“Tudo ao meu redor são rostos familiares, lugares desgastados, faces desgastadas. (…) Os sonhos nos quais eu estou morrendo são os melhores que já tive”
(Mad World, composição do Tears for Fears na voz de Gary Jules).
Certos lugares são devastados por catástrofes naturais ou por extermínio bélico. Mas existe um tipo de desolação que chega sem alarde e se instala. Algumas vezes, ela nasce junto com o lugar. Há os que correm desesperadamente para fugir. E há os que ficam. O filme Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador (original What’s Eating Gilbert Grape?), do diretor sueco Lasse Hallström, conta a história de um jovem que permaneceu no mesmo lugar, enterrado pela rotina de uma cidade onde o relógio parou.
Gilbert (Johnny Depp) vive em Endora, pequena cidade engolida pelo tempo. Depois do suicídio do pai, ele assume a responsabilidade pelo sustento da família. E não apenas isso: Gilbert vive integralmente para cuidar de seu irmão Arnie (Leonardo DiCaprio), um adolescente com problemas mentais, e de sua mãe (Darlene Cates), que sofre de obesidade mórbida. Há ainda duas irmãs, Amy (Laura Harrington) e Ellen (Mary Kate Schellhardt), criaturas atrapalhadas que tentam auxiliar Gilbert, mas acabam cobrando mais do que ajudando.
A família de Gilbert Grape
Trabalhando como faz-tudo em uma mercearia, Gilbert leva Arnie a todos os lugares. O grande evento do ano para os dois irmãos é a passagem de trailers pela estrada que cruza a cidade. Em uma dessas passagens, um dos veículos quebra e precisa permanecer na minúscula Endora por algum tempo. Esse simples fato fortuito é o ponto de transformação na cabeça de Gilbert, já que ele conhece Becky, garota viajada e cosmopolita, que acompanha a avó em excursões pelo país. Vivida pela atriz Juliette Lewis, Becky é o contraponto de Gilbert: enquanto o jovem tem olhos tristes, pesados pelas obrigações que nunca cessam e precisa conviver com sonhos acorrentados, a jovem é viva, intensa e efusiva. No lugar dos arroubos escandalosos, Becky oferece outro tipo de carpe diem: ela apresenta para Gilbert a imensidão de um mundo que está ali, expresso no pôr do sol ou na possibilidade de observar a poesia no invisível. Esse é um dos pontos interessantes do filme.
Leonardo DiCaprio, Johnny Depp e Juliette Lewis
O enredo sem pirotecnia começa a ganhar o coração do espectador com a atuação sensacional de Leonardo DiCaprio. Os gritos e brincadeiras de Arnie arrancam emoções do peito e despertam o olhar para a existência interior de pessoas que fogem dos padrões considerados normais. As limitações mentais de Arnie não o impedem de sorrir, ser feliz e procurar o carinho incondicional do irmão. Pelo contrário: o espectador observa um adolescente que consegue viver em Endora sem que a monotonia da cidade o empurre para dentro do poço. Nesse caso, a ignorância do mundo funciona como uma benção. Indicado ao Oscar em 1994 na categoria de melhor ator coadjuvante, DiCaprio merece cada menção honrosa pela atuação. Ele alcança os gestos, olhares e padrões de comportamento de uma pessoa com deficiência mental. Na época com dezenove anos, o ator deixou muito veterano de queixo caído.
Johnny Depp como Gilbert
Na pele de Gilbert, Depp mostrou ser o homem ideal para viver o papel: os olhos melancólicos e pesados de responsabilidade; o jeito afável e dedicado com o qual tratava seu irmão e o desejo incessante de sair daquele lugar. Todas essas emoções ganharam contornos reais no rosto de Johnny Depp, que ainda não tinha sido possuído pelos trejeitos do famigerado capitão Jack Sparow, personagem que interpretaria uma década depois na série interminável Piratas do Caribe. Mais bonito do que nunca, Depp traz na expressão o desespero silencioso de Gilbert; sua inocência misturada ao comodismo e o medo de abandonar a sua benção e calvário: a própria família. Em Endora, a família Grape é a personificação da imobilidade da cidade: a mãe obesa que não sai de casa há sete anos; a própria residência da família, completamente imutável desde que foi construída pelo pai; a rejeição de Gilbert em conhecer o supermercado novo que abriu na cidade, ameaçando a sobrevivência do mercadinho em que trabalha, e a rotina de vida que leva: de casa para o trabalho e vice-versa. Sua única distração é o assédio constante da mulher do corretor Carver, a dona de casa Betty. Em uma das silenciosas crises existenciais de Gilbert, Betty revela qual é o motivo de querer manter um caso com ele, aumentando consideravelmente o caos interno do jovem Grape.
Leonardo DiCaprio como o jovem Arnie
O longa metragem surpreende pela emoção sincera, dicotomias e dilemas que podem estar perto de nós. Muitas vezes, seguimos mecanicamente os dias porque estamos presos na confortável bolha da vida ou em obrigações pétreas que transformam nossas existências em buracos vazios sem direito à esperança. A felicidade de Arnie, seu modo alegre de viver, a “benção da ignorância” e a capacidade de recomeçar os dias sem remorso são um ponto alto na mudança de perspectiva. O baixo orçamento de Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador provou que existem emoções ocultas na epiderme humana que aguardam a oportunidade de vir à tona, e independem de altos investimentos. O cinema abre espaço para essa pulsação se manifestar.
Uma das melhores sensações que eu tenho experimentado na partilha física e mental que acontece nas salas de cinema – basta observar como todos os espectadores parecem estar ligados minimamente pelos acontecimentos que transcorrem na tela – é perceber o exato momento em que um filme hipnotiza toda a plateia, alterando comportamentos e prendendo respirações. Esse é o pêndulo mesmerizador de Ida (2013), filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski. O longa conquistou inúmeros prêmios, incluindo European Film Awards e Associação Americana dos Diretores de Fotografia, além de duas indicações ao Oscar 2015 nas categorias “Melhor filme em língua estrangeira” e “Melhor Fotografia”, vencendo na primeira.
Filmado em preto e branco, Ida revisita as máculas do Holocausto através da história de vida da noviça Anna (Agata Trzebuchowska) e sua recém-descoberta tia Wanda (Agata Kulesza). Antes de confirmar os votos no convento onde vive, Anna é enviada pela madre superiora à casa da tia, para que saiba mais sobre a própria vida e decida entrar para a comunidade religiosa de forma consciente. Para Anna, o mundo começa e termina nas paredes do convento e é com insatisfação resignada que ela vai ao encontro da tia.
Wanda é uma mulher dominada por fantasmas amargos, pelo vício do álcool, por amantes passageiros e um secreto histórico de tristezas. No passado, ela integrou a luta do movimento antinazista, tornando-se depois juíza e condenadora implacável dos torturadores/assassinos de judeus. Esse universo é extremamente oposto ao de Anna que, sem eufemismos, descobre que tudo o que conhecia sobre sua vida não passa de um rosário de mentiras. Na verdade, a noviça chama-se Ida Lebenstein e foi entregue na porta do convento quando ainda era bebê. Sem saber do paradeiro dos pais, Ida e a tia partem em busca de respostas; cada qual com suas angústias, medos e dores.
A história se passa em 1962, onde os resquícios da Segunda Guerra Mundial ainda despontavam como feridas abertas, fustigando os espíritos dos sobreviventes e de seus familiares. É nesse mundo novo que Ida mergulha com toda a sua inocência, experimentando a malícia e as chagas emocionais que fazem parte da história de sua família.
O longa-metragem faz uso de uma câmera quase estática, apostando em close-ups. Outro elemento interessante em Ida é a opção pelo formato 4:3 e em preto e branco, apesar da gravação com câmera digital, uma clara referência aos filmes em 16mm. Outra curiosidade é que o filme também foi convertido para película 35mm, sendo exibido nas poucas salas de cinema que ainda suportam esse tipo de película. Com fotografia de cair o queixo – assinada por Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal -, o longa revela a atmosfera silenciosa do interior de seus personagens, enfatizada também pela ausência de trilha sonora e passagens só com sons do ambiente. Como o público brasileiro – do qual posso falar baseada em minha vivência — não está acostumado com a linguagem do silêncio, é difícil manter uma constante em salas de exibição. Por isso, foi emocionante presenciar a interrupção imediata do frisar de sacos de pipoca, papéis de bombom, latas de refrigerante e murmúrios eternos. Naquela sessão, a plateia estava hipnotizada: Ida não faz ruídos, comunica-se pela atenção do olhar. É com esse andar sem deixar rastros que a jovem noviça aprende como lidar com a inocência que vai morrendo aos poucos.
Mistura de reflexão e memória, o filme consegue alcançar a poesia que não grita, não gesticula e não balbucia: ela expressa com olhares e não-ditos. Destaque para a atuação das atrizes Agata Trzebuchowska e Agata Kulesza, intérpretes de Ida e Wanda, respectivamente. Como iniciante, Trzebuchowska comprova seu empenho – que vai além da semelhança física com a atriz Sissy Spacek (conhecida pela atuação em “Carrie, A Estranha” – 1976). Já Agata Kulesza recria as dores de inúmeras mulheres judias, guerrilheiras ou não, que viram suas famílias serem despedaçadas pelo horror nazista e tiveram que olhar para o abismo, evitando mirar em seus próprios reflexos.
O primeiro plano do filme mostra aquelas características portas do tipo “saloon”. Depois de alguns segundos, por detrás das portas, surgem dois pés em um passo alargado, semelhante ao de um pinguim. É Chaplin. Simples assim. No lugar de sua característica bengala, o Carlitos agora está com um violino na mão. O filme é “O Vagabundo” (The Vagabond), de 1916, realizado para a produtora Mutual Film Corporation. O cineasta Charles Chaplin está com liberdade total e recursos quase ilimitados, ainda que com a “obrigação” de produzir 12 comédias de sucesso por ano. Sendo o terceiro filme de um contrato substancial, já que o salário do primeiro ano fora de 670 mil dólares mais os bônus, em “O Vagabundo” é possível perceber uma ambição melodramática latente.
Surgido em 1914, Carlitos (no original: Little Tramp) tem sua faceta sentimental germinada neste curta. No enredo, um violonista itinerante, Chaplin, encontra uma jovem, Edna Purvionce, a primeira e eterna musa do cineasta, aprisionada por um grupo de ciganos. Os dois fogem juntos e começam a morar na estrada. Um pintor encontra Edna no meio da floresta e se encanta. Ele a homenageia em um quadro chamado “A Irlanda em pessoa”. Quando este é exposto em uma galeria, a mãe verdadeira de Edna reconhece o retrato de sua filha. O pintor conduz a mulher ao encontro de Edna, que decide partir junto com ela, mas levando também o Vagabundo. E tudo isso em 24 minutos!
Com longos planos abertos em uma câmera estática, o filme apresenta uma decupagem característica do início do cinema. Os preenchimentos dos enquadramentos já demonstram um artista em processo de sofisticação, o que fica nítido logo na primeira gag (efeito cômico, piada) do filme. Carlitos toca seu violino em frente a porta de um bar, e, enquanto isso, uma trupe de músicos chega em frente à outra porta do bar. Quando Carlitos acaba sua perfomance, vai recolher o dinheiro com os frequentadores do estabelecimento. Pouco tempo depois, um músico da trupe também vai pedir dinheiro, mas é rechaçado já que momentos antes Chaplin também tinha pedido dinheiro. Óbvio que isso acaba em muita confusão e correria. Mas o que me intriga, é como Chaplin já pensava em usar o som como elemento constitutivo de uma gag. E não só o som, mas a imagem. Há um enquadramento, por exemplo, em que é possível ver, em primeiro plano, a trupe de músicos tocando e, em segundo plano, no fundo do quadro, um Chaplin, bem pequenino, com seu violino. É uma construção distinta, levando em contato a forma como eram usados os planos gerais nos filmes daquela época.
Edna Purvionce, a primeira e eterna musa de Charles Chaplin
Ver Edna Purvionce na tela é sempre um prazer, ainda mais que em quase toda sua carreira no cinema ela esteve ao lado de Chaplin. O rosto redondo e afilado da atriz, sempre soube fazer caras e bocas perfeitas para os filmes do cineasta, cuja atuação encontrava na performance de Edna uma figura quase que amiga. Na verdade, olhar os dois na tela era, em muitos momentos, testemunhar uma amizade artística. Em “O Vagabundo”, Edna se destaca e realmente incorpora a “cigana escravizada”. Deixando de lado a aparência angelical, a atriz está suja, com roupas rasgadas e os cabelos completamente desengonçados.
E Chaplin é Chaplin. Com planos abertos em meio a natureza, o vagabundo como músico itinerante é brilhante, afinal, toda a fome e energia do personagem explode em uma performance marcante. O violino e o corpo de Chaplin se tornam um só. Carlitos inclusive chega a passar o arco do instrumento em seu nariz! Com o violino, em momentos de harmonia seu corpo se move suavemente, e em momentos de tensão ele é contraído e jogado por uma força que, obviamente, Chaplin se deixa levar, chegando inclusive a cair em uma bacia de água! Nesta cena, Chaplin e Edna estão em ritmos paralelos. Enquanto o vagabundo se empolga com seu instrumento, a atriz também se deixa levar pela música, e no mesmo instante em que o corpo de Chaplin se move de forma selvagem, Edna lava a roupa freneticamente. Pura sintonia!
Chaplin se livra dos ciganos que prendiam Edna e foge com ela, mas antes cospe na cara do cigano malvado, interpretado pelo gigante Eric Campbel, porém de uma maneira “distinta”, como aquelas belas estátuas que jorram água pelos lábios. Em uma leve câmera baixa, Chaplin toma as rédeas da carruagem dos ciganos, e em um pequeno travelling (movimento de câmara em que esta realmente se desloca no espaço) para trás, apresenta um bonito plano com os “vilões” correndo desesperadamente pela estrada. Depois, não há bons ou maus personagens, somente descobertas. Um pintor sem inspiração encontra Edna. Uma mãe desolada encontra sua filha perdida. E o vagabundo quase perde o que havia encontrado.
