Category: Cinema

  • Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador (1993), de Lasse Hallström | Crítica

    Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador (1993), de Lasse Hallström | Crítica

    Tudo ao meu redor são ros­tos famil­iares, lugares des­gas­ta­dos, faces des­gas­tadas. (…) Os son­hos nos quais eu estou mor­ren­do são os mel­hores que já tive”
    (Mad World, com­posição do Tears for Fears na voz de Gary Jules).

    gilbert-grape-lasse-hallstrom-critica-posterCer­tos lugares são dev­as­ta­dos por catástro­fes nat­u­rais ou por exter­mínio béli­co. Mas existe um tipo de des­o­lação que chega sem alarde e se insta­la. Algu­mas vezes, ela nasce jun­to com o lugar. Há os que cor­rem deses­per­ada­mente para fugir. E há os que ficam. O filme Gilbert Grape – Apren­diz de Son­hador (orig­i­nal What’s Eat­ing Gilbert Grape?), do dire­tor sue­co Lasse Hall­ström, con­ta a história de um jovem que per­maneceu no mes­mo lugar, enter­ra­do pela roti­na de uma cidade onde o reló­gio parou.

    Gilbert (John­ny Depp) vive em Endo­ra, peque­na cidade engol­i­da pelo tem­po. Depois do suicí­dio do pai, ele assume a respon­s­abil­i­dade pelo sus­ten­to da família. E não ape­nas isso: Gilbert vive inte­gral­mente para cuidar de seu irmão Arnie (Leonar­do DiCaprio), um ado­les­cente com prob­le­mas men­tais, e de sua mãe (Dar­lene Cates), que sofre de obesi­dade mór­bi­da. Há ain­da duas irmãs, Amy (Lau­ra Har­ring­ton) e Ellen (Mary Kate Schell­hardt), criat­uras atra­pal­hadas que ten­tam aux­il­iar Gilbert, mas acabam cobran­do mais do que ajudando.

    A família de Gilbert Grape
    A família de Gilbert Grape

    Tra­bal­han­do como faz-tudo em uma mer­cearia, Gilbert leva Arnie a todos os lugares. O grande even­to do ano para os dois irmãos é a pas­sagem de trail­ers pela estra­da que cruza a cidade. Em uma dessas pas­sagens, um dos veícu­los que­bra e pre­cisa per­manecer na minús­cu­la Endo­ra por algum tem­po. Esse sim­ples fato for­tu­ito é o pon­to de trans­for­mação na cabeça de Gilbert, já que ele con­hece Becky, garo­ta via­ja­da e cos­mopoli­ta, que acom­pan­ha a avó em excursões pelo país. Vivi­da pela atriz Juli­ette Lewis, Becky é o con­trapon­to de Gilbert: enquan­to o jovem tem olhos tristes, pesa­dos pelas obri­gações que nun­ca ces­sam e pre­cisa con­viv­er com son­hos acor­renta­dos, a jovem é viva, inten­sa e efu­si­va. No lugar dos arrou­bos escan­dalosos, Becky ofer­ece out­ro tipo de carpe diem: ela apre­sen­ta para Gilbert a imen­sid­ão de um mun­do que está ali, expres­so no pôr do sol ou na pos­si­bil­i­dade de obser­var a poe­sia no invisív­el. Esse é um dos pon­tos inter­es­santes do filme.

    Leonardo DiCaprio, Johnny Depp e Juliette Lewis
    Leonar­do DiCaprio, John­ny Depp e Juli­ette Lewis

    O enre­do sem pirotec­nia começa a gan­har o coração do espec­ta­dor com a atu­ação sen­sa­cional de Leonar­do DiCaprio. Os gri­tos e brin­cadeiras de Arnie arran­cam emoções do peito e des­per­tam o olhar para a existên­cia inte­ri­or de pes­soas que fogem dos padrões con­sid­er­a­dos nor­mais. As lim­i­tações men­tais de Arnie não o impe­dem de sor­rir, ser feliz e procu­rar o car­in­ho incondi­cional do irmão. Pelo con­trário: o espec­ta­dor obser­va um ado­les­cente que con­segue viv­er em Endo­ra sem que a monot­o­nia da cidade o empurre para den­tro do poço. Nesse caso, a ignorân­cia do mun­do fun­ciona como uma benção. Indi­ca­do ao Oscar em 1994 na cat­e­go­ria de mel­hor ator coad­ju­vante, DiCaprio merece cada menção hon­rosa pela atu­ação. Ele alcança os gestos, olhares e padrões de com­por­ta­men­to de uma pes­soa com defi­ciên­cia men­tal. Na época com dezen­ove anos, o ator deixou muito vet­er­a­no de queixo caído.

    Johnny Depp como Gilbert
    John­ny Depp como Gilbert

    Na pele de Gilbert, Depp mostrou ser o homem ide­al para viv­er o papel: os olhos melancóli­cos e pesa­dos de respon­s­abil­i­dade; o jeito afáv­el e ded­i­ca­do com o qual trata­va seu irmão e o dese­jo inces­sante de sair daque­le lugar. Todas essas emoções gan­haram con­tornos reais no ros­to de John­ny Depp, que ain­da não tin­ha sido pos­suí­do pelos tre­jeitos do famiger­a­do capitão Jack Sparow, per­son­agem que inter­pre­taria uma déca­da depois na série inter­mináv­el Piratas do Caribe. Mais boni­to do que nun­ca, Depp traz na expressão o deses­pero silen­cioso de Gilbert; sua inocên­cia mis­tu­ra­da ao comod­is­mo e o medo de aban­donar a sua benção e calvário: a própria família. Em Endo­ra, a família Grape é a per­son­ifi­cação da imo­bil­i­dade da cidade: a mãe obe­sa que não sai de casa há sete anos; a própria residên­cia da família, com­ple­ta­mente imutáv­el des­de que foi con­struí­da pelo pai; a rejeição de Gilbert em con­hecer o super­me­r­ca­do novo que abriu na cidade, ameaçan­do a sobre­vivên­cia do mer­cad­in­ho em que tra­bal­ha, e a roti­na de vida que leva: de casa para o tra­bal­ho e vice-ver­sa. Sua úni­ca dis­tração é o assé­dio con­stante da mul­her do cor­re­tor Carv­er, a dona de casa Bet­ty. Em uma das silen­ciosas crises exis­ten­ci­ais de Gilbert, Bet­ty rev­ela qual é o moti­vo de quer­er man­ter um caso com ele, aumen­tan­do con­sid­er­av­el­mente o caos inter­no do jovem Grape.

    Leonardo DiCaprio como o jovem Arnie
    Leonar­do DiCaprio como o jovem Arnie

     

    O lon­ga metragem sur­preende pela emoção sin­cera, dico­to­mias e dile­mas que podem estar per­to de nós. Muitas vezes, seguimos mecani­ca­mente os dias porque esta­mos pre­sos na con­fortáv­el bol­ha da vida ou em obri­gações pétreas que trans­for­mam nos­sas existên­cias em bura­cos vazios sem dire­ito à esper­ança. A feli­ci­dade de Arnie, seu modo ale­gre de viv­er, a “benção da ignorân­cia” e a capaci­dade de recomeçar os dias sem remor­so são um pon­to alto na mudança de per­spec­ti­va. O baixo orça­men­to de Gilbert Grape – Apren­diz de Son­hador provou que exis­tem emoções ocul­tas na epi­derme humana que aguardam a opor­tu­nidade de vir à tona, e inde­pen­dem de altos inves­ti­men­tos. O cin­e­ma abre espaço para essa pul­sação se manifestar.

  • Ida (2013), de Pawel Pawlikowski | Crítica

    Ida (2013), de Pawel Pawlikowski | Crítica

    ida-2013-pawel-pawlikowski-critica-posterUma das mel­hores sen­sações que eu ten­ho exper­i­men­ta­do na par­til­ha físi­ca e men­tal que acon­tece nas salas de cin­e­ma – bas­ta obser­var como todos os espec­ta­dores pare­cem estar lig­a­dos min­i­ma­mente pelos acon­tec­i­men­tos que transcor­rem na tela – é perce­ber o exa­to momen­to em que um filme hip­no­ti­za toda a plateia, alteran­do com­por­ta­men­tos e pren­den­do res­pi­rações. Esse é o pên­du­lo mes­mer­izador de Ida (2013), filme do dire­tor polonês Pawel Paw­likows­ki. O lon­ga con­quis­tou inúmeros prêmios, incluin­do Euro­pean Film Awards e Asso­ci­ação Amer­i­cana dos Dire­tores de Fotografia, além de duas indi­cações ao Oscar 2015 nas cat­e­go­rias “Mel­hor filme em lín­gua estrangeira” e “Mel­hor Fotografia”, ven­cen­do na primeira.

    Fil­ma­do em pre­to e bran­co, Ida revisi­ta as mácu­las do Holo­caus­to através da história de vida da noviça Anna (Aga­ta Trze­bu­chows­ka) e sua recém-descober­ta tia Wan­da (Aga­ta Kulesza). Antes de con­fir­mar os votos no con­ven­to onde vive, Anna é envi­a­da pela madre supe­ri­o­ra à casa da tia, para que sai­ba mais sobre a própria vida e deci­da entrar para a comu­nidade reli­giosa de for­ma con­sciente. Para Anna, o mun­do começa e ter­mi­na nas pare­des do con­ven­to e é com insat­is­fação res­ig­na­da que ela vai ao encon­tro da tia.

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    Wan­da é uma mul­her dom­i­na­da por fan­tas­mas amar­gos, pelo vício do álcool, por amantes pas­sageiros e um secre­to históri­co de tris­tezas. No pas­sa­do, ela inte­grou a luta do movi­men­to anti­nazista, tor­nan­do-se depois juíza e con­de­nado­ra implacáv­el dos torturadores/assassinos de judeus. Esse uni­ver­so é extrema­mente opos­to ao de Anna que, sem eufemis­mos, desco­bre que tudo o que con­hecia sobre sua vida não pas­sa de um rosário de men­ti­ras. Na ver­dade, a noviça chama-se Ida Leben­stein e foi entregue na por­ta do con­ven­to quan­do ain­da era bebê. Sem saber do paradeiro dos pais, Ida e a tia partem em bus­ca de respostas; cada qual com suas angús­tias, medos e dores.

    A história se pas­sa em 1962, onde os resquí­cios da Segun­da Guer­ra Mundi­al ain­da despon­tavam como feri­das aber­tas, fusti­gan­do os espíri­tos dos sobre­viventes e de seus famil­iares. É nesse mun­do novo que Ida mer­gul­ha com toda a sua inocên­cia, exper­i­men­tan­do a malí­cia e as cha­gas emo­cionais que fazem parte da história de sua família.

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    O lon­ga-metragem faz uso de uma câmera quase estáti­ca, apo­s­tan­do em close-ups. Out­ro ele­men­to inter­es­sante em Ida é a opção pelo for­ma­to 4:3 e em pre­to e bran­co, ape­sar da gravação com câmera dig­i­tal, uma clara refer­ên­cia aos filmes em 16mm. Out­ra curiosi­dade é que o filme tam­bém foi con­ver­tido para pelícu­la 35mm, sendo exibido nas pou­cas salas de cin­e­ma que ain­da supor­tam esse tipo de pelícu­la. Com fotografia de cair o queixo – assi­na­da por Ryszard Lenczews­ki e Lukasz Zal -, o lon­ga rev­ela a atmos­fera silen­ciosa do inte­ri­or de seus per­son­agens, enfa­ti­za­da tam­bém pela ausên­cia de tril­ha sono­ra e pas­sagens só com sons do ambi­ente. Como o públi­co brasileiro – do qual pos­so falar basea­da em min­ha vivên­cia — não está acos­tu­ma­do com a lin­guagem do silên­cio, é difí­cil man­ter uma con­stante em salas de exibição. Por isso, foi emo­cio­nante pres­en­ciar a inter­rupção ime­di­a­ta do fris­ar de sacos de pipoca, papéis de bom­bom, latas de refrig­er­ante e mur­múrios eter­nos. Naque­la sessão, a plateia esta­va hip­no­ti­za­da: Ida não faz ruí­dos, comu­ni­ca-se pela atenção do olhar. É com esse andar sem deixar ras­tros que a jovem noviça aprende como lidar com a inocên­cia que vai mor­ren­do aos poucos.

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    Mis­tu­ra de reflexão e memória, o filme con­segue alcançar a poe­sia que não gri­ta, não ges­tic­u­la e não bal­bu­cia: ela expres­sa com olhares e não-ditos. Destaque para a atu­ação das atrizes Aga­ta Trze­bu­chows­ka e Aga­ta Kulesza, intér­pretes de Ida e Wan­da, respec­ti­va­mente. Como ini­ciante, Trze­bu­chows­ka com­pro­va seu empen­ho – que vai além da semel­hança físi­ca com a atriz Sis­sy Spacek (con­heci­da pela atu­ação em “Car­rie, A Estran­ha” – 1976). Já Aga­ta Kulesza recria as dores de inúmeras mul­heres judias, guer­ril­heiras ou não, que viram suas famílias serem despedaçadas pelo hor­ror nazista e tiver­am que olhar para o abis­mo, evi­tan­do mirar em seus próprios reflexos.

    Trail­er:

  • O Vagabundo (1916), de Charles Chaplin | Análise

    O Vagabundo (1916), de Charles Chaplin | Análise

    vagabundo-charles-chaplin-analise-capaO primeiro plano do filme mostra aque­las car­ac­terís­ti­cas por­tas do tipo “saloon”. Depois de alguns segun­dos, por detrás das por­tas, surgem dois pés em um pas­so alarga­do, semel­hante ao de um pin­guim. É Chap­lin. Sim­ples assim. No lugar de sua car­ac­terís­ti­ca ben­gala, o Car­l­i­tos ago­ra está com um vio­li­no na mão. O filme é “O Vagabun­do” (The Vagabond), de 1916, real­iza­do para a pro­du­to­ra Mutu­al Film Cor­po­ra­tion. O cineas­ta Charles Chap­lin está com liber­dade total e recur­sos quase ilim­i­ta­dos, ain­da que com a “obri­gação” de pro­duzir 12 comé­dias de suces­so por ano. Sendo o ter­ceiro filme de um con­tra­to sub­stan­cial, já que o salário do primeiro ano fora de 670 mil dólares mais os bônus, em “O Vagabun­do” é pos­sív­el perce­ber uma ambição melo­dramáti­ca latente.

    Surgi­do em 1914, Car­l­i­tos (no orig­i­nal: Lit­tle Tramp) tem sua fac­eta sen­ti­men­tal ger­mi­na­da neste cur­ta. No enre­do, um vio­lonista itin­er­ante, Chap­lin, encon­tra uma jovem, Edna Purvionce, a primeira e eter­na musa do cineas­ta, apri­sion­a­da por um grupo de ciganos. Os dois fogem jun­tos e começam a morar na estra­da. Um pin­tor encon­tra Edna no meio da flo­res­ta e se encan­ta. Ele a hom­e­nageia em um quadro chama­do “A Irlan­da em pes­soa”. Quan­do este é expos­to em uma gale­ria, a mãe ver­dadeira de Edna recon­hece o retra­to de sua fil­ha. O pin­tor con­duz a mul­her ao encon­tro de Edna, que decide par­tir jun­to com ela, mas levan­do tam­bém o Vagabun­do. E tudo isso em 24 minutos!

    Com lon­gos planos aber­tos em uma câmera estáti­ca, o filme apre­sen­ta uma decu­pagem car­ac­terís­ti­ca do iní­cio do cin­e­ma. Os preenchi­men­tos dos enquadra­men­tos já demon­stram um artista em proces­so de sofisti­cação, o que fica níti­do logo na primeira gag (efeito cômi­co, pia­da) do filme. Car­l­i­tos toca seu vio­li­no em frente a por­ta de um bar, e, enquan­to isso, uma trupe de músi­cos chega em frente à out­ra por­ta do bar. Quan­do Car­l­i­tos aca­ba sua per­fo­mance, vai recol­her o din­heiro com os fre­quen­ta­dores do esta­b­elec­i­men­to. Pouco tem­po depois, um músi­co da trupe tam­bém vai pedir din­heiro, mas é rechaça­do já que momen­tos antes Chap­lin tam­bém tin­ha pedi­do din­heiro. Óbvio que isso aca­ba em mui­ta con­fusão e cor­re­ria. Mas o que me intri­ga, é como Chap­lin já pen­sa­va em usar o som como ele­men­to con­sti­tu­ti­vo de uma gag. E não só o som, mas a imagem. Há um enquadra­men­to, por exem­p­lo, em que é pos­sív­el ver, em primeiro plano, a trupe de músi­cos tocan­do e, em segun­do plano, no fun­do do quadro, um Chap­lin, bem pequeni­no, com seu vio­li­no. É uma con­strução dis­tin­ta, levan­do em con­ta­to a for­ma como eram usa­dos os planos gerais nos filmes daque­la época.

    Edna Purvionce, a primeira e eterna musa de Charles Chaplin
    Edna Purvionce, a primeira e eter­na musa de Charles Chaplin

    Ver Edna Purvionce na tela é sem­pre um praz­er, ain­da mais que em quase toda sua car­reira no cin­e­ma ela esteve ao lado de Chap­lin. O ros­to redon­do e afi­la­do da atriz, sem­pre soube faz­er caras e bocas per­feitas para os filmes do cineas­ta, cuja atu­ação encon­tra­va na per­for­mance de Edna uma figu­ra quase que ami­ga. Na ver­dade, olhar os dois na tela era, em muitos momen­tos, teste­munhar uma amizade artís­ti­ca. Em “O Vagabun­do”, Edna se desta­ca e real­mente incor­po­ra a “cigana escrav­iza­da”. Deixan­do de lado a aparên­cia angel­i­cal, a atriz está suja, com roupas ras­gadas e os cabe­los com­ple­ta­mente desengonçados.

    E Chap­lin é Chap­lin. Com planos aber­tos em meio a natureza, o vagabun­do como músi­co itin­er­ante é bril­hante, afi­nal, toda a fome e ener­gia do per­son­agem explode em uma per­for­mance mar­cante. O vio­li­no e o cor­po de Chap­lin se tor­nam um só. Car­l­i­tos inclu­sive chega a pas­sar o arco do instru­men­to em seu nar­iz! Com o vio­li­no, em momen­tos de har­mo­nia seu cor­po se move suave­mente, e em momen­tos de ten­são ele é con­traí­do e joga­do por uma força que, obvi­a­mente, Chap­lin se deixa levar, chegan­do inclu­sive a cair em uma bacia de água! Nes­ta cena, Chap­lin e Edna estão em rit­mos para­le­los. Enquan­to o vagabun­do se empol­ga com seu instru­men­to, a atriz tam­bém se deixa levar pela músi­ca, e no mes­mo instante em que o cor­po de Chap­lin se move de for­ma sel­vagem, Edna lava a roupa fre­neti­ca­mente. Pura sintonia!

    Chap­lin se livra dos ciganos que pren­di­am Edna e foge com ela, mas antes cospe na cara do cigano mal­va­do, inter­pre­ta­do pelo gigante Eric Camp­bel, porém de uma maneira “dis­tin­ta”, como aque­las belas está­tuas que jor­ram água pelos lábios. Em uma leve câmera baixa, Chap­lin toma as rédeas da car­ru­agem dos ciganos, e em um pequeno trav­el­ling (movi­men­to de câmara em que esta real­mente se deslo­ca no espaço) para trás, apre­sen­ta um boni­to plano com os “vilões” cor­ren­do deses­per­ada­mente pela estra­da. Depois, não há bons ou maus per­son­agens, somente descober­tas. Um pin­tor sem inspi­ração encon­tra Edna. Uma mãe des­o­la­da encon­tra sua fil­ha per­di­da. E o vagabun­do quase perde o que havia encontrado.

