Author: Michelle Henriques

  • Livro: Só Garotos — Patti Smith

    Livro: Só Garotos — Patti Smith

    Alguns livros você lê rap­i­da­mente, mas torce para que demor­em para ter­mi­nar, taman­ha a qual­i­dade. Só Garo­tos (Com­pan­hia das Letras, 2010) de Pat­ti Smith é exata­mente assim. Mais con­heci­da por causa da sua car­reira na músi­ca, Smith sem­pre lidou com diver­sas áreas da arte. Começou escreven­do poe­sias e desen­han­do, a músi­ca veio mais tarde. Em meio a essa jor­na­da, ela con­heceu Robert Map­plethor­pe. É jus­ta­mente sobre a relação entre eles que Pat­ti escreve.

    Nasci­da em 1946, Pat­ti Smith sem­pre soube que seu cam­in­ho seria pelas artes. Aos 21 anos ela se mudou para Nova Iorque para tra­bal­har com o que real­mente gosta­va. Ali, con­heceu Robert, que se tornar­ia sua alma gêmea até a morte dele, em 1989. Os dois começaram uma relação amorosa, mas de inten­so afe­to fra­ter­nal. Jun­tos, escrevi­am, fotografavam e desen­havam. Chegaram a con­hecer grandes artis­tas da época, como Warhol e seus artis­tas da Fac­to­ry, bem como músi­cos (Janis Joplin, Jim­my Hen­drix, entre out­ros) e escritores (Allen Gins­berg e William S. Burroughs).

    A escri­ta de Pat­ti em Só Garo­tos beira o tom con­fes­sion­al, ela rela­ta acon­tec­i­men­tos de sua vida, sem­pre citan­do a influên­cia de Robert. Tam­bém sem­pre faz refer­ên­cia às seus poet­as preferi­dos, como Rim­baud e William Blake. Por se tratar de uma auto­bi­ografia, podemos con­hecer a artista por ela mes­ma. Ape­sar de ser um tex­to verídi­co, ele tam­bém é literário. A auto­ra escol­he bem as palavras e tor­na a leitu­ra bas­tante fluída.

    Um livro bom é aque­le que causa as mais diver­sas sen­sações no leitor. E nesse que­si­to Pat­ti Smith escreve com maes­tria. No iní­cio de Só Garo­tos, ficamos amar­gu­ra­dos com sua bus­ca, depois ficamos felizes com suas con­quis­tas, logo os sen­ti­men­tos caem para uma nos­tal­gia daqui­lo que não vive­mos. Somos ape­nas espec­ta­dores daque­la dor que ela sen­tiu ao perder sua alma gêmea. Robert diz que enquan­to ela car­rega­va a vida den­tro dela, ele car­rega­va a morte. Impos­sív­el não sen­tir uma pon­ta­da de tris­teza, por causa de duas mentes iguais que foram separadas.

    Este livro é recomen­da­do não ape­nas para os fãs, mas para qual­quer pes­soa inter­es­sa­da em uma boa leitu­ra. A tra­jetória de Pat­ti e Robert, em que viven­cia­ram momen­tos de deses­pero e humil­hação, até se tornarem grandes artis­tas, é muito bem descri­ta. Vale lem­brar que Só Garo­tos gan­hou o Nation­al Book Award de não ficção, mere­ci­da­mente. Ao ler o livro, nos sen­ti­mos como se a própria Pat­ti estivesse nos con­tan­do a história, o que tor­na seu livro tão ínti­mo e bem escrito. 

  • Livro: Juliet, Nua e Crua — Nick Hornby

    Livro: Juliet, Nua e Crua — Nick Hornby

    Nick Horn­by é um escritor inglês bas­tante con­heci­do por causa do livro Alta Fidel­i­dade, que gan­hou um ver­são para o cin­e­ma em 2000, estre­la­da por John Cusack. Adep­to das refer­ên­cias pop, Horn­by sem­pre traz enre­dos envol­ventes que tratam de assun­tos rotineiros, mas com uma exce­lente dose de humor e uma nar­ra­ti­va bas­tante dinâmi­ca. Seu livro mais recente Juli­et, Nua e Crua (Edi­to­ra Roc­co, 2010) , exem­pli­fi­ca bem isso.

    Tuck­er Crowe é um músi­co que fez bas­tante suces­so durante sua car­reira, até que cer­to dia resolve aban­doná-la e sumir com­ple­ta­mente. Entre seus fãs há Dun­can, um inglês obceca­do com a car­reira de Crowe (ele se con­sid­era um “crow­el­o­gista”), a pon­to de via­jar até os Esta­dos Unidos para con­hecer até mes­mo um ban­heiro que o can­tor usou. Tuck­er por sua vez, vive num local iso­la­do com sua esposa e um de seus 5 fil­hos, Jackson. 

    Cer­to dia, Dun­can recebe uma demo com ver­sões de músi­cas de Crowe. Annie, sua esposa, comete a ousa­dia de ouvir o dis­co antes de Dun­can e resolve escr­ev­er uma resen­ha a respeito da mes­ma, crit­i­can­do a idol­a­tria dos fãs de Crowe. Dun­can decide pub­licá-la no fã site do can­tor e pede que Annie coloque seu email para pos­síveis con­tatos. Ele esper­a­va que ela recebesse críti­cas fer­ren­has, mas quem escreve para ela é o próprio Crowe. 

    Em ape­nas um livro, Horn­by con­ta a tra­jetória de diver­sos per­son­agens e con­segue entre­laçá-las de for­ma magis­tral. Além dis­so, ele traz as já citadas refer­ên­cias pop, fala de ban­das como U2, fala em cor­re­spondên­cias via email e out­ras tan­tas. Para explicar a car­reira de Tuck­er Crowe, em Juli­et, Nua e Crua, o escritor usa um per­fil fic­tí­cio reti­ra­do da Wikipedia. Tam­bém são mostra­dos ao leitor os emails que Crowe tro­ca com Annie. Tive a opor­tu­nidade de ler o livro em sua lín­gua orig­i­nal e na mes­ma, é bas­tante fluí­da. Com um inglês bas­tante colo­quial, Horn­by tor­na a leitu­ra bas­tante agradável.

    Juli­et, Nua e Crua traz os mel­hores ele­men­tos que podem exi­s­tir numa lit­er­atu­ra con­tem­porânea: agili­dade da nar­ra­ti­va, per­son­agens cati­vantes, refer­ên­cias da atu­al­i­dade e um enre­do que prende a atenção. Num oceano de livros que pouco trazem de novo, Horn­by mostra que a lit­er­atu­ra pode sim ser mod­er­na com boas dos­es de humor, sem descam­bar para a mesmice. 