Um dos grandes trunfos de Chaplin se dá na forma como ele utiliza o cenário em sua volta, em uma espécie de transfiguração da realidade. Há filmes do período Mutual em que esta característica é levada a extremos, ver “A Casa de Penhores” (1916), mas em “O Vagabundo”, Chaplin alia este poder de transformação a uma sensibilidade romântica, o que vai ser a pedra de toque de obras posteriores, como “O Garoto” (1921) e “O Circo” (1928). Assim, são notavéis os simples momentos de Chaplin preparando “uma cozinha ao céu aberto” em uma mesa improvisada, quebrando ovos com um martelo e lavando minuciosamente o rosto manchado e maltratado de Edna.
No final, o pintor retorna, em um carro, com a mãe de Edna e um grupo de pessoas que estavam na exposição para o local onde Chaplin morava. A senhora, nitidamente rica, resolve dar um maço de dinheiro para Carlitos, que, sem titubear, recusa e ainda afasta a oferta com a palma de sua mãe direita – eis a elegância de um vagabundo. Neste momento, o semblante do Carlitos muda. Na verdade não é somente Carlitos ali, mas também o próprio Chaplin. Na cena, há 4 atores em um plano americano (quando a pessoa é enquadrada do joelho para cima), mas é nítido como o corpo do Vagabundo enche o quadro.
O crítico e diretor francês François Truffaut, escreveu que a primeira fase da carreira de Chaplin se pergunta “Será que existo?”. Acredito que outra pergunta que também norteia esta fase é “Porque que eu existo?”, e no final de “O Vagabundo” há uma resposta. Carlitos existe para aquilo: Abraçar Edna, tocar no próprio rosto surpreso pela partida da parceira, dizer “Adeus pequena garota” (Goodbye Little Girl), sorrir levemente e levantar a mão esquerda, sem acenar, para um carro que leva a sua amada.
Entre 1914 e 1922, Charles Chaplin produziu 69 curtas. Deste período, a minha fase favorita é a da Mutual. Nos 12 filmes feitos para produtora é possível ver um cineasta fervilhando de energia e ideias. No entanto, nesta época o cineasta estava preocupado em agradar o público, o que fez com que muitos dos filmes da Mutual tivessem finais felizes, apressados e mal construídos. Exemplo disso é o desfecho de “O Vagabundo”. Acredito que se o curta terminasse com Chaplin de costas para a câmera, olhando o carro de Edna indo embora, o efeito seria mais coerente com a proposta do curta: apresentar um vagabundo que sempre está procurando um lugar onde possa se encaixar. No final, Edna tem um insight e fica desesperada. O carro volta e Chaplin vai embora junto com os outros personagens. Foi algo muito rápido. Não que um final feliz seja um problema, mas há um contraste entre a epifania de Edna e o comportamento que ela estava apresentando desde que conheceu o pintor. Porém, esta diferença não prejudica a construção do personagem de Chaplin no curta. “O Vagabundo” é uma pequena aventura sentimental que ainda pode emocionar, afinal, assim como a obra-prima melodramática “O Garoto”, este é “um filme com um sorriso, e talvez uma lágrima…”.
Fazer um filme que seja cinematograficamente inovador não é algo trivial, muito menos quando se deseja que ele chame a atenção do grande público das salas de cinema. Esse feito fica ainda mais difícil quando não é utilizado grandes efeitos especiais ou narrativas complexas, que podem muitas vezes afastar mais o público do que o instigar. “Boyhood: Da Infância à Juventude” (Boyhood, EUA, 2014) conseguiu realizar todas essas proezas, e a ideia para criá-lo veio justamente do desejo de não utilizar efeitos especiais para simular o envelhecimento dos personagens ou então utilizar diferentes atores para representar a passagem to tempo em uma história sobre o amadurecimento da infância à juventude (explicitado no desnecessário subtítulo nacional). A solução encontrada por Richard Linklater, que escreveu, dirigiu e produziu o longa, por mais maluca (e genial) que pareça, foi de filmar os mesmos atores durante 12 anos, mais ou menos uma vez por ano.
A história do filme é bem universal: acompanhamos Mason (Ellar Coltrane), dos 5 aos 18 anos, assim como os outros personagens que convivem com ele durante esse tempo. Mas o foco da história não é somente o crescimento de uma criança, mas também sobre o processo de ser pai/mãe, principalmente em um tempo onde é cada vez mais comum casais se separarem e os filhos acabam por ter duas, ou mais, pessoas que cumprem o papel dos genitores. Não temos aqui a tradicional estrutura, normalmente simplista, de um enredo de cinema, onde é fácil identificar os altos e baixos do desenvolvimento do personagem principal, que vai atravessando as suas dificuldades para, no final do longa, chegar a uma conclusão da história, seja ela positiva ou não. Apesar de Linklater ter um objetivo bem definido para o longa, o roteiro do longa estava sempre bem aberto para poder acompanhar parte das decisões de vida tomada pelo ator principal. O diretor até brinca que se Ellar decidisse virar um lutador, o filme provavelmente iria acompanhar isso de algo forma, mudando drasticamente de rumo.
A vida é um sopro, dizia Oscar Niemeyer, e é justamente assim que acompanhamos o passar do tempo em “Boyhood: Da Infância à Juventude”. Vamos pulando de um ano ao outro, algumas vezes com acontecimentos mais impactantes, outras vezes apenas com a mudança da folha calendário como fato marcante. Quando menos percebemos, já se passaram vários anos. Tudo isso sem qualquer indicação explícita, nada de “um ano depois” ou a data carimbada na tela. Tirando uma ou outra festa de aniversário e acontecimentos marcantes da história, como a candidatura do presidente Obama e a febre do Harry Potter, que ajudam a criar uma noção melhor da temporalidade dos eventos. Isso também ocorre pela escolha da trilha sonora, com os hits que marcaram cada época, que aliás é uma das grandes virtudes do filme, com bandas como Coldplay, The Hives, Foo Fighters, Cat Power, Arcade Fire, entre outros.
O que mais chama a atenção em relação ao tempo, é acompanhar como a aparência dos personagens vão se transformando. Difícil dizer se o fato de saber que todas essas mudanças são reais, as tornam mais impressionantes do que se não tivesse essa informação. Mas acredito que seria muito difícil, se não impossível, causar o mesmo impacto através dos métodos tradicionais de envelhecimento.
Fotos de Mason em diferentes anos
De início, Mason esta mais para um observador de tudo que acontece em sua volta, sempre com um olhar bem atento, mas sem qualquer poder de ação. São mudanças de cidade, separação dos pais, novas escolas… Tudo acontece a partir da sua perspectiva, na qual muitas coisas parecem não ter muito sentido, elas simplesmente acontecem. Com o tempo, ele vai amadurecendo, não só percebendo mais a complexidade da realidade a sua volta, mas também começando a ter um efeito maior sobre ela. Isso é crescer.
Se assemelhando bastante com a vida fora das telas do cinema, “Boyhood: Da Infância à Juventude” é um filme universal e muito sensível. Difícil não refletir sobre as próprias escolhas, e aquelas que ainda podemos fazer, depois e durante a imersão de 12 anos condensados em quase três horas da vida de Mason, um personagem que ainda tem uma vida toda pela frente.
Um cortador de grama atravessa em ritmo monocórdio os imensos espaços de um gramado que brilha como móvel novo. Ao fundo, uma canção que nos faz lembrar dias bonitos e frases do tipo “a esperança nunca morre”. Imagens idílicas começam a se misturar até serem sumariamente quebradas pelo barulho do ventilador imerso em fumaça. Deitado em uma cama estreita, um homem fuma e transpira, transpira e fuma. Ao deixar seu santuário pessoal, ele vai de encontro à vida normal de cada dia. Uma vida de trabalho, de tédio, de cansaço, de madames lamentosas e sonhos que se perdem na fumaça do cigarro. No entanto, algumas ideias podem ser o começo de verdadeiras epifanias. É assim que o curta-metragem “Desejo” (2005) lança baforadas no rosto do espectador ao apresentar a história de um homem comum e suas cobiças construídas a partir do olhar fixo para o teto.
No curta, o porteiro Atanásio José (Wagner Moura) faz uma descoberta surpreendente em uma tarde tórrida e estimulante de glândulas sudoríparas. Deitado em sua cama, ele se deu conta da revelação que mudaria os rumos de sua vida, transformando‑o em um indivíduo realizado. Atanásio tinha agora uma obsessão: adentrar o Jockey Club Brasileiro (localizado na Gávea, bairro do Rio de Janeiro), considerado por ele o “santuário dos endinheirados”. Depois de conseguir a façanha, Atanásio saberia o que fazer – mas isso pouca importava. Para chegar ao ponto final da jornada, ele precisaria da ajuda do cunhado, Edmilson André (Lázaro Ramos), responsável pelos cuidados com o gramado do Jockey e considerado por Atanásio como um homem “direito, quieto, honesto e trabalhador – tudo isso até demais”. Preso nessa relação de causa e efeito, o porteiro faz a travessia dos seus dias sem esquecer por um momento da obsessão com o cunhado, o cortador de grama e o Jockey Club.
Com roteiro e direção de Anne Pinheiro Guimarães, “Desejo” remonta aos textos do citado Charles Bukowski e traz à beira da praia nomes como Henry Miller e Nelson Rodrigues, conectando a vida do sujeito ordinário aos devaneios que o fazem resistir, sobreviver e elaborar de um modo menos limitado a sua existência. A narrativa em off é utilizada durante todo o curta e abre espaço para a mistura entre a linguagem fílmica e literária, soprando no ar figuras irônicas, sarcásticas, ácidas e humanas.
Da clássica música “What a Wonderful World” — perpetuada na voz de Louis Armstrong – até o afamado “Melô do Piri Piri”, da popular cantora e casadoura Gretchen, “Desejo” vai além das epifanias do porteiro Atanásio e mostra que o mundo pode ter lá suas maravilhas – se a descobrirmos do nosso jeito.
Eu sou a mosca que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar. (…) E não adianta vir me dedetizar. Pois nem o DDT pode assim me exterminar. Porque você mata uma e vem outra em meu lugar.
Raul Seixas em “Mosca na Sopa”
Sinônimo de incômodo e desprezo, a mosca é um dos insetos mais rechaçados do convívio social. Ela transtorna reuniões familiares, importuna tradições de ordem e controle, desnuda as estruturas assépticas. A mosca na sopa, personificação adotada pelo compositor e músico brasileiro Raul Seixas, é uma anarquista pública e notória: sua presença é hostilizada, mas independe de aceitação; por mais que seja intimidada, violentada, aprisionada e degolada, ela volta em múltiplos pares. E é com tamanha persistência e deboche que elas, as famigeradas moscas, comunicam sua mensagem.
No final da década 1970, as moscas também marcavam presença física e metafórica em território brasileiro. Para os agentes da ditadura militar, todo e qualquer elemento subversivo que atentasse contra a ordem, o governo e o trinômio “tradição – família – propriedade”, deveria ser sumariamente extinto. Naqueles anos de portas fechadas, entre a periferia de Recife e Olinda, cidades do Nordeste brasileiro, o diretor Hilton Lacerda ambientou a história de uma trupe de artistas que criava um universo próprio de irreverência, zombaria e autoria no teatro-cabaré Chão de Estrelas, criação inspirada pelo grupo de teatro Vivencial Diversiones, que existiu entre 1972 e 1981.
Na ficção, o sistema protocolar de regras, ordens, hierarquia e disciplina do sistema militar, exercia influência angustiante em um tímido recruta nascido e criado no interior de Pernambuco, tornando-lhe penoso e mortífero o dever de sustentar uma máscara que mal lhe cabe no rosto. Esse é o fio condutor da pólvora que explode em “Tatuagem” (Brasil, 2013), filme do cineasta pernambucano Hilton Lacerda em sua estreia como diretor depois de longa experiência como roteirista. A trama traz como pano de fundo o romance entre o agitador cultural e performer Clécio Wanderley, interpretado pelo ator Irandhir Santos, e o soldado raso Arlindo Araújo, conhecido como Fininha, personagem vivido por Jesuíta Barbosa.
Chão de Estrelas, o Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da favela
“Tatuagem” fala de resistência política, criação explosiva, anarquista, debochada, livre; é uma afirmação do espaço daqueles que são esmagados por uma conjuntura armada, mas que resistem, queimam, renovam. Na trama, Chão de Estrelas nasce no seio da periferia, epígrafe acentuada no início do longa-metragem com a fala de Clécio ao destacar que o cabaré é “o Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da favela”, em clara referência aos internacionalmente conhecidos, cultuados e caros ambientes de apresentação artística e corporal da época. É nesse perímetro de reinvenções que o diretor Hilton Lacerda detém o olhar, criando uma narrativa audaciosa.
Clécio e Fininha se conhecem por meio de Paulete (Rodrigo Garcia), irmão da então namorada do recruta. Enquanto Clécio dirigia um espetáculo debochado, Fininha vivia aprisionado nos ditames do quartel, detalhe exposto logo nos minutos iniciais, com a visão do rapaz enquadrado pelas barras dos beliches — efeito criado pela utilização do movimento de zoom-out. O envolvimento desse casal improvável, vai descortinando uma nova visualização e entendimento do mundo, abrindo espaço para as sensibilidades de dois universos distintos. Rodeado pela liberdade em todos os sentidos, Fininha vai, aos poucos, sentindo seu corpo como parte do processo artístico e vivencial que explode no teatro do Chão de Estrelas. Assim como o mitológico canto da sereia, a magia que nasce no cabaré começa a encantar o jovem recruta, mostrando-lhe um ambiente de troca de relações bem mais autêntico do que costumava vivenciar.