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    Um dos grandes trun­fos de Chap­lin se dá na for­ma como ele uti­liza o cenário em sua vol­ta, em uma espé­cie de trans­fig­u­ração da real­i­dade. Há filmes do perío­do Mutu­al em que esta car­ac­terís­ti­ca é lev­a­da a extremos, ver “A Casa de Pen­hores” (1916), mas em “O Vagabun­do”, Chap­lin alia este poder de trans­for­mação a uma sen­si­bil­i­dade român­ti­ca, o que vai ser a pedra de toque de obras pos­te­ri­ores, como “O Garo­to” (1921) e “O Cir­co” (1928). Assim, são notavéis os sim­ples momen­tos de Chap­lin preparan­do “uma coz­in­ha ao céu aber­to” em uma mesa impro­visa­da, que­bran­do ovos com um marte­lo e lavan­do min­u­ciosa­mente o ros­to man­cha­do e mal­trata­do de Edna.

    No final, o pin­tor retor­na, em um car­ro, com a mãe de Edna e um grupo de pes­soas que estavam na exposição para o local onde Chap­lin mora­va. A sen­ho­ra, niti­da­mente rica, resolve dar um maço de din­heiro para Car­l­i­tos, que, sem titubear, recusa e ain­da afas­ta a ofer­ta com a pal­ma de sua mãe dire­i­ta – eis a elegân­cia de um vagabun­do. Neste momen­to, o sem­blante do Car­l­i­tos muda. Na ver­dade não é somente Car­l­i­tos ali, mas tam­bém o próprio Chap­lin. Na cena, há 4 atores em um plano amer­i­cano (quan­do a pes­soa é enquadra­da do joel­ho para cima), mas é níti­do como o cor­po do Vagabun­do enche o quadro.

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    O críti­co e dire­tor francês François Truf­faut, escreveu que a primeira fase da car­reira de Chap­lin se per­gun­ta “Será que exis­to?”. Acred­i­to que out­ra per­gun­ta que tam­bém norteia esta fase é “Porque que eu exis­to?”, e no final de “O Vagabun­do” há uma respos­ta. Car­l­i­tos existe para aqui­lo: Abraçar Edna, tocar no próprio ros­to sur­pre­so pela par­ti­da da par­ceira, diz­er “Adeus peque­na garo­ta” (Good­bye Lit­tle Girl), sor­rir lev­e­mente e lev­an­tar a mão esquer­da, sem ace­nar, para um car­ro que leva a sua amada.

    Entre 1914 e 1922, Charles Chap­lin pro­duz­iu 69 cur­tas. Deste perío­do, a min­ha fase favorita é a da Mutu­al. Nos 12 filmes feitos para pro­du­to­ra é pos­sív­el ver um cineas­ta fervil­han­do de ener­gia e ideias. No entan­to, nes­ta época o cineas­ta esta­va pre­ocu­pa­do em agradar o públi­co, o que fez com que muitos dos filmes da Mutu­al tivessem finais felizes, apres­sa­dos e mal con­struí­dos. Exem­p­lo dis­so é o des­fe­cho de “O Vagabun­do”. Acred­i­to que se o cur­ta ter­mi­nasse com Chap­lin de costas para a câmera, olhan­do o car­ro de Edna indo emb­o­ra, o efeito seria mais coer­ente com a pro­pos­ta do cur­ta: apre­sen­tar um vagabun­do que sem­pre está procu­ran­do um lugar onde pos­sa se encaixar. No final, Edna tem um insight e fica deses­per­a­da. O car­ro vol­ta e Chap­lin vai emb­o­ra jun­to com os out­ros per­son­agens. Foi algo muito rápi­do. Não que um final feliz seja um prob­le­ma, mas há um con­traste entre a epi­fa­nia de Edna e o com­por­ta­men­to que ela esta­va apre­sen­tan­do des­de que con­heceu o pin­tor. Porém, esta difer­ença não prej­u­di­ca a con­strução do per­son­agem de Chap­lin no cur­ta. “O Vagabun­do” é uma peque­na aven­tu­ra sen­ti­men­tal que ain­da pode emo­cionar, afi­nal, assim como a obra-pri­ma melo­dramáti­ca “O Garo­to”, este é “um filme com um sor­riso, e talvez uma lágrima…”.

    Assista ao filme com­ple­to abaixo:

  • Boyhood: Da Infância à Juventude (2014), de Richard Linklater | Crítica

    Boyhood: Da Infância à Juventude (2014), de Richard Linklater | Crítica

    boyhood_infancia_juventude-richard_linklater-critica-posterFaz­er um filme que seja cin­e­matografi­ca­mente ino­vador não é algo triv­ial, muito menos quan­do se dese­ja que ele chame a atenção do grande públi­co das salas de cin­e­ma. Esse feito fica ain­da mais difí­cil quan­do não é uti­liza­do grandes efeitos espe­ci­ais ou nar­ra­ti­vas com­plexas, que podem muitas vezes afas­tar mais o públi­co do que o insti­gar. “Boy­hood: Da Infân­cia à Juven­tude” (Boy­hood, EUA, 2014) con­seguiu realizar todas essas proezas, e a ideia para criá-lo veio jus­ta­mente do dese­jo de não uti­lizar efeitos espe­ci­ais para sim­u­lar o envel­hec­i­men­to dos per­son­agens ou então uti­lizar difer­entes atores para rep­re­sen­tar a pas­sagem to tem­po em uma história sobre o amadurec­i­men­to da infân­cia à juven­tude (explic­i­ta­do no desnecessário sub­tí­tu­lo nacional). A solução encon­tra­da por Richard Lin­klater, que escreveu, dirigiu e pro­duz­iu o lon­ga, por mais malu­ca (e genial) que pareça, foi de fil­mar os mes­mos atores durante 12 anos, mais ou menos uma vez por ano.

    A história do filme é bem uni­ver­sal: acom­pan­hamos Mason (Ellar Coltrane), dos 5 aos 18 anos, assim como os out­ros per­son­agens que con­vivem com ele durante esse tem­po. Mas o foco da história não é somente o cresci­men­to de uma cri­ança, mas tam­bém sobre o proces­so de ser pai/mãe, prin­ci­pal­mente em um tem­po onde é cada vez mais comum casais se sep­a­rarem e os fil­hos acabam por ter duas, ou mais, pes­soas que cumprem o papel dos gen­i­tores. Não temos aqui a tradi­cional estru­tu­ra, nor­mal­mente sim­plista, de um enre­do de cin­e­ma, onde é fácil iden­ti­ficar os altos e baixos do desen­volvi­men­to do per­son­agem prin­ci­pal, que vai atrav­es­san­do as suas difi­cul­dades para, no final do lon­ga, chegar a uma con­clusão da história, seja ela pos­i­ti­va ou não. Ape­sar de Lin­klater ter um obje­ti­vo bem definido para o lon­ga, o roteiro do lon­ga esta­va sem­pre bem aber­to para poder acom­pan­har parte das decisões de vida toma­da pelo ator prin­ci­pal. O dire­tor até brin­ca que se Ellar decidisse virar um luta­dor, o filme provavel­mente iria acom­pan­har isso de algo for­ma, mudan­do dras­ti­ca­mente de rumo.

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    A vida é um sopro, dizia Oscar Niemey­er, e é jus­ta­mente assim que acom­pan­hamos o pas­sar do tem­po em “Boy­hood: Da Infân­cia à Juven­tude”. Vamos pulan­do de um ano ao out­ro, algu­mas vezes com acon­tec­i­men­tos mais impac­tantes, out­ras vezes ape­nas com a mudança da fol­ha cal­endário como fato mar­cante. Quan­do menos percebe­mos, já se pas­saram vários anos. Tudo isso sem qual­quer indi­cação explíci­ta, nada de “um ano depois” ou a data carim­ba­da na tela. Tiran­do uma ou out­ra fes­ta de aniver­sário e acon­tec­i­men­tos mar­cantes da história, como a can­di­datu­ra do pres­i­dente Oba­ma e a febre do Har­ry Pot­ter, que aju­dam a cri­ar uma noção mel­hor da tem­po­ral­i­dade dos even­tos. Isso tam­bém ocorre pela escol­ha da tril­ha sono­ra, com os hits que mar­caram cada época, que aliás é uma das grandes vir­tudes do filme, com ban­das como Cold­play, The Hives, Foo Fight­ers, Cat Pow­er, Arcade Fire, entre outros.

    O que mais chama a atenção em relação ao tem­po, é acom­pan­har como a aparên­cia dos per­son­agens vão se trans­for­man­do. Difí­cil diz­er se o fato de saber que todas essas mudanças são reais, as tor­nam mais impres­sio­n­antes do que se não tivesse essa infor­mação. Mas acred­i­to que seria muito difí­cil, se não impos­sív­el, causar o mes­mo impacto através dos méto­dos tradi­cionais de envelhecimento.

    Fotos de Mason em diferentes anos
    Fotos de Mason em difer­entes anos

    De iní­cio, Mason esta mais para um obser­vador de tudo que acon­tece em sua vol­ta, sem­pre com um olhar bem aten­to, mas sem qual­quer poder de ação. São mudanças de cidade, sep­a­ração dos pais, novas esco­las… Tudo acon­tece a par­tir da sua per­spec­ti­va, na qual muitas coisas pare­cem não ter muito sen­ti­do, elas sim­ples­mente acon­te­cem. Com o tem­po, ele vai amadure­cen­do, não só perceben­do mais a com­plex­i­dade da real­i­dade a sua vol­ta, mas tam­bém começan­do a ter um efeito maior sobre ela. Isso é crescer.

    Se assemel­han­do bas­tante com a vida fora das telas do cin­e­ma, “Boy­hood: Da Infân­cia à Juven­tude” é um filme uni­ver­sal e muito sen­sív­el. Difí­cil não refle­tir sobre as próprias escol­has, e aque­las que ain­da podemos faz­er, depois e durante a imer­são de 12 anos con­den­sa­dos em quase três horas da vida de Mason, um per­son­agem que ain­da tem uma vida toda pela frente.

  • Desejo (2005), de Anne Pinheiro Guimarães | Curta

    Desejo (2005), de Anne Pinheiro Guimarães | Curta

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    Um cor­ta­dor de gra­ma atrav­es­sa em rit­mo monocór­dio os imen­sos espaços de um gra­ma­do que bril­ha como móv­el novo. Ao fun­do, uma canção que nos faz lem­brar dias boni­tos e fras­es do tipo “a esper­ança nun­ca morre”. Ima­gens idíli­cas começam a se mis­tu­rar até serem sumari­a­mente que­bradas pelo barul­ho do ven­ti­lador imer­so em fumaça. Deita­do em uma cama estre­i­ta, um homem fuma e tran­spi­ra, tran­spi­ra e fuma. Ao deixar seu san­tuário pes­soal, ele vai de encon­tro à vida nor­mal de cada dia. Uma vida de tra­bal­ho, de tédio, de cansaço, de madames lamen­tosas e son­hos que se per­dem na fumaça do cig­a­r­ro. No entan­to, algu­mas ideias podem ser o começo de ver­dadeiras epi­fa­nias. É assim que o cur­ta-metragem “Dese­jo” (2005) lança baforadas no ros­to do espec­ta­dor ao apre­sen­tar a história de um homem comum e suas cobiças con­struí­das a par­tir do olhar fixo para o teto.

    No cur­ta, o porteiro Ataná­sio José (Wag­n­er Moura) faz uma descober­ta sur­preen­dente em uma tarde tór­ri­da e estim­u­lante de glân­du­las sudorí­paras. Deita­do em sua cama, ele se deu con­ta da rev­e­lação que mudaria os rumos de sua vida, transformando‑o em um indi­ví­duo real­iza­do. Ataná­sio tin­ha ago­ra uma obsessão: aden­trar o Jock­ey Club Brasileiro (local­iza­do na Gávea, bair­ro do Rio de Janeiro), con­sid­er­a­do por ele o “san­tuário dos end­in­heira­dos”. Depois de con­seguir a façan­ha, Ataná­sio saberia o que faz­er – mas isso pou­ca impor­ta­va. Para chegar ao pon­to final da jor­na­da, ele pre­cis­aria da aju­da do cun­hado, Edmil­son André (Lázaro Ramos), respon­sáv­el pelos cuida­dos com o gra­ma­do do Jock­ey e con­sid­er­a­do por Ataná­sio como um homem “dire­ito, qui­eto, hon­esto e tra­bal­hador – tudo isso até demais”. Pre­so nes­sa relação de causa e efeito, o porteiro faz a trav­es­sia dos seus dias sem esque­cer por um momen­to da obsessão com o cun­hado, o cor­ta­dor de gra­ma e o Jock­ey Club.

    Com roteiro e direção de Anne Pin­heiro Guimarães, “Dese­jo” remon­ta aos tex­tos do cita­do Charles Bukows­ki e traz à beira da pra­ia nomes como Hen­ry Miller e Nel­son Rodrigues, conectan­do a vida do sujeito ordinário aos devaneios que o fazem resi­s­tir, sobre­viv­er e elab­o­rar de um modo menos lim­i­ta­do a sua existên­cia. A nar­ra­ti­va em off é uti­liza­da durante todo o cur­ta e abre espaço para a mis­tu­ra entre a lin­guagem fílmi­ca e literária, sopran­do no ar fig­uras irôni­cas, sar­cás­ti­cas, áci­das e humanas.

    Da clás­si­ca músi­ca “What a Won­der­ful World” — per­pet­u­a­da na voz de Louis Arm­strong – até o afama­do “Melô do Piri Piri”, da pop­u­lar can­to­ra e casadoura Gretchen, “Dese­jo” vai além das epi­fa­nias do porteiro Ataná­sio e mostra que o mun­do pode ter lá suas mar­avil­has – se a desco­brir­mos do nos­so jeito.

    Assista ao curta:

  • Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda: irreverência e anarquismo | Análise

    Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda: irreverência e anarquismo | Análise

    Eu sou a mosca que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca que pin­tou pra lhe abusar. (…) E não adi­anta vir me dede­ti­zar. Pois nem o DDT pode assim me exter­mi­nar. Porque você mata uma e vem out­ra em meu lugar.

    Raul Seixas em “Mosca na Sopa”

    Sinôn­i­mo de incô­mo­do e despre­zo, a mosca é um dos inse­tos mais rechaça­dos do con­vívio social. Ela transtor­na reuniões famil­iares, impor­tu­na tradições de ordem e con­t­role, desnu­da as estru­turas assép­ti­cas. A mosca na sopa, per­son­ifi­cação ado­ta­da pelo com­pos­i­tor e músi­co brasileiro Raul Seixas, é uma anar­quista públi­ca e notória: sua pre­sença é hos­tiliza­da, mas inde­pende de aceitação; por mais que seja intim­i­da­da, vio­len­ta­da, apri­sion­a­da e dego­la­da, ela vol­ta em múlti­p­los pares. E é com taman­ha per­sistên­cia e deboche que elas, as famiger­adas moscas, comu­ni­cam sua mensagem.

    tatuagem-hilton-lacerda-analise-posterNo final da déca­da 1970, as moscas tam­bém mar­cavam pre­sença físi­ca e metafóri­ca em ter­ritório brasileiro. Para os agentes da ditadu­ra mil­i­tar, todo e qual­quer ele­men­to sub­ver­si­vo que aten­tasse con­tra a ordem, o gov­er­no e o trinômio “tradição – família – pro­priedade”, dev­e­ria ser sumari­a­mente extin­to. Naque­les anos de por­tas fechadas, entre a per­ife­ria de Recife e Olin­da, cidades do Nordeste brasileiro, o dire­tor Hilton Lac­er­da ambi­en­tou a história de uma trupe de artis­tas que cri­a­va um uni­ver­so próprio de irreverên­cia, zom­baria e auto­ria no teatro-cabaré Chão de Estre­las, cri­ação inspi­ra­da pelo grupo de teatro Viven­cial Diver­siones, que exis­tiu entre 1972 e 1981.

    Na ficção, o sis­tema pro­to­co­lar de regras, ordens, hier­ar­quia e dis­ci­plina do sis­tema mil­i­tar, exer­cia influên­cia angus­tiante em um tími­do recru­ta nasci­do e cri­a­do no inte­ri­or de Per­nam­bu­co, tor­nan­do-lhe penoso e mortífero o dev­er de sus­ten­tar uma más­cara que mal lhe cabe no ros­to. Esse é o fio con­du­tor da pólvo­ra que explode em “Tat­u­agem” (Brasil, 2013), filme do cineas­ta per­nam­bu­cano Hilton Lac­er­da em sua estreia como dire­tor depois de lon­ga exper­iên­cia como roteirista. A tra­ma traz como pano de fun­do o romance entre o agi­ta­dor cul­tur­al e per­former Clé­cio Wan­der­ley, inter­pre­ta­do pelo ator Irand­hir San­tos, e o sol­da­do raso Arlin­do Araújo, con­heci­do como Fin­in­ha, per­son­agem vivi­do por Jesuí­ta Bar­bosa.

    Chão de Estrelas, o Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da favela
    Chão de Estre­las, o Moulin Rouge do sub­úr­bio, a Broad­way dos pobres, o Stu­dio 54 da favela

    Tat­u­agem” fala de resistên­cia políti­ca, cri­ação explo­si­va, anar­quista, debocha­da, livre; é uma afir­mação do espaço daque­les que são esma­ga­dos por uma con­jun­tu­ra arma­da, mas que resistem, queimam, ren­o­vam. Na tra­ma, Chão de Estre­las nasce no seio da per­ife­ria, epí­grafe acen­tu­a­da no iní­cio do lon­ga-metragem com a fala de Clé­cio ao destacar que o cabaré é “o Moulin Rouge do sub­úr­bio, a Broad­way dos pobres, o Stu­dio 54 da favela”, em clara refer­ên­cia aos inter­na­cional­mente con­heci­dos, cul­tua­dos e caros ambi­entes de apre­sen­tação artís­ti­ca e cor­po­ral da época. É nesse perímetro de rein­venções que o dire­tor Hilton Lac­er­da detém o olhar, crian­do uma nar­ra­ti­va audaciosa.

    Clé­cio e Fin­in­ha se con­hecem por meio de Paulete (Rodri­go Gar­cia), irmão da então namora­da do recru­ta. Enquan­to Clé­cio diri­gia um espetácu­lo debocha­do, Fin­in­ha vivia apri­sion­a­do nos dita­mes do quar­tel, detal­he expos­to logo nos min­u­tos ini­ci­ais, com a visão do rapaz enquadra­do pelas bar­ras dos belich­es — efeito cri­a­do pela uti­liza­ção do movi­men­to de zoom-out. O envolvi­men­to desse casal improváv­el, vai descorti­nan­do uma nova visu­al­iza­ção e entendi­men­to do mun­do, abrindo espaço para as sen­si­bil­i­dades de dois uni­ver­sos dis­tin­tos. Rodea­do pela liber­dade em todos os sen­ti­dos, Fin­in­ha vai, aos poucos, sentin­do seu cor­po como parte do proces­so artís­ti­co e viven­cial que explode no teatro do Chão de Estre­las. Assim como o mitológi­co can­to da sereia, a magia que nasce no cabaré começa a encan­tar o jovem recru­ta, mostran­do-lhe um ambi­ente de tro­ca de relações bem mais autên­ti­co do que cos­tu­ma­va vivenciar.

    Cena do filme “Tat­u­agem” mostran­do o “apri­sion­a­men­to” de Fininha

    No filme, o “cair da noite” assume uma sim­bolo­gia extrema­mente impor­tante ao abrir novas pontes de resistên­cia. Pontes que podem ser obser­vadas no públi­co que fre­quen­ta o teatro-cabaré, for­ma­do por homos­sex­u­ais, sim­pa­ti­zantes, mil­i­tantes da luta de class­es e int­elec­tu­ais esquerdis­tas – esta últi­ma figu­ra é ado­ta­da pelo pro­fes­sor Jou­bert (Sílvio Res­tiffe) e seus poe­mas de cun­ho políti­co e lib­ertário, além da sua pro­dução exper­i­men­tal, fei­ta com uma câmera Super‑8, dire­ciona­da para reg­is­trar os momen­tos mar­cantes de produção/apresentação dos números do Chão de Estre­las. É através da noite, do ero­tismo, da luxúria escan­car­a­da, do cuspe anárquico em for­ma de per­for­mances ousadas com o cor­po e a lin­guagem, que “Tat­u­agem” vai traçan­do novas rotas de pere­gri­nação de for­ma arrojada.