  • Livro: A Morte de Bunny Munro — Nick Cave

    Livro: A Morte de Bunny Munro — Nick Cave

    Nick Cave ini­ciou sua car­reira musi­cal no iní­cio dos anos 70. Ele escreveu letras para suas diver­sas ban­das, entre elas The Birth­day Par­ty, Grin­der­man e os Bad Seeds. Sem­pre foi pos­sív­el notar sua exce­lente incli­nação para a lit­er­atu­ra, mas eis que ele nos pre­sen­teia com um livro chama­do A Morte de Bun­ny Munro (Edi­to­ra Record, 2010).

    Com um humor áci­do, Cave nos leva para a vida de Bun­ny Munro, um homem que vende pro­du­tos de por­ta em por­ta, enquan­to sua esposa depres­si­va fica em casa cuidan­do de seu úni­co fil­ho, Bun­ny Junior. Munro vê sua vida mudar com­ple­ta­mente quan­do, ao chegar em casa, encon­tra o cor­po de sua esposa que havia cometi­do suicí­dio. Após cer­to tem­po de catarse, ele resolve voltar ao tra­bal­ho. Sem ter com quem deixar o fil­ho, os dois saem pelas estradas, no mel­hor esti­lo de On the Road.

    A Morte de Bun­ny Munro é o segun­do livro de Cave e apre­sen­ta uma qual­i­dade literária que fal­ta em mil­hares de escritores que vemos por aí. A estória é muito bem estru­tu­ra­da e nos absorve com­ple­ta­mente. Uti­lizan­do de altas dos­es de iro­nia para se referir à ícones pop (suas refer­ên­cia à Avril Lav­i­gne e Kylie Minogue são sim­ples­mente sen­sa­cionais!), ele nos diverte, ao mes­mo tem­po que nos deixa apreen­sivos para saber o des­ti­no de Bun­ny e de seu filho. 

    A lin­guagem do livro A Morte de Bun­ny Munro é um pouco dura, nada ali é roman­ti­za­do. Mas o destaque mes­mo fica para Bun­ny Junior. Meni­no sen­sív­el e inteligente, ele parece ter mais forças que o próprio pai para poder continuar. 

  • Crítica: Doce Vingança

    Crítica: Doce Vingança

    Não é de hoje que os remakes tomam as telas dos cin­e­mas. Na déca­da de 80 tive­mos Scar­face, dirigi­do por Bri­an de Pal­ma e estre­la­do por Robert de Niro. Poucos sabem, mas este é remake de filme homôn­i­mo, data­do de 1932. Atual­mente, são vários os remakes que vemos por aí. Na maio­r­ia dos casos o resul­ta­do não é favoráv­el, mas às vezes os dire­tores “acer­tam a mão”. Um bom exem­p­lo dis­so é Doce Vin­gança (I Spit on Your Grave, USA, 2010) de Steve R. Monroe.

    A déca­da de 70 ficou con­heci­da pelos filmes que explo­ravam um lado mais vio­len­to e que­ri­am “chocar” a sociedade, para con­seguir atenção. Nes­sa déca­da tive­mos Pink Flamin­gos, Gar­gan­ta Pro­fun­da, 120 dias de Sodoma e out­ros filmes que mudaram a história do cin­e­ma, para o bem ou para o mal. Entre eles, tive­mos I Spit on your Grave (que aqui saiu como A Vin­gança de Jen­nifer). Com uma divul­gação tími­da, o VHS ficou per­di­do nas prateleiras das locado­ras, seja pela sua pés­si­ma pro­dução ou pela sua temáti­ca vio­len­ta demais até para os padrões da década.

    A escrito­ra Jen­nifer Hills se muda para uma cabana iso­la­da em uma peque­na cidade para ter­mi­nar seu livro. Um con­tratem­po num pos­to de gasoli­na faz com que ela des­perte o inter­esse e a ira de alguns moradores locais. Pouco depois, eles rumam para sua casa para estuprá-la e espancá-la. Dada como mor­ta, os home­ns esque­cem o caso e retomam suas vidas. Mas Jen­nifer esta­va viva, se recu­peran­do e plane­jan­do sua vigança. As cenas de estupro foram con­sid­er­adas fortes demais e o filme foi proibido em diver­sos país­es. Hoje ele pos­sui sta­tus de Cult e gan­hou o já cita­do remake.

    O enre­do é basi­ca­mente o mes­mo, com peque­nas mod­i­fi­cações. Doce Vin­gança foi alter­ado para cair no gos­to do públi­co que apre­cia o cin­e­ma hol­ly­wood­i­ano. As cenas de estupro foram amenizadas e as de vin­gança foram muito mais bru­tais. Há quem com­pare tais cenas com fran­quias do tipo Jogos Mor­tais e O Alber­gue, mas aqui é difer­ente. As cenas são bem encaix­adas e pos­suem um porquê de estarem lá.

    O prin­ci­pal­mente difer­en­cial entre o orig­i­nal e o remake, é que Doce Vin­gança pos­sui uma nar­ra­ti­va mais ágil. A ten­são cresce aos poucos, até cul­mi­nar na vin­gança, pro­pri­a­mente dita. Assim, prende a atenção de quem está assistin­do, fato que não acon­tece com o orig­i­nal (para que, não está acos­tu­ma­do com esse gênero de filme).

    Deixan­do a dis­cussão da éti­ca dos remakes de lado, Doce Vin­gança é um bom filme que deve agradar tan­to aos fãs xiitas do clás­si­co quan­to aos que ain­da não con­hecem o mes­mo. Um bom lon­ga de sus­pense atrai a atenção de quem está assistin­do pela cres­cente ten­são, e esse obje­ti­vo con­seguiu ser atingido.

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=Y2YRY35WMc4

  • Crítica: Um Bonde Chamado Desejo

    Crítica: Um Bonde Chamado Desejo

    O cin­e­ma e a lit­er­atu­ra sem­pre tiver­am uma estre­i­ta lig­ação, afi­nal o proces­so de cri­ação de um leitor per­ante uma obra literária é de con­strução da imag­i­nação. Com o surg­i­men­to do cin­e­ma, aumen­taram as pos­si­bil­i­dades de se ver atores/atrizes sendo dirigi­dos por grandes dire­tores e dan­do vida à grandes clás­si­cos da lit­er­atu­ra. E foi com essa pre­mis­sa que nas primeiras décadas do surg­i­men­to da séti­ma arte, a maio­r­ia da pro­dução era foca­da na adap­tação dos livros para a tela, ten­do seu auge na déca­da de 50, com grandes clás­si­cos Hollywoodianos .