Cena do filme “Tatuagem” mostrando o “aprisionamento” de Fininha
No filme, o “cair da noite” assume uma simbologia extremamente importante ao abrir novas pontes de resistência. Pontes que podem ser observadas no público que frequenta o teatro-cabaré, formado por homossexuais, simpatizantes, militantes da luta de classes e intelectuais esquerdistas – esta última figura é adotada pelo professor Joubert (Sílvio Restiffe) e seus poemas de cunho político e libertário, além da sua produção experimental, feita com uma câmera Super‑8, direcionada para registrar os momentos marcantes de produção/apresentação dos números do Chão de Estrelas. É através da noite, do erotismo, da luxúria escancarada, do cuspe anárquico em forma de performances ousadas com o corpo e a linguagem, que “Tatuagem” vai traçando novas rotas de peregrinação de forma arrojada.
Hilton Lacerda
O diretor Hilton Lacerda vem de uma longa caminhada como roteirista, trazendo na bagagem filmes como “Febre de Rato” (2011), “Amarelo Manga” (2002), “Baixio das Bestas” (2006), em parceria com o cineasta Cláudio Assis, e “Cartola – Música para os Olhos” (2006), onde divide a direção com Lírio Ferreira. A energia em construir detalhes faz a assinatura de Lacerda um diferencial palpável em “Tatuagem”.
A opção por contar a história de amor entre dois homens ganha contornos autênticos: Clécio e Fininha dividem o afeto íntimo com os espectadores; o romance – claro, direto, cru – não está ali apenas para inquietar os que ainda desviam o olhar diante das cenas de beijo ou de sexo entre dois homens; o amor homossexual e o choque de vivências que ele representa (o agitador cultural e o militar) ultrapassam a acomodação da militância padronizada: nessa relação de polos opostos está o grito dos amores, grupos, movimentos, pensamentos, vidas e sentimentos rotulados como periféricos. É esse o elemento de pulsão levantando por “Tatuagem”, levando à derrocada da hegemonia das instituições sagradas e do desfile dos triunfantes. Para o palco e o público do Chão de Estrelas, não há lugar para preconceitos, não há mártires para castrações. O que existe no cabaré-teatro é o rompimento de tradições; um lugar onde múltiplas jornadas não se chocam, mas se complementam, tendo como exemplo máximo a figura de Clécio: diretor, poeta, agitador, anarquista, amante e pai.
o performer Clécio Wanderley (Irandhir Santos) e o soldado raso Fininha (Jesuíta Barbosa)
A liberdade e a vivência consciente também estão presentes no conceito de família apresentando no filme. Tuca — fruto do relacionamento do agitador cultural com Deusa, mãe solteira, adepta dos mesmos ideais — circula livremente pelas dependências do cabaré, observando os trabalhos de produção do pai. Em uma cena significativa, Clécio pede à Deusa que não traga mais o menino ao cabaré pois aquele “não é lugar para criança”. Nesse gancho, a mãe responde que “não há lugar adequado, e sim educação adequada”, fazendo referência direta a um modelo educacional que aposta na liberdade, consciência e tolerância.
Toda essa provocação clara e subversiva deixa rastros pelo filme e encontra outra forte representante com a personagem Paulete. É na alegria do escândalo que Paulete alimenta o sonho de ser ator reconhecido, dando mais vida ao longa-metragem com suas piadas espirituosas, seus berros e gestos corporais esfuziantes. É difícil destacar uma única cena dramatizada pelo ator Rodrigo García na pele de Paulete: ele consegue fazer os holofotes circularem em torno de si, seja com expressões jocosas, canções despudoradas ou caras e bocas risíveis. García tem o poder de transformar a caricatura do artista gay transvestido em indumentárias femininas, em uma verdadeira metamorfose artística.
Rodrigo Garcia como a personagem Paulete
Há muita intensidade e autenticidade em “Tatuagem” – fato que rendeu sucesso de crítica, prêmios e menções honrosas para o filme e seus atores. Mais uma prova de que rotas alternativas são possíveis, tanto no âmbito do pensamento quanto na ação. O audiovisual brasileiro precisa de olhares diferenciais, novas linguagens, desafios, posturas e riscos, não só da parte dos produtores, mas também de espectadores. Cinema é feito de sensibilidades e da persistência de “moscas” que não se intimidam com o que está dito e feito, trazendo para si a tarefa de questionar a naturalização do mundo. Construir panoramas é como tatuar a pele: na marca eternizada, passado, presente e futuro se comunicam em um mesmo traço. E é no caminho que percorre esse traço que está o novo.
Ser imortal, ou pelo menos algo próximo a isso, é um desejo que inspira muitas histórias e pesquisas, passando desde abordagens mais místicas às mais tecnológicas. Essa condição, além de oferecer várias possibilidades, também levanta várias questões que são muitas vezes difíceis de se imaginar dada a brevidade de nosso tempo de vida. Como será que uma criatura perpétua se sentiria em relação ao caminhar da história da humanidade? E uma relação amorosa que durasse séculos? Estes são os dois fios condutores da trama de “Amantes Eternos” (“Only Lovers Left Alive”, Inglaterra/Alemanha/Grécia, 2013), dirigido e escrito por Jim Jarmusch.
Passando longe da ficção científica para criar tal condição, Jarmusch traz um novo olhar a criatura imortalizada (nos dois sentidos) por Bram Stoker: o vampiro. Antes que alguns torçam o nariz, não se trata de mais uma adaptação pueril ou uma desculpa para colocar pessoas em colantes pretos lutando entre si ou com monstros em câmera lenta. “Amantes Eternos” traz novamente os vampiros para o seu auge nas telonas, assim como fez “Entrevista com o Vampiro” (1994), de Neil Jordan, baseado na obra da escritora Anne Rice. Só que desta vez, o conflito principal não é uma crise existencial consigo mesmo, mas sim com a espécie humana em geral, aqui apelidada carinhosamente de zumbis.
Tal crise tem seus motivos mais que óbvios. Afinal, deve ser deprimente ver, e as vezes também conviver, com várias mentes brilhantes que são ignoradas e até mortas por conta de suas ideias revolucionárias, para somente depois de décadas, serem finalmente escutadas, mesmo que apenas parcialmente. Juntando isso a todo o conhecimento que esta pessoa iria acumular durante séculos, cria-se uma situação no mínimo desanimadora. Os dois personagens principais de “Amantes Eternos” são extremamente cultos, sempre lembrando de seus amigos do passado (Schubert, Gustave Flaubert, Shakespeare…) como se ontem houvessem conversado. Por conta disso, se tornam até meios esnobes, mas nunca sendo pedantes e sempre com um ótimo senso de humor nas suas referências e brincadeiras.
Para sobreviver todo esse tempo, além da constante mudança de local, há algo ainda mais importante a ser prezado: o anonimato. Afinal, seria difícil, para não dizer impossível, esconder a “imortalidade” sob qualquer tipo de holofote. Ou seja, nada de virar astros de rock ou vigilantes noturnos. Fazer isso seria como se intitular “agente secreto” quando todos sabem que seu nome é James Bond e que você é o 007. Mas voltando ao assunto do longa em questão… Adam vive em Detroit, uma cidade nos Estados Unidos que atualmente está praticamente abandonada, tendo declarado concordata no ano passado. Com certeza um dos melhores lugares para alguém se esconder atualmente no EUA.
Em “Amantes Eternos”, acompanhamos o casal Adam (Tom Hiddleston, o ótimo Loki de “Thor”), um músico ávido e genial, e Eve (Tilda Swinton, a imortal “Orlando”), uma amante da literatura, tentando sobreviver no mundo atual. Mas a composição de músicas já não consegue mais mascarar a insatisfação de Adam em relação a vida e a humanidade e Eve vai visitá-lo para ajudá-lo nesta crise. Falando em música, a trilha sonora é um dos grandes destaques do longa, sendo bastante sombria mas ao mesmo tempo sedutora, um verdadeiro post-rock vampiresco.
Com uma fotografia bem sombria, o filme se passa quase todo em ambientes fechados e mal iluminados, sempre a noite é claro. Este foi o primeiro longa filmado digitalmente por Jarmusch, que tem sérias restrições a respeito desse formato por não possuir, segundo ele, uma qualidade boa para áreas abertas e com muita iluminação. Mas como neste longa não há nada disso, acabou se adaptando perfeitamente a estas limitações. Outra curiosidade interessante é que dentro do set de filmagens, não era tocada nenhuma música, foi apenas distribuído um mixtape entre a equipe.
Para condizer com todo o discurso da anonimidade e conhecimento secular dos personagens, esses vampiros não possuem visualmente nada de extravante, tendo apenas como diferencial um cabelo bem animalesco (que foi criado misturando a partir da mistura de cabelo humano com pêlo de cabra e iaque). O longa também brinca com várias das concepções a respeito desses seres da noite, principalmente com a maneira que eles se alimentam, que é sensacional. Outro detalhe interessante está relacionado com a introdução de um novo, concebido pelo próprio diretor, para caracterizá-los. Vamos ver se você percebe ou percebeu qual é ele.
Resumindo em poucas palavras: se você gosta de filmes inteligentes e fica intrigado com as possibilidades de perpétuos sugadores de sangue, é bem provável que fique completamente seduzido por “Amantes Eternos”.
O buraco do espelho está fechado, agora eu tenho que ficar agora. Fui pelo abandono abandonado, aqui dentro do lado de fora.
O trecho acima faz parte da música “O Buraco do Espelho”, do cantor e compositor brasileiro Arnaldo Antunes. A canção integra a trilha sonora do filme “Bicho de Sete Cabeças” (2001), um retrato duro, ácido e humanamente cruel sobre a realidade vivenciada pelos internos de hospitais psiquiátricos. Dirigido pela cineasta Laís Bodanzky e com roteiro de Luiz Bolognesi, “Bicho de Sete Cabeças” narra a história de um jovem internado pelo pai em um manicômio depois de ter sido flagrado com cigarros de maconha. O enredo foi baseado no livro “Canto dos Malditos”, uma autobiografia de Austregésilo Carrano Bueno (1957–2008), ex-interno de uma instituição manicomial e, como muitos outros, vítima dos abusos, espancamentos e torturas comumente praticados nesse tipo de lugar.
No longa-metragem, Neto (protagonizado pelo ator Rodrigo Santoro) é um jovem de classe média baixa que vive conflitos familiares por não se enquadrar no padrão de comportamento socialmente aceito, irritando especialmente seu pai (vivido por Othon Bastos). Atravessando uma fase associada à rebeldia, Neto gosta de andar de skate, pichar muros, usar brincos e cabelos compridos, fato que a figura paterna não aceita e oprime. A ausência de diálogo e a repressão desmedida resultam no estremecimento da comunicação entre pai e filho, levando-os à constante troca de acusações e rompantes de agressividade. A contínua tensão e desconfiança faz com que Wilson, pai de Neto, decida internar o filho em um hospício depois de encontrar cigarros de maconha entre os pertences do rapaz. A partir desse momento, a vida de Neto transforma-se em um verdadeiro abismo esquecido dentro do inferno.
Encarcerado contra sua vontade, o jovem também é ignorado pelo psiquiatra da instituição, profissional que raramente aparece no lugar e cuja única preocupação é conseguir financiamento, ainda que isso signifique capturar e internar pessoas indiscriminadamente. O padecimento de Neto e dos outros internos ocorre das mais diferentes formas, seja por meio de drogas anestésicas e de substâncias como o metilfenidato, conhecido como “sossega leão”; ou da torturante “camisa de força”, colete que aprisiona os membros superiores; bem como através de tratamentos com Eletroconvulsoterapia (ECT), popularmente chamados de eletrochoques. Além dos tormentos físicos, os “pacientes-prisioneiros” são humilhados, hostilizados, barbarizados e esquecidos, sofrendo forte coação de médicos e enfermeiros, e sentindo a indiferença e preconceito vindos da própria família. São seres humanos estigmatizados, coisificados e transformados em personagens invisíveis, perdendo sua liberdade, dignidade, autonomia e subjetividade.
Autobiografia de Austregésilo Carrano Bueno
A cicatriz da internação psiquiátrica cobra seu preço, e mesmo depois de liberado, Neto não consegue se adaptar ao modelo imposto pela sociedade e pela família, e é novamente encarcerado no hospício. O rapaz só consegue sair após incendiar a cela em que está e, finalmente, chamar a atenção do pai. No desfecho do filme, acompanhamos Neto envelhecido pelo sofrimento e pela dor. Depois de tudo o que enfrentou, o rapaz transforma-se em uma sombra de si mesmo, angustiado como o quadro “O grito” (1893), de Edvard Munch; desencantado como o grito de ‘Nunca mais’, do poema “O Corvo” (1845), de Edgar Allan Poe, e abatido como as composições derradeiras do compositor clássico alemão Robert Schumann.
Premiado em festivais nacionais e internacionais, “Bicho de Sete Cabeças” possui uma atmosfera que combina cinematográfico e documental, evidenciada pela naturalidade dos diálogos e atuação dos atores. O tema também fortalece a luta antimanicomial ao apontar a dor e a desintegração encontradas em espaços que controlam e reprimem para — tomando de empréstimo a expressão cunhada pelo filósofo e pesquisador francês Michel Foucault — transformar subjetividades humanas em “corpos disciplinados, corpos dóceis”. Por não fazer parte do enquadramento social e comportamento imposto pelas redes microbianas de poder, Neto foi aprisionado, castigado e submetido a mecanismos de remodelação.
Cena do filme “Bicho de Sete Cabeças”
Situações como as do protagonista do filme — de não adaptação aos parâmetros estabelecidos — também fizeram com que muitas mulheres fossem sentenciadas à internação em instituições asilares, como o Hospício do Juquery. O estudo detalhado de Maria Clementina Pereira Cunha em livros (O espelho do mundo. Juquery, a história de um asilo – 1986), artigos (De historiadoras, brasileiras e escandinavas: Loucuras, folias e relações de gêneros no Brasil (século XIX e início do XX)) e pesquisas mostra que a imposição de padrões ditos normais para o comportamento feminino exercia papel decisivo na internação psiquiátrica. Assim como a personagem do filme “Bicho de Sete Cabeças”, as mulheres que estavam fora do padrão social esperado eram consideradas inadequadas e, dessa forma, obrigadas à correção exemplar.