    Hilton Lac­er­da

    O dire­tor Hilton Lac­er­da vem de uma lon­ga cam­in­ha­da como roteirista, trazen­do na bagagem filmes como “Febre de Rato” (2011), “Amare­lo Man­ga” (2002), “Baixio das Bestas” (2006), em parce­ria com o cineas­ta Cláu­dio Assis, e “Car­to­la – Músi­ca para os Olhos” (2006), onde divide a direção com Lírio Fer­reira. A ener­gia em con­stru­ir detal­h­es faz a assi­natu­ra de Lac­er­da um difer­en­cial palpáv­el em “Tat­u­agem”.

    A opção por con­tar a história de amor entre dois home­ns gan­ha con­tornos autên­ti­cos: Clé­cio e Fin­in­ha divi­dem o afe­to ínti­mo com os espec­ta­dores; o romance – claro, dire­to, cru – não está ali ape­nas para inqui­etar os que ain­da desvi­am o olhar diante das cenas de bei­jo ou de sexo entre dois home­ns; o amor homos­sex­u­al e o choque de vivên­cias que ele rep­re­sen­ta (o agi­ta­dor cul­tur­al e o mil­i­tar) ultra­pas­sam a aco­modação da mil­itân­cia padroniza­da: nes­sa relação de polos opos­tos está o gri­to dos amores, gru­pos, movi­men­tos, pen­sa­men­tos, vidas e sen­ti­men­tos rotu­la­dos como per­iféri­cos. É esse o ele­men­to de pul­são lev­an­tan­do por “Tat­u­agem”, levan­do à der­ro­ca­da da hege­mo­nia das insti­tu­ições sagradas e do des­file dos tri­un­fantes. Para o pal­co e o públi­co do Chão de Estre­las, não há lugar para pre­con­ceitos, não há már­tires para cas­trações. O que existe no cabaré-teatro é o rompi­men­to de tradições; um lugar onde múlti­plas jor­nadas não se chocam, mas se com­ple­men­tam, ten­do como exem­p­lo máx­i­mo a figu­ra de Clé­cio: dire­tor, poeta, agi­ta­dor, anar­quista, amante e pai.

    o performer Clécio Wanderley (Irandhir Santos) e o soldado raso Fininha (Jesuíta Barbosa)
    o per­former Clé­cio Wan­der­ley (Irand­hir San­tos) e o sol­da­do raso Fin­in­ha (Jesuí­ta Barbosa)

    A liber­dade e a vivên­cia con­sciente tam­bém estão pre­sentes no con­ceito de família apre­sen­tan­do no filme. Tuca — fru­to do rela­ciona­men­to do agi­ta­dor cul­tur­al com Deusa, mãe solteira, adep­ta dos mes­mos ideais — cir­cu­la livre­mente pelas dependên­cias do cabaré, obser­van­do os tra­bal­hos de pro­dução do pai. Em uma cena sig­ni­fica­ti­va, Clé­cio pede à Deusa que não tra­ga mais o meni­no ao cabaré pois aque­le “não é lugar para cri­ança”. Nesse gan­cho, a mãe responde que “não há lugar ade­qua­do, e sim edu­cação ade­qua­da”, fazen­do refer­ên­cia dire­ta a um mod­e­lo edu­ca­cional que apos­ta na liber­dade, con­sciên­cia e tolerância.

    Toda essa provo­cação clara e sub­ver­si­va deixa ras­tros pelo filme e encon­tra out­ra forte rep­re­sen­tante com a per­son­agem Paulete. É na ale­gria do escân­da­lo que Paulete ali­men­ta o son­ho de ser ator recon­heci­do, dan­do mais vida ao lon­ga-metragem com suas piadas espir­i­tu­osas, seus berros e gestos cor­po­rais esfuziantes. É difí­cil destacar uma úni­ca cena drama­ti­za­da pelo ator Rodri­go Gar­cía na pele de Paulete: ele con­segue faz­er os holo­fotes cir­cu­larem em torno de si, seja com expressões jocosas, canções despu­do­radas ou caras e bocas risíveis. Gar­cía tem o poder de trans­for­mar a car­i­catu­ra do artista gay trans­vesti­do em indu­men­tárias fem­i­ni­nas, em uma ver­dadeira meta­mor­fose artística.

    Rodrigo Garcia como a personagem Paulete
    Rodri­go Gar­cia como a per­son­agem Paulete

    Há mui­ta inten­si­dade e aut­en­ti­ci­dade em “Tat­u­agem” – fato que ren­deu suces­so de críti­ca, prêmios e menções hon­rosas para o filme e seus atores. Mais uma pro­va de que rotas alter­na­ti­vas são pos­síveis, tan­to no âmbito do pen­sa­men­to quan­to na ação. O audio­vi­su­al brasileiro pre­cisa de olhares difer­en­ci­ais, novas lin­gua­gens, desafios, pos­turas e riscos, não só da parte dos pro­du­tores, mas tam­bém de espec­ta­dores. Cin­e­ma é feito de sen­si­bil­i­dades e da per­sistên­cia de “moscas” que não se intim­i­dam com o que está dito e feito, trazen­do para si a tare­fa de ques­tionar a nat­u­ral­iza­ção do mun­do. Con­stru­ir panora­mas é como tat­u­ar a pele: na mar­ca eterniza­da, pas­sa­do, pre­sente e futuro se comu­ni­cam em um mes­mo traço. E é no cam­in­ho que per­corre esse traço que está o novo.

  • Amantes Eternos (2013), de Jim Jarmusch | Crítica

    Amantes Eternos (2013), de Jim Jarmusch | Crítica

    amantes-eternos-2013-de-jim-jarmusch-critica-posterSer imor­tal, ou pelo menos algo próx­i­mo a isso, é um dese­jo que inspi­ra muitas histórias e pesquisas, pas­san­do des­de abor­da­gens mais mís­ti­cas às mais tec­nológ­i­cas. Essa condição, além de ofer­e­cer várias pos­si­bil­i­dades, tam­bém lev­an­ta várias questões que são muitas vezes difí­ceis de se imag­i­nar dada a bre­v­i­dade de nos­so tem­po de vida. Como será que uma criatu­ra per­pé­tua se sen­tiria em relação ao cam­in­har da história da humanidade? E uma relação amorosa que durasse sécu­los? Estes são os dois fios con­du­tores da tra­ma de “Amantes Eter­nos” (“Only Lovers Left Alive”, Inglaterra/Alemanha/Grécia, 2013), dirigi­do e escrito por Jim Jar­musch.

    Pas­san­do longe da ficção cien­tí­fi­ca para cri­ar tal condição, Jar­musch traz um novo olhar a criatu­ra imor­tal­iza­da (nos dois sen­ti­dos) por Bram Stok­er: o vam­piro. Antes que alguns torçam o nar­iz, não se tra­ta de mais uma adap­tação pueril ou uma des­cul­pa para colo­car pes­soas em colantes pre­tos lutan­do entre si ou com mon­stros em câmera lenta. “Amantes Eter­nos traz nova­mente os vam­piros para o seu auge nas telonas, assim como fez “Entre­vista com o Vam­piro” (1994), de Neil Jor­dan, basea­do na obra da escrito­ra Anne Rice. Só que des­ta vez, o con­fli­to prin­ci­pal não é uma crise exis­ten­cial con­si­go mes­mo, mas sim com a espé­cie humana em ger­al, aqui apel­i­da­da car­in­hosa­mente de zumbis.

    Tal crise tem seus motivos mais que óbvios. Afi­nal, deve ser depri­mente ver, e as vezes tam­bém con­viv­er, com várias mentes bril­hantes que são igno­radas e até mor­tas por con­ta de suas ideias rev­olu­cionárias, para somente depois de décadas, serem final­mente escu­tadas, mes­mo que ape­nas par­cial­mente. Jun­tan­do isso a todo o con­hec­i­men­to que esta pes­soa iria acu­mu­lar durante sécu­los, cria-se uma situ­ação no mín­i­mo desan­i­mado­ra. Os dois per­son­agens prin­ci­pais de “Amantes Eter­nos são extrema­mente cul­tos, sem­pre lem­bran­do de seus ami­gos do pas­sa­do (Schu­bert, Gus­tave Flaubert, Shake­speare…) como se ontem hou­vessem con­ver­sa­do. Por con­ta dis­so, se tor­nam até meios esnobes, mas nun­ca sendo pedantes e sem­pre com um óti­mo sen­so de humor nas suas refer­ên­cias e brincadeiras.

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    Para sobre­viv­er todo esse tem­po, além da con­stante mudança de local, há algo ain­da mais impor­tante a ser preza­do: o anon­i­ma­to. Afi­nal, seria difí­cil, para não diz­er impos­sív­el, escon­der a “imor­tal­i­dade” sob qual­quer tipo de holo­fote. Ou seja, nada de virar astros de rock ou vig­i­lantes noturnos. Faz­er isso seria como se inti­t­u­lar “agente secre­to” quan­do todos sabem que seu nome é James Bond e que você é o 007. Mas voltan­do ao assun­to do lon­ga em questão… Adam vive em Detroit, uma cidade nos Esta­dos Unidos que atual­mente está prati­ca­mente aban­don­a­da, ten­do declar­a­do con­cor­da­ta no ano pas­sa­do. Com certeza um dos mel­hores lugares para alguém se escon­der atual­mente no EUA.

    Em “Amantes Eter­nos, acom­pan­hamos o casal Adam (Tom Hid­dle­ston, o óti­mo Loki de “Thor”), um músi­co ávi­do e genial, e Eve (Til­da Swin­ton, a imor­tal “Orlan­do”), uma amante da lit­er­atu­ra, ten­tan­do sobre­viv­er no mun­do atu­al. Mas a com­posição de músi­cas já não con­segue mais mas­carar a insat­is­fação de Adam em relação a vida e a humanidade e Eve vai vis­itá-lo para ajudá-lo nes­ta crise. Falan­do em músi­ca, a tril­ha sono­ra é um dos grandes destaques do lon­ga, sendo bas­tante som­bria mas ao mes­mo tem­po sedu­to­ra, um ver­dadeiro post-rock vampiresco.

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    Com uma fotografia bem som­bria, o filme se pas­sa quase todo em ambi­entes fecha­dos e mal ilu­mi­na­dos, sem­pre a noite é claro. Este foi o primeiro lon­ga fil­ma­do dig­i­tal­mente por Jar­musch, que tem sérias restrições a respeito desse for­ma­to por não pos­suir, segun­do ele, uma qual­i­dade boa para áreas aber­tas e com mui­ta ilu­mi­nação. Mas como neste lon­ga não há nada dis­so, acabou se adap­tan­do per­feita­mente a estas lim­i­tações. Out­ra curiosi­dade inter­es­sante é que den­tro do set de fil­ma­gens, não era toca­da nen­hu­ma músi­ca, foi ape­nas dis­tribuí­do um mix­tape entre a equipe.

    Para con­diz­er com todo o dis­cur­so da anon­im­i­dade e con­hec­i­men­to sec­u­lar dos per­son­agens, ess­es vam­piros não pos­suem visual­mente nada de extra­vante, ten­do ape­nas como difer­en­cial um cabe­lo bem ani­male­sco (que foi cri­a­do mis­tu­ran­do a par­tir da mis­tu­ra de cabe­lo humano com pêlo de cabra e iaque). O lon­ga tam­bém brin­ca com várias das con­cepções a respeito dess­es seres da noite, prin­ci­pal­mente com a maneira que eles se ali­men­tam, que é sen­sa­cional. Out­ro detal­he inter­es­sante está rela­ciona­do com a intro­dução de um novo, con­ce­bido pelo próprio dire­tor, para car­ac­ter­izá-los. Vamos ver se você percebe ou perce­beu qual é ele.

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    Resu­min­do em pou­cas palavras: se você gos­ta de filmes inteligentes e fica intri­ga­do com as pos­si­bil­i­dades de per­pé­tu­os sug­adores de sangue, é bem prováv­el que fique com­ple­ta­mente seduzi­do por “Amantes Eter­nos.

  • Bicho de Sete Cabeças (2001): Reflexos Roubados | Análise

    Bicho de Sete Cabeças (2001): Reflexos Roubados | Análise

    O bura­co do espel­ho está fecha­do, ago­ra eu ten­ho que ficar ago­ra. Fui pelo aban­dono aban­don­a­do, aqui den­tro do lado de fora.

    bicho-de-sete-cabecas-2001-reflexos-roubados-analise-posterO tre­cho aci­ma faz parte da músi­ca “O Bura­co do Espel­ho”, do can­tor e com­pos­i­tor brasileiro Arnal­do Antunes. A canção inte­gra a tril­ha sono­ra do filme “Bicho de Sete Cabeças” (2001), um retra­to duro, áci­do e humana­mente cru­el sobre a real­i­dade viven­ci­a­da pelos inter­nos de hos­pi­tais psiquiátri­cos. Dirigi­do pela cineas­ta Laís Bodanzky e com roteiro de Luiz Bolog­ne­si, “Bicho de Sete Cabeças” nar­ra a história de um jovem inter­na­do pelo pai em um man­icômio depois de ter sido fla­gra­do com cig­a­r­ros de macon­ha. O enre­do foi basea­do no livro “Can­to dos Malditos”, uma auto­bi­ografia de Aus­tregési­lo Car­ra­no Bueno (1957–2008), ex-inter­no de uma insti­tu­ição man­i­co­mi­al e, como muitos out­ros, víti­ma dos abu­sos, espan­ca­men­tos e tor­turas comu­mente prat­i­ca­dos nesse tipo de lugar.

    No lon­ga-metragem, Neto (pro­tag­on­i­za­do pelo ator Rodri­go San­toro) é um jovem de classe média baixa que vive con­fli­tos famil­iares por não se enquadrar no padrão de com­por­ta­men­to social­mente aceito, irri­tan­do espe­cial­mente seu pai (vivi­do por Oth­on Bas­tos). Atrav­es­san­do uma fase asso­ci­a­da à rebel­dia, Neto gos­ta de andar de skate, pichar muros, usar brin­cos e cabe­los com­pri­dos, fato que a figu­ra pater­na não acei­ta e oprime. A ausên­cia de diál­o­go e a repressão desme­di­da resul­tam no estremec­i­men­to da comu­ni­cação entre pai e fil­ho, levan­do-os à con­stante tro­ca de acusações e rompantes de agres­sivi­dade. A con­tínua ten­são e descon­fi­ança faz com que Wil­son, pai de Neto, deci­da internar o fil­ho em um hos­pí­cio depois de encon­trar cig­a­r­ros de macon­ha entre os per­tences do rapaz. A par­tir desse momen­to, a vida de Neto trans­for­ma-se em um ver­dadeiro abis­mo esque­ci­do den­tro do inferno.

    Encar­cer­a­do con­tra sua von­tade, o jovem tam­bém é igno­ra­do pelo psiquia­tra da insti­tu­ição, profis­sion­al que rara­mente aparece no lugar e cuja úni­ca pre­ocu­pação é con­seguir finan­cia­men­to, ain­da que isso sig­nifique cap­turar e internar pes­soas indis­crim­i­nada­mente. O padec­i­men­to de Neto e dos out­ros inter­nos ocorre das mais difer­entes for­mas, seja por meio de dro­gas anestési­cas e de sub­stân­cias como o metil­fenida­to, con­heci­do como “sossega leão”; ou da tor­tu­rante “camisa de força”, colete que apri­siona os mem­bros supe­ri­ores; bem como através de trata­men­tos com Eletro­con­vul­soter­apia (ECT), pop­u­lar­mente chama­dos de eletro­choques. Além dos tor­men­tos físi­cos, os “pacientes-pri­sioneiros” são humil­ha­dos, hos­tiliza­dos, bar­bariza­dos e esque­ci­dos, sofren­do forte coação de médi­cos e enfer­meiros, e sentin­do a indifer­ença e pre­con­ceito vin­dos da própria família. São seres humanos estigma­ti­za­dos, coisi­fi­ca­dos e trans­for­ma­dos em per­son­agens invisíveis, per­den­do sua liber­dade, dig­nidade, autono­mia e subjetividade.

    Autobiografia de Austregésilo Carrano Bueno
    Auto­bi­ografia de Aus­tregési­lo Car­ra­no Bueno

    A cica­triz da inter­nação psiquiátri­ca cobra seu preço, e mes­mo depois de lib­er­a­do, Neto não con­segue se adap­tar ao mod­e­lo impos­to pela sociedade e pela família, e é nova­mente encar­cer­a­do no hos­pí­cio. O rapaz só con­segue sair após incen­di­ar a cela em que está e, final­mente, chamar a atenção do pai. No des­fe­cho do filme, acom­pan­hamos Neto envel­he­ci­do pelo sofri­men­to e pela dor. Depois de tudo o que enfren­tou, o rapaz trans­for­ma-se em uma som­bra de si mes­mo, angus­ti­a­do como o quadro “O gri­to” (1893), de Edvard Munch; des­en­can­ta­do como o gri­to de ‘Nun­ca mais’, do poe­ma “O Cor­vo” (1845), de Edgar Allan Poe, e abati­do como as com­posições der­radeiras do com­pos­i­tor clás­si­co alemão Robert Schu­mann.

    Pre­mi­a­do em fes­ti­vais nacionais e inter­na­cionais, “Bicho de Sete Cabeças” pos­sui uma atmos­fera que com­bi­na cin­e­matográ­fi­co e doc­u­men­tal, evi­den­ci­a­da pela nat­u­ral­i­dade dos diál­o­gos e atu­ação dos atores. O tema tam­bém for­t­alece a luta anti­man­i­co­mi­al ao apon­tar a dor e a desin­te­gração encon­tradas em espaços que con­tro­lam e reprimem para — toman­do de emprés­ti­mo a expressão cun­ha­da pelo filó­so­fo e pesquisador francês Michel Fou­cault — trans­for­mar sub­je­tivi­dades humanas em “cor­pos dis­ci­plina­dos, cor­pos dóceis”. Por não faz­er parte do enquadra­men­to social e com­por­ta­men­to impos­to pelas redes micro­bianas de poder, Neto foi apri­sion­a­do, cas­ti­ga­do e sub­meti­do a mecan­is­mos de remodelação.

    Cena do filme “Bicho de Sete Cabeças”
    Cena do filme “Bicho de Sete Cabeças”

    Situ­ações como as do pro­tag­o­nista do filme — de não adap­tação aos parâmet­ros esta­b­ele­ci­dos — tam­bém fiz­er­am com que muitas mul­heres fos­sem sen­ten­ci­adas à inter­nação em insti­tu­ições asi­lares, como o Hos­pí­cio do Juquery. O estu­do detal­ha­do de Maria Clementi­na Pereira Cun­ha em livros (O espel­ho do mun­do. Juquery, a história de um asi­lo – 1986), arti­gos (De his­to­ri­ado­ras, brasileiras e escan­di­navas: Lou­curas, folias e relações de gêneros no Brasil (sécu­lo XIX e iní­cio do XX)) e pesquisas mostra que a imposição de padrões ditos nor­mais para o com­por­ta­men­to fem­i­ni­no exer­cia papel deci­si­vo na inter­nação psiquiátri­ca. Assim como a per­son­agem do filme “Bicho de Sete Cabeças”, as mul­heres que estavam fora do padrão social esper­a­do eram con­sid­er­adas inad­e­quadas e, dessa for­ma, obri­gadas à cor­reção exemplar.