    Ten­nessee Williams foi um dos dra­matur­gos mais adap­ta­dos pro cin­e­ma e tam­bém um dos mais pro­lí­fi­cos, muito a frente de sua época. Teve uma vida com­pli­ca­da por causa de seus prob­le­mas com o pai e com a esquizofre­nia de sua irmã. Sua depressão o lev­ou ao alcoolis­mo mas, ape­sar dis­so, ele sem­pre escreveu peças extrema­mente insti­gantes e desafi­ado­ras para os padrões de seu tem­po. Sua peça mais inter­es­sante talvez ten­ha sido Um bonde chama­do dese­jo (A street­car named desire) , que fez imen­so suces­so no teatro e foi adap­ta­da para o cin­e­ma, pelo dire­tor Elia Kazan , sob o títu­lo Uma rua chama­da peca­do (A Street­car Named Desire, EUA, 1951), con­tan­do com estre­las como a já famosa Vivien Leigh e o galã Mar­lon Bran­do.

    Blanche DuBois (Vivien Leigh) é uma mul­her inde­pen­dente e cheia de admi­radores, mas após perder sua pro­priedade e ter uma crise de “ner­vos”, ela vai morar com sua irmã mais nova, Stel­la (Kim Hunter) e seu cun­hado, Stan­ley (Mar­lon Bran­do). A del­i­cadeza de Blanche logo entra em con­fli­to com o com­por­ta­men­to agres­si­vo de Stan­ley, crian­do uma ten­são que nun­ca tin­ha sido expos­ta de tal for­ma no cinema.

    Claro que o roteiro de Uma rua chama­da peca­do foi bas­tante mod­i­fi­ca­do para o cin­e­ma, afi­nal a lit­er­atu­ra já era uma arte com mais liber­dade de ousa­dias do que o audio­vi­su­al e cer­tas questões do enre­do dev­e­ri­am ser adap­tadas para a sociedade da época. Algu­mas car­ac­terís­ti­cas que divergem do livro são bem visíveis, como a fal­sa inocên­cia de Blanche, que teve um caso com um aluno de 17 anos e teve uma enorme var­iedade de amantes. Ain­da, no orig­i­nal a questão da morte do mari­do de Blanche e o fato dele ser homos­sex­u­al ficam bem claros, mas como na déca­da de 50 ess­es assun­tos eram tabus, eles são bem implíc­i­tos. Pelo fato do lon­ga se focar de for­ma pri­morosa na ten­são entre Blanche e Stan­ley, estas lim­i­tações não afe­taram em prati­ca­mente nada o resul­ta­do final.

    Uma rua chama­da peca­do, mar­ca o retorno de Vivien Leigh aos cin­e­mas, após seu imen­so suces­so como Scar­lett O’Hara, em E o Ven­to Lev­ou, de Vic­tor Flem­ing. Já Mar­lon Bran­do, ain­da esta­va no começo de sua car­reira. A quími­ca entre os dois atores é tão forte que o filme foi con­sid­er­a­do eróti­co demais para a época, ape­sar de não haver con­ta­to algum entre Blanche e Stan­ley, mas a ten­são entre os dois é tão forte que se tor­na sexual.

    Fatos curiosos sem­pre cir­cu­lam em torno de filmes clás­si­cos, prin­ci­pal­mente nos anos 50 em que Hol­ly­wood vivia uma efer­vescên­cia cin­e­matográ­fi­ca. Vivien Leigh, por exem­p­lo, sofria de transtorno bipo­lar, e em diver­sos momen­tos ela não con­seguia dis­tin­guir a vida real da vida de sua per­son­agem. Segun­do as lendas, o dire­tor Elia Kazan se uti­li­zou desse fato para dar mais vida à Blanche de Uma rua chama­da peca­do. Mór­bido ou não, é mais uma das lendas que tor­nam o cin­e­ma hol­ly­wood­i­ano dessa época tão inter­es­sante. Não havia muitos recur­sos de imagem, de som e as maquia­gens eram muito sim­ples. A beleza das atrizes eram nat­u­rais e os “efeitos espe­ci­ais” eram mín­i­mos, dessa for­ma a atu­ação era o prin­ci­pal atra­ti­vo do filme. E nesse aspec­to, os per­son­agens de Bran­do e Leigh foram os mais per­feitos exem­p­los disso.

    Mes­mo que os filmes de aven­tu­ra estivessem fazen­do muito suces­so, assim como a ficção cien­tí­fi­ca, Uma Rua Chama­da Peca­do mudou com­ple­ta­mente o rumo desse seg­men­to. Diver­sos ele­men­tos con­sid­er­a­dos polêmi­cos na época estão nesse filme e mes­mo assim ele foi um enorme suces­so. Uma lição para os filmes atu­ais, que vivem repetindo a mes­ma fór­mu­la e não atingem o mes­mo pata­mar de atores e dire­tores, como Vivien Leigh, Mar­lon Bran­do, Elia Kazan e out­ros astros da época de ouro do cinema.

    Cena do Filme:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=2rYPjJIyKP8

  • Crítica: O Porco Espinho

    Crítica: O Porco Espinho

    Cer­tos filmes chamam atenção por seus pequenos detal­h­es e diál­o­gos, assim como pela del­i­cadeza com que alguns assun­tos são trata­dos. Esse é o caso de O Por­co Espin­ho (Le Héris­son, França, 2010), dirigi­do por Mona Achache. A dire­to­ra ain­da é pouco con­heci­da e bem nova, tem ape­nas 29 anos, mas já con­ta com 3 filmes em seu currículo.

    Palo­ma (Garance Le Guiller­mic) tem 11 anos e mora em um aparta­men­to de luxo com seus pais e sua irmã. Con­sid­er­a­da excên­tri­ca, ela se diverte fil­man­do os hábitos de sua família e seus viz­in­hos. Tam­bém estu­da japonês, gos­ta de gatos e desen­hos, mas mes­mo assim é ente­di­a­da. Decide, então, se matar no dia do seu aniver­sário de 12 anos. Ela resolve faz­er diver­sas fil­ma­gens enquan­to não chega o dia X. O que Palo­ma dese­ja com essas fil­ma­gens? Doc­u­men­tar seus últi­mos dias ou de cer­ta for­ma, se aprox­i­mar das pessoas?

    O Por­co Espin­ho, que teve roteiro basea­do no romance “L’Élégance du hériss­son” de Muriel Bar­bery, pos­sui per­son­agens dev­eras inter­es­santes. Além da própria Palo­ma, dois mere­cem destaque: Renée Michel (Josiane Bal­asko) e Kakuro Ozo (Togo Igawa). Renée é a zelado­ra do pré­dio, uma sen­ho­ra em seus 50 anos que leva uma vida solitária, dividin­do seu tem­po entre os afaz­eres do pré­dio, seu gato Leo e seu amor secre­to pelos livros. Kakuro é um sen­hor japonês que se muda para o pré­dio e logo se iden­ti­fi­ca com Renée. Ini­ci­am então uma estran­ha, porém sin­cera, amizade. Palo­ma obser­va tudo isso através da lente de sua câmera e lamen­ta ter con­heci­do o Sr. Kakuro jus­ta­mente na mes­ma época em que ela esta­va deci­di­da a se matar.