“O grito” (1893), de Edvard Munch
A imposição do padrão de normalidade, difundida com toda força pelos discursos de natureza médica de menos de um século atrás, foi utilizada dentro dos hospitais psiquiátricos para justificar internações e ações arbitrárias. Além do grupo feminino, os demais marginalizados – pessoas pobres, miseráveis, moradores de cortiços, operários, mendigos e todos os que subvertiam a ordem estabelecida – eram considerados propensos à devassidão, perversão, loucura e criminalidade.
Outro ponto interessante devidamente representado no longa-metragem de Laís Bodanzky diz respeito à figura do psiquiatra como autoridade competente, atestada cientificamente para produzir discursos autorizados. No início de sua internação, Neto questiona enfermeiros sobre o fato de estar ali, afirmando que eles não poderiam mantê-lo internado, pois não estava doente. Um dos enfermeiros afirma a Neto que os pais do jovem já tinham conversado com o médico e explicado toda a situação. No prontuário de Neto constava que ele era um rapaz “agressivo, rebelde, que não respeitava seus pais, mesmo tendo muito amor e diálogo em casa”, ou seja, o jovem já estava fichado e rotulado assim que entrou no hospício, e nada do que dissesse ou fizesse modificaria ou atenuaria sua situação. Neto perdeu a autonomia, sua capacidade de decidir e sua liberdade de ir e vir. Como expressa Alfredo Naffah Neto em artigo intitulado ‘O estigma da loucura e a perda da autonomia’:
Desde o instante em que o estigma da loucura lhe foi imputado, é como se no lugar do sujeito aparecesse a doença mental; então, o discurso e as ações expressas pelo louco cessam de significar em si próprias, tornando-se apenas sintomas da doença.
Hospício de Barbacena (MG)
Dessa forma, aqueles que são marcados com o estigma da loucura são considerados incapazes – jurídica, social e emocionalmente – de decidir sobre o seu próprio destino. Nas palavras de Naffah Neto: “O louco é transformado num fantoche que deve ser manipulado pelo poder/saber médico”. Na literatura, o poder discricionário das autoridades médicas, “científicas e competentes”, pode ser observado no conto “Só vim telefonar”, do autor colombiano Gabriel García Márquez, e no conto-novela “O Alienista”, do escritor brasileiro Machado de Assis. De diferentes maneiras, ambos tratam de questionar a visão do saber médico como discurso incontestável, capaz de manipular, subjugar e aniquilar identidades. Tanto o hospício como a prisão atuam como instituições de disciplina e controle, criando novas modalidades de fiscalização e domínio justificadas pela legitimidade científica.
Rodrigo Santoro em “Bicho de Sete Cabeças” (Foto: Marlene Bérgamo)
Em artigo intitulado “Loucura e Criminalidade: Desvendando os mistérios das moralidades anômalas”, Felipe da Cunha Lopes e Ítalo Cristiano Silva e Souza discorrem sobre a associação entre loucura e criminalidade feita pelo discurso médico teresinense entre as décadas de 1870 e final da década de 1930. Segundo o artigo, os articulistas que escreviam para jornais piauienses da época associavam loucura à prática de crimes, alegando a existência da insanidade em criminosos e da criminalidade em loucos (baseados na teoria da degenerescência). Com base nessa ideia, percebe-se a “problematização da loucura em função da virtualidade criminosa”. Os autores do artigo lembram que “(…) a psiquiatria foi uma das principais ferramentas utilizadas para justificar e elaborar estratégias de controle e transformação do comportamento do homem em sociedade”. Assim, a medicina transformou-se em ferramenta indispensável para manter dispositivos de controle social.
Hospício de Barbacena (MG)
O regime de verdade e a imposição de uma suposta normalidade exigem tributos caros; preço que é pago a sangue e alma por um número inestimável de pessoas que foram e continuam sendo excluídas, trancafiadas e esquecidas. Os exemplos de desrespeito e invisibilidade extrapolam páginas de livros e dados de pesquisas. Eles estão marcados no coração dos sobreviventes do Hospício de Barbacena (MG), do Juquery e muitas outras instituições de controle e domínio.
“E a rachadura na xícara de chá abre uma trilha para a terra dos mortos”, escreveu o poeta W.H Auden. Partindo dessa imagem, percebemos uma alameda silenciosa e intrincada de caos, dúvidas e inseguranças invadindo o rotineiro e confortável espaço social, personificado pela figura de uma xícara de chá. Um tipo de invasão sem volta, pois penetra no estado de espírito de um grupo, nação ou comunidade, desnudando simulações e fazendo cair máscaras. Esse é o cenário esboçado pelo filme Dogville (2003), dirigido pelo diretor dinamarquês Lars von Trier, e cuja temática será objeto de mapeamento, reflexão e análise no que concerne ao imaginário material da cidade e dos personagens fictícios.
A história do longa-metragem se passa em uma vila chamada Dogville, habitada por pessoas simples, com anseios modestos e sem perspectivas de mudança. Situado entre montanhas, o vilarejo tem pouquíssimo contato com o mundo exterior, isolando os moradores aos limites do lugar. A rotina mecanizada de Dogville reflete em uma comunidade acomodada, sem capacidade criativa e completamente entorpecida. Um de seus moradores, o aspirante a escritor Tom Edison (interpretado pelo ator Paul Bettany), avoca para si a autoridade de “líder-comunitário” e tenta inserir novas ideias e discussões no seio da comunidade.
Em um dado momento, a empoeirada vila é tomada de assalto pela presença de Grace (vivida pela atriz Nicole Kidman), forasteira que chega furtivamente à Dogville. Tom é o primeiro a ter contato com Grace, intercedendo por ela perante os outros membros do grupo. Depois de uma assembleia, fica decidido que Grace terá duas semanas para conquistar a confiança do povoado e, sugestionada por Tom, a forasteira decide oferecer sua ajuda aos habitantes.
A “rachadura na xícara”, iniciada com o aparecimento de Grace, se estende durante toda a sequência do filme, dividido em nove capítulos. No decorrer da trama, mudanças substanciais acontecem no pequeno vilarejo e o ar de felicidade idílica dá lugar à nuvem de fumaça densa, fúnebre e tenebrosa. A população de Dogville começa mostrando medo e desconfiança em relação à permanência de Grace na cidade, modificando o pensamento pouco depois, já que todos os quinze habitantes estavam sendo beneficiados pelo trabalho da forasteira. O enredo segue até revelar a verdadeira face de Dogville: de amigos acolhedores, os habitantes passam a predadores vorazes, tratando Grace como objeto, esmagando sua identidade, desumanizando‑a.
Para entender como se dá a construção do imaginário material da cidade e de seus habitantes, cabe destacar a aposta do diretor Lars von Trier em um estilo cinematográfico híbrido, em que figuram elementos teatrais e literários. Com essa mistura, as noções de real e irreal se entrelaçam e subvertem os modelos padrões, alterando também a percepção de verdadeiro e falso. O longa-metragem apresenta características do teatro grego (instiga o desejo do espectador pela violência crua), teatro do absurdo (interação dos atores com objetos imaginários), bem como a ausência de fundo musical. Outro fator decisivo na construção do filme é a utilização de cenários destacados no chão, marcando a presença de cada habitante no ambiente um do outro, e o uso de paredes pretas (teatro caixa-preta), valorizando assim um formato mais intimista, voltado à dramaticidade e tensão.
A falta de “distrações cênicas” permite que o espectador concentre a atenção nas relações que se embaraçam e desembaraçam na cadeia dos acontecimentos. Dessa forma, observa-se a construção de Dogville como uma cidade parada no tempo, vítima de sua própria amargura e solidão. A cultura da repetição, mediocridade e imutabilidade toma conta do pequeno espaço, afogando os moradores em uma espécie de torpor cego. Presos em ideias fixas, eles não conseguem enxergar além dos seus próprios muros, e mesmo integrando o todo — representado pelo espaço comunitário — os membros de Dogville não se reconhecem como indivíduos.
Os moradores perdem a maior parte das horas do dia em suas atividades cotidianas, cuja única orientação vem do badalo monocórdio do sino da igreja, administrado por uma habitante da vila, já que nenhum padre jamais apareceu no local. Dentre os habitantes, estão casais infelizes e apáticos (Chuck e Vera), pais que não sabem amar e educar os filhos; fabricantes de objetos e produtos sem qualidade, mas que logram em cima da comunidade através de preços exorbitantes (família Henson e senhora Ginger); homens hipocondríacos ou que se recusam a aceitar a enfermidade (dois extremos, representados pelo ex-médico Thomas Edison, pai do autointitulado escritor Tom, e o irascível cego McKay); além do transportador de carga (Ben) que frequenta prostíbulos e tenta esconder o fato por vergonha, e a faxineira solitária e sua filha deficiente.
Em um primeiro momento, a inércia bucólica do lugar encanta Grace que, cansada de fugir de suposta máfia, faz tudo para permanecer no local. Quando os habitantes de Dogville percebem o poder que exercem sobre Grace, apelando para o medo que a desconhecida tem de ser entregue à polícia ou aos mafiosos, há uma ruptura gradativa no modo de tratamento. De “recém-integrante” do espaço comunitário, a forasteira se transforma em escrava física e sexual, sendo explorada de todas as maneiras possíveis.
A partir desse ponto, Dogville começa a se construída como “cidade do cão”, onde pessoas agem por instinto animalesco de poder e controle, forçando Grace a ser um de seus objetos. Toda a mesquinharia da cidade é camuflada pela afirmação medonha dos habitantes de que “só queremos o seu bem” ou “não gostaríamos de fazer isso com você”, representando a imagem do algoz que açoita e flagela, alegando que o faz pela graça de Deus e bem de toda a humanidade (vide a barbárie perpetrada pela Santa Inquisição contra supostos hereges e o contínuo massacre étnico e religioso cometido nas terras do Oriente Médio, por exemplo).
O ideal conservador, tradicionalista e pacato da cidade camufla o medo da mudança que assola o íntimo dos moradores, deixando-os capazes de qualquer selvageria para conservar a atmosfera inerte e o comodismo. No imaginário dos moradores de Dogville, a cidade funciona perfeitamente bem, integrada por ideais democráticos e solidários de manutenção de valores tradicionais e familiares. Mas com a chegada de Grace, o espectador começa a acompanhar o declínio moral e social da vila; ruínas que estavam escondidas na cegueira da cidade, em sua natureza amorfa e imutável.
Ao penetrar no nevoeiro que é a “cidade do cão”, Grace transforma-se no dedo em riste, uma espécie de questionamento vivo às imagens construídas sobre a vila e seus habitantes. As certezas de Tom Edison começam a ser removidas, revelando ao próprio “escritor” que a última coisa que ele gostaria que acontecesse era passar por mudanças ou confrontar sua vida. Por outro lado, Grace prova através de suas ações e reações diante de todas as brutalidades das quais é vítima que “não estar morto não é estar vivo”, como disse o poeta e ensaísta E.E Cummings. A criatividade e humanidade da jovem forasteira lembram à Dogville como a vila é pequena em espírito, limitada geograficamente, trancafiada em um mosaico de rotinas, perfeitamente adaptada e estabilizada em situações que sequer conhece ou entende.
Compreendendo o imaginário como a cultura de um grupo, percebe-se a desconstrução das imagens de Dogville, desnudando o caráter tirânico de pessoas catatônicas, incapazes de lidar com rupturas. A vila imaginária de Lars von Trier é um emblema das grandes cidades e sua “filosofia do absurdo”, onde a individualidade se perde no meio de relações superficiais e a sede do “poder de vida e de morte” afugenta sentimentos, criando hierarquias.
Para superar tamanho desgaste, Grace faz referência ao estoicismo e sua ética do “imperturbável, extirpação das paixões e aceitação resignada do destino” como forma de atingir à sabedoria. Dores, sofrimentos e infortúnios são esquecidos e personificados na imagem de uma mulher doce, meiga, com voz açucarada e capaz de suportar as adversidades. A construção dessa imagem faz referência a aceitação da sociedade atual, silenciosa e cativa, subjugada por “poderes microscópicos”, expressão cunhada pelo pensador francês Michel Foucault, que dominam, martirizam e devastam sua existência.
Dogville remonta imagens do nosso quadro social, assassino de individualidades e tomado por mesquinharias. Como os habitantes desse pequeno povoado esquecido, alimentamos a ideia de que somos formados por “justiça, igualdade e fraternidade”, escondendo o rosto ao desumanizar e estigmatizar o outro. A caricatura do covarde personagem Tom Edison mostra o lado intragável do medo de encarar inseguranças e mudanças, da submissão a uma ordem social imposta, do ideal de fetiche gregário e da ação instintiva, com a busca da satisfação de necessidades físicas e dos próprios interesses.
Saturno devorando seu filho
O desfecho do filme, trágico e intenso – a exemplo da dramaturgia grega -, apresenta imagens dicotômicas e míticas, presentes no imaginário social. Inicialmente concebida como Prometeu, titã mitológico que, guiado pelo amor aos humanos, decide ensiná-los a civilização e as artes e é amaldiçoado por Júpiter (Zeus), sendo severamente castigado, Grace vai assumindo a forma do quadro de Goya (Saturno devorando seu filho), e engole a cidade inteira, queimando‑a e trucidando‑a.
Dogville é formada por símbolos de apreensão do real, emblema de imagens que são transformadas em pessoas, sentimentos, situações e coisas. Os personagens da “cidade do cão” são metáforas que unem objetividade e subjetividade. Refletir sobre o imaginário é compreender sua importância na construção da realidade e na formação da identidade humana, em toda sua inquietação e complexidade.
A cineasta paulista Juliana Rojas tem conquistado destaque no cenário cinematográfico brasileiro com o curta-metragem “O Duplo” (2012), trabalho premiado em Cannes e em diversos festivais nacionais e estrangeiros. Na trama, a professora Silvia (Sabrina Greve) é confrontada com a imagem de seu duplo, uma espécie de clone soturno e negativo, e entra em colapso. A história toma por base o mito europeu conhecido como Doppelgänger, que é considerado um sinal nada auspicioso. Segundo a lenda, quem vê seu duplo enfrenta o risco de maus presságios e morte iminente.
