acon­te­ci­do. Acred­i­to a mudança de ati­tude em relação à um assun­to cabe a cada pes­soa. Com Olhos Azuis, a mes­ma situ­ação pode se repe­tir após o final do mes­mo, se uma ver­dadeira mudança não for almejada.

    O filme, assim como o doc­u­men­tário no qual foi basea­do, pos­sui um mate­r­i­al muito rico para se abor­dar questões a respeito do pre­con­ceito, patri­o­tismo e tam­bém políti­ca, mas sem cair em moralizações.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=ZybTJVGxF6Q