    Podemos clas­si­ficar O Por­co Espin­ho como uma comé­dia dramáti­ca, ao tom de A Lula e a Baleia, Eu, Você e Todos Nós e até mes­mo Os Excên­tri­cos Tenen­baums. Seu difer­en­cial é que o mes­mo se uti­liza de pequenos fatos cor­riqueiros para explo­rar sua tra­ma, seja no amor pelos gatos, pelos livros, a solidão, o tédio e a morte. Talvez o fato de o filme ser mostra­do na visão de uma meni­na de 11 anos o torne um tan­to quan­to engraça­do, pois cri­anças ten­dem a drama­ti­zar as situ­ações. É jus­ta­mente isso que o tor­na único.

    É um filme del­i­ca­do e seus as per­son­agens são muito verossim­il­hantes, qual­quer um que assista pode se iden­ti­ficar. Sem despen­car para o lado da auto-aju­da, O Por­co Espin­ho nos mostra que ain­da há chance para todos. Ape­sar de todo o tédio e solidão, há sem­pre a opor­tu­nidade de que algo acon­teça para mudar a roti­na da vida. 

    Out­ras críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=b9YUqkbLAko

  • Literatura: Geração Beat (Parte 2)

    Literatura: Geração Beat (Parte 2)

    Quem foi Neal Cas­sady? Esse nome é estran­ho para muitas pes­soas, inclu­sive para estu­diosos de lit­er­atu­ra. Talvez ele seja mais con­heci­do pelo pseudôn­i­mo que gan­hou no livro On the Road: Dean Mori­ar­ty. Ele foi o com­pan­heiro de aven­turas de Sal Par­adise, ao lon­go da Rota 66. Par­adise era ninguém menos que o próprio Ker­ouac. Jun­tos, eles cruzaram os EUA, chegaram ao Méx­i­co, exper­i­men­ta­ram diver­sos sen­ti­men­tos de amor e ódio e con­hece­r­am pes­soas difer­entes. Algu­mas pas­sagens do livro apon­tam uma cer­ta ten­são sex­u­al entre os dois, levan­do o leitor a crer que tiver­am algum tipo de envolvi­men­to dessa natureza. Depois, cada um seguiu seu rumo: Ker­ouac ter­mi­nou seus dias na casa de sua mãe, sofren­do de cir­rose; Cas­sady mor­reu de causas descon­heci­das, mas espec­u­la-se que ele teve prob­le­mas nos rins.

    Cas­sady escreveu ape­nas um livro chama­do O Primeiro Terço, pub­li­ca­do pela edi­to­ra LP&M aqui no Brasil, que deixou inacaba­do. Nele, con­ta a tra­jetória de seus famil­iares, des­de seus avós, até chegar a cer­tos acon­tec­i­men­tos de sua infân­cia. Ele tin­ha muitos irmãos e seus pais se sep­a­raram quan­do ele ain­da era muito novo. Ape­sar de seu pai ser alcoóla­tra, Cas­sady demon­stra muito car­in­ho por ele ao lon­go de sua escrita.

    Ele não escreveu como Gins­berg e tão pouco como Bur­roughs, sua escri­ta em quase nada se assemel­ha com o esti­lo próprio dos beats. Ele não criou um clás­si­co da lit­er­atu­ra, mas foi muito sin­cero ao escr­ev­er suas recor­dações. Sua prosa se difer­en­cia da de Ker­ouac, não é tão cor­ri­da, beiran­do o romance históri­co. Ao fim do livro encon­tramos algu­mas car­tas que ele tro­cou com Ker­ouac e, ali sim, sen­ti­mos a inten­si­dade beat. Ele expres­sa seus sen­ti­men­tos, seus delírios e sua ânsia de cor­rer o mundo.

    Ele pode não ter tido tan­to destaque como escritor, mas sua figu­ra ficou mar­ca­da para sem­pre. Um exem­p­lo dis­so é que em cer­to episó­dio do seri­ado Lost, Ben (inter­pre­ta­do por Michael Emer­son) se hospe­da num hotel sob o nome de Dean Mori­ar­ty. Na lit­er­atu­ra de Arthur Conan Doyle, há o Pro­fes­sor Mori­ar­ty, inimi­go de Sher­lock Holmes. Teria Ker­ouac se inspi­ra­do nesse per­son­agem para cri­ar seu Dean?

    Se fos­se necessário descr­ev­er a lit­er­atu­ra de Cas­sady em ape­nas uma palavra seria: hon­es­ta. Deve ter havi­do cer­ta pressão para ele escr­ev­er, vis­to que todos os seus com­pan­heiros pro­duzi­am obras a todo instante, mas para o leitor é algo nat­ur­al. Vemos o pas­sa­do daque­le que se tornou um ícone de liber­dade, mudanças e inqui­etação. Infe­liz­mente, poucos são os relatos que ele deixou.

  • Crítica: The Runaways

    Crítica: The Runaways

    Ano pas­sa­do sur­gi­ram alguns rumores a respeito o filme sobre The Run­aways (The Run­aways, EUA, 2010) uma ban­da que era for­ma­da ape­nas por mul­heres que foi um enorme suces­so nos anos 70. A ban­da teve uma ráp­i­da pas­sagem pela indús­tria da músi­ca, mas deixou sua mar­ca. Fiz­er­am shows no Japão com pouco tem­po de existên­cia, além de terem apare­ci­do em diver­sas capas de revis­tas. Cada uma das inte­grantes con­tin­u­ou a car­reira em meio a músi­ca, mas talvez a mais bem suce­di­da ten­ha sido Joan Jett, que até hoje faz mil­hares de shows e lança óti­mos discos.

    Alguns meses depois foram divul­gadas fotos do set e a notí­cia se espal­hou: The Run­aways real­mente esta­va sendo roda­do. A direção ficou a car­go de Flo­ria Sigis­mon­di. Nasci­da na Itália e rad­i­ca­da no Canadá, a artista é bas­tante con­heci­da por ter dirigi­do video­clipes de Mar­i­lyn Man­son, Incubus, Christi­na Aguil­era, David Bowie, The White Stripes e out­ros. Assim como seus clipes, seu tra­bal­ho fotográ­fi­co mostra um lado mór­bido da arte, com idéias pouco con­ven­cionais. Quem esta­va famil­iar­iza­do com sua obra, esper­a­va algo do tipo para o filme. Mas isso não acon­te­ceu. Teria pas­sa­do o tra­bal­ho de Flo­ria por uma censura?