A história do curta foi baseada em um depoimento real sobre a aparição do Doppelgänger, fato registrado no começo do filme e que dá o pontapé inicial para abrir as comportas do universo fantástico e das fábulas de horror, assinatura de Juliana. Assim como em “Lençol Branco” (2004) e “Um Ramo” (2007), trabalhos produzidos em parceria com o diretor Marco Dutra, a cineasta concilia com precisão a trivialidade da vida de mulheres que, abruptamente desestabilizadas, precisam lidar de forma pavorosa com elementos surreais ligados ao macabro e à transformação física ou mental.
As imagens envelhecidas e com tonalidade marrom de “O Duplo” fortalecem a aura silenciosa e sinistra que cerca a escola, espaço principal dos acontecimentos. Ao encarar o seu clone maligno, os olhos da professora Silvia ganham um brilho novo, algo que se move com a ferocidade e carnificina de um tubarão-branco. Há elementos de horror e tensão espalhados do começo ao fim dos vinte e cinco minutos do curta, com destaque para a apocalíptica cena em que a personagem da atriz Gilda Nomacce, presença marcante nas produções de Rojas, estica e puxa o elástico de uma pasta de forma frenética e perturbadora. Nestes poucos segundos que parecem durar uma eternidade, há a certeza absoluta do desfecho trágico. Simplesmente fenomenal!
“O Duplo” faz emergir a qualidade de um trabalho que explora o terror e o fantástico de forma consistente, dando força a um gênero ainda pouco difundido entre as produções nacionais.
Considerada como um dos setes pecados capitais, a ganância é um sentimento cuja origem está profundamente enraizada na nossa história como seres humanos. Sendo muito cultuada em certos círculos de negócios, a cobiça é muitas vezes vista como essencial para quem aspira ser bem sucedido. “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, EUA, 2013), novo filme do renomado diretor Martin Scorsese, é uma odisseia no mundo de um grupo de corretores de Wall Street, onde a ambição desmedida impera sem qualquer restrições.
Baseado na vida do corretor Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), cuja trajetória foi repleta de drogas, excessos e fraudes, acompanhamos sua evolução de trabalhador inocente vindo de uma família pobre para milionário dono de uma grande empresa. Jordan é um verdadeiro “self made man”, que vende sua trajetória como exemplo da concretização do sonho americano. Afinal, segundo ele, quem não quer ficar rico?
A super equipe de vendedores de Belfort
Suas competências como vendedor vão muito além da sua área de atuação, e seu principal produto é ele mesmo. A plateia de Belfort não é formada só por seus clientes e funcionários, que muitas vezes o adoram quase como um deus, mas também pelo próprio espectador do filme. Através de várias falas diretamente para câmera, Jordan não está só contando a sua história, mas vendendo‑a para você, criando simpatia e ganhando sua confiança. Ao mesmo tempo que suas atitudes são intoleráveis, é difícil não sentir certa fascinação por sua “sinceridade” e carisma. É um sentimento muito parecido com aquele criado por alguns dos personagens principais do Woody Allen, que as vezes ele mesmo interpreta, ao se justificar ao espectador o seu comportamento egoísta e muitas vezes bizarro.
As brincadeiras nada usuais dentro da empresa
Falando em não usual, leia-se extravagante e as vezes até grotesco, esqueça totalmente o politicamente correto ao assistir “O Lobo de Wall Street”, pois um dos seus destaques é justamente o humor negro, e as vezes de mau gosto. Preconceitos, drogas, masturbação, sexo, … tudo é contato e mostrado abertamente e sem censura como se fosse uma conversa entre dois amigos íntimos. Se você gostou de filmes como “TED” (2012) e “Superbad: É Hoje” (2007), provavelmente vai adorar este.
O quase irreconhecível Leonardo DiCaprio como Belfort
Outro grande destaque do filme é seu excelente elenco. Depois de fazer dois papéis seguidos de milionário, no péssimo “O Grande Gatsby” (2013) e no ótimo “Django Livre” (2012), Leonardo DiCaprio está sensacional como o magnata Belfort, ficando muitas vezes irreconhecível de tão envolvedora que é sua atuação. Seu papel é quase como uma possível maturação de seu outro personagem, o Frank de “Prenda-me se For Capaz” (2002). Mas apesar de já ter um portfólio bem forte, este é seu sexto trabalho com o diretor Scorsese, DiCaprio ainda não conquistou nenhum Oscar, fato que pode mudar este ano com sua indicação como melhor ator pelo papel, principalmente por já ter levado o “Globo de Ouro” de 2014 na mesma categoria. “O Lobo de Wall Street” também está sendo indicado a mais quatro Oscars, o de melhor filme, diretor, ator coadjuvante (o excelente Jonah Hill) e roteiro adaptado.
Margot Robbie, Leonardo DiCaprio e o diretor Martin Scorsese
Uma curiosidade interessante a respeito desta produção é que o verdadeiro Jordan Belfort ainda está vivo e foi bastante consultado durante a produção do filme. Além de ter passado um tempo junto com Belfort durante a preparação para o papel, DiCaprio também o consultava quando tinha alguma dúvida durante as filmagens. Segundo o ator, Jordan é bem aberto a respeito desta sua fase mais obscura, não tendo problema de falar sobre ela, inclusive em público.
Quase um deus perante seus funcionários
Com três horas de duração, “O Lobo de Wall Street” consegue explorar bem a sua história e personagens, tudo se desenvolve de forma tão natural que você quase não percebe o tempo passando. A não linearidade da narrativa cria um ritmo bem dinâmico, não apelando para flashbacks ou cortes muito rápidos demais somente para envolver o espectador em seu enredo. Sua carga dramática é muito bem balanceada com o seu humor, mas apesar de engraçado não classificaria como comédia. Ao final do filme fica apenas uma grande questão: como você me venderia uma caneta?
Zana Briski, fotógrafa e ativista, é autora do tocante documentário “Nascidos em Bordéis” (Born into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids, 2004), dirigido por ela e pelo produtor Ross Kauffman, traduzindo a panorâmica vivida pelas crianças do bairro da Luz Vermelha, em Calcutá.
Frutos de um arcabouço social tirano (promovido pelo sistema de castas), meninos e meninas são submetidos à condições sub-humanas de sobrevivência, convivendo diariamente com a violência, alimentação precária, falta de saneamento básico, ausência educacional e, principalmente, a mortalha da desesperança. A prostituição e o universo criminoso parecem ser as únicas heranças que os pais podem deixar aos filhos.
Diante desse caos, Zana delega todas as forças que possui na busca de novas perspectivas para essa situação. Ministra aulas de fotografia para as crianças, dando margem ao maravilhoso mundo da expressão. É emocionante observar o desenvolvimento de cada uma delas e a felicidade em, ao menos, sonhar com um futuro diferente. Acompanhando essas mudanças, a fotógrafa — juntamente com seu parceiro Ross Kauffman — luta frente às autoridades locais para proporcionar uma chance, uma oportunidade de vida melhor para os nascidos em bordéis.
Crianças que Zana acompanhou
Após vencer a burocracia exacerbada e preconceitos diversos, os resultados começaram a aparecer timidamente. Um dos meninos é escolhido para – em outro país — ser o representante vivo do trabalho desenvolvido por Briski. Algumas das meninas são aceitas para estudar em internatos. No fim do documentário, é apresentado o que ocorreu a cada uma das crianças. Infelizmente, apenas duas conseguiram prosseguir lutando pelo alcance dos seus sonhos. Fatores sociais, familiares e força de vontade assinalaram esse final.
O trabalho de Zana Briski foi muito mais do que intervenção social. Foi (e continua sendo) a práxis do ditado que profetiza: “A fotografia se faz com o peito, e não com uma câmera”.
Você não pode usar sua câmera como um escudo contra o sofrimento humano.
O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio.
Machado de Assis
A fotografia conquistou espaço como um dos maiores fenômenos comunicacionais da humanidade. A técnica da “captação de imagens por meio de uma exposição luminosa” vem sendo utilizada de diferentes formas no decorrer do seu processo histórico, começando por meio de métodos analógicos até alcançar as inovações da fotografia digital, proporcionadas pelo avanço tecnológico.
Registrar um momento feliz, guardar uma fonte histórica, denunciar acontecimentos, antecipar tragédias, criar memórias, remodelar sonhos e difundir ideias são algumas das inúmeras formas pelas quais a fotografia se faz presente. Dentro desse conceito, existem aqueles que utilizam a fotografia como meio para transformar uma realidade, reconstruir vidas. É exatamente o que faz o fotógrafo James Nachtwey.
Retrato do fotógrafo James Nachtwey
James Nachtwey tem dedicado sua existência aos registros fotográficos de guerras, conflitos, misérias e desumanidades ao redor do planeta. Sua atividade de luta e denúncia contra a atual condição do homem pode ser apresentada através do documentário Fotógrafo de Guerra (War Photographer, direção de Christian Frei, 2001). Por meio da utilização de micro-câmeras acopladas à câmera fotográfica de Nachtwey, o diretor Christian Frei trabalhou em cima das atividades realizadas pelo fotojornalista.
As filmagens ocorreram nas zonas de conflito do Kosovo, Palestina e Indonésia, dando uma identidade real à dor de centenas de pessoas a partir do momento em que elas são retratadas em imagem, formando um registro silencioso. Era assim que o lúcido documentarista exercia sua função social. Segundo Nachtwey, é inconcebível “permitir que a miséria humana continue clandestina”. Durante todo o documentário, o fotógrafo direciona sua ideia na exposição da realidade, provando que existe uma grande responsabilidade por trás de cada movimento do homem, seja intimista ou comunitário.
A personalidade silenciosa, tímida e desprendida do fotógrafo reforça a autenticidade de seu trabalho. Por estar próximo das vítimas, parece compartilhar da miséria e do imenso vazio que as devasta. James Nachtwey derruba o falso moralismo que permeia governos e os mais altos pilares da sociedade ao retratar momentos chocantes, como a mãe que enterra o filho vitimado pela barbárie da guerra, ou quando um homem é brutalmente assassinado por ter outra ideologia política. O fotógrafo de guerra presencia comunidades inteiras assistirem completamente impotentes ao estupro de suas mulheres e ao esfacelamento de suas famílias, simplesmente por pertencerem à outra etnia. Toda essa dor é observada dentro de um acordo tácito entre fotógrafo e fotografado; um acordo de coração e espírito. Fotógrafo de Guerra é mais um daqueles documentários que justificam todo o sacrifício de um homem de ser maior do que sua própria dor.
A cada minuto que eu estava lá, eu queria fugir.
Eu não queria ver isso.
Eu iria bater e correr ou enfrentar
a responsabilidade de estar lá com uma câmera?
A Idade Média, período obtuso da história da humanidade, contabiliza um número grande de mulheres condenadas à fogueira ou enforcamento por acusações como bruxaria, possessão demoníaca e pactos diabólicos. Sob a égide do “Não deixarás viver a feiticeira” (Êxodo – Capítulo 22, Versículo 17), a Santa Inquisição, “tribunal eclesiástico criado com a finalidade de investigar e punir crimes contra a fé católica”, promoveu execuções em massa numa ensandecida “caça às bruxas”. Com o apoio do livro “Malleus Maleficarum” (algo como ‘Martelo das Bruxas’), publicado em meados de 1486, os inquisidores difundiam entre a população a existência de supostos “métodos” para identificar, acusar e condenar formalmente uma bruxa.
O manual religioso aponta a arte de manipular e controlar a sexualidade como uma das principais fontes de poder das feiticeiras, associando o ato sexual ao pacto carnal entre mulher e demônio. O sexo é apontado aqui como propulsor da heresia e blasfêmia, digno de repulsa e dominação. Com base nesse argumento, muitas mulheres foram consideradas ‘servas de Satã’ e levadas à morte sem qualquer remorso por parte dos algozes, ao apresentarem um quadro de instabilidade emocional e alteração nos sintomas físicos, entre eles a perturbação dos sentidos, paralisia, dores agudas, contrações, convulsões, dentre outros distúrbios.
Une leçon clinique à la Salpêtrière — André Brouillet — 1887
Somente no final do século XIX, com os estudos iniciados pelo neurologista e cientista francês Jean-Martin Charcot, professor de nomes que viraram referência, como Sigmund Freud e William James, o termo histeria foi ganhando forma para definir o tipo de neurose responsável por determinados distúrbios sensoriais e motores, responsáveis por fazerem com que as mulheres afetadas perdessem o autocontrole e entrassem em colapso.
Jean-Martin Charcot ficou conhecido pelos experimentos e estudos que realizava na famosa clínica psiquiátrica francesa Pitié-Salpêtrière, onde recebia – e fotografava — pacientes em diversos estados de instabilidade mental. Uma dessas pacientes era Louise Augustine Gleizes, uma jovem diagnosticada com histeria.
Pôster do filme
Esse caso clínico-amoroso foi abordado pela diretora francesa Alice Winocour no drama “Augustine” (2012), adaptação efervescente que narra a história de desejo, ambição acadêmica, investigação científica e ardor sexual entre o médico francês e a jovem paciente. No filme, Jean-Martin Charcot (interpretado por Vincent Lindon), respeitado e temido nas dependências do Hospital Salpêtrière, está às voltas com a recepção de sua pesquisa científica pelo meio acadêmico e pela elite social, tendo em vista que a boa repercussão concederia ao médico aumento de investimentos e maior visibilidade. Em dado momento, chega ao hospital a jovem Augustine, de 19 anos, vitimada por uma forte crise convulsiva e com o lado esquerdo paralisado, fato que ocorreu em meio às atividades domésticas realizadas pela moça durante um jantar, na casa na qual era empregada.