    “O grito” (1893), de Edvard Munch
    “O gri­to” (1893), de Edvard Munch

    A imposição do padrão de nor­mal­i­dade, difun­di­da com toda força pelos dis­cur­sos de natureza médi­ca de menos de um sécu­lo atrás, foi uti­liza­da den­tro dos hos­pi­tais psiquiátri­cos para jus­ti­ficar inter­nações e ações arbi­trárias. Além do grupo fem­i­ni­no, os demais mar­gin­al­iza­dos – pes­soas pobres, mis­eráveis, moradores de cor­tiços, operários, mendi­gos e todos os que sub­ver­ti­am a ordem esta­b­ele­ci­da – eram con­sid­er­a­dos propen­sos à devas­sidão, per­ver­são, lou­cu­ra e criminalidade.

    Out­ro pon­to inter­es­sante dev­i­da­mente rep­re­sen­ta­do no lon­ga-metragem de Laís Bodanzky diz respeito à figu­ra do psiquia­tra como autori­dade com­pe­tente, ates­ta­da cien­tifi­ca­mente para pro­duzir dis­cur­sos autor­iza­dos. No iní­cio de sua inter­nação, Neto ques­tiona enfer­meiros sobre o fato de estar ali, afir­man­do que eles não pode­ri­am man­tê-lo inter­na­do, pois não esta­va doente. Um dos enfer­meiros afir­ma a Neto que os pais do jovem já tin­ham con­ver­sa­do com o médi­co e expli­ca­do toda a situ­ação. No pron­tuário de Neto con­sta­va que ele era um rapaz “agres­si­vo, rebelde, que não respeita­va seus pais, mes­mo ten­do muito amor e diál­o­go em casa”, ou seja, o jovem já esta­va ficha­do e rotu­la­do assim que entrou no hos­pí­cio, e nada do que dissesse ou fizesse mod­i­fi­caria ou aten­uar­ia sua situ­ação. Neto perdeu a autono­mia, sua capaci­dade de decidir e sua liber­dade de ir e vir. Como expres­sa Alfre­do Naf­fah Neto em arti­go inti­t­u­la­do ‘O estig­ma da lou­cu­ra e a per­da da autono­mia’:

    Des­de o instante em que o estig­ma da lou­cu­ra lhe foi imputa­do, é como se no lugar do sujeito apare­cesse a doença men­tal; então, o dis­cur­so e as ações expres­sas pelo louco ces­sam de sig­nificar em si próprias, tor­nan­do-se ape­nas sin­tomas da doença.

    Hospício de Barbacena (MG)
    Hos­pí­cio de Bar­ba­ce­na (MG)

    Dessa for­ma, aque­les que são mar­ca­dos com o estig­ma da lou­cu­ra são con­sid­er­a­dos inca­pazes – jurídi­ca, social e emo­cional­mente – de decidir sobre o seu próprio des­ti­no. Nas palavras de Naf­fah Neto: “O louco é trans­for­ma­do num fan­toche que deve ser manip­u­la­do pelo poder/saber médi­co”. Na lit­er­atu­ra, o poder dis­cricionário das autori­dades médi­cas, “cien­tí­fi­cas e com­pe­tentes”, pode ser obser­va­do no con­to “Só vim tele­fonar”, do autor colom­biano Gabriel Gar­cía Márquez, e no con­to-nov­ela “O Alienista”, do escritor brasileiro Macha­do de Assis. De difer­entes maneiras, ambos tratam de ques­tionar a visão do saber médi­co como dis­cur­so incon­testáv­el, capaz de manip­u­lar, sub­ju­gar e aniquilar iden­ti­dades. Tan­to o hos­pí­cio como a prisão atu­am como insti­tu­ições de dis­ci­plina e con­t­role, crian­do novas modal­i­dades de fis­cal­iza­ção e domínio jus­ti­fi­cadas pela legit­im­i­dade científica.

    Rodrigo Santoro em  “Bicho de Sete Cabeças” (Foto: Marlene Bérgamo)
    Rodri­go San­toro em “Bicho de Sete Cabeças” (Foto: Mar­lene Bérgamo)

    Em arti­go inti­t­u­la­do “Lou­cu­ra e Crim­i­nal­i­dade: Desven­dan­do os mis­térios das moral­i­dades anô­malas”, Felipe da Cun­ha Lopes e Íta­lo Cris­tiano Sil­va e Souza dis­cor­rem sobre a asso­ci­ação entre lou­cu­ra e crim­i­nal­i­dade fei­ta pelo dis­cur­so médi­co teresinense entre as décadas de 1870 e final da déca­da de 1930. Segun­do o arti­go, os arti­c­ulis­tas que escrevi­am para jor­nais piauiens­es da época asso­ci­avam lou­cu­ra à práti­ca de crimes, ale­gan­do a existên­cia da insanidade em crim­i­nosos e da crim­i­nal­i­dade em loucos (basea­d­os na teo­ria da degenerescên­cia). Com base nes­sa ideia, percebe-se a “prob­lema­ti­za­ção da lou­cu­ra em função da vir­tu­al­i­dade crim­i­nosa”. Os autores do arti­go lem­bram que “(…) a psiquia­tria foi uma das prin­ci­pais fer­ra­men­tas uti­lizadas para jus­ti­ficar e elab­o­rar estraté­gias de con­t­role e trans­for­mação do com­por­ta­men­to do homem em sociedade”. Assim, a med­i­c­i­na trans­for­mou-se em fer­ra­men­ta indis­pen­sáv­el para man­ter dis­pos­i­tivos de con­t­role social.

    Hospício de Barbacena (MG)
    Hos­pí­cio de Bar­ba­ce­na (MG)

    O regime de ver­dade e a imposição de uma supos­ta nor­mal­i­dade exigem trib­u­tos caros; preço que é pago a sangue e alma por um número ines­timáv­el de pes­soas que foram e con­tin­u­am sendo excluí­das, tran­cafi­adas e esque­ci­das. Os exem­p­los de desre­speito e invis­i­bil­i­dade extrap­o­lam pági­nas de livros e dados de pesquisas. Eles estão mar­ca­dos no coração dos sobre­viventes do Hos­pí­cio de Bar­ba­ce­na (MG), do Juquery e muitas out­ras insti­tu­ições de con­t­role e domínio.

  • Dogville (2003): Imaginário e símbolos de apreensão do real | Análise

    Dogville (2003): Imaginário e símbolos de apreensão do real | Análise

    dogville-analise-posterE a rachadu­ra na xícara de chá abre uma tril­ha para a ter­ra dos mor­tos”, escreveu o poeta W.H Auden. Partin­do dessa imagem, percebe­mos uma alame­da silen­ciosa e intrin­ca­da de caos, dúvi­das e inse­gu­ranças invadin­do o rotineiro e con­fortáv­el espaço social, per­son­ifi­ca­do pela figu­ra de uma xícara de chá. Um tipo de invasão sem vol­ta, pois pen­e­tra no esta­do de espíri­to de um grupo, nação ou comu­nidade, desnudan­do sim­u­lações e fazen­do cair más­caras. Esse é o cenário esboça­do pelo filme Dogville (2003), dirigi­do pelo dire­tor dina­mar­quês Lars von Tri­er, e cuja temáti­ca será obje­to de mapea­men­to, reflexão e análise no que con­cerne ao imag­inário mate­r­i­al da cidade e dos per­son­agens fictícios.

    A história do lon­ga-metragem se pas­sa em uma vila chama­da Dogville, habita­da por pes­soas sim­ples, com anseios modestos e sem per­spec­ti­vas de mudança. Situ­a­do entre mon­tan­has, o vilare­jo tem pouquís­si­mo con­ta­to com o mun­do exte­ri­or, isolan­do os moradores aos lim­ites do lugar. A roti­na mecan­iza­da de Dogville reflete em uma comu­nidade aco­moda­da, sem capaci­dade cria­ti­va e com­ple­ta­mente entor­peci­da. Um de seus moradores, o aspi­rante a escritor Tom Edi­son (inter­pre­ta­do pelo ator Paul Bet­tany), avo­ca para si a autori­dade de “líder-comu­nitário” e ten­ta inserir novas ideias e dis­cussões no seio da comunidade.

    Em um dado momen­to, a empoeira­da vila é toma­da de assalto pela pre­sença de Grace (vivi­da pela atriz Nicole Kid­man), forasteira que chega furtiva­mente à Dogville. Tom é o primeiro a ter con­ta­to com Grace, interce­den­do por ela per­ante os out­ros mem­bros do grupo. Depois de uma assem­bleia, fica deci­di­do que Grace terá duas sem­anas para con­quis­tar a con­fi­ança do povoa­do e, sug­es­tion­a­da por Tom, a forasteira decide ofer­e­cer sua aju­da aos habitantes.

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    A “rachadu­ra na xícara”, ini­ci­a­da com o aparec­i­men­to de Grace, se estende durante toda a sequên­cia do filme, divi­di­do em nove capí­tu­los. No decor­rer da tra­ma, mudanças sub­stan­ci­ais acon­te­cem no pequeno vilare­jo e o ar de feli­ci­dade idíli­ca dá lugar à nuvem de fumaça den­sa, fúne­bre e tene­brosa. A pop­u­lação de Dogville começa mostran­do medo e descon­fi­ança em relação à per­manên­cia de Grace na cidade, mod­i­f­i­can­do o pen­sa­men­to pouco depois, já que todos os quinze habi­tantes estavam sendo ben­e­fi­ci­a­dos pelo tra­bal­ho da forasteira. O enre­do segue até rev­e­lar a ver­dadeira face de Dogville: de ami­gos acol­he­do­res, os habi­tantes pas­sam a predadores vorazes, tratan­do Grace como obje­to, esma­gan­do sua iden­ti­dade, desumanizando‑a.

    Para enten­der como se dá a con­strução do imag­inário mate­r­i­al da cidade e de seus habi­tantes, cabe destacar a apos­ta do dire­tor Lars von Tri­er em um esti­lo cin­e­matográ­fi­co híbri­do, em que fig­u­ram ele­men­tos teatrais e literários. Com essa mis­tu­ra, as noções de real e irre­al se entre­laçam e sub­vertem os mod­e­los padrões, alteran­do tam­bém a per­cepção de ver­dadeiro e fal­so. O lon­ga-metragem apre­sen­ta car­ac­terís­ti­cas do teatro grego (insti­ga o dese­jo do espec­ta­dor pela vio­lên­cia crua), teatro do absur­do (inter­ação dos atores com obje­tos imag­inários), bem como a ausên­cia de fun­do musi­cal. Out­ro fator deci­si­vo na con­strução do filme é a uti­liza­ção de cenários desta­ca­dos no chão, mar­can­do a pre­sença de cada habi­tante no ambi­ente um do out­ro, e o uso de pare­des pre­tas (teatro caixa-pre­ta), val­orizan­do assim um for­ma­to mais intimista, volta­do à dra­mati­ci­dade e tensão.

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    A fal­ta de “dis­trações cêni­cas” per­mite que o espec­ta­dor con­cen­tre a atenção nas relações que se embaraçam e desem­baraçam na cadeia dos acon­tec­i­men­tos. Dessa for­ma, obser­va-se a con­strução de Dogville como uma cidade para­da no tem­po, víti­ma de sua própria amar­gu­ra e solidão. A cul­tura da repetição, medioc­ridade e imutabil­i­dade toma con­ta do pequeno espaço, afo­gan­do os moradores em uma espé­cie de tor­por cego. Pre­sos em ideias fixas, eles não con­seguem enx­er­gar além dos seus próprios muros, e mes­mo inte­gran­do o todo — rep­re­sen­ta­do pelo espaço comu­nitário — os mem­bros de Dogville não se recon­hecem como indivíduos.

    Os moradores per­dem a maior parte das horas do dia em suas ativi­dades cotid­i­anas, cuja úni­ca ori­en­tação vem do bada­lo monocór­dio do sino da igre­ja, admin­istra­do por uma habi­tante da vila, já que nen­hum padre jamais apare­ceu no local. Den­tre os habi­tantes, estão casais infe­lizes e apáti­cos (Chuck e Vera), pais que não sabem amar e edu­car os fil­hos; fab­ri­cantes de obje­tos e pro­du­tos sem qual­i­dade, mas que logram em cima da comu­nidade através de preços exor­bi­tantes (família Hen­son e sen­ho­ra Gin­ger); home­ns hipocon­dría­cos ou que se recusam a aceitar a enfer­mi­dade (dois extremos, rep­re­sen­ta­dos pelo ex-médi­co Thomas Edi­son, pai do autoin­ti­t­u­la­do escritor Tom, e o irascív­el cego McK­ay); além do trans­porta­dor de car­ga (Ben) que fre­quen­ta prostíbu­los e ten­ta escon­der o fato por ver­gonha, e a fax­ineira solitária e sua fil­ha deficiente.

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    Em um primeiro momen­to, a inér­cia bucóli­ca do lugar encan­ta Grace que, cansa­da de fugir de supos­ta máfia, faz tudo para per­manecer no local. Quan­do os habi­tantes de Dogville percebem o poder que exercem sobre Grace, apelando para o medo que a descon­heci­da tem de ser entregue à polí­cia ou aos mafiosos, há uma rup­tura grada­ti­va no modo de trata­men­to. De “recém-inte­grante” do espaço comu­nitário, a forasteira se trans­for­ma em escra­va físi­ca e sex­u­al, sendo explo­ra­da de todas as maneiras possíveis.

    A par­tir desse pon­to, Dogville começa a se con­struí­da como “cidade do cão”, onde pes­soas agem por instin­to ani­male­sco de poder e con­t­role, forçan­do Grace a ser um de seus obje­tos. Toda a mesquin­haria da cidade é camu­fla­da pela afir­mação medonha dos habi­tantes de que “só quer­e­mos o seu bem” ou “não gostaríamos de faz­er isso com você”, rep­re­sen­tan­do a imagem do algoz que açoi­ta e fla­gela, ale­gan­do que o faz pela graça de Deus e bem de toda a humanidade (vide a bar­bárie per­pe­tra­da pela San­ta Inquisição con­tra supos­tos hereges e o con­tín­uo mas­sacre étni­co e reli­gioso cometi­do nas ter­ras do Ori­ente Médio, por exemplo).

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    O ide­al con­ser­vador, tradi­cional­ista e paca­to da cidade camu­fla o medo da mudança que asso­la o ínti­mo dos moradores, deixan­do-os capazes de qual­quer sel­vage­ria para con­ser­var a atmos­fera inerte e o comod­is­mo. No imag­inário dos moradores de Dogville, a cidade fun­ciona per­feita­mente bem, integra­da por ideais democráti­cos e solidários de manutenção de val­ores tradi­cionais e famil­iares. Mas com a chega­da de Grace, o espec­ta­dor começa a acom­pan­har o declínio moral e social da vila; ruí­nas que estavam escon­di­das na cegueira da cidade, em sua natureza amor­fa e imutável.

    Ao pen­e­trar no nevoeiro que é a “cidade do cão”, Grace trans­for­ma-se no dedo em riste, uma espé­cie de ques­tion­a­men­to vivo às ima­gens con­struí­das sobre a vila e seus habi­tantes. As certezas de Tom Edi­son começam a ser removi­das, rev­e­lando ao próprio “escritor” que a últi­ma coisa que ele gostaria que acon­te­cesse era pas­sar por mudanças ou con­frontar sua vida. Por out­ro lado, Grace pro­va através de suas ações e reações diante de todas as bru­tal­i­dades das quais é víti­ma que “não estar mor­to não é estar vivo”, como disse o poeta e ensaís­ta E.E Cum­mings. A cria­tivi­dade e humanidade da jovem forasteira lem­bram à Dogville como a vila é peque­na em espíri­to, lim­i­ta­da geografi­ca­mente, tran­cafi­a­da em um mosaico de roti­nas, per­feita­mente adap­ta­da e esta­bi­liza­da em situ­ações que sequer con­hece ou entende.

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    Com­preen­den­do o imag­inário como a cul­tura de um grupo, percebe-se a descon­strução das ima­gens de Dogville, desnudan­do o caráter tirâni­co de pes­soas catatôni­cas, inca­pazes de lidar com rup­turas. A vila imag­inária de Lars von Tri­er é um emble­ma das grandes cidades e sua “filosofia do absur­do”, onde a indi­vid­u­al­i­dade se perde no meio de relações super­fi­ci­ais e a sede do “poder de vida e de morte” afu­gen­ta sen­ti­men­tos, crian­do hierarquias.

    Para super­ar taman­ho des­gaste, Grace faz refer­ên­cia ao esto­icis­mo e sua éti­ca do “imper­tur­báv­el, extir­pação das paixões e aceitação res­ig­na­da do des­ti­no” como for­ma de atin­gir à sabedo­ria. Dores, sofri­men­tos e infortúnios são esque­ci­dos e per­son­ifi­ca­dos na imagem de uma mul­her doce, meiga, com voz açu­cara­da e capaz de supor­tar as adver­si­dades. A con­strução dessa imagem faz refer­ên­cia a aceitação da sociedade atu­al, silen­ciosa e cati­va, sub­ju­ga­da por “poderes microscópi­cos”, expressão cun­ha­da pelo pen­sador francês Michel Fou­cault, que dom­i­nam, mar­t­i­rizam e dev­as­tam sua existência.

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    Dogville remon­ta ima­gens do nos­so quadro social, assas­si­no de indi­vid­u­al­i­dades e toma­do por mesquin­harias. Como os habi­tantes desse pequeno povoa­do esque­ci­do, ali­men­ta­mos a ideia de que somos for­ma­dos por “justiça, igual­dade e frater­nidade”, escon­den­do o ros­to ao desumanizar e estigma­ti­zar o out­ro. A car­i­catu­ra do covarde per­son­agem Tom Edi­son mostra o lado intragáv­el do medo de encar­ar inse­gu­ranças e mudanças, da sub­mis­são a uma ordem social impos­ta, do ide­al de fetiche gregário e da ação instin­ti­va, com a bus­ca da sat­is­fação de neces­si­dades físi­cas e dos próprios interesses.

    Saturno devorando seu filho
    Sat­urno devo­ran­do seu filho

    O des­fe­cho do filme, trági­co e inten­so – a exem­p­lo da dra­matur­gia gre­ga -, apre­sen­ta ima­gens dicotômi­cas e míti­cas, pre­sentes no imag­inário social. Ini­cial­mente con­ce­bi­da como Prom­e­teu, titã mitológi­co que, guia­do pelo amor aos humanos, decide ensiná-los a civ­i­liza­ção e as artes e é amaldiçoa­do por Júpiter (Zeus), sendo sev­era­mente cas­ti­ga­do, Grace vai assu­min­do a for­ma do quadro de Goya (Sat­urno devo­ran­do seu fil­ho), e engole a cidade inteira, queimando‑a e trucidando‑a.

    Dogville é for­ma­da por sím­bo­los de apreen­são do real, emble­ma de ima­gens que são trans­for­madas em pes­soas, sen­ti­men­tos, situ­ações e coisas. Os per­son­agens da “cidade do cão” são metá­foras que unem obje­tivi­dade e sub­je­tivi­dade. Refle­tir sobre o imag­inário é com­preen­der sua importân­cia na con­strução da real­i­dade e na for­mação da iden­ti­dade humana, em toda sua inqui­etação e complexidade.

  • O Duplo (2012), de Juliana Rojas | Curta

    O Duplo (2012), de Juliana Rojas | Curta

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    A cineas­ta paulista Juliana Rojas tem con­quis­ta­do destaque no cenário cin­e­matográ­fi­co brasileiro com o cur­ta-metragem “O Dup­lo” (2012), tra­bal­ho pre­mi­a­do em Cannes e em diver­sos fes­ti­vais nacionais e estrangeiros. Na tra­ma, a pro­fes­so­ra Sil­via (Sab­ri­na Greve) é con­fronta­da com a imagem de seu dup­lo, uma espé­cie de clone soturno e neg­a­ti­vo, e entra em colap­so. A história toma por base o mito europeu con­heci­do como Dop­pel­gänger, que é con­sid­er­a­do um sinal nada aus­pi­cioso. Segun­do a len­da, quem vê seu dup­lo enfrenta o risco de maus pressá­gios e morte iminente.