    The Run­aways se ini­cia mostran­do um pouco de Joan e Cherie antes das Run­aways, como eram suas vidas, como se encon­traram e o primeiro ensaio delas. O começo empol­ga, mas depois de algum tem­po cai na “mesmisse”. O foco está todo em Joan e Cherie, deixan­do Sandy e Lita de lado. Out­ro pon­to neg­a­ti­vo é que a baix­ista Jack­ie não aparece, em seu lugar está Robin, uma per­son­agem fic­tí­cia. Para quem con­hece a história da ban­da, é decepcionante.

    As pro­tag­o­nistas são Dako­ta Fan­ning como Cherie Cur­rie e Kirsten Stew­art como Joan Jett. Muito se falou da atu­ação de Kirsten, que ela pode­ria estra­gar o filme, mas não foi isso que acon­te­ceu. Há quem torça o nar­iz para ela por causa de sua atu­ação na saga “Crepús­cu­lo” mas Kirsten real­mente atu­ou bem em The Run­aways. O mes­mo não acon­te­ceu com Dako­ta Fan­ning. Filmes como Uma lição de amor e O ami­go ocul­to fiz­er­am de Dako­ta a nova promes­sa para o cin­e­ma con­tem­porâ­neo e todos esper­avam uma atu­ação bril­hante na pele de Cherie Cur­rie, mas ela não con­venceu. Sua per­son­agem pare­ceu força­da, sem bril­ho e ofus­ca­da por Kirsten.

    A tril­ha sono­ra do The Run­aways é o pon­to alto do filme com: Bowie, The Stooges e as próprias Run­aways. Em deter­mi­na­da cena, temos Dako­ta Fan­ning inter­pre­tan­do “Cher­ry Bomb”, o maior suces­so da ban­da. A fotografia tam­bém é muito inter­es­sante, com jogos de luzes acom­pan­hados de óti­mas músi­cas deix­am o filme muito belo e impac­tante. Antes dos crédi­tos apare­cem pequenos tex­tos con­tan­do o que Joan, Cherie e o pro­du­tor da ban­da, Fow­ley fazem nos dias de hoje, mas não citaram o falec­i­men­to de Sandy West, o que pode ser desre­speitoso aos olhos de alguns fãs.

    The Run­aways deve agradar a muitos, mas decep­cionará os fãs da ban­da. Ele não é um filme ruim, ape­nas super­fi­cial e irreg­u­lar demais. Ape­sar de algu­mas cenas serem óti­mas e diver­tidas, são desnecessárias. Em tem­pos de filmes como I Walk the Line, sobre John­ny Cash e Con­trol, sobre o Ian Cur­tis do Joy Divi­sion, esper­a­va-se um pouco mais dessa video­bi­ografia. Vamos ver o que Flo­ria Sigis­mon­di nos trará em suas novas exper­iên­cias com o cinema.

    httpv://www.youtube.com/watch?v=8Eq4JIghtVw

  • Livro: Estive em Lisboa e Lembrei de Você — Luiz Ruffato

    Livro: Estive em Lisboa e Lembrei de Você — Luiz Ruffato

    Estive em Lisboa e Lembrei de Você

    Em mea­d­os de 2005 foi cri­a­do o pro­je­to Amores Expres­sos. Nele, dezes­seis escritores brasileiros via­jari­am para diver­sas cidades ao redor do mun­do e cada um iria escr­ev­er um romance basea­do em sua viagem. O pro­je­to cau­sou as mais diver­sas reações, pois se ques­tion­a­va de onde iria sair o din­heiro para custear as via­gens, e se era necessário que saíssem do país para bus­car inspi­ração. Entre ess­es escritores esta­va Luiz Ruffa­to, e o resul­ta­do da viagem dele foi o livro Estive em Lis­boa e Lem­brei de Você.

    Polêmi­cas à parte, Ruffa­to é bas­tante con­heci­do no meio literário con­tem­porâ­neo. Nasci­do em Minas Gerais, na cidade de Cataguas­es, já gan­hou diver­sos prêmios impor­tantes, como o da APCA (Asso­ci­ação Paulista de Críti­cos de Arte) e o Macha­do de Assis, da Fun­dação Bib­liote­ca Nacional. Algu­mas de suas obras mais impor­tantes são Eles eram muitos cav­a­l­os e a série Infer­no Pro­visório.

    Em Estive em Lis­boa e Lem­brei de Você, Ruffa­to foi a Lis­boa e nos trouxe a história de um rapaz chama­do Sergin­ho. Des­gos­toso com a vida que lev­a­va no Brasil, após prob­le­mas amorosos e finan­ceiros, ele con­ver­sa com seu Oliveira (por­tuguês res­i­dente de sua cidade) e resolve ir para Lis­boa “ten­tar a vida”. Após o choque ini­cial, Sergin­ho se adap­ta à vida por­tugue­sa e começa a tra­bal­har como garçom. Faz amizades, aprende um novo vocab­ulário e se aven­tu­ra pela cidade. Logo no iní­cio do livro encon­tramos uma nota do autor dizen­do que este foi basea­do numa entre­vista que ele fez com Sér­gio de Souza Sam­paio, o Serginho.

    Luiz Ruffa­to tem uma imen­sa facil­i­dade para retratar cidades. Em Eles eram muitos cav­a­l­os ele fala de São Paulo com taman­ha intim­i­dade que se pode imag­i­nar que ele seja paulis­tano. O mes­mo acon­tece com Estive em Lis­boa e Lem­brei de Você. O autor con­segue descr­ev­er as diver­sas par­tic­u­lar­i­dades da cidade, com um tom literário que poucos con­seguem cri­ar. Sua prosa é bas­tante fluí­da, com poucos pará­grafos e sua escri­ta con­tínua faz com que o leitor entre em con­ta­to dire­to com seus personagens.

    Ruffa­to não criou nen­hu­ma for­ma nova na Lit­er­atu­ra, mas trouxe uma sim­pli­ci­dade envol­vente que há muito não víamos na Lit­er­atu­ra. E inclu­sive, o autor esteve entre os final­is­tas do Prêmio São Paulo de Lit­er­atu­ra 2010, junta­mente com nomes da lit­er­atu­ra con­tem­porânea como Chico Buar­que e Bernar­do Car­val­ho.