Augustine, interpretada pela cantora pop-folk francesa Stéphanie Sokolinski, conhecida como Soko, torna-se logo um caso emblemático para Charcot, desestabilizando a mente racional do médico ao exalar ingenuidade infantil com luxúria oculta. O filme todo é envolvido por uma atmosfera nebulosa, uma espécie de terror silencioso que Augustine traz nas feições, nitidamente góticas. Após a paralisia do lado esquerdo, ocasionada depois que Augustine vê caranguejos vivos em ebulição na panela, a jovem paciente é invadida por uma nova onda de terror quando presencia convulsões de uma galinha decapitada, trazendo à tona seus ataques eróticos. Dessa vez, o olho direito da jovem é abruptamente fechado.
Imagem de divulgação do filme Augustine
Estudar os sintomas apresentados por Augustine renova a euforia de Charcot, alimentando a crença pessoal de que ele está bem próximo de uma descoberta crucial no campo da histeria, ciência que se propôs a investigar. Ao lado das investigações internas realizadas pelo médico no corpo de Augustine, há também demonstrações públicas para acadêmicos e pesquisadores da área, onde sessões de hipnose e colapsos públicos dão efetividade à teoria levantada pelo neurologista.
Augustine é submetida a uma verdadeira profusão de testes e observações. A obsessão de Jean-Martin Charcot em fotografar suas pacientes também é apresentada no filme, com uma sequência de registros e análises de Augustine até mesmo nos momentos de sono profundo. A aproximação gera um amor furtivo, uma tensão libidinosa entre médico e paciente, ao embaralhar sucessivamente os sentimentos que Augustine nutre pelo médico. Pensador moderno e formador de plateias, Charcot não consegue lidar de maneira isenta com o tufão de emoções que começam a invadi-lo, percepção que não escapa aos olhos de sua mulher, Constance, vivida pela atriz Chiara Mastroianni. No meio dessa confusão, nasce a transferência. Os limites entre terapeuta e paciente são rompidos, tal qual uma rachadura em um dique. Cedo ou tarde, a correnteza transborda.
Imagem de divulgação do filme Augustine
A dinâmica perigosa na relação entre o médico e a paciente em crise também é explorada nos longas Um Método Perigoso (2012), dirigido por David Cronenberg, enredo que traz o caso de Carl Jung e Sabina Spielrein, com pitadas de Freud, e o fantástico A Pele que Habito (2011), de Pedro Almodóvar, onde um conceituado cirurgião plástico cria uma nova identidade física para um desafeto e acaba se apaixonando pela própria criação.
O trabalho de Alice Winocour em Augustine não apresenta a massacrante carga da parábola moralizante, criando vilão ou vítima. Pelo contrário: a originalidade da diretora está na aposta em um romance que viola tabus, desconcerta a ética e rompe com os canônicos protocolos de tratamento, para o bem ou para o mal.
Imagem de divulgação do filme Augustine
A interpretação de Soko realça e encanta, exercendo enorme fascínio pelo modo como a atriz se entrega, seja pelo corpo ou pelas expressões significativas do olhar. Como uma borboleta, a personagem experimenta uma metamorfose ao sair do estado de pavor, manipulação e medo, para a cumplicidade e decisão que marcam os momentos finais do filme.
Adentrar as diferentes esferas do inconsciente, aceitando o risco de suas voltas – muitas vezes sem retorno -, fazem de Augustine um filme maior do que a disputa entre doença/cura e médico/paciente; a sutileza está nas transformações que nascem no rio profundo e inabitado, exatamente onde mora o desejo.
Para conhecer um pouco mais sobre as mulheres que se transformaram em uma espécie de “musas médicas”, recomendo a leitura do livro Medical Muses: Hysteria in Nineteenth-Century Paris, de Asti Hustvedt.
Depois do fiasco de Dragon Ball: Evolution (2009), uma adaptação pavorosa da franquia Dragon Ball, a apreensão em torno do que poderiam fazer com o anime/mangá Rurouni Kenshin era intensa e real. Um dos maiores sucessos japoneses do gênero, a série de mangá “Rurouni Kenshin: Crônicas de um Espadachim da Era Meiji” foi criada pelo artista Nobuhiro Watsuki em 1994, e uma versão em anime foi lançada dois anos depois, alcançando um sucesso estrondoso. No Brasil, a saga do espadachim andarilho ficou conhecida como Samurai X, uma alusão à cicatriz que Kenshin carrega no rosto, e que ainda hoje faz a cabeça de muita gente. Por isso, seria uma desagradável surpresa ter essa série despejada na lama, exatamente como aconteceu com Dragon Ball.
Capa do mangá lançado pela Editora JBC
Felizmente, a adaptação japonesa em live-action da saga do “andarilho coração de espada” surpreendeu até mesmo os mais céticos, unindo fidelidade e originalidade na mesma metragem. O cenário, contexto histórico, personagens e diálogos da versão original podem ser facilmente identificados no filme Rurouni Kenshin: Meiji Swordsman Romantic Story (2012), do diretor Keishi Ohtomo, lançado em agosto do ano passado nos cinemas japoneses, sendo um grande sucesso de bilheteria, crítica e público. Por motivos que desconheço – e prefiro nem soltar palpites –, os brasileiros não receberam o filme nas salas de cinema, razão que impulsionou os amantes da série a “adquirir” o DVD, que foi lançado no final de dezembro.
O longa conta a trajetória do andarilho Kenshin Himura que, cansado da vida de assassino que levava – e que o fez ficar conhecido como o lendário Battousai – o Retalhador –, decide sair de forma errante, sem paradeiro ou destino, carregando uma cicatriz em forma de X no rosto. Kenshin toma essa decisão após a Batalha de Toba-Fushimi, fato verídico na história do Japão e que foi crucial para a derrota decisiva do Shogunato Tokugawa, força que o Battousai combatia. Esse sangrento período marca o final do feudalismo de Tokugawa e o início da Era Meiji, caracterizada por um processo de modernização política e social.
Takeru Sato como o samurai Kenshin Himura
Transcorridos dez anos dessa batalha, a lenda da carnificina do espadachim retorna viva e intensa, pois uma série de mortes violentas é atribuída ao Battousai, suspeito de espalhar sangue e terror em Tóquio. No decorrer desse tempo, o andarilho Kenshin (Takero Sato) conhece a destemida Kaoru Kamiya (Emi Takei), herdeira de um dojo de kendo deixado por seu pai, e a partir de um fato inusitadamente perigoso – que não vou mencionar para não gerar spoiler -, o destino aproxima ambos.
Kaoru Kamiya (Emi Takei) e Kenshin (Takero Sato)
O live-action faz uma mistura bem elaborada de acontecimentos presentes na história original, sem focar em pontos específicos, permitindo uma linha de raciocínio geral, e não direcionada somente aos já “iniciados” no enredo. A trama também apresenta outros personagens já consagrados no anime/mangá, como Hajime Saitou (Yōsuke Eguchi) – combatente destemido, frio e de presença extremamente marcante, que comandou o batalhão do antigo regime na Batalha de Toba-Fushimi; o divertidíssimo Sanosuke Sagara (Munetaka Aoki), lutador de rua que ostenta uma espécie de “topete-crista-de-galo” bem curioso; o estridente Yahiko Myojin (Taketo Tanaka), órfão e estudante do dojo, e a bela Megumi Takani (Yu Aoi), descendente de uma família conceituada de médicos e que se vê forçada a trabalhar para um rico traficante local na fabricação de ópio.
O destemido Hajime Saitou (Yōsuke Eguchi)
O traficante em questão é Kanryu Takeda (Teruyuki Kagawa), responsável pelas cenas hilárias e excêntricas do filme, que começam pela sua cara, uma cópia descarada do pasteleiro Beiçola, do seriado global “A Grande Família”. Apesar de ter lido algumas críticas ao imenso espaço reservado a Takeda no filme, um personagem citado por alguns fãs como “ridículo e fraco”, eu achei que foi uma boa opção dar esse ar mais engraçado à trama, já que não desqualifica em nada o curso dos acontecimentos, bem como a apresentação dos três grandes espadachins presentes no live-action: Kenshin Himura, Hajime Saito e Jin‑E Udou, este último interpretado pelo ator Koji Kikkawa. No fim da Era dos Samurais, esses três destemidos sanguinários ficaram sem espaço e tiveram que procurar novos caminhos, já que a antiga prática não era vista com bons olhos na nova reforma política. Kenshin se tornou um andarilho com muito amor – e culpa — no coração, Saitou passa a ocupar um cargo no departamento de polícia do governo e Jin‑E vira um mercenário contratado pelo crime organizado.
Teruyuki Kagawa como o hilário Kanryu Takeda
O filme não tem efeitos especiais espalhafatosos, pirotecnia ou algo do tipo. Em contrapartida, a fotografia e a trilha sonora são excelentes, dando uma aura especial às cenas e interpretações. Achei muito interessante o fato de terem usado uma trilha sonora diferente da utilizada no anime, possibilitando a criação de uma identidade própria e longe de cópias puristas e limitadas. Assinada por Naoki Sato, o track-list é inconfundível, com destaque para a lindíssima “Hiten” (algo como “voando no céu”)!
A escolha do elenco foi acertada e, de certa forma, surpreendente. Confesso que assim que comecei a assistir, pensei que o intérprete de Kenshin, Takero Sato, fosse quebrar ao meio de tão magro! Mas o magérrimo ator foi uma das surpresas do filme, conseguindo transpor para a tela todo o sentimento de solidão, opressão e angústia do ex-retalhador. Outro ponto alto está com a atuação primorosa de Yōsuke Eguchi na pele do inabalável Saitou. Os desfalques ficam com a interpretação de Emi Takei, dando à Kaoru uma feminilidade e obediência que ela não possui, e a lacuna deixada pela ausência do vilão Shishio Makoto, o mais implacável dos inimigos do andarilho Kenshin. Também acho que a relação de amizade entre Kenshin e Sanosuke deveria ser mais explorada, pois ficou meio solta no ar e mesmo no momento em que os dois lutam lado a lado — nas cenas finais do filme -, não dá para acompanhar de onde aquele entrosamento surgiu.
Personagens do filme e seus respectivos personagens do anime/manga
Ao que tudo indica, a saga vai ter continuação. Quem sabe os personagens secundários tenham mais espaço, Shishio dê o ar da graça e Kaoru seja mais Kaoru e menos Amélia.
P.S: Esse texto foi escrito com a preciosa colaboração de Rafaela Torres, psicóloga, gamer e amante do universo anime e mangá.
Com um visual deslumbrante e um elenco com vários nomes de peso, O Grande Gatsby (The Great Gatsby, EUA/Australia, 2013), dirigido por Baz Luhrmann, é com certeza um dos filmes mais esperados deste semestre.
O longa conta a história de Nick Carraway (Tobey Maguire), um aspirante a escritor que ao se mudar para Nova York, deixa sua paixão pelas letras de lado por conta do trabalho na bolsa de valores. Ele mora ao lado da mansão do misterioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), que sempre está dando grandes e luxuosas festas e, para sua surpresa, um dia é convidado para uma delas. Do outro lado da ilha vive sua prima Daisy (Carey Mulligan) e seu marido Tom Buchanan (Joel Edgerton), com o qual estudou junto na faculdade. O destino de todos aos poucos é entrelaçado por conta de um grande segredo que Gatsby esconde.
O enredo foi baseado no famoso romance homônimo do escritor americano F. Scott Fitzgerald, publicado em 1925, que já foi adaptado duas vezes para o cinema. A primeira em 1949, dirigida por Elliott Nugent, e a segunda e mais conhecida adaptação, dirigida por Jack Clayton em 1974, com Robert Redford e Mia Farrow.
As luxuosas festas na mansão do Gatsby
Difícil não ficar maravilhado com toda a reconstrução da época e seus figurinos estupendos ao assistir O Grande Gatsby. Motivo aliás que fez Luhrmann ficar conhecido também pelos longas Moulin Rouge — Amor em Vermelho (2001) e Romeu + Julieta (1996). Nesta adaptação, o diretor também decidiu explorar extensivamente a técnica travelling para mostrar a Nova York da década de 20 e seus arredores. O resultado ficou visualmente muito interessante, mas pelo seu uso muito repetitivo logo ficou algo cansativo. Aliás, são só nestas cenas em que o 3D é realmente percebido. Há outro recurso visual que foi muito bem trabalhado: as várias animações criadas para retratar visualmente o texto da história narrada pelo Nick, como se ele estivesse escrevendo naquele momento.
A Nova York da década de 20Capa da trilha sonora
A trilha sonora é outro aspecto bem interessante do filme, pois contrasta totalmente com o estilo e imagens da época, outra característica peculiar do diretor. Variando bastante de estilo mas tendo sempre algum elemento mais eletrônico no meio, a trilha traz para o presente todo aquele ambiente festivo, e também aumenta ainda mais a sensação de artificialidade e vazio que todo este glamour e materialismo trazem consigo. As músicas são compostas por nomes famosos como Beyoncé, will.i.am, Florence + The Machine, Lana del Rey e Jack White.
Tobey Maguire, Leonardo DiCaprio, Carey Mulligan e Joel Edgerton
O maior defeito de O Grande Gatsby é não deixar espaço para que o espectador possa tirar suas próprias conclusões e exercitar minimamente sua imaginação. O principal culpado disto é a presença de uma narrador que está sempre preocupado em explicar tudo que se está vendo nos mínimos detalhes, como se ele estivesse literalmente lendo um livro e as imagens da tela fossem apenas uma representação do texto. O uso da narração é tão excessivo que a atuação de profissionais tão talentosos como o Leonardo DiCaprio (que recentemente fez Django Livre) e a Carey Mulligan (do ótimo Drive), ficam em segundo plano. O roteiro, escrito pelo próprio Luhrmann e por Craig Pearce, também não faz questão de manter qualquer tipo de mistério ou possível dúvida a respeito da interpretação de uma situação, não perdendo tempo para logo explicar tudo, seja por flashbacks ou narração.