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    A história do cur­ta foi basea­da em um depoi­men­to real sobre a aparição do Dop­pel­gänger, fato reg­istra­do no começo do filme e que dá o pon­tapé ini­cial para abrir as com­por­tas do uni­ver­so fan­tás­ti­co e das fábu­las de hor­ror, assi­natu­ra de Juliana. Assim como em “Lençol Bran­co” (2004) e “Um Ramo” (2007), tra­bal­hos pro­duzi­dos em parce­ria com o dire­tor Mar­co Dutra, a cineas­ta con­cil­ia com pre­cisão a triv­i­al­i­dade da vida de mul­heres que, abrup­ta­mente deses­ta­bi­lizadas, pre­cisam lidar de for­ma pavorosa com ele­men­tos sur­reais lig­a­dos ao macabro e à trans­for­mação físi­ca ou mental.

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    As ima­gens envel­he­ci­das e com tonal­i­dade mar­rom de “O Dup­lo” for­t­ale­cem a aura silen­ciosa e sin­is­tra que cer­ca a esco­la, espaço prin­ci­pal dos acon­tec­i­men­tos. Ao encar­ar o seu clone malig­no, os olhos da pro­fes­so­ra Sil­via gan­ham um bril­ho novo, algo que se move com a fero­ci­dade e carnific­i­na de um tubarão-bran­co. Há ele­men­tos de hor­ror e ten­são espal­ha­dos do começo ao fim dos vinte e cin­co min­u­tos do cur­ta, com destaque para a apoc­alíp­ti­ca cena em que a per­son­agem da atriz Gil­da Nomac­ce, pre­sença mar­cante nas pro­duções de Rojas, esti­ca e puxa o elás­ti­co de uma pas­ta de for­ma frenéti­ca e per­tur­bado­ra. Nestes poucos segun­dos que pare­cem durar uma eternidade, há a certeza abso­lu­ta do des­fe­cho trági­co. Sim­ples­mente fenomenal!

    O Dup­lo” faz emer­gir a qual­i­dade de um tra­bal­ho que explo­ra o ter­ror e o fan­tás­ti­co de for­ma con­sis­tente, dan­do força a um gênero ain­da pouco difun­di­do entre as pro­duções nacionais.

    Assista abaixo ao curta:

  • O Lobo de Wall Street (2013), de Martin Scorsese | Crítica

    O Lobo de Wall Street (2013), de Martin Scorsese | Crítica

    o-lobo-de-wall-street-2013-de-martin-scorsese-critica-1Con­sid­er­a­da como um dos setes peca­dos cap­i­tais, a ganân­cia é um sen­ti­men­to cuja origem está pro­fun­da­mente enraiza­da na nos­sa história como seres humanos. Sendo muito cul­tua­da em cer­tos cír­cu­los de negó­cios, a cobiça é muitas vezes vista como essen­cial para quem aspi­ra ser bem suce­di­do. “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, EUA, 2013), novo filme do reno­ma­do dire­tor Mar­tin Scors­ese, é uma odis­seia no mun­do de um grupo de cor­re­tores de Wall Street, onde a ambição desme­di­da impera sem qual­quer restrições.

    Basea­do na vida do cor­re­tor Jor­dan Belfort (Leonar­do DiCaprio), cuja tra­jetória foi reple­ta de dro­gas, exces­sos e fraudes, acom­pan­hamos sua evolução de tra­bal­hador inocente vin­do de uma família pobre para mil­ionário dono de uma grande empre­sa. Jor­dan é um ver­dadeiro “self made man”, que vende sua tra­jetória como exem­p­lo da con­cretiza­ção do son­ho amer­i­cano. Afi­nal, segun­do ele, quem não quer ficar rico?

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    A super equipe de vende­dores de Belfort

    Suas com­petên­cias como vende­dor vão muito além da sua área de atu­ação, e seu prin­ci­pal pro­du­to é ele mes­mo. A plateia de Belfort não é for­ma­da só por seus clientes e fun­cionários, que muitas vezes o ado­ram quase como um deus, mas tam­bém pelo próprio espec­ta­dor do filme. Através de várias falas dire­ta­mente para câmera, Jor­dan não está só con­tan­do a sua história, mas vendendo‑a para você, crian­do sim­pa­tia e gan­han­do sua con­fi­ança. Ao mes­mo tem­po que suas ati­tudes são intol­eráveis, é difí­cil não sen­tir cer­ta fasci­nação por sua “sin­ceri­dade” e caris­ma. É um sen­ti­men­to muito pare­ci­do com aque­le cri­a­do por alguns dos per­son­agens prin­ci­pais do Woody Allen, que as vezes ele mes­mo inter­pre­ta, ao se jus­ti­ficar ao espec­ta­dor o seu com­por­ta­men­to egoís­ta e muitas vezes bizarro.

    As brincadeiras nada usuais dentro da empresa
    As brin­cadeiras nada usuais den­tro da empresa

    Falan­do em não usu­al, leia-se extrav­a­gante e as vezes até grotesco, esqueça total­mente o politi­ca­mente cor­re­to ao assi­s­tir “O Lobo de Wall Street”, pois um dos seus destaques é jus­ta­mente o humor negro, e as vezes de mau gos­to. Pre­con­ceitos, dro­gas, mas­tur­bação, sexo, … tudo é con­ta­to e mostra­do aber­ta­mente e sem cen­sura como se fos­se uma con­ver­sa entre dois ami­gos ínti­mos. Se você gos­tou de filmes como “TED” (2012) e “Super­bad: É Hoje” (2007), provavel­mente vai ado­rar este.

    O quase irreconhecível Leonardo DiCaprio como Leonardo DiCaprio
    O quase irrecon­hecív­el Leonar­do DiCaprio como Belfort

    Out­ro grande destaque do filme é seu exce­lente elen­co. Depois de faz­er dois papéis segui­dos de mil­ionário, no pés­si­mo “O Grande Gats­by” (2013) e no óti­mo “Djan­go Livre” (2012), Leonar­do DiCaprio está sen­sa­cional como o mag­na­ta Belfort, fican­do muitas vezes irrecon­hecív­el de tão envolve­do­ra que é sua atu­ação. Seu papel é quase como uma pos­sív­el mat­u­ração de seu out­ro per­son­agem, o Frank de “Pren­da-me se For Capaz” (2002). Mas ape­sar de já ter um port­fólio bem forte, este é seu sex­to tra­bal­ho com o dire­tor Scors­ese, DiCaprio ain­da não con­quis­tou nen­hum Oscar, fato que pode mudar este ano com sua indi­cação como mel­hor ator pelo papel, prin­ci­pal­mente por já ter lev­a­do o “Globo de Ouro” de 2014 na mes­ma cat­e­go­ria. “O Lobo de Wall Street” tam­bém está sendo indi­ca­do a mais qua­tro Oscars, o de mel­hor filme, dire­tor, ator coad­ju­vante (o exce­lente Jon­ah Hill) e roteiro adaptado.

    Margot Robbie, Leonardo DiCaprio e o diretor Martin Scorsese
    Mar­got Rob­bie, Leonar­do DiCaprio e o dire­tor Mar­tin Scorsese

    Uma curiosi­dade inter­es­sante a respeito des­ta pro­dução é que o ver­dadeiro Jor­dan Belfort ain­da está vivo e foi bas­tante con­sul­ta­do durante a pro­dução do filme. Além de ter pas­sa­do um tem­po jun­to com Belfort durante a preparação para o papel, DiCaprio tam­bém o con­sul­ta­va quan­do tin­ha algu­ma dúvi­da durante as fil­ma­gens. Segun­do o ator, Jor­dan é bem aber­to a respeito des­ta sua fase mais obscu­ra, não ten­do prob­le­ma de falar sobre ela, inclu­sive em público.

    Quase um deus perante seus funcionários
    Quase um deus per­ante seus funcionários

    Com três horas de duração, “O Lobo de Wall Street” con­segue explo­rar bem a sua história e per­son­agens, tudo se desen­volve de for­ma tão nat­ur­al que você quase não percebe o tem­po pas­san­do. A não lin­eari­dade da nar­ra­ti­va cria um rit­mo bem dinâmi­co, não apelando para flash­backs ou cortes muito rápi­dos demais somente para envolver o espec­ta­dor em seu enre­do. Sua car­ga dramáti­ca é muito bem bal­ancea­da com o seu humor, mas ape­sar de engraça­do não clas­si­fi­caria como comé­dia. Ao final do filme fica ape­nas uma grande questão: como você me vende­ria uma caneta?

    Assista o trail­er leg­en­da­do abaixo:

    Veja tam­bém o makin off dos efeitos especiais:

  • Nascidos em Bordéis (2004), de Zana Briski e Ross Kauffman

    Nascidos em Bordéis (2004), de Zana Briski e Ross Kauffman

    A diretora Zana Briski
    A fotó­grafa Zana Briski

    Zana Bris­ki, fotó­grafa e ativista, é auto­ra do tocante doc­u­men­tário “Nasci­dos em Bor­déis” (Born into Broth­els: Cal­cut­ta’s Red Light Kids, 2004), dirigi­do por ela e pelo pro­du­tor Ross Kauff­man, traduzin­do a panorâmi­ca vivi­da pelas cri­anças do bair­ro da Luz Ver­mel­ha, em Calcutá.

    Fru­tos de um arcabouço social tira­no (pro­movi­do pelo sis­tema de cas­tas), meni­nos e meni­nas são sub­meti­dos à condições sub-humanas de sobre­vivên­cia, con­viven­do diari­a­mente com a vio­lên­cia, ali­men­tação precária, fal­ta de sanea­men­to bási­co, ausên­cia edu­ca­cional e, prin­ci­pal­mente, a mor­tal­ha da deses­per­ança. A pros­ti­tu­ição e o uni­ver­so crim­i­noso pare­cem ser as úni­cas her­anças que os pais podem deixar aos filhos.

    Diante desse caos, Zana del­e­ga todas as forças que pos­sui na bus­ca de novas per­spec­ti­vas para essa situ­ação. Min­is­tra aulas de fotografia para as cri­anças, dan­do margem ao mar­avil­hoso mun­do da expressão. É emo­cio­nante obser­var o desen­volvi­men­to de cada uma delas e a feli­ci­dade em, ao menos, son­har com um futuro difer­ente. Acom­pan­han­do essas mudanças, a fotó­grafa — jun­ta­mente com seu par­ceiro Ross Kauff­man — luta frente às autori­dades locais para pro­por­cionar uma chance, uma opor­tu­nidade de vida mel­hor para os nasci­dos em bordéis.

    Crianças que Zana acompanhou
    Cri­anças que Zana acompanhou

    Após vencer a buro­c­ra­cia exac­er­ba­da e pre­con­ceitos diver­sos, os resul­ta­dos começaram a apare­cer tim­i­da­mente. Um dos meni­nos é escol­hi­do para – em out­ro país — ser o rep­re­sen­tante vivo do tra­bal­ho desen­volvi­do por Bris­ki. Algu­mas das meni­nas são aceitas para estu­dar em inter­natos. No fim do doc­u­men­tário, é apre­sen­ta­do o que ocor­reu a cada uma das cri­anças. Infe­liz­mente, ape­nas duas con­seguiram prosseguir lutan­do pelo alcance dos seus son­hos. Fatores soci­ais, famil­iares e força de von­tade assi­nalaram esse final.

    O tra­bal­ho de Zana Bris­ki foi muito mais do que inter­venção social. Foi (e con­tin­ua sendo) a práx­is do dita­do que pro­fe­ti­za: “A fotografia se faz com o peito, e não com uma câmera”.

    Você não pode usar sua câmera como um escu­do con­tra o sofri­men­to humano.

    Zana Bris­ki

  • Fotógrafo de Guerra (2001), de Christian Frei

    Fotógrafo de Guerra (2001), de Christian Frei

    James-Natchwey-Kosovo

    O olho do homem serve de fotografia ao invisív­el, como o ouvi­do serve de eco ao silêncio.

    Macha­do de Assis

    A fotografia con­quis­tou espaço como um dos maiores fenô­menos comu­ni­ca­cionais da humanidade. A téc­ni­ca da “cap­tação de ima­gens por meio de uma exposição lumi­nosa” vem sendo uti­liza­da de difer­entes for­mas no decor­rer do seu proces­so históri­co, começan­do por meio de méto­dos analógi­cos até alcançar as ino­vações da fotografia dig­i­tal, pro­por­cionadas pelo avanço tecnológico.

    Reg­is­trar um momen­to feliz, guardar uma fonte históri­ca, denun­ciar acon­tec­i­men­tos, ante­ci­par tragé­dias, cri­ar memórias, remod­e­lar son­hos e difundir ideias são algu­mas das inúmeras for­mas pelas quais a fotografia se faz pre­sente. Den­tro desse con­ceito, exis­tem aque­les que uti­lizam a fotografia como meio para trans­for­mar uma real­i­dade, recon­stru­ir vidas. É exata­mente o que faz o fotó­grafo James Nachtwey.

    Retrato do fotógrafo James Nachtwey
    Retra­to do fotó­grafo James Nachtwey

    James Nachtwey tem ded­i­ca­do sua existên­cia aos reg­istros fotográ­fi­cos de guer­ras, con­fli­tos, mis­érias e desumanidades ao redor do plan­e­ta. Sua ativi­dade de luta e denún­cia con­tra a atu­al condição do homem pode ser apre­sen­ta­da através do doc­u­men­tário Fotó­grafo de Guer­ra (War Pho­tog­ra­ph­er, direção de Chris­t­ian Frei, 2001). Por meio da uti­liza­ção de micro-câmeras acopladas à câmera fotográ­fi­ca de Nachtwey, o dire­tor Chris­t­ian Frei tra­bal­hou em cima das ativi­dades real­izadas pelo fotojornalista.

    As fil­ma­gens ocor­reram nas zonas de con­fli­to do Koso­vo, Palesti­na e Indonésia, dan­do uma iden­ti­dade real à dor de cen­te­nas de pes­soas a par­tir do momen­to em que elas são retratadas em imagem, for­man­do um reg­istro silen­cioso. Era assim que o lúci­do doc­u­men­tarista exer­cia sua função social. Segun­do Nachtwey, é incon­ce­bív­el “per­mi­tir que a mis­éria humana con­tin­ue clan­des­ti­na”. Durante todo o doc­u­men­tário, o fotó­grafo dire­ciona sua ideia na exposição da real­i­dade, provan­do que existe uma grande respon­s­abil­i­dade por trás de cada movi­men­to do homem, seja intimista ou comunitário.

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    A per­son­al­i­dade silen­ciosa, tími­da e despren­di­da do fotó­grafo reforça a aut­en­ti­ci­dade de seu tra­bal­ho. Por estar próx­i­mo das víti­mas, parece com­par­til­har da mis­éria e do imen­so vazio que as dev­as­ta. James Nachtwey der­ru­ba o fal­so moral­is­mo que per­me­ia gov­er­nos e os mais altos pilares da sociedade ao retratar momen­tos chocantes, como a mãe que enter­ra o fil­ho viti­ma­do pela bar­bárie da guer­ra, ou quan­do um homem é bru­tal­mente assas­si­na­do por ter out­ra ide­olo­gia políti­ca. O fotó­grafo de guer­ra pres­en­cia comu­nidades inteiras assi­s­tirem com­ple­ta­mente impo­tentes ao estupro de suas mul­heres e ao esface­la­men­to de suas famílias, sim­ples­mente por per­tencerem à out­ra etnia. Toda essa dor é obser­va­da den­tro de um acor­do tác­i­to entre fotó­grafo e fotografa­do; um acor­do de coração e espíri­to. Fotó­grafo de Guer­ra é mais um daque­les doc­u­men­tários que jus­ti­fi­cam todo o sac­ri­fí­cio de um homem de ser maior do que sua própria dor.

    A cada min­u­to que eu esta­va lá, eu que­ria fugir.
    Eu não que­ria ver isso.
    Eu iria bater e cor­rer ou enfrentar
    a respon­s­abil­i­dade de estar lá com uma câmera?

    James Nachtwey

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=KQe2-nuDp‑E

  • Augustine (2012), de Alice Winocour

    Augustine (2012), de Alice Winocour

    Caça às Bruxas na Idade Média
    Caça às Bruxas na Idade Média

    A Idade Média, perío­do obtu­so da história da humanidade, con­tabi­liza um número grande de mul­heres con­de­nadas à fogueira ou enfor­ca­men­to por acusações como bruxaria, pos­sessão demonía­ca e pactos dia­bóli­cos. Sob a égide do “Não deixarás viv­er a feiti­ceira” (Êxo­do – Capí­tu­lo 22, Ver­sícu­lo 17), a San­ta Inquisição, “tri­bunal ecle­siás­ti­co cri­a­do com a final­i­dade de inves­ti­gar e punir crimes con­tra a fé católi­ca”, pro­moveu exe­cuções em mas­sa numa ensande­ci­da “caça às bruxas”. Com o apoio do livro “Malleus Malefi­carum” (algo como ‘Marte­lo das Bruxas’), pub­li­ca­do em mea­d­os de 1486, os inquisidores difun­di­am entre a pop­u­lação a existên­cia de supos­tos “méto­dos” para iden­ti­ficar, acusar e con­denar for­mal­mente uma bruxa.

    O man­u­al reli­gioso apon­ta a arte de manip­u­lar e con­tro­lar a sex­u­al­i­dade como uma das prin­ci­pais fontes de poder das feiti­ceiras, asso­cian­do o ato sex­u­al ao pacto car­nal entre mul­her e demônio. O sexo é apon­ta­do aqui como propul­sor da here­sia e blas­fêmia, dig­no de repul­sa e dom­i­nação. Com base nesse argu­men­to, muitas mul­heres foram con­sid­er­adas ‘ser­vas de Satã’ e lev­adas à morte sem qual­quer remor­so por parte dos algo­zes, ao apre­sentarem um quadro de insta­bil­i­dade emo­cional e alter­ação nos sin­tomas físi­cos, entre eles a per­tur­bação dos sen­ti­dos, par­al­isia, dores agu­das, con­trações, con­vul­sões, den­tre out­ros distúrbios.

    Une leçon clinique à la Salpêtrière - André Brouillet - 1887
    Une leçon clin­ique à la Salpêtrière — André Brouil­let — 1887

    Somente no final do sécu­lo XIX, com os estu­dos ini­ci­a­dos pelo neu­rol­o­gista e cien­tista francês Jean-Mar­tin Char­cot, pro­fes­sor de nomes que viraram refer­ên­cia, como Sig­mund Freud e William James, o ter­mo his­te­ria foi gan­han­do for­ma para definir o tipo de neu­rose respon­sáv­el por deter­mi­na­dos dis­túr­bios sen­so­ri­ais e motores, respon­sáveis por faz­erem com que as mul­heres afe­tadas perdessem o auto­con­t­role e entrassem em colapso.

    Jean-Mar­tin Char­cot ficou con­heci­do pelos exper­i­men­tos e estu­dos que real­iza­va na famosa clíni­ca psiquiátri­ca france­sa Pitié-Salpêtrière, onde rece­bia – e fotografa­va — pacientes em diver­sos esta­dos de insta­bil­i­dade men­tal. Uma dessas pacientes era Louise Augus­tine Gleizes, uma jovem diag­nos­ti­ca­da com histeria.

    Pôster do filme
    Pôster do filme

    Esse caso clíni­co-amoroso foi abor­da­do pela dire­to­ra france­sa Alice Winocour no dra­ma “Augus­tine” (2012), adap­tação efer­ves­cente que nar­ra a história de dese­jo, ambição acadêmi­ca, inves­ti­gação cien­tí­fi­ca e ardor sex­u­al entre o médi­co francês e a jovem paciente. No filme, Jean-Mar­tin Char­cot (inter­pre­ta­do por Vin­cent Lin­don), respeita­do e temi­do nas dependên­cias do Hos­pi­tal Salpêtrière, está às voltas com a recepção de sua pesquisa cien­tí­fi­ca pelo meio acadêmi­co e pela elite social, ten­do em vista que a boa reper­cussão con­ced­e­ria ao médi­co aumen­to de inves­ti­men­tos e maior vis­i­bil­i­dade. Em dado momen­to, chega ao hos­pi­tal a jovem Augus­tine, de 19 anos, viti­ma­da por uma forte crise con­vul­si­va e com o lado esquer­do par­al­isa­do, fato que ocor­reu em meio às ativi­dades domés­ti­cas real­izadas pela moça durante um jan­tar, na casa na qual era empregada.