    Infe­liz­mente, pou­ca atenção é dada à lit­er­atu­ra con­tem­porânea, prin­ci­pal­mente nas salas de aula. Muito tem acon­te­ci­do em nos­so meio literário, muitos escritores surgem com obras inter­es­santes e com pen­sa­men­tos que mere­cem ser con­heci­dos. Ruffa­to tem um papel impor­tante nesse meio, pois suas obras são um óti­mo exem­p­lo da lit­er­atu­ra con­tem­porânea brasileira, reflexo da soci­dade que vive­mos e dos cos­tumes dessa ger­ação. Ape­sar de ter óti­mos tra­bal­hos pub­li­ca­dos ele ain­da não é recon­heci­do pelo grande públi­co. Esper­amos que essa situ­ação mude muito em breve.

  • Literatura: Geração Beat (Parte 1)

    Literatura: Geração Beat (Parte 1)

    Na déca­da de 80, os autores Bueno e Goés lançaram o livro O que é Ger­ação Beat pela edi­to­ra Brasiliense. Eles definem o esti­lo beat como “tex­tos em ação, prosa espon­tânea, fras­es do cor­po em movi­men­to, poe­sia brotan­do como visões do céu e do infer­no, lig­ação dire­ta da arte e da vida, da palavra e do cor­po”. Assim é a lit­er­atu­ra beat, palavras inten­sas que batem de frente com o con­formis­mo. Os beats cri­aram não só um novo mun­do literário, como mostraram aos leitores uma nova for­ma de vida, liber­dade e von­tade de mudança.

    Quan­do falam­os de Ger­ação Beat, três nomes são destaque: Jack Ker­ouac, William S. Bur­roughs e Allen Gins­berg. Ess­es foram os autores mais impor­tantes, con­sid­er­a­dos líderes da Ger­ação. Out­ros nomes impor­tantes são: Gre­go­ry Cor­so, Carl Solomon, Lawrence Fer­linghet­ti e outros.

    William S. Bur­roughs, ao con­trário de Ker­ouac, não uti­liza­va a prosa espon­tânea. Ele ficou con­heci­do como A Far­má­cia Ambu­lante da Ger­ação Beat, dev­i­do à grande quan­ti­dade de dro­gas que já havia con­sum­i­do até seus 30 anos de idade. Seu primeiro livro foi Junky, mas seu romance mais famoso é Almoço Nu. O próprio Bur­roughs disse em uma entre­vista à revista espan­ho­la Quimera que Almoço Nu foi escrito por insistên­cia de Ker­ouac: “Foi ele quem me ani­mou a escr­ev­er quan­do não me inter­es­sa­va real­mente fazê-lo. Mas quan­to à influên­cia, em nada me sin­to per­to dele”.

    Um fato curioso sobre a vida de Bur­roughs é que durante uma bebe­deira ele pediu que sua esposa colo­casse um copo em cima da cabeça para que ele pudesse ati­rar no mes­mo. O prob­le­ma é que ele errou o tiro, assassinando‑a. Ele tam­bém esteve no Ama­zonas na déca­da de 50 em bus­ca da yagé, que segun­do ele era a “dro­ga defin­i­ti­va”. Almoço Nu gan­hou uma adap­tação para o cin­e­ma e foi lança­do no Brasil sob o títu­lo Mis­térios e Paixões, com direção de David Cro­nen­berg.

    Quan­do trata­mos de poe­sia beat, temos óti­mos nomes, mas o mais con­heci­do é sem dúvi­da algu­ma, Allen Gins­berg. Seu poe­ma mais famoso chama-se Uivo. Esta obra pode ser con­sid­er­a­do “o cor­re­spon­dente poéti­co da prosa espon­tânea de Ker­ouac”. Sua poe­sia foi mar­ca­da por polêmi­cas, escri­ta em ape­nas uma tarde, ela nos mostra ima­gens sem sen­ti­do, nos reme­tendo tam­bém a Almoço Nu de Bur­roughs. Uma boa definição de Bueno e Góes para essa obra: “Marx trans­fig­u­ra­do na poe­sia deli­rante de Blake, rev­olução e visão, rev­e­lação e transformação”.

    Vários foram os escritores que influ­en­cia­ram os beats, como Ernest Hem­ing­way, Hen­ry Miller, Mark Twain, Jack Lon­don, Thomas Wolfe, Walt Whit­man, J. D. Salinger, entre out­ros. A Ger­ação Beat tam­bém deixou sua mar­ca, influ­en­cian­do Chuck Palah­niuk e Irvine Welsh, seja pela nar­ra­ti­va ráp­i­da ou pela escri­ta ino­vado­ra, que ver­sam sobre o non­sense e a liber­dade de expressão, sob todas as for­mas. No Brasil, alguns autores foram influ­en­ci­a­dos por eles, assim como Caio Fer­nan­do Abreu, Joca Rein­ers Ter­ron, Jorge Maut­ner e José Agrip­pino de Paula.

    Muito se fala da relação de Charles Bukows­ki com os beats. Ape­sar de escr­ev­er na mes­ma época e ter con­ta­to com alguns deles, ele não se con­sid­er­a­va um. Ele é con­sid­er­a­do o últi­mo escritor maldito da Lit­er­atu­ra Norte-Amer­i­cano, uma espé­cie de beat hon­orário. Bukows­ki tam­bém não tin­ha boas impressões de Bur­roughs, como nar­ra a citação: “Ape­sar de tudo, ver­dade ou não, Bur­roughs é um escritor muito cha­to e, sem a insistên­cia do pop instruí­do na sua bagagem literária, ele seria quase nada, (…)”.

    On the road foi escrito à maneira de Ker­ouac, sem vír­gu­las, sem trav­es­sões, tudo de acor­do com a veloci­dade de seus pen­sa­men­tos. Assim é o man­u­scrito orig­i­nal. Para Ker­ouac, as vír­gu­las eram inúteis e os pará­grafos pausavam a leitu­ra de for­ma errônea. Ker­ouac cos­tu­ma­va escr­ev­er suas obras em pou­cas noites. Para alguns escritores isso era um fato bas­tante ino­vador, enquan­to que para out­ros, tal como Tru­man Capote, a escri­ta era um “mero ajun­ta­men­to de palavras sem nen­hum val­or literário”. Jack Ker­ouac foi sem dúvi­da algu­ma o prin­ci­pal escritor da Ger­ação, o seu acla­ma­do On the road foi para Ger­ação Beat o que O sol tam­bém se lev­an­ta de Hem­ing­way foi para a chama­da Ger­ação Per­di­da. O livro é con­heci­do como “a bíblia da ger­ação beat”. Tudo que os beats vivi­am e eram está per­son­ifi­ca­do na obra. Allen Gins­berg aparece no livro como Car­lo Marx, Bur­roughs como Bull Lee e Neal Cas­sady, como Dean Moriarty.