Cena da adaptação de 1974 com Bruce Dern, Sam Waterston, Mia Farrow, Robert Redford e Lois Chiles
Na adaptação de 1974, dirigida por Clayton e roteirizada por Francis Ford Coppola, muitas coisas ficam subentendidas e o mistério sobre quem é realmente esse misterioso Gabsty e quais suas intenção, só é revelado muito aos poucos. Comparando com a versão atual, é difícil não se sentir tratado como alguém que não consegue entender nada do que está acontecendo na tela, de tão exagerado que são as explicações ou então a demonstração das intensões dos personagens por movimentos físicos exagerados. Certos momentos a impressão é de que este roteiro foi feito para sanar todas as dúvidas que o outro criou, para não haver assim qualquer sensação de confusão.
Muitas flores e talento, mas pouco conteúdo
O Grande Gatsby tinha grandes chances de ser um dos destaques do cinema deste ano, mas acabou sendo apenas uma experiência visualmente deslumbrante por conta da fraca adaptação do roteiro, que não se preocupou em instigar o interesse do espectador para algo além de coisas bonitas na tela. Nem o elenco de peso conseguiu tornar a história do filme razoavelmente cativamente.
A belíssima loira e peitudissima atriz Dianne Thorne estrela a produção.
Foi em um lampejo de sabedoria artística, digna somente dos maiores trambiqueiros de Hollywood, que alguns produtores da década 50 ( alguns dizem década de 40) tiveram a belíssima ideia de explorar todo o absurdo e violência da ocupação nazista alemã durante a segunda guerra mundial.Tudo isso em produções baratas que se diziam realista.
A intenção era literalmente explorar esse tema, ganhar dinheiro em cima de algo que até hoje fascina e repudia qualquer pessoa que já tenha ouvido falar como os prisioneiros eram tratados nos campos de concentração. Nasceu assim o Nazi-xplotation, um subgênero bem famoso do cinema X‑plotation.
Quando a década de 60 chegou, os jovens queriam mais era saber de sexo e violência, então não demorou para que os mesmos produtores trambiqueiros começassem a pensar numa maneira mais persuasiva de fazer essa jovem plateia, com hormônios a flor da pele, irem ao cinema. Nessa época também surgiram mais subgêneros dentro do X‑plotation e quase toda produção barata tinha que ter peitinho e sangue a cada minuto.
Love Camp 7, por Lee Frost
Com o sucesso do filme Love Camp 7 de Lee Frost em 1969, o produtor David F. Friedman’s decidiu investir na mesma ideia de violência, putaria e… nazistas, mais uma vez. Assim surgiu Ilsa — a Guardiã Perversa da SS (Ilsa — She Wolf of the SS), que seria dirigido por Don Edmonds (1937–2009), em 1975. Edmonds era um ator de pequenos papéis e diretor de filmes eróticos de baixo orçamento. Da noite pro dia se tornou um diretor cultuado por esse filme que é o maior representante do Nazi-xplotation de todos os tempos.
Até entrar para a historia do cinema como Ilsa, Dianne já fazia sucesso em revistas masculinas como modelo pin-up e também como stripper em Las Vegas. Começou no cinema em 1964, fazendo produções eróticas baratas e chegou a ter uma pequena participação em um episódio na clássica série Star Trek.
Ilsa, Harem Keeper of the Oil Sheiks, por Don Edmonds
Em 1975 ela encontra seu papel mais marcante interpretando a comandante Ilsa. Ela reprisa o papel mais três vezes em Ilsa, Harem Keeper of the Oil Sheiks (1976), Ilsa, the Tigress of Siberia (1977) e também em uma produção dirigida pelo diretor espanhol recém falecido, Jess Franco mestre do cinema sexplotation.
Existe uma pequena confusão em relação a este filme: alguns sites colocam o nome da personagem interpretada por Dianne como Ilsa, outros como Greta e mais outros como Wanda. O nome original do filme é Greta — Haus ohne Männer (1979) então imagino que devamos ficar com Greta mesmo. Basicamente só o primeiro filme desta tetralogia entra no gênero Nazi, os outros usam a mesma ideia, mas vão mais pro lado de outra ramificação do gênero x‑plotation que é o gênero W.I.P (Womans In Prison), onde mulheres são torturadas e abusadas em prisões, para o prazer de um diretor sádico.
Ilsa the Tigress of Siberia, por Jean LaFleur
Dianne, tem ao todo 28 papéis em sua carreiras, mas somente os filme em que ela interpretou Ilsa são dignos de nota. Ela fez seu ultimo papel 1989, interpretando o transex Sr. Pirandello, pai do personagem interpretado por James Beluchi no filme Real Men. Desde então começou a cuidar de uma capela de casamentos em las Vegas com seu marido. Mas, no site do IMDB aparecem duas produções com o nome da atriz cotado no elenco com estreia marcada para 2013. Resta esperar para saber se é oficial.
Vamos ao filme… Ilsa é uma comandante de um campo de concentração nazista, que usa seus prisioneiros em “experimentos médicos” pessoais. Ela tenta provar para o alto escalão da SS, que mulheres são mais resistentes a dor do que os homens. Como ela faz isso? Simples, ela tortura homens e mulheres das maneiras mais cruéis e absurdas possíveis e vê qual morre primeiro! Legal né?
Comandante Ilsa demonstrando que manja das putarias.
Fora esse seu interesse acadêmico pela medicina, Ilsa também é dona de um apetite sexual voraz e, sempre que pode, manda um prisioneiro sortudo para sua cama para satisfazê-la. Infelizmente a alegria do escolhido dura muito pouco, pois ela fica muito, mas muito irritada quando o mané do prisioneiro goza antes dela. E como ela resolve essa situação? Simples, como qualquer comandante da SS nazista de um filme x‑plotation do meio da década de 70 que se preze faria! Castrando o infeliz!
Ilsa escolhendo um dos prisioneiros “azarados” para lhe fazer companhia.
Tudo está as mil maravilhas com a comandante até que um certo prisioneiro, com uma espécie de “superpoder” digamos assim, é chamado para a cama da comandante. Não é que finalmente ela encontra alguém digno de sua atenção sexual? O cara consegue controlar a ereção pela noite inteira se quiser, e assim consegue a simpatia da loba SS e o jogo se inverte, pois agora é um prisioneiro que tem o comandante sob seu comando!
Dá pra notar que o filme é só isso mesmo, sexo, violência, tortura, mais sexo e depois mais tortura! Não é atoa que ele foi proibido na Alemanha na época de seu lançamento e também em outros diversos países.
Por mais absurdo a obra pareça, é inegável dizer que ela influenciou diversos gêneros do cinema além do x‑plotation. Fora dos telões do cinema, Ilsa inspirou também alguns personagens de videogame como a The Butcheress do game Bloodrayne, e também influenciou no design de um grupo de elite feminina que aparece no game Return To Castle Wolfenstein.
De um lado a The Butcheress do game Bloodrayne e do outro a comandante Ilsa demonstrando toda sua volúpia.Grindhouse
A mais óbvia das influências de Ilsa no cinema, foi quando Quentin Tarantino e Robert Rodriguez dividiram a direção no projeto Grindhouse com os filmes Planeta Terror (2007) e À Prova de Morte (2007), tendo como intenção homenagear essas produções x‑plotation da década de setenta. Entre um filme e outro, a platéia que assistia teve a chance de ver alguns trailers falsos de outras supostas produções. Entre esses falsos filmes, um deles foi batizado de: Werewolf Women of SS, onde podemos ver Sheri Moon, a esposa do diretor e músico Rob Zombie, como uma oficial nazista que comanda um projeto científico com a intenção de transformar mulheres em lobisomens para lutar na guerra! Veja o video abaixo.
httpv://www.youtube.com/watch?v=pv_aefnKf‑E
Machete, por Robert Rodriguez
Esses trailers falsos deram origem a três filmes, um deles foi o fraquíssimo Machete dirigido por Robert Rodriguez em 2010, outro foi Hobo With A Shotgun (em alguns sites este filme é traduzido com o belo titulo de “Mendigo com Escopeta!”) dirigido por Jason Eisener em 2011. Então podemos dizer que existe a possibilidade de vermos um dia Werewolf women of SS em versão longa metragem.
Embora Ilsa — a Guardiã Perversa da SS seja um filme situado em uma época bem clara e baseado em acontecimentos reais, o caráter realista da obra sobra mesmo para aquilo que parece mais absurdo. Os únicos acontecimentos que realmente existiram durante a ocupação nazista são os experimentos mostrados no filme, todos verdadeiros. Diversos prisioneiros judeus foram realmente usados como cobaias pelas tropas nazistas em campos de concentração.
Hobo With A Shotgun, por Jason Eisener
No longa são mostradas as já citadas castrações e os testes de resistência a dor, numa cena vemos até uma prisioneira sendo fervida viva! Algumas mulheres são propositalmente infectadas com doenças como tifu, sífilis, lepra, etc.
Existem diversos filmes e muitos textos na internet que tratam sobre ciência nazista de uma maneira muito mais abrangente do que aqui. É tudo muito interessante e ao mesmo tempo revoltante. Recomendo que pesquisem!
A personagem de Ilsa obviamente nunca existiu, nem nunca existiu nenhuma mulher que chegou ao alto comando do exército alemão a ponto de dirigir um campo de concentração. Mas a comandante sadomaso foi baseada em alguém que existiu de verdade, não uma oficial, mas a esposa de um. Estou falando de Ilse Koch, esposa de Karl-Otto Koch, um alto comandante do exército nazista que entre os anos 1937 a 1943, comandou dois campos de concentração em território alemão, os campo de Bunchenwald e Majdanek.
A sádica da vida real ou a ninfomaníaca da ficção. Com qual você prefere passar a noite?
A senhora Koch (mais conhecida como “A bruxa de Bunchewald”) ficou famosa pelos estranhos souvenirs que gostava de guardar, entre eles, pedaços de couro tatuado dos prisioneiros e abajures feitos de pele humana, eram o mais básicos da coleção. Ele foi presa e julgada diversas vezes, aos sessenta anos cometeu suicídio enquanto cumpria um sentença de prisão perpetua.
De volta ao filme… O campo de concentração onde toda a ação acontece não lembra muito os temíveis campos que vemos em documentários ou em filmes com a mesma temática que se levam mais a sério. Ele mais parece uma prisão de segurança mínima, e os prisioneiros até certo ponto são bem gordinhos, comparado aos que vemos em fotos reais da época, e também possuem uma certa liberdade, que provavelmente não existia, pra falar com os oficiais nazistas.
Prisioneiras do campo de concentração do filme
Eu gosto de Ilsa — a Guardiã Perversa da SS por ser um puta filmaço que me marcou bastante, foi o primeiro do gênero nazi-xplotation que vi. Não imaginava que alguém poderia fazer uma comédia falando de temas tão tensos… ou melhor: Não imaginava que algum estúdio DEIXARIA um diretor fazer um filme sobre temas tão delicados.
Vivendo em tempos politicamente corretos até demais, onde a maioria das pessoas está disposta a se ofender tão calorosamente e lutar por causas banais, é quase impossível acreditar que um filme assim seria lançado nos dias de hoje sem sofrer grandes críticas e resistência dos sofativistas de plantão. Afinal, todo mundo está disposto a lutar por algo desde que isso não obrigue ninguém a sair da frente do Facebook ou tirar a bunda do sofá…
Ilsa em mais um de seus experimentos
Na minha pré-adultecência me interessei muito por filmes gore, trash, slashers e mondo. Todos esses podem ser considerados sub-gêneros do cinema x‑plotation. A década de setenta foram os anos em que esses filmes pipocavam nos cinemas norte americanos aos montes, era natural que em meio a tantos lançamentos baratos, uns fossem melhores que outros, em meio a muita (muita mesmo!) porcaria que assisti durante esses anos de “auto estudo cinefilitico”, Ilsa — a Guardiã Perversa da SS se tornou um dos meus filmes preferidos, é mais um daqueles longas que faço questão de assistir uma vez a cada dois ou três anos, pra ter certeza que ainda é foda!
Fora tudo isso, há um caráter psicológico que me faz pensar um pouco… por que diabos a violência é tão fascinante?
Não uma simples violência ficcional, mas uma violência baseada em fatos. Antes mesmo dos créditos iniciais, vemos um texto atribuído ao produtor Herman Traeger (pseudônimo de David F. Friedman, o verdadeiro produtor) avisando que os experimentos presentes na trama do filme são reais e que foram classificadas como “experiências médicas”. Por último diz que o filme fora realizado com a esperança de que essas mesmas experiências médicas não se repitam novamente. Ou seja, mesmo avisado disso, a maioria das pessoas prefere ver o filme até final, ou até mesmo esse pré aviso instigue o espectador a assistir.
Vocês foram avisados…
O que mais me fascina nisso tudo é o teor sexual da bagaça toda, como algo tão desumano consegue se associar tão facilmente com sexo? Por que existe tanta audiência do público (incluindo eu!) em cima de um tema tão específico, a ponto de se criar um nome exclusivo para esse tipo de filme?
Enfim, a intenção aqui não é desmerecer a obra, mas sim discutí-la.
Pra terminar deixo o vídeo da música Ilsa que a banda brasileira Zumbis do Espaço gravou para homenagear a loba alemã. Agora, clique no play e leia tudo de novo cantando essa linda e singela poesia do horror punk nacional.
Fazia certo tempo que não me impressionava com o cinema independente no Brasil. Estava acompanhando muitos filmes que não me tocavam, mas, ao articular a curadoria da Mostra “Panorama Pernambuco” (junto com os cineastas Jucélio Matos e Márcio Farias) — exibida em Teresina-PI/2012 — algo inusitado aconteceu, pois dentro do pacote com belos filmes realizados naquelas terras, surge com surpresa: Dique (um filme de Adalberto Oliveira).
Dique já participou de mais de vinte Festivais pelo Brasil e pelo mundo (dez internacionais), destacando o 1° Festival de Cine Latinoamericano Independiente de Bahía Blanca, 34º Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano — Sección Paralela VANGUARDIAS, 2ª Muestra Internacional de Cine Independiente, em Osorno no Chile e o 18° Festvídeo — Festival de Vídeo de Teresina, onde tive o prazer de participar da comissão julgadora, em que foi possível tornar o vídeo (em votação unânime) vencedor do evento na categoria Experimental, junto com outro trabalho de Adalberto (Case). Ah, sem falar dos outros prêmios (mais de dez até o momento) conquistados por aí.