    Augus­tine, inter­pre­ta­da pela can­to­ra pop-folk france­sa Stéphanie Sokolin­s­ki, con­heci­da como Soko, tor­na-se logo um caso emblemáti­co para Char­cot, deses­ta­bi­lizan­do a mente racional do médi­co ao exalar ingenuidade infan­til com luxúria ocul­ta. O filme todo é envolvi­do por uma atmos­fera neb­u­losa, uma espé­cie de ter­ror silen­cioso que Augus­tine traz nas feições, niti­da­mente góti­cas. Após a par­al­isia do lado esquer­do, oca­sion­a­da depois que Augus­tine vê carangue­jos vivos em ebu­lição na pan­ela, a jovem paciente é inva­di­da por uma nova onda de ter­ror quan­do pres­en­cia con­vul­sões de uma gal­in­ha decap­i­ta­da, trazen­do à tona seus ataques eróti­cos. Dessa vez, o olho dire­ito da jovem é abrup­ta­mente fechado.

    Imagem de divulgação do filme Augustine
    Imagem de divul­gação do filme Augustine

    Estu­dar os sin­tomas apre­sen­ta­dos por Augus­tine ren­o­va a eufo­ria de Char­cot, ali­men­tan­do a crença pes­soal de que ele está bem próx­i­mo de uma descober­ta cru­cial no cam­po da his­te­ria, ciên­cia que se propôs a inves­ti­gar. Ao lado das inves­ti­gações inter­nas real­izadas pelo médi­co no cor­po de Augus­tine, há tam­bém demon­strações públi­cas para acadêmi­cos e pesquisadores da área, onde sessões de hip­nose e colap­sos públi­cos dão efe­tivi­dade à teo­ria lev­an­ta­da pelo neurologista.

    Augus­tine é sub­meti­da a uma ver­dadeira pro­fusão de testes e obser­vações. A obsessão de Jean-Mar­tin Char­cot em fotogra­far suas pacientes tam­bém é apre­sen­ta­da no filme, com uma sequên­cia de reg­istros e anális­es de Augus­tine até mes­mo nos momen­tos de sono pro­fun­do. A aprox­i­mação gera um amor furti­vo, uma ten­são libidi­nosa entre médi­co e paciente, ao embar­al­har suces­si­va­mente os sen­ti­men­tos que Augus­tine nutre pelo médi­co. Pen­sador mod­er­no e for­mador de plateias, Char­cot não con­segue lidar de maneira isen­ta com o tufão de emoções que começam a inva­di-lo, per­cepção que não escapa aos olhos de sua mul­her, Con­stance, vivi­da pela atriz Chiara Mas­troian­ni. No meio dessa con­fusão, nasce a trans­fer­ên­cia. Os lim­ites entre ter­apeu­ta e paciente são rompi­dos, tal qual uma rachadu­ra em um dique. Cedo ou tarde, a cor­renteza transborda.

    Imagem de divulgação do filme Augustine
    Imagem de divul­gação do filme Augustine

    A dinâmi­ca perigosa na relação entre o médi­co e a paciente em crise tam­bém é explo­ra­da nos lon­gas Um Méto­do Perigoso (2012), dirigi­do por David Cro­nen­berg, enre­do que traz o caso de Carl Jung e Sabi­na Spiel­rein, com pitadas de Freud, e o fan­tás­ti­co A Pele que Habito (2011), de Pedro Almod­ó­var, onde um con­ceitu­a­do cirurgião plás­ti­co cria uma nova iden­ti­dade físi­ca para um desafe­to e aca­ba se apaixo­nan­do pela própria criação.

    O tra­bal­ho de Alice Winocour em Augus­tine não apre­sen­ta a mas­sacrante car­ga da parábo­la mor­al­izante, crian­do vilão ou víti­ma. Pelo con­trário: a orig­i­nal­i­dade da dire­to­ra está na apos­ta em um romance que vio­la tabus, descon­cer­ta a éti­ca e rompe com os canôni­cos pro­to­co­los de trata­men­to, para o bem ou para o mal.

    Imagem de divulgação do filme Augustine
    Imagem de divul­gação do filme Augustine

    A inter­pre­tação de Soko realça e encan­ta, exercendo enorme fascínio pelo modo como a atriz se entre­ga, seja pelo cor­po ou pelas expressões sig­ni­fica­ti­vas do olhar. Como uma bor­bo­le­ta, a per­son­agem exper­i­men­ta uma meta­mor­fose ao sair do esta­do de pavor, manip­u­lação e medo, para a cumpli­ci­dade e decisão que mar­cam os momen­tos finais do filme.

    medicalmusesAden­trar as difer­entes esferas do incon­sciente, acei­tan­do o risco de suas voltas – muitas vezes sem retorno -, fazem de Augus­tine um filme maior do que a dis­pu­ta entre doença/cura e médico/paciente; a sutileza está nas trans­for­mações que nascem no rio pro­fun­do e inabita­do, exata­mente onde mora o desejo.

    Para con­hecer um pouco mais sobre as mul­heres que se trans­for­maram em uma espé­cie de “musas médi­cas”, recomen­do a leitu­ra do livro Med­ical Mus­es: Hys­te­ria in Nine­teenth-Cen­tu­ry Paris, de Asti Hustvedt.


    Trailer:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=FXepn0vkR_8

  • Rurouni Kenshin (2012), de Keishi Ohtomo | Crítica

    Rurouni Kenshin (2012), de Keishi Ohtomo | Crítica

    rurouni_kenshin-posterDepois do fias­co de Drag­on Ball: Evo­lu­tion (2009), uma adap­tação pavorosa da fran­quia Drag­on Ball, a apreen­são em torno do que pode­ri­am faz­er com o anime/mangá Rurouni Ken­shin era inten­sa e real. Um dos maiores suces­sos japone­ses do gênero, a série de mangá “Rurouni Ken­shin: Crôni­cas de um Espadachim da Era Mei­ji” foi cri­a­da pelo artista Nobuhi­ro Wat­su­ki em 1994, e uma ver­são em ani­me foi lança­da dois anos depois, alcançan­do um suces­so estron­doso. No Brasil, a saga do espadachim andar­il­ho ficou con­heci­da como Samu­rai X, uma alusão à cica­triz que Ken­shin car­rega no ros­to, e que ain­da hoje faz a cabeça de mui­ta gente. Por isso, seria uma desagradáv­el sur­pre­sa ter essa série despe­ja­da na lama, exata­mente como acon­te­ceu com Drag­on Ball.

     

    Capa do mangá lançado pela Editora JBC
    Capa do mangá lança­do pela Edi­to­ra JBC

    Feliz­mente, a adap­tação japone­sa em live-action da saga do “andar­il­ho coração de espa­da” sur­preen­deu até mes­mo os mais céti­cos, unin­do fidel­i­dade e orig­i­nal­i­dade na mes­ma metragem. O cenário, con­tex­to históri­co, per­son­agens e diál­o­gos da ver­são orig­i­nal podem ser facil­mente iden­ti­fi­ca­dos no filme Rurouni Ken­shin: Mei­ji Swords­man Roman­tic Sto­ry (2012), do dire­tor Keishi Ohto­mo, lança­do em agos­to do ano pas­sa­do nos cin­e­mas japone­ses, sendo um grande suces­so de bil­hete­ria, críti­ca e públi­co. Por motivos que descon­heço – e pre­firo nem soltar pal­pites –, os brasileiros não rece­ber­am o filme nas salas de cin­e­ma, razão que impul­sio­nou os amantes da série a “adquirir” o DVD, que foi lança­do no final de dezembro.

    O lon­ga con­ta a tra­jetória do andar­il­ho Ken­shin Himu­ra que, cansa­do da vida de assas­si­no que lev­a­va – e que o fez ficar con­heci­do como o lendário Bat­tou­sai – o Retal­hador –, decide sair de for­ma errante, sem paradeiro ou des­ti­no, car­regan­do uma cica­triz em for­ma de X no ros­to. Ken­shin toma essa decisão após a Batal­ha de Toba-Fushi­mi, fato verídi­co na história do Japão e que foi cru­cial para a der­ro­ta deci­si­va do Shogu­na­to Toku­gawa, força que o Bat­tou­sai com­ba­t­ia. Esse san­gren­to perío­do mar­ca o final do feu­dal­is­mo de Toku­gawa e o iní­cio da Era Mei­ji, car­ac­ter­i­za­da por um proces­so de mod­ern­iza­ção políti­ca e social.

    Takeru Sato como o samurai Kenshin Himura
    Takeru Sato como o samu­rai Ken­shin Himura

    Transcor­ri­dos dez anos dessa batal­ha, a len­da da carnific­i­na do espadachim retor­na viva e inten­sa, pois uma série de mortes vio­len­tas é atribuí­da ao Bat­tou­sai, sus­peito de espal­har sangue e ter­ror em Tóquio. No decor­rer desse tem­po, o andar­il­ho Ken­shin (Takero Sato) con­hece a destemi­da Kaoru Kamiya (Emi Takei), herdeira de um dojo de kendo deix­a­do por seu pai, e a par­tir de um fato inusi­tada­mente perigoso – que não vou men­cionar para não ger­ar spoil­er -, o des­ti­no aprox­i­ma ambos.

    Kaoru Kamiya (Emi Takei) e Kenshin (Takero Sato)
    Kaoru Kamiya (Emi Takei) e Ken­shin (Takero Sato)

    O live-action faz uma mis­tu­ra bem elab­o­ra­da de acon­tec­i­men­tos pre­sentes na história orig­i­nal, sem focar em pon­tos especí­fi­cos, per­mitin­do uma lin­ha de raciocínio ger­al, e não dire­ciona­da somente aos já “ini­ci­a­dos” no enre­do. A tra­ma tam­bém apre­sen­ta out­ros per­son­agens já con­sagra­dos no anime/mangá, como Hajime Saitou (Yōsuke Eguchi) – com­bat­ente destemi­do, frio e de pre­sença extrema­mente mar­cante, que coman­dou o batal­hão do anti­go regime na Batal­ha de Toba-Fushi­mi; o diver­tidís­si­mo Sanosuke Sagara (Mune­ta­ka Aoki), luta­dor de rua que osten­ta uma espé­cie de “topete-crista-de-galo” bem curioso; o estri­dente Yahiko Myo­jin (Take­to Tana­ka), órfão e estu­dante do dojo, e a bela Megu­mi Takani (Yu Aoi), descen­dente de uma família con­ceitu­a­da de médi­cos e que se vê força­da a tra­bal­har para um rico traf­i­cante local na fab­ri­cação de ópio.

    O destemido Hajime Saitou (Yōsuke Eguchi)
    O destemi­do Hajime Saitou (Yōsuke Eguchi)

    O traf­i­cante em questão é Kan­ryu Take­da (Teruyu­ki Kagawa), respon­sáv­el pelas cenas hilárias e excên­tri­c­as do filme, que começam pela sua cara, uma cópia descara­da do pasteleiro Beiço­la, do seri­ado glob­al “A Grande Família”. Ape­sar de ter lido algu­mas críti­cas ao imen­so espaço reser­va­do a Take­da no filme, um per­son­agem cita­do por alguns fãs como “ridícu­lo e fra­co”, eu achei que foi uma boa opção dar esse ar mais engraça­do à tra­ma, já que não desqual­i­fi­ca em nada o cur­so dos acon­tec­i­men­tos, bem como a apre­sen­tação dos três grandes espadachins pre­sentes no live-action: Ken­shin Himu­ra, Hajime Saito e Jin‑E Udou, este últi­mo inter­pre­ta­do pelo ator Koji Kikkawa. No fim da Era dos Samu­rais, ess­es três destemi­dos san­guinários ficaram sem espaço e tiver­am que procu­rar novos cam­in­hos, já que a anti­ga práti­ca não era vista com bons olhos na nova refor­ma políti­ca. Ken­shin se tornou um andar­il­ho com muito amor – e cul­pa — no coração, Saitou pas­sa a ocu­par um car­go no depar­ta­men­to de polí­cia do gov­er­no e Jin‑E vira um mer­cenário con­trata­do pelo crime organizado.

    Teruyuki Kagawa como o hilário Kanryu Takeda
    Teruyu­ki Kagawa como o hilário Kan­ryu Takeda

    O filme não tem efeitos espe­ci­ais espal­hafatosos, pirotec­nia ou algo do tipo. Em con­tra­parti­da, a fotografia e a tril­ha sono­ra são exce­lentes, dan­do uma aura espe­cial às cenas e inter­pre­tações. Achei muito inter­es­sante o fato de terem usa­do uma tril­ha sono­ra difer­ente da uti­liza­da no ani­me, pos­si­bil­i­tan­do a cri­ação de uma iden­ti­dade própria e longe de cópias puris­tas e lim­i­tadas. Assi­na­da por Nao­ki Sato, o track-list é incon­fundív­el, com destaque para a lindís­si­ma “Hiten” (algo como “voan­do no céu”)!

    A escol­ha do elen­co foi acer­ta­da e, de cer­ta for­ma, sur­preen­dente. Con­fes­so que assim que come­cei a assi­s­tir, pen­sei que o intér­prete de Ken­shin, Takero Sato, fos­se que­brar ao meio de tão magro! Mas o magér­ri­mo ator foi uma das sur­pre­sas do filme, con­seguin­do trans­por para a tela todo o sen­ti­men­to de solidão, opressão e angús­tia do ex-retal­hador. Out­ro pon­to alto está com a atu­ação pri­morosa de Yōsuke Eguchi na pele do ina­baláv­el Saitou. Os des­falques ficam com a inter­pre­tação de Emi Takei, dan­do à Kaoru uma fem­i­nil­i­dade e obe­diên­cia que ela não pos­sui, e a lacu­na deix­a­da pela ausên­cia do vilão Shishio Mako­to, o mais implacáv­el dos inimi­gos do andar­il­ho Ken­shin. Tam­bém acho que a relação de amizade entre Ken­shin e Sanosuke dev­e­ria ser mais explo­ra­da, pois ficou meio sol­ta no ar e mes­mo no momen­to em que os dois lutam lado a lado — nas cenas finais do filme -, não dá para acom­pan­har de onde aque­le entrosa­men­to surgiu.

    Personagens dos filmes com os do anime/manga
    Per­son­agens do filme e seus respec­tivos per­son­agens do anime/manga

    Ao que tudo indi­ca, a saga vai ter con­tin­u­ação. Quem sabe os per­son­agens secundários ten­ham mais espaço, Shishio dê o ar da graça e Kaoru seja mais Kaoru e menos Amélia.

    P.S: Esse tex­to foi escrito com a pre­ciosa colab­o­ração de Rafaela Tor­res, psicólo­ga, gamer e amante do uni­ver­so ani­me e mangá.

  • O Grande Gatsby (2013), de Baz Luhrmann | Crítica

    O Grande Gatsby (2013), de Baz Luhrmann | Crítica

    ograndegatsby-posterCom um visu­al deslum­brante e um elen­co com vários nomes de peso, O Grande Gats­by (The Great Gats­by, EUA/Australia, 2013), dirigi­do por Baz Luhrmann, é com certeza um dos filmes mais esper­a­dos deste semestre.

    O lon­ga con­ta a história de Nick Car­raway (Tobey Maguire), um aspi­rante a escritor que ao se mudar para Nova York, deixa sua paixão pelas letras de lado por con­ta do tra­bal­ho na bol­sa de val­ores. Ele mora ao lado da man­são do mis­te­rioso Jay Gats­by (Leonar­do DiCaprio), que sem­pre está dan­do grandes e lux­u­osas fes­tas e, para sua sur­pre­sa, um dia é con­vi­da­do para uma delas. Do out­ro lado da ilha vive sua pri­ma Daisy (Carey Mul­li­gan) e seu mari­do Tom Buchanan (Joel Edger­ton), com o qual estu­dou jun­to na fac­ul­dade. O des­ti­no de todos aos poucos é entre­laça­do por con­ta de um grande seg­re­do que Gats­by esconde.

    O enre­do foi basea­do no famoso romance homôn­i­mo do escritor amer­i­cano F. Scott Fitzger­ald, pub­li­ca­do em 1925, que já foi adap­ta­do duas vezes para o cin­e­ma. A primeira em 1949, dirigi­da por Elliott Nugent, e a segun­da e mais con­heci­da adap­tação, dirigi­da por Jack Clay­ton em 1974, com Robert Red­ford e Mia Farrow.

    As luxuosas festas na mansão do Gatsby
    As lux­u­osas fes­tas na man­são do Gatsby

    Difí­cil não ficar mar­avil­ha­do com toda a recon­strução da época e seus fig­uri­nos estu­pen­dos ao assi­s­tir O Grande Gats­by. Moti­vo aliás que fez Luhrmann ficar con­heci­do tam­bém pelos lon­gas Moulin Rouge — Amor em Ver­mel­ho (2001) e Romeu + Juli­eta (1996). Nes­ta adap­tação, o dire­tor tam­bém decid­iu explo­rar exten­si­va­mente a téc­ni­ca trav­el­ling para mostrar a Nova York da déca­da de 20 e seus arredores. O resul­ta­do ficou visual­mente muito inter­es­sante, mas pelo seu uso muito repet­i­ti­vo logo ficou algo cansati­vo. Aliás, são só nes­tas cenas em que o 3D é real­mente perce­bido. Há out­ro recur­so visu­al que foi muito bem tra­bal­ha­do: as várias ani­mações cri­adas para retratar visual­mente o tex­to da história nar­ra­da pelo Nick, como se ele estivesse escreven­do naque­le momento.

    A Nova York da década de 20
    A Nova York da déca­da de 20
    Capa da trilha sonora
    Capa da tril­ha sonora

    A tril­ha sono­ra é out­ro aspec­to bem inter­es­sante do filme, pois con­trasta total­mente com o esti­lo e ima­gens da época, out­ra car­ac­terís­ti­ca pecu­liar do dire­tor. Var­ian­do bas­tante de esti­lo mas ten­do sem­pre algum ele­men­to mais eletrôni­co no meio, a tril­ha traz para o pre­sente todo aque­le ambi­ente fes­ti­vo, e tam­bém aumen­ta ain­da mais a sen­sação de arti­fi­cial­i­dade e vazio que todo este glam­our e mate­ri­al­is­mo trazem con­si­go. As músi­cas são com­postas por nomes famosos como Bey­on­cé, will.i.am, Flo­rence + The Machine, Lana del Rey e Jack White.

    Tobey Maguire, Leonardo DiCaprio, Carey Mulligan e Joel Edgerton
    Tobey Maguire, Leonar­do DiCaprio, Carey Mul­li­gan e Joel Edgerton

    O maior defeito de O Grande Gats­by é não deixar espaço para que o espec­ta­dor pos­sa tirar suas próprias con­clusões e exerci­tar min­i­ma­mente sua imag­i­nação. O prin­ci­pal cul­pa­do dis­to é a pre­sença de uma nar­rador que está sem­pre pre­ocu­pa­do em explicar tudo que se está ven­do nos mín­i­mos detal­h­es, como se ele estivesse lit­eral­mente lendo um livro e as ima­gens da tela fos­sem ape­nas uma rep­re­sen­tação do tex­to. O uso da nar­ração é tão exces­si­vo que a atu­ação de profis­sion­ais tão tal­en­tosos como o Leonar­do DiCaprio (que recen­te­mente fez Djan­go Livre) e a Carey Mul­li­gan (do óti­mo Dri­ve), ficam em segun­do plano. O roteiro, escrito pelo próprio Luhrmann e por Craig Pearce, tam­bém não faz questão de man­ter qual­quer tipo de mis­tério ou pos­sív­el dúvi­da a respeito da inter­pre­tação de uma situ­ação, não per­den­do tem­po para logo explicar tudo, seja por flash­backs ou narração.