    O enre­do con­siste basi­ca­mente numa ver­são literária da vida de Ker­ouac e dos beats. Ker­ouac aparece como Sal Par­adise, escritor que vive em bus­ca de novos sen­ti­dos para a sua vida. Cas­sady é Dean Mori­ar­ty, e jun­tos eles atrav­es­sam os EUA através da famosa Rota 66, que liga o leste e o oeste do país. Jun­tos, tam­bém chegam ao Méx­i­co. O livro nos traz sen­ti­men­tos, emoções, aven­turas, dro­gas, sexo, mul­heres e jazz. Todo o incon­formis­mo de Ker­ouac com o “son­ho amer­i­cano”. O país havia saí­do da Segun­da Guer­ra, a con­tra­cul­tura toma­va con­ta das ruas e da arte, e Ker­ouac não que­ria saber de nada daqui­lo, que­ria seu mun­do, sua liberdade.

    Os efeitos que On the Road cau­sou são muitos ao lon­go dos anos. Espec­u­la-se que Bob Dylan fugiu de casa depois de lê-lo, assim como Chrissie Hyn­den, dos Pre­tenders. O livro impul­sio­nou Beck a se tornar can­tor e Jim Mor­ri­son a fun­dar sua ban­da, The Doors. Mar­lon Brando mostrou inter­esse em inter­pre­tar Dean Mori­ar­ty no cin­e­ma, mas desis­tiu logo depois dizen­do que o per­son­agem era repet­i­ti­vo. Fran­cis Ford Cop­po­la deteve os dire­itos do filme até 2006, quan­do foi divul­ga­da uma nota dizen­do que Wal­ter Salles iria diri­gir a ver­são para o cin­e­ma. Gus van Sant e John­ny Depp tam­bém já demon­straram inter­esse na ver­são cin­e­matográ­fi­ca do livro.

  • Livro: Fugalaça — Mayra Dias Gomes

    Livro: Fugalaça — Mayra Dias Gomes

    Há qua­tro anos Mayra Dias Gomes lançou seu primeiro livro Fugalaça. Ela chamou mui­ta atenção da mídia, pois tin­ha ape­nas 17 anos na época. Sua idade ali­a­da ao fato de ser fil­ha do dra­matur­go Dias Gomes fiz­er­am com que seu ros­to estam­passe diver­sos jor­nais e sites de notícias.

    Seria injus­to diz­er que Mayra escreve mal. Ela con­segue pren­der a atenção do leitor logo nas primeiras pági­nas e cria algu­mas metá­foras inter­es­santes, mas infe­liz­mente é só isso. Deu-se muito crédi­to a sua obra pelo fato de ela ser tão nova, mas isso acabou se tor­nan­do um prob­le­ma. Não há iden­ti­dade e maturi­dade na obra, o tom con­fes­sion­al do livro se assemel­ha a um diário, não a uma obra literária.

    Em diver­sas entre­vis­tas Mayra disse que Fugalaça era parte auto­bi­ográ­fi­co e parte fic­cional. Seu alterego, Satine, nos con­ta sua relação com sexo, dro­gas, músi­ca e rela­ciona­men­tos. Satine é a típi­ca “pobre meni­na rica”, aque­la que pos­sui din­heiro e diver­sas opor­tu­nidades boas, mas pref­ere rene­gar tudo e se afun­dar cada vez mais em suas ati­tudes autodestrutivas.

    Assim como Mayra, Satine perdeu seu pai aos 11 anos de idade num aci­dente de car­ro. Ela diz: “Min­ha alma gêmea esta­va mor­ta antes de chegar min­ha ado­lescên­cia, quan­do eu mais pre­cis­aria de sua pre­sença e des­fru­taria seu con­hec­i­men­to. Quan­do eu nun­ca teria me envolvi­do em rela­ciona­men­tos autode­stru­tivos, larga­do os estu­dos e me tor­na­do uma víti­ma da noite”. É injus­to usar a morte de seu pai como des­cul­pa para seus erros. Assim, Satine é uma jovem rica e ente­di­a­da, e ten­ta ensi­nar ao leitor o que é um straight edge e o que pre­ga o espiritismo. A escrito­ra se con­funde entre ensi­na­men­tos e aca­ba insul­tan­do a inteligên­cia do leitor.

    Impos­sív­el não lem­brar da escri­ta de Loli­ta Pille, auto­ra de Hell e Bub­ble Gum, ao ler Fugalaça. Mayra descreve a elite do Rio de Janeiro, que usa o din­heiro de sua família para com­prar dro­gas e faz­er via­gens. Pille fez a mes­ma coisa, mas com a juven­tude de Paris. Mayra con­ta a relação de Satine com as dro­gas num tom à la Chris­tiane F. São muitas refer­ên­cias e pou­ca identidade.

    Em algu­mas entre­vis­tas Mayra fala de seu pai como um rebelde e figu­ra polêmi­ca, e que ele se sen­tiria orgul­hoso da escri­ta dela. Mas quais a semel­hanças de sua escri­ta com a do pai? Dias Gomes escreveu nov­e­las de imen­so suces­so, inclu­sive Roque San­teiro que foi cen­sura­da. O que é ser polêmi­co nos dias de hoje? A escri­ta de Mayra não rev­ela nen­hum tabu, tra­ta de assun­tos já dis­cu­ti­dos exaus­ti­va­mente na lit­er­atu­ra. Ela fala de sexo, dro­gas e amores efêmeros e vale lem­brar que Bukows­ki já fez isso de for­ma magistral.

    Recen­te­mente Mayra voltou a ser destaque na mídia, pois posou nua para a revista Sexy. Ela mes­ma disse que o ensaio foi basea­do no lema On the road e que o mes­mo era de muito bom gos­to. Ironi­ca­mente, em seu livro Fugalaça ela nos diz: “Era um pal­co baixo e pequeno e em cima dele havia stand-ups de muito mau gos­to de popozu­das da revista Sexy”. Quem diria que um dia seria ela uma popozu­da da Sexy?

  • Crítica: Gilda

    Crítica: Gilda

    Gilda

    Após a Grande Depressão nos E.U.A. muitos filmes poli­ci­ais, reple­tos de intri­gas e sus­pense, foram feitos. Inspi­ra­dos nos filmes de ter­ror dos anos 30 e no Expres­sion­is­mo Alemão, eles se tornaram um imen­so suces­so de críti­ca e públi­co. Ess­es foram os chama­dos filmes Noir. E Gil­da (Gil­da, EUA , 1946), de Charles Vidor foi um dos filmes de maior destaque nes­sa época.