Com direção, desenho sonoro e fotografia de Adalberto Oliveira, captação com hidrofone de Thelmo Cristovam, mixagem e finalização de Adelmo Tenório, produção de Márcio Farias e assistência de produção de Nicolas Oliveira, Dique é vídeo que problematiza o ato de ver e sentir. Tudo começa com a tela escura, exalando um estranho ruído… o que nos possibilita articular audição e pele, pois a narrativa abre espaço para explorar outros sentidos, além dos olhos e ouvidos. O que antes é um breve estranhamento, torna-se (em segundos), imersão completa.
Somos lançados numa paisagem dura, contrastante, onde as pedras de Casa Caiada dominam a cena. Aqui posso visualizar um exercício paciente na busca pelo suposto equilíbrio entre a crueza das pedras que demarcam o litoral, com suas linhas tortuosas, atravessadas pela dispersão e desencontro das formas, friccionando a suavidade celeste de um céu que me remete às pinceladas impressionistas, em trânsito com os prédios que rasgam o teto azul (ondas distantes revelam a água como elemento purificador).
Entre a leveza e a crueza.
O som desdobra-se nas imagens em sequência. Adalberto vira-se contra a paisagem anterior e olha detidamente para as ondas — estas selvagens ao nosso olhar – que acariciam as pedras, vistas como homens solitários.
Cortes rápidos inserem novos elementos à paisagem sonora de Dique, agora com nuvens pesadas ao fundo e aves tímidas, sustentados pela frieza dos prédios de uma cidade que aparenta uma leve sonolência, com homens escondidos no alto de seus andares, habitando no coração do distanciamento, as sobras orgânicas que moram ali.
Estaria Adalberto estabelecendo um canal de comunicação entre o orgânico e o inorgânico? Estariam os carangueijos conspirando contra nós? Somos Homens-carangueijos ou Carangueijos-homens? A beira de Casa Caiada fica mais escura, o som abafa, pequenos crustáceos em mobilização micro.
Carangueijos-bailarinos.
Mais uma vez o elemento-água entra no filme: a chuva. Ela atua como agente de limpeza e reordenamento da paisagem, que, ao cumprir seu papel, alivia as tensões e suaviza os ouvidos, através dos choques entre água-pedra. Preparação para outros exercícios.
Radicalmente, somos surpreendidos com carangueijos gigantes, no alto de seu Império, tornando os homens, coisas pequenas, sem foco, ignorantes de um mundo paralelo que existe bem a sua frente, a um passo do balé sombrio, cortante, assustador. A água invade a areia, todos desaparecem…
Prédios enfileirados dominam a cena, abrindo espaço para o deslocamento do olhar-Natureza para o olhar-Homem. Esta contradição é interminável, cíclica, que faz do Homem um ser que nega àquela, mas ao mesmo tempo, depende dos seus recursos para afirmar sua separação.
O olho do cineasta contempla a cidade num exercício remete aos capítulos não lineares de “Canto de Aves Pampeanas 1”, do argentino Nicolás Testoni, articulando uma vontade conjunta em expressar a paisagem – não-imobilista – como estrutura que se move para frente, redefinindo o mosaico de impressões que nossos olhos procuram detectar na confusa mistura de elementos de uma cidade que brota, e nasce toda torta… cambaleante, cheia de cores, tensionadas entre árvores sobreviventes do imperialismo urbano.
Dique joga com contrastes, reinventa as paisagens e reforça sua inquietação constante — dentro da minha leitura picotada — Somos Homens-carangueijos ou Carangueijos-homens?
Homens-Carangueijos?
O Sol vai caindo, junto com a soberania do Crustáceo-Rei. Derrotado pelo tempo (aliado do silêncio) invasor de corpos e carcaças, ele abre caminho para o lambe-lambe geral das moscas, dançando em cima das patas que imploram pelo último movimento.
A noite domina. Lá longe, as ondas estão indiferentes ao olho de Adalberto, pois já estão acostumadas com a sua estranha presença, que antes era incômoda, mas agora, — pensam as ondas — “não podemos fazer nada, pois não sabemos até que ponto ele quer nos consumir”. E assim elas seguem sombrias, rudes, selvagens, trabalhadoras do mar.
Dique finaliza sua trajetória escondido nas pedras de Casa Caiada, observando explosões aéreas artificiais, buscando entender as relações entre as duas paisagens em diálogo constante: o Homem e a Natureza. Até que ponto estamos hibridizados? Até que ponto existem fronteiras entre nossas patas e suas mãos? Um estudo sobre as mudanças, o olhar que problematiza os distanciamentos, um poema visual que desconstrói nossas zonas de conforto.
Uma certeza: o filme mais importante que assisti em toda caminhada realizada até o momento nas minhas leituras do curta-metragem brasileiro. Lá em Pernambuco, o cinema independente está fervilhando de Homens e Mulheres que fazem um serviço sério. Tomem nota! Não adianta Adalberto, seu filme saiu de Olinda para conquistar os olhos do mundo.
Um trailer de encher os olhos e um grande investimento em marketing. Foi assim que a Disney criou uma enorme expectativa com Oz, Mágico e Poderoso (Oz the Great and Powerful, EUA, 2013), seu mais novo lançamento dirigido por Sam Raimi. Explorando a história de como surgiu o famoso personagem do icônico filme O Mágico de Oz (1939), o longa busca agradar toda a legião de fãs já existentes e também uma nova geração que provavelmente nunca ouviu falar da estrada amarela e dos sapatinhos de rubi.
A história começa em 1905 em Kansas com Oscar Diggs, um mulherengo mágico circense apelidado de Oz. Ao tentar fugir em um balão por conta de um de seus “truques” sedutores, é sugado para o meio de um tornado, chegando à fantástica Terra de Oz, onde há uma profecia relatando que o grande mágico de Oz viria dos céus para derrotar a Bruxa Má, trazendo paz para todos. Oscar acredita que esta pode ser finalmente a sua grande oportunidade de obter o sucesso que tanto almeja, porém não tem a mínima ideia das proporções do que implica ser este herói.
A famosa estrada amarela
Para quem já assistiu O Mágico de Oz, dirigido por Victor Fleming, é impossível olhar para este novo longa sem procurar alguma referência — que são inúmeras. Temos o famoso início todo em preto e branco e a também divertida repetição de alguns atores fazendo personagens similares nos dois mundos. Devido aos direitos autorais da história e do filme de 1939 serem detidos pela Warner Bros, muitos dos elementos mais icônicos (como o sapatinho de rubi) não puderam ser utilizados — problema que irá cessar no ano de 2034, quando a obra entrará em domínio público. Algumas vezes foi possível contornar este problema: para o visual da Bruxa Má foi usado um tom de verde diferente do original e a estrada amarela foi mantida, mas sem o seu início em espiral.
O visual impressionante da terra fantástica de Oz
Um dos grandes atrativos do longa é com certeza o seu visual fantástico, que fica ainda mais surpreendente se for assistido no IMAX. Alguns movimentos de câmera panorâmica são bem inusitados, só sendo possíveis graças a utilização de uma câmera virtual em um ambiente gerado pelo computador. O 3D do filme foi muito bem utilizado, lembrando bastante o ótimo trabalho feito no A Invenção de Hugo Cabret (2011), valendo a pena ser assistido com o uso desta tecnologia.
Apesar de todos os cuidados, em algumas cenas ficou bem evidente o uso do chroma key
Os pontos negativos do longa ficaram principalmente na falta de realismo em alguns momentos. Mesmo com os cuidados para os atores interagirem ao máximo com elementos reais (foi feito por exemplo uma marionete da boneca de porcelana), ficou bem evidente em certas cenas o uso do chroma key, assim como a inserção digital de personagens. Para piorar, essas situações ficaram ainda mais acentuadas por uma atuação beirando o teatral, supondo dar mais credibilidade aos efeitos especiais. Mas são poucos os momentos que isso acontece e na verdade, acabou até de certa forma sendo divertido, lembrando as produções em que o orçamento é curto demais e foi preciso improvisar, apesar de não ter sido este o caso neste filme. Para quem gosta, tem um vídeo bem interessante no canal Making Of do YouTube, sobre os backstages da filmagem.
James Franco e o diretor Sam Raimi no set de filmagem
O desenvolvimento da história de Oz, Mágico e Poderoso, remeteu ao ótimo, e também bem arriscado, trabalho feito em TRON: O Legado (2010), sequência do filme de 1982, ambos da Disney, assim como a história de Branca de Neve e o Caçador (2012), onde o famoso conto de fadas é explorado de forma a agradar um público mais adolescente. Na verdade, ele está se saindo tão bem que a Disney já anunciou que fará uma nova sequência (provavelmente com outro diretor).
Se você não ficou muito empolgado com o remake da Disney de Alice no País das Maravilhas (2010), Oz, Mágico e Poderoso provavelmente irá te surpreender. Além de explorar muito bem toda a história de como surgiu o famoso Mágico de Oz, ele também contou com uma ótima equipe de atores como James Franco, Mila Kunis e Rachel Weisz. Para quem gosta de trilhas sonoras, este é outro destaque do longa, produzido pelo ótimo Danny Elfman, que ficou mais conhecido pela sua parceria com o diretor Tim Burton em filmes como O Estranho Mundo de Jack e A Noiva Cadáver.
Two roads diverged in a wood, and I
I took the one less traveled by
And that has made all the difference.
(Dois caminhos divergiam em um bosque,
e eu tomei o menos trilhado.
E isso fez toda a diferença. – tradução livre)
O fragmento citado faz parte do conhecido poema “The Road Not Taken” (‘A estrada não tomada’ ou, na tradução do poeta português Antônio Simões, ‘O caminho que não tomei’), do poeta norte-americano Robert Frost. O sentimento de insegurança cede lugar à escolha pela “estrada mais difícil”, íngreme e inacessível. Essa é a sensação deixada pelo enredo de A Viagem, título abobalhado para o original Cloud Atlas, novo filme dos irmãos Andy e Lana Wachowski em parceria com o diretor alemão Tom Tykwer. O longa tem dado muito trabalho à crítica, empurrando argumentos e pressupostos contra a parede. Um simples “não gostei” ou “sim, é realmente muito bom” não cabe para descrever essa adaptação fantástica do romance homônimo de David Mitchell.
A narrativa de A Viagem é uma verdadeira mistura de gêneros e ambientações, apresentando seis histórias que se traduzem em inúmeras outras, formando uma teia infinita de novos caminhos, encontros e desencontros e, especialmente, escolhas. As cenas do filme vão pulando de forma enlouquecedora, tornando a compreensão do enredo tarefa digna de olhos bem abertos. Cada história é ambientada em períodos diferentes, passando da época da escravatura, em 1849, para a realidade cyberpunk de um local conhecido por Neo Sul, aproximadamente em 2144. No meio dessas fases, o espectador é surpreendido por diferentes situações e personagens, onde as duas mais interessantes abordam a luta de uma jornalista para investigar os planos megalomaníacos e desumanos de grandes usinas nucleares americanas, na então década de 1970, e a ficção científica da Neo Sul, onde uma garçonete de uma grande rede de fast-food vivencia a revolução das ideias e o poder da mudança gerada pela possibilidade de escolha, ainda que vítima de um universo distópico.
A jornalista Luisa Rey (Halle Berry) e o cientista Issac Sachs (Tom Hanks)
A vida e os desafios de cada uma dessas existências se intercalam em detalhes sutis, em situações, lembranças, memórias, sentimentos e conexões espirituais. Uma marca de nascença na forma de uma estrela cadente conecta alguns personagens e suas buscas que, mesmo diferentes, acabam encontrando um ponto comum: transformar, mudar, arriscar, dar e receber. Particularmente, só consegui captar este detalhe depois de assistir ao filme pela segunda vez, já que os cortes abruptos nas cenas tornam a trama uma estrada mais sinuosa, difícil de entender em um primeiro momento. Algumas passagens são cortadas em momentos indevidos e os detalhes que conectam os fatos são sutis, salvos pela edição que retira ou prolonga o efeito sonoro, como também pela narrativa em off, que traz à tona os sentimentos que conectam as histórias e seus protagonistas.
Rede de fast-food do futuro servida por clones
O apoio do diretor Tom Tykwer, responsável pelos sensacionais O Perfume, Corra, Lola, Corra e Trama Internacional, foi fundamental no sucesso dessa produção dos irmãos Wachowski, já que a dose de genialidade da dupla, observada em Matrix, derrapou vertiginosamente com Speed Racer, um verdadeiro fracasso comercial. A Viagem enfrentou dificuldades no financiamento, conclusão e desenvolvimento, já que no início o projeto não animou muitos patrocinadores. Obstáculos à parte, o elenco faz jus a essa aposta corajosa, trazendo nomes como Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving e Keith David, com outros atores não tão conhecidos do grande público, como o lindíssimo Jim Sturgess, Ben Whishaw e David Gyasi, e as atrizes Zhou Xun e Doona Bae, chinesa e sul-coreana, respectivamente. Um detalhe interessante e que condiz com a proposta do filme é o fato de todos os atores fazerem mais de um papel, estando presentes nas diferentes épocas. A direção de arte e figurino ajudou bastante e é uma fórmula à parte, transformando negros em brancos, ocidentais em orientais, novos em velhos, homens em mulheres e vice-versa, dando uma rotatividade – em muitos casos, irreconhecível – ao elenco.
Mapa dos atores/personagens em A Viagem (clique na imagem para ampliá-la)
Muito mais do que um padrão diferente, A Viagem e sua belíssima trilha sonora são, na verdade, uma fantástica descoberta rumo ao desconhecido, navegando na direção de existências que dependem das nossas boas ações ou crimes, dando sempre uma nova chance, seja para repetir os mesmos erros ou fazer novos começos. É verdade, este não é um filme fácil, mas deixa como legado ao espectador uma experiência que foge do tradicional formato do gênero, que não cede ao roteiro fechado e previsível, criando um atlas de sensibilidade, filosofia e movimento inesquecível!