    Cena da adaptação de 1974 com Bruce Dern, Sam Waterston, Mia Farrow, Robert Redford e Lois Chiles
    Cena da adap­tação de 1974 com Bruce Dern, Sam Water­ston, Mia Far­row, Robert Red­ford e Lois Chiles

    Na adap­tação de 1974, dirigi­da por Clay­ton e rote­i­riza­da por Fran­cis Ford Cop­po­la, muitas coisas ficam suben­ten­di­das e o mis­tério sobre quem é real­mente esse mis­te­rioso Gab­sty e quais suas intenção, só é rev­e­la­do muito aos poucos. Com­para­n­do com a ver­são atu­al, é difí­cil não se sen­tir trata­do como alguém que não con­segue enten­der nada do que está acon­te­cen­do na tela, de tão exager­a­do que são as expli­cações ou então a demon­stração das inten­sões dos per­son­agens por movi­men­tos físi­cos exager­a­dos. Cer­tos momen­tos a impressão é de que este roteiro foi feito para sanar todas as dúvi­das que o out­ro criou, para não haver assim qual­quer sen­sação de confusão.

    Muitas flores e talento, mas pouco conteúdo
    Muitas flo­res e tal­en­to, mas pouco conteúdo

    O Grande Gats­by tin­ha grandes chances de ser um dos destaques do cin­e­ma deste ano, mas acabou sendo ape­nas uma exper­iên­cia visual­mente deslum­brante por con­ta da fra­ca adap­tação do roteiro, que não se pre­ocupou em insti­gar o inter­esse do espec­ta­dor para algo além de coisas boni­tas na tela. Nem o elen­co de peso con­seguiu tornar a história do filme razoavel­mente cativamente.

  • Ilsa — a Guardiã Perversa da SS (1975), de Don Edmonds

    Ilsa — a Guardiã Perversa da SS (1975), de Don Edmonds

     A  belíssima loira e peitudissima atriz Dianne Thorne estrela a produção.
    A belís­si­ma loira e pei­tud­is­si­ma atriz Dianne Thorne estrela a produção.

    Foi em um lam­pe­jo de sabedo­ria artís­ti­ca, digna somente dos maiores tram­biqueiros de Hol­ly­wood, que alguns pro­du­tores da déca­da 50 ( alguns dizem déca­da de 40) tiver­am a belís­si­ma ideia de explo­rar todo o absur­do e vio­lên­cia da ocu­pação nazista alemã durante a segun­da guer­ra mundial.Tudo isso em pro­duções baratas que se diziam realista.

    A intenção era lit­eral­mente explo­rar esse tema, gan­har din­heiro em cima de algo que até hoje fasci­na e repu­dia qual­quer pes­soa que já ten­ha ouvi­do falar como os pri­sioneiros eram trata­dos nos cam­pos de con­cen­tração. Nasceu assim o Nazi-xplota­tion, um sub­gênero bem famoso do cin­e­ma X‑plotation.

    Quan­do a déca­da de 60 chegou, os jovens que­ri­am mais era saber de sexo e vio­lên­cia, então não demor­ou para que os mes­mos pro­du­tores tram­biqueiros começassem a pen­sar numa maneira mais per­sua­si­va de faz­er essa jovem plateia, com hor­mônios a flor da pele, irem ao cin­e­ma. Nes­sa época tam­bém sur­gi­ram mais sub­gêneros den­tro do X‑plotation e quase toda pro­dução bara­ta tin­ha que ter peit­in­ho e sangue a cada minuto.

    Love Camp 7, por Lee Frost
    Love Camp 7, por Lee Frost

    Com o suces­so do filme Love Camp 7 de Lee Frost em 1969, o pro­du­tor David F. Fried­man’s decid­iu inve­stir na mes­ma ideia de vio­lên­cia, putaria e… nazis­tas, mais uma vez. Assim surgiu Ilsa — a Guardiã Per­ver­sa da SS (Ilsa — She Wolf of the SS), que seria dirigi­do por Don Edmonds (1937–2009), em 1975. Edmonds era um ator de pequenos papéis e dire­tor de filmes eróti­cos de baixo orça­men­to. Da noite pro dia se tornou um dire­tor cul­tua­do por esse filme que é o maior rep­re­sen­tante do Nazi-xplota­tion de todos os tempos.

    Até entrar para a his­to­ria do cin­e­ma como Ilsa, Dianne já fazia suces­so em revis­tas mas­culi­nas como mod­e­lo pin-up e tam­bém como strip­per em Las Vegas. Começou no cin­e­ma em 1964, fazen­do pro­duções eróti­cas baratas e chegou a ter uma peque­na par­tic­i­pação em um episó­dio na clás­si­ca série Star Trek.

    Ilsa, Harem Keeper of the Oil Sheiks, por Don Edmonds
    Ilsa, Harem Keep­er of the Oil Sheiks, por Don Edmonds

    Em 1975 ela encon­tra seu papel mais mar­cante inter­pre­tan­do a coman­dante Ilsa. Ela reprisa o papel mais três vezes em Ilsa, Harem Keep­er of the Oil Sheiks (1976), Ilsa, the Tigress of Siberia (1977) e tam­bém em uma pro­dução dirigi­da pelo dire­tor espan­hol recém fale­ci­do, Jess Fran­co mestre do cin­e­ma sexplotation.

    Existe uma peque­na con­fusão em relação a este filme: alguns sites colo­cam o nome da per­son­agem inter­pre­ta­da por Dianne como Ilsa, out­ros como Gre­ta e mais out­ros como Wan­da. O nome orig­i­nal do filme é Gre­ta — Haus ohne Män­ner (1979) então imag­i­no que deva­mos ficar com Gre­ta mes­mo. Basi­ca­mente só o primeiro filme des­ta tetralo­gia entra no gênero Nazi, os out­ros usam a mes­ma ideia, mas vão mais pro lado de out­ra ram­i­fi­cação do gênero x‑plotation que é o gênero W.I.P (Wom­ans In Prison), onde mul­heres são tor­tu­radas e abu­sadas em prisões, para o praz­er de um dire­tor sádico.

    Ilsa the Tigress of Siberia, por Jean LaFleur
    Ilsa the Tigress of Siberia, por Jean LaFleur

    Dianne, tem ao todo 28 papéis em sua car­reiras, mas somente os filme em que ela inter­pre­tou Ilsa são dig­nos de nota. Ela fez seu ulti­mo papel 1989, inter­pre­tan­do o tran­sex Sr. Piran­del­lo, pai do per­son­agem inter­pre­ta­do por James Beluchi no filme Real Men. Des­de então começou a cuidar de uma capela de casa­men­tos em las Vegas com seu mari­do. Mas, no site do IMDB apare­cem duas pro­duções com o nome da atriz cota­do no elen­co com estreia mar­ca­da para 2013. Res­ta esper­ar para saber se é oficial.

    Vamos ao filme… Ilsa é uma coman­dante de um cam­po de con­cen­tração nazista, que usa seus pri­sioneiros em “exper­i­men­tos médi­cos” pes­soais. Ela ten­ta provar para o alto escalão da SS, que mul­heres são mais resistentes a dor do que os home­ns. Como ela faz isso? Sim­ples, ela tor­tu­ra home­ns e mul­heres das maneiras mais cruéis e absur­das pos­síveis e vê qual morre primeiro! Legal né?

    Comandante Ilsa demonstrando que manja das putarias.
    Coman­dante Ilsa demon­stran­do que man­ja das putarias.

    Fora esse seu inter­esse acadêmi­co pela med­i­c­i­na, Ilsa tam­bém é dona de um apetite sex­u­al voraz e, sem­pre que pode, man­da um pri­sioneiro sor­tu­do para sua cama para sat­is­fazê-la. Infe­liz­mente a ale­gria do escol­hi­do dura muito pouco, pois ela fica muito, mas muito irri­ta­da quan­do o mané do pri­sioneiro goza antes dela. E como ela resolve essa situ­ação? Sim­ples, como qual­quer coman­dante da SS nazista de um filme x‑plotation do meio da déca­da de 70 que se preze faria! Cas­tran­do o infeliz!

    Ilsa escolhendo um dos prisioneiros “azarados” para lhe fazer companhia.
    Ilsa escol­hen­do um dos pri­sioneiros “azara­dos” para lhe faz­er companhia.

    Tudo está as mil mar­avil­has com a coman­dante até que um cer­to pri­sioneiro, com uma espé­cie de “super­poder” dig­amos assim, é chama­do para a cama da coman­dante. Não é que final­mente ela encon­tra alguém dig­no de sua atenção sex­u­al? O cara con­segue con­tro­lar a ereção pela noite inteira se quis­er, e assim con­segue a sim­pa­tia da loba SS e o jogo se inverte, pois ago­ra é um pri­sioneiro que tem o coman­dante sob seu comando!

    Dá pra notar que o filme é só isso mes­mo, sexo, vio­lên­cia, tor­tu­ra, mais sexo e depois mais tor­tu­ra! Não é atoa que ele foi proibido na Ale­man­ha na época de seu lança­men­to e tam­bém em out­ros diver­sos países.

    Por mais absur­do a obra pareça, é inegáv­el diz­er que ela influ­en­ciou diver­sos gêneros do cin­e­ma além do x‑plotation. Fora dos telões do cin­e­ma, Ilsa inspirou tam­bém alguns per­son­agens de videogame como a The Butcher­ess do game Blood­rayne, e tam­bém influ­en­ciou no design de um grupo de elite fem­i­ni­na que aparece no game Return To Cas­tle Wolfen­stein.

    De um lado a The Butcheress do game Bloodrayne e do outro a comandante Ilsa demonstrando toda sua volúpia.
    De um lado a The Butcher­ess do game Blood­rayne e do out­ro a coman­dante Ilsa demon­stran­do toda sua volúpia.
    Grindhouse - Planeta Terror e À Prova de Morte
    Grind­house

    A mais óbvia das influên­cias de Ilsa no cin­e­ma, foi quan­do Quentin Taran­ti­no e Robert Rodriguez dividi­ram a direção no pro­je­to Grind­house com os filmes Plan­e­ta Ter­ror (2007) e À Pro­va de Morte (2007), ten­do como intenção hom­e­nagear essas pro­duções x‑plotation da déca­da de seten­ta. Entre um filme e out­ro, a platéia que assis­tia teve a chance de ver alguns trail­ers fal­sos de out­ras supostas pro­duções. Entre ess­es fal­sos filmes, um deles foi bati­za­do de: Were­wolf Women of SS, onde podemos ver Sheri Moon, a esposa do dire­tor e músi­co Rob Zom­bie, como uma ofi­cial nazista que coman­da um pro­je­to cien­tí­fi­co com a intenção de trans­for­mar mul­heres em lobi­somens para lutar na guer­ra! Veja o video abaixo.

    httpv://www.youtube.com/watch?v=pv_aefnKf‑E

    machete
    Machete, por Robert Rodriguez

    Ess­es trail­ers fal­sos der­am origem a três filmes, um deles foi o fraquís­si­mo Machete dirigi­do por Robert Rodriguez em 2010, out­ro foi Hobo With A Shot­gun (em alguns sites este filme é traduzi­do com o belo tit­u­lo de “Mendi­go com Escope­ta!”) dirigi­do por Jason Eisen­er em 2011. Então podemos diz­er que existe a pos­si­bil­i­dade de ver­mos um dia Were­wolf women of SS em ver­são lon­ga metragem.

    Emb­o­ra Ilsa — a Guardiã Per­ver­sa da SS seja um filme situ­a­do em uma época bem clara e basea­do em acon­tec­i­men­tos reais, o caráter real­ista da obra sobra mes­mo para aqui­lo que parece mais absur­do. Os úni­cos acon­tec­i­men­tos que real­mente exi­s­ti­ram durante a ocu­pação nazista são os exper­i­men­tos mostra­dos no filme, todos ver­dadeiros. Diver­sos pri­sioneiros judeus foram real­mente usa­dos como coba­ias pelas tropas nazis­tas em cam­pos de concentração.

    Hobo With A Shotgun,  por Jason Eisener
    Hobo With A Shot­gun, por Jason Eisener

    No lon­ga são mostradas as já citadas cas­trações e os testes de resistên­cia a dor, numa cena vemos até uma pri­sioneira sendo fer­vi­da viva! Algu­mas mul­heres são proposi­tal­mente infec­tadas com doenças como tifu, sífil­is, lep­ra, etc.

    Exis­tem diver­sos filmes e muitos tex­tos na inter­net que tratam sobre ciên­cia nazista de uma maneira muito mais abrangente do que aqui. É tudo muito inter­es­sante e ao mes­mo tem­po revoltante. Recomen­do que pesquisem!

    A per­son­agem de Ilsa obvi­a­mente nun­ca exis­tiu, nem nun­ca exis­tiu nen­hu­ma mul­her que chegou ao alto coman­do do exérci­to alemão a pon­to de diri­gir um cam­po de con­cen­tração. Mas a coman­dante sado­ma­so foi basea­da em alguém que exis­tiu de ver­dade, não uma ofi­cial, mas a esposa de um. Estou falan­do de Ilse Koch, esposa de Karl-Otto Koch, um alto coman­dante do exérci­to nazista que entre os anos 1937 a 1943, coman­dou dois cam­pos de con­cen­tração em ter­ritório alemão, os cam­po de Bunchen­wald e Majdanek.

    A sádica da vida real ou a ninfomaníaca da ficção. Com qual você prefere passar a noite?
    A sádi­ca da vida real ou a nin­fo­manía­ca da ficção. Com qual você pref­ere pas­sar a noite?

    A sen­ho­ra Koch (mais con­heci­da como “A bruxa de Bunchewald”) ficou famosa pelos estran­hos sou­venirs que gosta­va de guardar, entre eles, pedaços de couro tat­u­a­do dos pri­sioneiros e aba­jures feitos de pele humana, eram o mais bási­cos da coleção. Ele foi pre­sa e jul­ga­da diver­sas vezes, aos sessen­ta anos come­teu suicí­dio enquan­to cumpria um sen­tença de prisão perpetua.

    De vol­ta ao filme… O cam­po de con­cen­tração onde toda a ação acon­tece não lem­bra muito os temíveis cam­pos que vemos em doc­u­men­tários ou em filmes com a mes­ma temáti­ca que se lev­am mais a sério. Ele mais parece uma prisão de segu­rança mín­i­ma, e os pri­sioneiros até cer­to pon­to são bem gordinhos, com­para­do aos que vemos em fotos reais da época, e tam­bém pos­suem uma cer­ta liber­dade, que provavel­mente não exis­tia, pra falar com os ofi­ci­ais nazistas.

    Prisioneiras do campo de concentração do filme
    Pri­sioneiras do cam­po de con­cen­tração do filme

    Eu gos­to de Ilsa — a Guardiã Per­ver­sa da SS por ser um puta fil­maço que me mar­cou bas­tante, foi o primeiro do gênero nazi-xplota­tion que vi. Não imag­i­na­va que alguém pode­ria faz­er uma comé­dia falan­do de temas tão ten­sos… ou mel­hor: Não imag­i­na­va que algum estú­dio DEIXARIA um dire­tor faz­er um filme sobre temas tão delicados.

    Viven­do em tem­pos politi­ca­mente cor­re­tos até demais, onde a maio­r­ia das pes­soas está dis­pos­ta a se ofend­er tão calorosa­mente e lutar por causas banais, é quase impos­sív­el acred­i­tar que um filme assim seria lança­do nos dias de hoje sem sofr­er grandes críti­cas e resistên­cia dos sofa­tivis­tas de plan­tão. Afi­nal, todo mun­do está dis­pos­to a lutar por algo des­de que isso não obrigue ninguém a sair da frente do Face­book ou tirar a bun­da do sofá…

    Ilsa em mais um de seus experimentos
    Ilsa em mais um de seus experimentos

    Na min­ha pré-adul­tecên­cia me inter­es­sei muito por filmes gore, trash, slash­ers e mon­do. Todos ess­es podem ser con­sid­er­a­dos sub-gêneros do cin­e­ma x‑plotation. A déca­da de seten­ta foram os anos em que ess­es filmes pipocavam nos cin­e­mas norte amer­i­canos aos montes, era nat­ur­al que em meio a tan­tos lança­men­tos baratos, uns fos­sem mel­hores que out­ros, em meio a mui­ta (mui­ta mes­mo!) por­caria que assisti durante ess­es anos de “auto estu­do cine­fil­iti­co”, Ilsa — a Guardiã Per­ver­sa da SS se tornou um dos meus filmes preferi­dos, é mais um daque­les lon­gas que faço questão de assi­s­tir uma vez a cada dois ou três anos, pra ter certeza que ain­da é foda!

    Fora tudo isso, há um caráter psi­cológi­co que me faz pen­sar um pouco… por que dia­bos a vio­lên­cia é tão fascinante?

    Não uma sim­ples vio­lên­cia fic­cional, mas uma vio­lên­cia basea­da em fatos. Antes mes­mo dos crédi­tos ini­ci­ais, vemos um tex­to atribuí­do ao pro­du­tor Her­man Traeger (pseudôn­i­mo de David F. Fried­man, o ver­dadeiro pro­du­tor) avisan­do que os exper­i­men­tos pre­sentes na tra­ma do filme são reais e que foram clas­si­fi­cadas como “exper­iên­cias médi­cas”. Por últi­mo diz que o filme fora real­iza­do com a esper­ança de que essas mes­mas exper­iên­cias médi­cas não se repi­tam nova­mente. Ou seja, mes­mo avisa­do dis­so, a maio­r­ia das pes­soas pref­ere ver o filme até final, ou até mes­mo esse pré avi­so ins­tigue o espec­ta­dor a assistir.

    Vocês foram avisados do que viria a seguir...
    Vocês foram avisados…

    O que mais me fasci­na nis­so tudo é o teor sex­u­al da bagaça toda, como algo tão desumano con­segue se asso­ciar tão facil­mente com sexo? Por que existe tan­ta audiên­cia do públi­co (incluin­do eu!) em cima de um tema tão especí­fi­co, a pon­to de se cri­ar um nome exclu­si­vo para esse tipo de filme?

    Enfim, a intenção aqui não é desmere­cer a obra, mas sim discutí-la.

    Pra ter­mi­nar deixo o vídeo da músi­ca Ilsa que a ban­da brasileira Zumbis do Espaço gravou para hom­e­nagear a loba alemã. Ago­ra, clique no play e leia tudo de novo can­tan­do essa lin­da e sin­gela poe­sia do hor­ror punk nacional.

    httpv://www.youtube.com/watch?v=i‑I1Rl2Eml4

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=cWaChi_OOvQ

  • Dique (2012), de Adalberto Oliveira

    Dique (2012), de Adalberto Oliveira

    dique-cartazFazia cer­to tem­po que não me impres­sion­a­va com o cin­e­ma inde­pen­dente no Brasil. Esta­va acom­pan­han­do muitos filmes que não me tocavam, mas, ao artic­u­lar a curado­ria da Mostra “Panora­ma Per­nam­bu­co” (jun­to com os cineas­tas Jucélio Matos e Már­cio Farias) — exibi­da em Teresina-PI/2012 — algo inusi­ta­do acon­te­ceu, pois den­tro do pacote com belos filmes real­iza­dos naque­las ter­ras, surge com sur­pre­sa: Dique (um filme de Adal­ber­to Oliveira).

    Dique já par­ticipou de mais de vinte Fes­ti­vais pelo Brasil e pelo mun­do (dez inter­na­cionais), desta­can­do o 1° Fes­ti­val de Cine Lati­noamer­i­cano Inde­pen­di­ente de Bahía Blan­ca, 34º Fes­ti­val Inter­na­cional del Nue­vo Cine Lati­noamer­i­cano — Sec­ción Para­lela VANGUARDIAS, 2ª Mues­tra Inter­na­cional de Cine Inde­pen­di­ente, em Osorno no Chile e o 18° Festvídeo — Fes­ti­val de Vídeo de Teresina, onde tive o praz­er de par­tic­i­par da comis­são jul­gado­ra, em que foi pos­sív­el tornar o vídeo (em votação unân­ime) vence­dor do even­to na cat­e­go­ria Exper­i­men­tal, jun­to com out­ro tra­bal­ho de Adal­ber­to (Case). Ah, sem falar dos out­ros prêmios (mais de dez até o momen­to) con­quis­ta­dos por aí.