    Estre­lando Rita Hay­worth, como a sedu­to­ra pro­tag­o­nista, temos uma das primeira pelícu­las a explo­rar a sen­su­al­i­dade fem­i­ni­na sem cair na vul­gar­i­dade. John­ny Far­rell (Glenn Ford) é um vigarista e em um jogo de car­tas se envolve em prob­le­mas. Sua vida é sal­va por Ballin Mund­son (George Macready), dono de um famoso clube noturno na cidade de Buenos Aires. A amizade deles é abal­a­da quan­do Mund­son retor­na de uma viagem com a nova esposa Gil­da, que havia sido namora­da de Far­rell no passado.

    A Segun­da Guer­ra Mundi­al teve seu fim em 1945, esse fato influ­en­ciou dire­ta­mente no filme. Final­mente, o mun­do res­pi­ra­va um pouco de paz após tan­tos anos de caos, os bon vivants começaram a dar as caras e os cassi­nos se tornaram um refú­gio. A mul­her começa a con­quis­tar alguns de seus dire­itos e sua voz ecoa no cin­e­ma. Ela deixa de ser vista como um ser pas­si­vo e se tor­na cen­tro de atenções e discussões.

    O dire­tor Charles Vidor con­seguiu mesclar com maes­tria todo o cli­ma de sus­pense com a sen­su­al­i­dade de Gil­da. Rita Hay­worth se tornou mundial­mente famosa por causa de sua per­son­agem, que foi con­sid­er­a­da uma das primeiras femme fatales do cin­e­ma. Uma cena mem­o­ráv­el é a que ela can­ta Put the blame on Mame no cassi­no, ao reti­rar as luvas enquan­to dança. A canção foi cri­a­da jus­ta­mente para o filme e até hoje é lis­ta­da como um dos momen­tos mais sen­suais do cinema.

    Gil­da é um clás­si­co porque con­seguiu reunir todas as car­ac­terís­ti­cas do bom cin­e­ma: sen­su­al­i­dade sem vul­gar­i­dade, intri­gas e um bom sus­pense. Com­para­do com o cin­e­ma atu­al, ele pode ser con­sid­er­a­do um filme inocente. O sim­ples ato de tirar as luvas era con­sid­er­a­do obsceno, o que diz­er das ten­ta­ti­vas cin­e­matográ­fi­cas de hoje, que mostram atrizes nuas sem moti­vo aparente, que explo­ram a sen­su­al­i­dade da mul­her de for­ma vul­gar? São questões como essas que tor­nam Gil­da um filme eter­no, um ver­dadeiro clás­si­co do cinema.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=Tzg_1XwzG08

  • Crítica: A Centopéia Humana

    Crítica: A Centopéia Humana

    a centopeia humana

    Por que será que o ser humano se inter­es­sa tan­to pelo grotesco? Parece que somos atraí­dos por aqui­lo que nos causa repul­sa. Foi de carona nes­sa questão que surgiu A Cen­topéia Humana (The Human Cen­tipede, Holanda/Reino Unido, 2009), de Tom Six. Longe de ser uma super­pro­dução, teve um cus­to bem baixo e foi fil­ma­do todo com câmera dig­i­tal, ele pos­sui um roteiro que ten­ta nos mostrar algo extrema­mente cru­el e de mau gos­to, mas não convence.

    Duas garo­tas norte-amer­i­canas estão pas­san­do férias na Europa quan­do o car­ro delas que­bra em um bosque da Ale­man­ha. Todos os clichês estão ali: usam pou­ca roupa, chove, está escuro e só há uma casa nas redondezas. Elas vão procu­rar auxílio e se deparam com um homem chama­do Dr. Heit­er, con­heci­do por ser o mel­hor cirurgião de gêmeos siame­ses. Aí começam os prob­le­mas das garo­tas. Elas são dopadas e trans­feri­das para o porão da casa onde existe uma espé­cie de con­sultório médi­co. Um japonês tam­bém é cap­tura­do um pouco depois delas e o Dr. Heit­er expli­ca seu propósi­to: ele quer tor­na-los trigêmeos siame­ses, lig­a­dos pelo sis­tema gástri­co. Assim como o títu­lo sug­ere, ele dese­ja cri­ar A Cen­topéia Humana.

    Não é de hoje que o cin­e­ma mostra essa relação do ser humano com sua natureza mór­bi­da. Não vam­piros ou mon­stros, ape­nas o ser humano e seus medos mais pro­fun­dos. Em 1920, O Gabi­nete do Dr. Cali­gari, de Robert Wiene, nos mostrou Cesare, um sonâm­bu­lo que era con­tro­la­do pelo Dr. Cali­gari e força­do a come­ter os mais diver­sos crimes. A mente doen­tia do ser humano foi clara­mente mostra­da neste filme.

    Já se vão 90 anos des­de este clás­si­co do ter­ror e diver­sos filmes com essa temáti­ca foram real­iza­dos. Thriller, de Bo Arne Vibe­nius, um filme sue­co sobre vin­gança foi um dos que mais se desta­cou nos anos 70, jun­ta­mente com Saló ou Os 120 dias de Sodoma, de Pier Pao­lo Pasoli­ni. Neles encon­tramos a clás­si­ca vio­lên­cia gra­tui­ta. O intu­ito era chocar, mes­mo com uma pon­ta de sen­ti­do moral. Out­ros como Pink Flamin­gos, de John Waters, usaram a comé­dia para mostrar o lado grotesco. Filmes mais recentes mostraram que essa temáti­ca ain­da é bas­tante atraente para o públi­co, e já foi mais do que prova­do que o mór­bido atrai o ser humano. Diari­a­mente nota­mos que a dor alheia chama a atenção, por que não mostrar isso num filme? Dread, de Antho­ny DiBlasi, e Mar­tyrs, de Pas­cal Laugi­er, tratam basi­ca­mente do mes­mo assun­to: uma pes­soa sofren­do pelo bem de out­ras ou para si mes­ma. A dor é colo­ca­da como um apren­diza­do nada saudável.

    A idéia em si de A Cen­topéia Humana é fan­tás­ti­ca, mas foi pouco desen­volvi­da. O médi­co é um louco que quer realizar seu plano. Pon­to. As cenas são todas como esper­a­do: bati­das na por­ta que ces­sam de repente, o vilão que aparece nos lugares mais ines­per­a­dos, a polí­cia que não con­segue aju­dar em nada e os gri­tos deses­per­adores das víti­mas. Em meio a tan­tos filmes desse tema, este peca por exces­sos de clichês e se tor­na ape­nas mais um filme de ter­ror que ten­ta assus­tar, mas não con­segue. E a segun­da parte do filme está pre­vista para breve.

    Out­ra críti­cas interessantes:

    Trail­er:

    httpv://www.youtube.com/watch?v=1G18A-ld41c