    Com direção, desen­ho sonoro e fotografia de Adal­ber­to Oliveira, cap­tação com hidro­fone de Thel­mo Cristo­vam, mix­agem e final­iza­ção de Adel­mo Tenório, pro­dução de Már­cio Farias e assistên­cia de pro­dução de Nico­las Oliveira, Dique é vídeo que prob­lema­ti­za o ato de ver e sen­tir. Tudo começa com a tela escu­ra, exa­lan­do um estran­ho ruí­do… o que nos pos­si­bili­ta artic­u­lar audição e pele, pois a nar­ra­ti­va abre espaço para explo­rar out­ros sen­ti­dos, além dos olhos e ouvi­dos. O que antes é um breve estran­hamen­to, tor­na-se (em segun­dos), imer­são completa.

    Somos lança­dos numa pais­agem dura, con­trastante, onde as pedras de Casa Caia­da dom­i­nam a cena. Aqui pos­so visu­alizar um exer­cí­cio paciente na bus­ca pelo supos­to equi­líbrio entre a crueza das pedras que demar­cam o litoral, com suas lin­has tor­tu­osas, atrav­es­sadas pela dis­per­são e des­en­con­tro das for­mas, fric­cio­nan­do a suavi­dade celeste de um céu que me remete às pince­ladas impres­sion­istas, em trân­si­to com os pré­dios que ras­gam o teto azul (ondas dis­tantes rev­e­lam a água como ele­men­to purificador).

    Entre a leveza e a crueza.
    Entre a lev­eza e a crueza.

    O som des­do­bra-se nas ima­gens em sequên­cia. Adal­ber­to vira-se con­tra a pais­agem ante­ri­or e olha deti­da­mente para as ondas — estas sel­vagens ao nos­so olhar – que acari­ci­am as pedras, vis­tas como home­ns solitários.
    Cortes rápi­dos inserem novos ele­men­tos à pais­agem sono­ra de Dique, ago­ra com nuvens pesadas ao fun­do e aves tími­das, sus­ten­ta­dos pela frieza dos pré­dios de uma cidade que aparenta uma leve sonolên­cia, com home­ns escon­di­dos no alto de seus andares, habi­tan­do no coração do dis­tan­ci­a­men­to, as sobras orgâni­cas que moram ali.

    Estaria Adal­ber­to esta­b­ele­cen­do um canal de comu­ni­cação entre o orgâni­co e o inorgâni­co? Estari­am os caranguei­jos con­spir­an­do con­tra nós? Somos Home­ns-caranguei­jos ou Caranguei­jos-home­ns? A beira de Casa Caia­da fica mais escu­ra, o som abafa, pequenos crustáceos em mobi­liza­ção micro.

    Carangueijos-bailarinos.
    Caranguei­jos-bailar­i­nos.

    Mais uma vez o ele­men­to-água entra no filme: a chu­va. Ela atua como agente de limpeza e reor­de­na­men­to da pais­agem, que, ao cumprir seu papel, alivia as ten­sões e suaviza os ouvi­dos, através dos choques entre água-pedra. Preparação para out­ros exercícios.

    Rad­i­cal­mente, somos sur­preen­di­dos com caranguei­jos gigantes, no alto de seu Império, tor­nan­do os home­ns, coisas peque­nas, sem foco, igno­rantes de um mun­do para­le­lo que existe bem a sua frente, a um pas­so do balé som­brio, cor­tante, assus­ta­dor. A água invade a areia, todos desaparecem…

    Pré­dios enfileira­dos dom­i­nam a cena, abrindo espaço para o deslo­ca­men­to do olhar-Natureza para o olhar-Homem. Esta con­tradição é inter­mináv­el, cícli­ca, que faz do Homem um ser que nega àquela, mas ao mes­mo tem­po, depende dos seus recur­sos para afir­mar sua separação.

    O olho do cineas­ta con­tem­pla a cidade num exer­cí­cio remete aos capí­tu­los não lin­ear­es de “Can­to de Aves Pam­peanas 1”, do argenti­no Nicolás Testoni, artic­u­lan­do uma von­tade con­jun­ta em expres­sar a pais­agem – não-imo­bilista – como estru­tu­ra que se move para frente, redefinin­do o mosaico de impressões que nos­sos olhos procu­ram detec­tar na con­fusa mis­tu­ra de ele­men­tos de uma cidade que bro­ta, e nasce toda tor­ta… cam­baleante, cheia de cores, ten­sion­adas entre árvores sobre­viventes do impe­ri­al­is­mo urbano.

    Dique joga com con­trastes, rein­ven­ta as pais­agens e reforça sua inqui­etação con­stante — den­tro da min­ha leitu­ra pico­ta­da — Somos Home­ns-caranguei­jos ou Carangueijos-homens?

    Homens-Carangueijos?
    Home­ns-Caranguei­jos?

    O Sol vai cain­do, jun­to com a sobera­nia do Crustáceo-Rei. Der­ro­ta­do pelo tem­po (ali­a­do do silên­cio) inva­sor de cor­pos e car­caças, ele abre cam­in­ho para o lambe-lambe ger­al das moscas, dançan­do em cima das patas que implo­ram pelo últi­mo movimento.

    A noite dom­i­na. Lá longe, as ondas estão indifer­entes ao olho de Adal­ber­to, pois já estão acos­tu­madas com a sua estran­ha pre­sença, que antes era incô­mo­da, mas ago­ra, — pen­sam as ondas — “não podemos faz­er nada, pois não sabe­mos até que pon­to ele quer nos con­sumir”. E assim elas seguem som­brias, rudes, sel­vagens, tra­bal­hado­ras do mar.

    Dique final­iza sua tra­jetória escon­di­do nas pedras de Casa Caia­da, obser­van­do explosões aéreas arti­fi­ci­ais, bus­can­do enten­der as relações entre as duas pais­agens em diál­o­go con­stante: o Homem e a Natureza. Até que pon­to esta­mos hib­ridiza­dos? Até que pon­to exis­tem fron­teiras entre nos­sas patas e suas mãos? Um estu­do sobre as mudanças, o olhar que prob­lema­ti­za os dis­tan­ci­a­men­tos, um poe­ma visu­al que descon­strói nos­sas zonas de conforto.

    Uma certeza: o filme mais impor­tante que assisti em toda cam­in­ha­da real­iza­da até o momen­to nas min­has leituras do cur­ta-metragem brasileiro. Lá em Per­nam­bu­co, o cin­e­ma inde­pen­dente está fervil­han­do de Home­ns e Mul­heres que fazem um serviço sério. Tomem nota! Não adi­anta Adal­ber­to, seu filme saiu de Olin­da para con­quis­tar os olhos do mundo.

    Para mais infor­mações, visi­ta o blog ofi­cial do filme.

    Veja o trail­er abaixo:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=c1NCfN5BMK8

  • Oz, Mágico e Poderoso | Crítica

    Oz, Mágico e Poderoso | Crítica

     Oz, Mágico e Poderoso PosterUm trail­er de encher os olhos e um grande inves­ti­men­to em mar­ket­ing. Foi assim que a Dis­ney criou uma enorme expec­ta­ti­va com Oz, Mági­co e Poderoso (Oz the Great and Pow­er­ful, EUA, 2013), seu mais novo lança­men­to dirigi­do por Sam Rai­mi. Explo­ran­do a história de como surgiu o famoso per­son­agem do icôni­co filme O Mági­co de Oz (1939), o lon­ga bus­ca agradar toda a legião de fãs já exis­tentes e tam­bém uma nova ger­ação que provavel­mente nun­ca ouviu falar da estra­da amarela e dos sap­at­in­hos de rubi.

    A história começa em 1905 em Kansas com Oscar Dig­gs, um mul­heren­go mági­co circense apel­i­da­do de Oz. Ao ten­tar fugir em um balão por con­ta de um de seus “truques” sedu­tores, é sug­a­do para o meio de um tor­na­do, chegan­do à fan­tás­ti­ca Ter­ra de Oz, onde há uma pro­fe­cia rela­tan­do que o grande mági­co de Oz viria dos céus para der­ro­tar a Bruxa Má, trazen­do paz para todos. Oscar acred­i­ta que esta pode ser final­mente a sua grande opor­tu­nidade de obter o suces­so que tan­to alme­ja, porém não tem a mín­i­ma ideia das pro­porções do que impli­ca ser este herói.

    A famosa estrada amarela
    A famosa estra­da amarela

    Para quem já assis­tiu O Mági­co de Oz, dirigi­do por Vic­tor Flem­ing, é impos­sív­el olhar para este novo lon­ga sem procu­rar algu­ma refer­ên­cia — que são inúmeras. Temos o famoso iní­cio todo em pre­to e bran­co e a tam­bém diver­ti­da repetição de alguns atores fazen­do per­son­agens sim­i­lares nos dois mun­dos. Dev­i­do aos dire­itos autorais da história e do filme de 1939 serem deti­dos pela Warn­er Bros, muitos dos ele­men­tos mais icôni­cos (como o sap­at­in­ho de rubi) não pud­er­am ser uti­liza­dos — prob­le­ma que irá ces­sar no ano de 2034, quan­do a obra entrará em domínio públi­co. Algu­mas vezes foi pos­sív­el con­tornar este prob­le­ma: para o visu­al da Bruxa Má foi usa­do um tom de verde difer­ente do orig­i­nal e a estra­da amarela foi man­ti­da, mas sem o seu iní­cio em espiral.

    O visual impressionante da terra fantástica de Oz
    O visu­al impres­sio­n­ante da ter­ra fan­tás­ti­ca de Oz

    Um dos grandes atra­tivos do lon­ga é com certeza o seu visu­al fan­tás­ti­co, que fica ain­da mais sur­preen­dente se for assis­ti­do no IMAX. Alguns movi­men­tos de câmera panorâmi­ca são bem inusi­ta­dos, só sendo pos­síveis graças a uti­liza­ção de uma câmera vir­tu­al em um ambi­ente ger­a­do pelo com­puta­dor. O 3D do filme foi muito bem uti­liza­do, lem­bran­do bas­tante o óti­mo tra­bal­ho feito no A Invenção de Hugo Cabret (2011), val­en­do a pena ser assis­ti­do com o uso des­ta tecnologia.

    Apesar de todos os cuidados, em algumas cenas ficou bem evidente o uso do chroma key
    Ape­sar de todos os cuida­dos, em algu­mas cenas ficou bem evi­dente o uso do chro­ma key

    Os pon­tos neg­a­tivos do lon­ga ficaram prin­ci­pal­mente na fal­ta de real­is­mo em alguns momen­tos. Mes­mo com os cuida­dos para os atores inter­a­girem ao máx­i­mo com ele­men­tos reais (foi feito por exem­p­lo uma mar­i­onete da boneca de porce­lana), ficou bem evi­dente em cer­tas cenas o uso do chro­ma key, assim como a inserção dig­i­tal de per­son­agens. Para pio­rar, essas situ­ações ficaram ain­da mais acen­tu­adas por uma atu­ação beiran­do o teatral, supon­do dar mais cred­i­bil­i­dade aos efeitos espe­ci­ais. Mas são poucos os momen­tos que isso acon­tece e na ver­dade, acabou até de cer­ta for­ma sendo diver­tido, lem­bran­do as pro­duções em que o orça­men­to é cur­to demais e foi pre­ciso impro­vis­ar, ape­sar de não ter sido este o caso neste filme. Para quem gos­ta, tem um vídeo bem inter­es­sante no canal Mak­ing Of do YouTube, sobre os back­stages da fil­magem.

    James Franco e o diretor Sam Raimi no set de filmagem
    James Fran­co e o dire­tor Sam Rai­mi no set de filmagem

    O desen­volvi­men­to da história de Oz, Mági­co e Poderoso, reme­teu ao óti­mo, e tam­bém bem arrisca­do, tra­bal­ho feito em TRON: O Lega­do (2010), sequên­cia do filme de 1982, ambos da Dis­ney, assim como a história de Bran­ca de Neve e o Caçador (2012), onde o famoso con­to de fadas é explo­rado de for­ma a agradar um públi­co mais ado­les­cente. Na ver­dade, ele está se sain­do tão bem que a Dis­ney já anun­ciou que fará uma nova sequên­cia (provavel­mente com out­ro diretor).

    Se você não ficou muito empol­ga­do com o remake da Dis­ney de Alice no País das Mar­avil­has (2010), Oz, Mági­co e Poderoso provavel­mente irá te sur­preen­der. Além de explo­rar muito bem toda a história de como surgiu o famoso Mági­co de Oz, ele tam­bém con­tou com uma óti­ma equipe de atores como James Fran­co, Mila Kunis e Rachel Weisz. Para quem gos­ta de tril­has sono­ras, este é out­ro destaque do lon­ga, pro­duzi­do pelo óti­mo Dan­ny Elf­man, que ficou mais con­heci­do pela sua parce­ria com o dire­tor Tim Bur­ton em filmes como O Estran­ho Mun­do de Jack e A Noi­va Cadáver.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=hBlhviucIxc

  • A Viagem | Crítica

    A Viagem | Crítica

    Two roads diverged in a wood, and I
    I took the one less trav­eled by
    And that has made all the difference.
    (Dois cam­in­hos diver­giam em um bosque,
    e eu tomei o menos trilhado.
    E isso fez toda a difer­ença. – tradução livre)

    A Viagem | Crítica: PosterO frag­men­to cita­do faz parte do con­heci­do poe­ma “The Road Not Tak­en” (‘A estra­da não toma­da’ ou, na tradução do poeta por­tuguês Antônio Simões, ‘O cam­in­ho que não tomei’), do poeta norte-amer­i­cano Robert Frost. O sen­ti­men­to de inse­gu­rança cede lugar à escol­ha pela “estra­da mais difí­cil”, íngreme e inacessív­el. Essa é a sen­sação deix­a­da pelo enre­do de A Viagem, títu­lo abobal­ha­do para o orig­i­nal Cloud Atlas, novo filme dos irmãos Andy e Lana Wachows­ki em parce­ria com o dire­tor alemão Tom Tyk­w­er. O lon­ga tem dado muito tra­bal­ho à críti­ca, empurran­do argu­men­tos e pres­su­pos­tos con­tra a parede. Um sim­ples “não gostei” ou “sim, é real­mente muito bom” não cabe para descr­ev­er essa adap­tação fan­tás­ti­ca do romance homôn­i­mo de David Mitchell.

    A nar­ra­ti­va de A Viagem é uma ver­dadeira mis­tu­ra de gêneros e ambi­en­tações, apre­sen­tan­do seis histórias que se traduzem em inúmeras out­ras, for­man­do uma teia infini­ta de novos cam­in­hos, encon­tros e des­en­con­tros e, espe­cial­mente, escol­has. As cenas do filme vão pulan­do de for­ma enlouque­ce­do­ra, tor­nan­do a com­preen­são do enre­do tare­fa digna de olhos bem aber­tos. Cada história é ambi­en­ta­da em perío­dos difer­entes, pas­san­do da época da escra­vatu­ra, em 1849, para a real­i­dade cyber­punk de um local con­heci­do por Neo Sul, aprox­i­mada­mente em 2144. No meio dessas fas­es, o espec­ta­dor é sur­preen­di­do por difer­entes situ­ações e per­son­agens, onde as duas mais inter­es­santes abor­dam a luta de uma jor­nal­ista para inves­ti­gar os planos mega­lo­manía­cos e desumanos de grandes usi­nas nuclear­es amer­i­canas, na então déca­da de 1970, e a ficção cien­tí­fi­ca da Neo Sul, onde uma garçonete de uma grande rede de fast-food viven­cia a rev­olução das ideias e o poder da mudança ger­a­da pela pos­si­bil­i­dade de escol­ha, ain­da que víti­ma de um uni­ver­so distópico.

    A jornalista Luisa Rey (Halle Berry) e o cientista Issac Sachs (Tom Hanks)
    A jor­nal­ista Luisa Rey (Halle Berry) e o cien­tista Issac Sachs (Tom Hanks)

    A vida e os desafios de cada uma dessas existên­cias se inter­calam em detal­h­es sutis, em situ­ações, lem­branças, memórias, sen­ti­men­tos e conexões espir­i­tu­ais. Uma mar­ca de nascença na for­ma de uma estrela cadente conec­ta alguns per­son­agens e suas bus­cas que, mes­mo difer­entes, acabam encon­tran­do um pon­to comum: trans­for­mar, mudar, arriscar, dar e rece­ber. Par­tic­u­lar­mente, só con­segui cap­tar este detal­he depois de assi­s­tir ao filme pela segun­da vez, já que os cortes abrup­tos nas cenas tor­nam a tra­ma uma estra­da mais sin­u­osa, difí­cil de enten­der em um primeiro momen­to. Algu­mas pas­sagens são cor­tadas em momen­tos inde­v­i­dos e os detal­h­es que conec­tam os fatos são sutis, salvos pela edição que reti­ra ou pro­lon­ga o efeito sonoro, como tam­bém pela nar­ra­ti­va em off, que traz à tona os sen­ti­men­tos que conec­tam as histórias e seus protagonistas.

    Rede de fast-food do futuro servida por clones
    Rede de fast-food do futuro servi­da por clones

    O apoio do dire­tor Tom Tyk­w­er, respon­sáv­el pelos sen­sa­cionais O Per­fume, Cor­ra, Lola, Cor­ra e Tra­ma Inter­na­cional, foi fun­da­men­tal no suces­so dessa pro­dução dos irmãos Wachows­ki, já que a dose de genial­i­dade da dupla, obser­va­da em Matrix, der­rapou ver­tig­i­nosa­mente com Speed Rac­er, um ver­dadeiro fra­cas­so com­er­cial. A Viagem enfren­tou difi­cul­dades no finan­cia­men­to, con­clusão e desen­volvi­men­to, já que no iní­cio o pro­je­to não ani­mou muitos patroci­nadores. Obstácu­los à parte, o elen­co faz jus a essa apos­ta cora­josa, trazen­do nomes como Tom Han­ks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Saran­don, Jim Broad­bent, Hugo Weav­ing e Kei­th David, com out­ros atores não tão con­heci­dos do grande públi­co, como o lindís­si­mo Jim Sturgess, Ben Whishaw e David Gyasi, e as atrizes Zhou Xun e Doona Bae, chi­ne­sa e sul-core­ana, respec­ti­va­mente. Um detal­he inter­es­sante e que con­diz com a pro­pos­ta do filme é o fato de todos os atores faz­erem mais de um papel, estando pre­sentes nas difer­entes épocas. A direção de arte e fig­uri­no aju­dou bas­tante e é uma fór­mu­la à parte, trans­for­man­do negros em bran­cos, oci­den­tais em ori­en­tais, novos em vel­hos, home­ns em mul­heres e vice-ver­sa, dan­do uma rota­tivi­dade – em muitos casos, irrecon­hecív­el – ao elenco.

    Mapa dos atores/personagens em A Viagem (clique na imagem para ampliá-la)
    Mapa dos atores/personagens em A Viagem (clique na imagem para ampliá-la)

    Muito mais do que um padrão difer­ente, A Viagem e sua belís­si­ma tril­ha sono­ra são, na ver­dade, uma fan­tás­ti­ca descober­ta rumo ao descon­heci­do, nave­gan­do na direção de existên­cias que depen­dem das nos­sas boas ações ou crimes, dan­do sem­pre uma nova chance, seja para repe­tir os mes­mos erros ou faz­er novos começos. É ver­dade, este não é um filme fácil, mas deixa como lega­do ao espec­ta­dor uma exper­iên­cia que foge do tradi­cional for­ma­to do gênero, que não cede ao roteiro fecha­do e pre­visív­el, crian­do um atlas de sen­si­bil­i­dade, filosofia e movi­men­to inesquecível!